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Shame, de Steve McQueen

25 de março de 2012 1

Ontem assisti ao Shame, escrito e dirigido por Steve McQueen. O filme é espetacular! Alguns disseram por aí ser uma história sobre um cara viciado em sexo. Não é! Trata-se de um poderoso drama psicológico, ampliado por ganchos arquetípicos atualíssimos. É um retrato pungente da desorientação do indivíduo e do vazio que se instalou na moderna sociedade de consumo de massas.

A adição ao sexo do personagem central, magistralmente encarnado por Michael Fassbender, tem contraponto na figura de sua doce e depressiva irmã, vivida com igual maestria por Carey Mulligan, que aparece repentinamente para uma temporada em seu apartamento, em Nova Iorque. Se ele se atira no sexo impessoal para, na realidade, fugir dos sentimentos e da afetividade, ela é puro afeto, se jogando nas paixões de uma maneira humilhante, masoquista e não menos autodestrtuva.

Ambos são reveladoramente atentos à estética retrô. O romantismo dela está morto no mundo que os cerca e a sexualidade desbragada dele é mais um objeto de consumo, uma degeneração viciante e mecânica da liberação sexual dos anos 1960, filha bastarda daquela generosa utopia. A relação dos dois é glacial, distante, o que apenas mascara e oculta a forte pulsação que os ata. Não é à toa que um dos poucos pontos de contato entre os dois é um velho toca discos de vinil, a única peça com acento sensível num apartamento pequeno, com decoração cinza e escovada. A longa e tocante cena em que ela canta New York, New York, em ritmo lento e dramático, detona a transformação do personagem, que subitamente se reconecta ao seu afeto afogado. Resta implícito, negado e mal resolvido, o viés incestuoso do afeto entre os dois.

O filme todo é feito de contrastes, de polarizações e metalinguagem. A relação tumultuada dos irmãos é mediada pelo chefe do protagonista, homem casado e materialista que o chantageia veladamente quando descobre a sujeira sexual no disco rígido de seu computador. Seu objetivo, usar o subordinado para encontrar prazer e diversão extraconjugais. Entre bares padronizados e um ambiente de trabalho tão frio e cinzento quanto o apartamento no qual vive o protagonista, a relação vai se desenrolando de forma a potencializar o escancarar dos conflitos entre os dois irmãos.

O cenário para esta tensão é estéril. É notável que o filme todo o aconteça como se fosse o palco de uma peça de teatro ou como um quadro sendo pintado. Há um ar de ficção científica na estética crua, pois o filme transcorre sem que nem mesmo um único ramo de planta ou uma única flor apareçam. Na Nova Iorque desses personagens consumidos não há árvores, não há folhas, não há verde! A única cor mais viva é o vermelho de um chapéu da irmã, que o irmão diz ser esquisito, mas se diverte fugazmente ao experimentá-lo, numa estação de metrô, espaço, aliás, que funciona em diversos momentos como território de transição entre uma cena e outra, conferindo-lhes ênfase. Mais tarde, o mesmo vermelho intenso aparece no sangue da irmã…

As tomadas são feitas registrando ausência de profundidade. Há sempre uma parede disposta no fundo imediato. O único momento em que aparece uma réstia de sol e uma vista, do skyline de Nova Iorque e do Rio Hudson, é quando o protagonista tenta se livrar de seu bloqueio emocional e convida uma colega de trabalho para sair. Mas a tentativa resta frustrada, porque ele não avançará afetivamente se não conseguir recuperar a relação familiar, rompida em algum ponto do trajeto.

Os personagens simplesmente vivem: não há profundidade e não há história. Num breve momento do filme, a irmã diz algo como “não somos pessoas más: somos apenas duas pessoas que vieram de um lugar ruim”. E é tudo o que se sabe dos dois. Indivíduos de classe média que garantiram alguma segurança patrimonial, mas que, perdendo valores familiares e, quiçá, religiosos ao longo do processo de ascensão social e afirmação pessoal, tornaram-se errantes desprovidos de gravidade, numa sociedade de consumo que aprisiona ao libertar.

É reveladora a longa e torturante cena que se desenvolve em um bom restaurante. Para o protagonista, é irrelevante o prato a ser saboreado, ou o vinho a ser bebido. Tanto faz, ele simplesmente acompanha o pedido da companheira e as sugestões do garçom. A comida e o ritual da mesa são indicativos de complexidade simbólica e sofisticação cultural na vida das pessoas. E, sobretudo, de vontade de compartilhar. Neste caso, estão em total estado de suspensão, reforçando a imagem de um indivíduo cujo narcisismo apenas escamoteia a falta de assunto, de vontades e de iniciativas. Um típico personagem niilista ao estilo Albert Camus, um l’Étranger pós-moderno cuja busca frenética pelo prazer sexual como fim em si mesmo se processa numa existência ausente de quaisquer outros prazeres, uma espécie de boicote autoinduzido, de solidão absoluta, mas confortavelmente tépida numa prisão cultural de platitudes e superficialidades avassaladoras.

Sim, porque é mais uma vez o jogo de opostos que anima a narrativa e expõe as tensões do personagem em toda a sua dramaticidade angustiante. Tão distante e tão próxima da realidade de cada um de nós.

Os diálogos são curtos, intensos, viscerais e escassos. A dinâmica do filme é pautada por longos e angustiantes silêncios, durante os quais Fassbender arrebata o espectador com brilhantes interpretações. Quase como se fosse uma transposição da lógica do teatro para as telas, numa linguagem que faria especial sentido para Bob Wilson. Como o momento em que seu corpo se contorce enquanto a irmã transa com o seu chefe na sua própria cama. Ou aquele em que seu gozo se mistura com um choro desesperado, há muito tempo sufocado.

Destaque para o tenso diálogo entre os dois irmãos, sentados muito próximos em um pequeno sofá, filmado por uma câmera postada atrás do encosto, enquadrando ao fundo a tela desfocada de uma televisão transmitindo um desenho animado dos anos 1950 ou 1960: candente contraste implicitamente remetendo aos traumas subliminares de uma infância distópica. Com sua bagunça pessoal, sua afetividade desbragada, suas trapalhadas sexuais, sua depressão latente e seu fracasso profissional, ela se afirma como o obsessor que liberta, enquanto pede socorro. Muito pertinente para um mundo no qual mocinhos e bandidos estão mortos, onde o bem e o mal bubuiam na imprecisão e no relativismo.

No auge da crise, o protagonista revela sua tara pela cunilíngua, se envolve numa degradante briga de bar e experimenta uma furtiva excitação homoerótica, para acabar num ménage à trois com duas prostitutas. Tudo muito lógico, aparentemente: a fuga da afetividade levou-o a oscilar de um prazer ou submisso ou dominador e mecânico com as mulheres. Seu foco na sexualidade anônima e centrada em si mesma o conduz ao homoerotismo, numa super excitação dos sentidos mais masculinos. Sua culpa e sofrimento o impelem, de forma masoquista, a provocar uma briga na qual ele apanha de um valentão, em autoflagelo, autopunição.

Depois de assistir ao filme, reveja Guerra ao Terror, de Kathrin Bigelow…

Comentários (1)

  • jaqueline preto diz: 27 de março de 2012

    Revelador!!

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