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Marcel Duchamp e o Modernismo

11 de março de 2012 0

Já está on line o meu artigo do mês na revista Voto. Reproduzo-o abaixo.


L.H.O.O.Q. Estas cinco letras, lidas em francês, colocaram a arte ocidental de pernas para o ar – literalmente: soam como “Elle a chaud au cul”, ou, em português, algo como, “ela tem fogo no rabo”. Marcel Duchamp – iconoclasta supremo, “le grand  saboteur” – as dispôs embaixo de um quadro seu, de 1919, que consistia numa reprodução da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, com um bigodinho militar e um cavanhaque!

Era uma brincadeira! Com certa inspiração nos cartunistas de jornais. Era como se Duchamp trouxesse para as artes visuais a carnavalização que Rabelais aplicara à literatura em pleno Renascimento e que chegara ao século XX pelas charges, com forte apego ao cotidiano e à cultura popular. Era preciso rir de si mesmo, não se sentir tão importante assim. O patrimônio cultural celebrado, mas não cultuado. Como se dissesse: discutam-se as tradições inventadas, pois o novo pode, ou não, ser mais interessante.

E foi além: se, a partir daí, qualquer coisa poderia ser considerada arte se acompanhada de uma assinatura, então a arte já não mais desfrutava de um altar sagrado. Ela podia estar num objeto do cotidiano, numa instalação efêmera, numa atitude. Abria-se a porta para a liberdade total da criação, para a permanente reinvenção das fronteiras mais longínquas e borradas do pensamento, para a exploração não apenas de uma nova estética, mas de uma nova linguagem, em permanente construção, associada a uma nova racionalidade, desconhecida, muito além da convencional razão iluminista.

Foi um escândalo, encarado por muitos como vandalismo. Em 1912, o Salão dos Independentes na França recusou a inscrição de seu genial quadro cubista Nu Descendo a Escada. Em 1913, a sua Roda de Bicicleta, montada em cima de um banquinho branco, já tinha suscitado consternação mesmo entre a vanguarda modernista norte-americana. Em 1917, a sua célebre Fonte, um mictório de louça invertido, foi recusado pelo conselho de uma exposição de arte de vanguarda em Nova Iorque, considerado obsceno e não artístico.

O novo paradoxo cinzelado por Duchamp era imenso: do simples esforço para destruir a arte, brotava mais arte! Qual o limite disso? Impossível dizer. Qual a chance de sucesso? Domínio insondável. Estava posta a pedra fundamental da arte contemporânea. Nada além da liberdade total de uma idéia disposta no espaço multidimensional, multi-sensorial. Mas, também, como mostra Affonso Romano de Sant’Anna, uma terrível armadilha tecida por uma lógica cínica, desdobrada da argúcia de jogador, e nem sempre compreendida.

Embora Duchamp seja às vezes associado ao grupo dadaísta – cujo caos organizado, tributo à liberdade, à fantasia e à irracionalidade, terminou configurando-se em crítica consistente ao caos letal da carnificina em massa trazida pela Guerra de 1914 -, seriam necessários ainda alguns anos para que seus conceitos impregnassem uma geração inteira de artistas. Quando a arte pop surgiu, no raiar dos anos 1960, muitos críticos divertiram-se com suas paródias e sátiras e sua linguagem quase jornalística, mas concordavam que ela carecia de consistência para permanecer. Não passaria de uma moda engraçada!

Não foi assim! Dez anos depois, todos concordavam que o pop alcançara um tremendo sucesso, conformando-se, mesmo, num fenômeno de massas. Era a arte falando com extraordinária amplitude a linguagem de seu tempo. O modernismo, como sublinha Peter Gay, no auge de seu alcance. E, talvez, seu irremediável eclipse.

O pop investiu sistematicamente contra as convenções. Apagou maciçamente a fronteira entre obra de arte e criações de outra natureza, a divisa entre original e cópia, aproximou alta cultura e cultura popular, chegando a emular o kitsh e o vulgar. Inseriu a arte no cotidiano e na lógica do mercado consumidor de massas, implodindo os significados ocultos e herméticos do abstracionismo e do expressionismo, engendrando uma arte auto-explicável.

Andy Warhol, o mais célebre dos artistas pop, muito embora não talvez o mais consistente, fez de sua própria trajetória de vida uma obra de arte. Trabalhava constantemente a sua imagem, erigindo poderosos alicerces da fama. Mostrava, com isto, mais uma vez, que o admirável mundo novo que chegava era todo ele linguagem. E escancarava sua indiferença total para com a obra de arte: “Tudo é arte e nada é arte (…) tudo é belo, se for certo”, disse.

Como registra Peter Gay, foi um ataque “à missão reformadora do modernismo”, o seu “toque de finados”. O crítico de arte e articulista da revista The Nation, Arthur Danto, foi além: identificou nas caixas de Brillo de Warhol, de 1964, o fim da própria arte.

Ponto máximo de expansão e réquiem para o modernismo, base de lançamento para a arte contemporânea, o experimentalismo contracultural e a pop art dos anos 1960, parafraseando e expandindo a semente dadaísta, projetaram o gênero performático. Em 2005, o crítico do New York Times, Barry Gewen, inventariava a fórmula, desenhando o paradoxo do vale-tudo: em 1975, Chris Burden crucificara-se na capota de um fusca. Günther Brus, urinou e defecou num palco, bebeu a própria urina, envolveu-se com o próprio excremento e masturbou-se cantando o hino austríaco: foi preso. Em 1989, Bob Flanagan pregou seu pênis numa tábua de madeira. Todos estavam fazendo arte…

Em 2001, o incensado artista britânico Damien Hirst, montou em uma galeria de Londres uma instalação composta de detritos de um atelier: xícaras sujas e partidas, garrafas vazias, baganas de cigarro, papéis de bala, pincéis gastos, uma paleta manchada de tinta, folhas de jornais velhos… No dia seguinte à abertura da exposição, encontrando “aquela bagunça”, o faxineiro da galeria varreu tudo, pôs em sacos de lixo e jogou fora! Hirst achou o destino de sua instalação “histericamente engraçado”!

Por mais que a arte tenha diluído as fronteiras entre cotidiano e erudição, entre alta cultura e cultura popular, quanto mais caminhou no sentido da morte da própria arte, mais afirmou a permanência de uma hierarquia de gostos. Para o faxineiro, converter lixo em obra de arte não passava de uma perplexidade. Hirst estava certo ao divertir-se, pois com o gesto de destinar a instalação ao lixo, o faxineiro – representando aqui uma massa que não acompanhara a trajetória de destruições do modernismo, no sentido da construção de uma nova e insondável linguagem, como propusera Pablo Picasso – emergia de sua apatia. O episódio ganhou manchetes pelos cadernos de cultura ao redor do mundo!

Para muitos, o triunfo da bobagem, do non-sense, expressões de um mundo com narrativas fragmentadas, consumismo desenfreado, materialismo exacerbado, hedonismo e individualismo narcísico. Quadro diante do qual o pessimismo é um diapasão recorrente em parte da intelectualidade.

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