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Posts de março 2012

Dois dedos de prosa sobre gestão da cultura e algumas das críticas recentes endereçadas ao Ministério da Cultura

29 de março de 2012 2

Segue o debate em torno da eterna reforma da Lei Rouanet. Já escrevi há algum tempo o que pensava a respeito e, confesso, não mudei muito de ideia desde então. Foi um alento constatar que o projeto de reforma da Lei elaborado no fim do Governo Lula não passou até o momento. Era um projeto ruim, fundamentado em premissas equivocadas, que poderia esvaziar o componente democrático da Lei, ampliar o entulho burocrático, reforçar o dirigismo estatal, sem lograr aprimorar o fortalecimento da cultura. Em favor daquele projeto, dizia-se que havia sido submetido a amplos debates. Bom, todos sabemos o quanto o assembleísmo se presta a manipulações. É verdade que entre a proposta inicial e a final avanços se registraram e sugestões importantes foram incorporadas, mas ainda assim era um projeto precário. Fez bem a Ministra Ana Buarque de Hollanda em desacelerar o processo para poder retomar a reflexão sobre as mudanças propostas. São, portanto, injustas as críticas que ela vem recebendo por se fechar ao diálogo. Acho que, pelo contrário, neste aspecto, ela reabriu o debate, começando por retomar a reflexão do próprio Ministério a respeito. Cabe verificar o que fará em seguida.

Alguns jornais do Nordeste andaram dizendo na semana retrasada que a Ministra Ana Buarque é uma das poucas unanimidades no País – todos quereriam a saída dela do Ministério! Não vejo assim. O que existe são facções ruidosas, dentro do próprio PT, que querem desalojar a Ministra, retomando protagonismo na condução, por exemplo, das reformas pretendidas para a Lei Rouanet.

E isto está mais do que patente do manifesto de um punhado de intelectuais publicado no dia 18 no Estadão. Por traz do palavrório algo pedante, próprio de artigos acadêmicos, mas em dessintonia com a pretensão de estimular um debate com a sociedade civil, há muita encheção de linguiça, muito qué qué qué sobre globalização, com o quê todo mundo concorda de antemão, até, mas conteúdo mesmo, é pouco. De concreto, no que tange ao debate sobre políticas culturais, diz-se apenas que a Ministra não se abre convenientemente ao diálogo.

Ora, até não discordo que a comunicação do MinC venha sendo meio escalafobética e até ausente. Desde que trocou o Governo deixei de receber boletins eletrônicos sobre as atividades do MinC que eram antes semanalmente enviados ao meu e-mail. A trapalhada comunicativa, por exemplo, fica evidente na série de twitts laudatórios emitidos pelo twitter oficial do MinC durante uma visita de Ana de Hollanda a Belém do Pará: qualquer estagiário de comunicação sabe que não se pode confundir divulgação com puxação de saco e com perucagem desbragada, sobretudo em um blog oficial.

No entanto, comunicação deficiente não é motivo suficiente para derrubar um Ministro, como pede o manifesto. Quanto às tais denúncias envolvendo o Ecad, parece que as explicações estão sendo oferecidas. Acho que todos nós, e especialmente os intelectuais, temos o dever de ouvir o que todos têm a dizer antes de embarcarmos no denuncismo. Se o conjunto de explicações não for convincente, ok, vamos questionar o que aí está!

Da Marilena Chauí, uma das signatárias do tal manifesto, não se estranha o procedimento, pois ela há muito tem seus escritos considerados datados, sem mencionar que sua credibilidade já foi razoavelmente corroída pelo excesso de partidarismo. Isto é, suas análises são frequentemente toldadas pela paixão partidária. Aí fica mais complicado discutir política pública, né?

Já a presença dentre os signatários de Suely Rolnik – que inclusive me deu a honra de participar com um excelente artigo (“Geopolítica da Cafetinagem”) num livro que organizei (“Brasil Contemporâneo: ensaios sobre um país incógnito”) – é menos óbvia, pois Suely é respeitadíssima pelo magnífico trabalho. Gosto em particular de um livro dela sobre os silêncios do discurso…

E falando em silêncios, o Manifesto em tela desconhece tudo o que se fez no MinC antes da Era Lula. De fato, durante os oito anos do Governo Lula, o MinC cresceu de importância, inclusive registrando uma bem vinda ampliação do orçamento. Não há quem não o reconheça. Mas não se pode ignorar que o que se fez foi possível também graças a algumas boas ações promovidas anteriormente. A própria Lei Rouanet é de 1991! Bem anterior ao Governo Lula, portanto. E notemos que seu principal mérito talvez tenha sido justamente – o que é um dos pontos nos quais martela o manifesto – a contribuição para a profissionalização do mercado cultural no Brasil e para a ativação em larga escala da produção de bens simbólicos, algo estrategicamente fundamental como reação soberana no contexto de uma globalização financeira, marca da passagem do século XX para o século XXI.

Ora, um manifesto assim não é a favor da cultura, mas a favor de um determinado partido. Tudo indica que estamos falando aqui de uma guerra de posições dentro do próprio PT. É aquilo que os jornalistas políticos chamam ironicamente de “fogo amigo”.

A propósito, o manifesto dos intelectuais, como ficou conhecido – e não nos surpreendamos se for esquecido muito rapidamente – pode ser lido em cotejo com a tal carta aberta que a respeitadíssima e amadíssima atriz Fernanda Montenegro mandou logo em seguida para a Presidente Dilma Rousseff, sugerindo o nome de Danilo Miranda, diretor do SESC, para o lugar da Ministra Ana de Hollanda. Ninguém questiona a competência e a experiência de Danilo em matéria de direção cultural. Não há dúvidas que é um dos nomes a ser lembrado cada vez em que se pensa em titulares para a pasta da cultura no Brasil. Mas vamos combinar que é meio constrangedor para alguém do seu escol afirmar-se na esteira da demolição algo leviana dos outros. Posso estar enganado, mas lidos os dois documentos conjuntamente, fica a impressão de que o manifesto dos intelectuais cheira a coisa encomendada…

Se assim é, tem tudo para funcionar como um tiro pela culatra, no pé mesmo! Afinal, uma Presidente firme e decidida como Dilma Rousseff jamais se deixaria emparedar publicamente por meia dúzia de intelectuais. Se a Presidente alvitrava substituir a Ministra, não é agora que o fará. Vamos esperar sentados!

O chato desse tipo de polêmica, é que o debate vai se revestindo de conteúdo pessoal, enquanto os aspectos realmente objetivos da política cultural vão sendo relegados ao segundo plano. Há sim críticas que podem ser endereçadas a atual gestão. No último ano, por exemplo, algumas tentativas feitas de ajuste da Lei Rouanet embaralharam o seu funcionamento. Uma profusão de instruções normativas ensejou instabilidade jurídica. Outro problema teve a ver com as idas e vindas no que respeita à dinâmica de gestão dos pareceristas, algo que, inclusive, o próprio Ministério reconheceu e tentou já corrigir. Num primeiro momento, valorizou-se excessivamente o papel de pareceristas, muitos dos quais despreparados, que emitiram pareceres atrapalhados, prejudicando a execução de projetos viáveis, impondo aos seus administradores a tortura de uma interminável via crucies de recurso sobre recurso, algo que, ao fim e ao cabo, só encareceu e empanou a gestão da cultura. Há, além disso, tratamento diferenciado aos projetos propostos, como indica a aprovação em tempo recorde do projeto de restauração da ponte Hercílio Luz em Florianópolis, com autorização de captação milionária, ao passo que outros projetos, pequenos e singelos, patinam por meses a fio nas malhas da burocracia do MinC.

Entendo, no entanto, que inconsistências do sistema fazem parte do processo. Todas as administrações as enfrentaram e continuarão encarando-as. Cabe, na minha compreensão, aos intelectuais e agentes da cultura apontarem-nas construtivamente, para que ajustes possam ser feitos. Não vejo má vontade na atual gestão do MinC. Pelo contrário. Se há alguma confusão, sobretudo na estratégia de comunicação, há manifesta boa vontade em resolver os problemas.

É preciso que se dê um tempo para as pessoas trabalharem. Depois, podemos fazer as críticas, as considerações, enfim. Da maneira como se fala atualmente do MinC, parece que nada está sendo feito. Isso é uma inverdade. Apenas para citar o caso do Rio Grande do Sul, nunca a região recebeu tantos recursos diretos do MinC como no último ano. Somente as obras do novo teatro da Ospa recebem 20 milhões de investimento direto do MinC. Ações como estas não podem ser levianamente desprezadas.

Os tais pontos de cultura estão congelados? Ora, façam-me o favor! Essa política cultural a retalho, embora importante no varejo para incrementar acessibilidade, pode oferecer inúmeros desafios. O primeiro deles é a gestão adequada dos fundos e recursos públicos por entidades pequenas e sem experiência. Não pode o MinC de uma hora para a outra sair patrolando orientações do Tribunal de Contas. O que querem os reclamistas? Que se baixem as guardas abrindo-se as portas para que o MinC possa ser enredado num escândalo similar aos das Ongs do Ministério do Turismo?

Além disso, em políticas dessa natureza, há chances de balcanização e instrumentalização de setores do MinC por movimentos organizados. Corre-se o risco de racionalização do clientelismo ao invés de se estimular poderosamente e autonomamente a cultura como se deseja. Não estou dizendo que tenhamos de jogar a criança fora junto com a água do banho. Apenas sublinhando que talvez devamos ir mais devagar com o andor, pois o santo pode ser de barro. Nesse sentido, o MinC parece ter dado uma parada para a reflexão, o que eu acho positivo. Deveríamos estar aplaudindo o MinC por abrir o debate sobre este tema, ao invés de torpedear inclementemente a Ministra por isso.

Quanto à Lei Rouanet, não há dúvidas que precisa mudar. Ela foi concebida num contexto diferente, em que o Brasil era uma economia mais periférica do que é hoje em dia, em que havia inflação, não existia a Internet, o mercado cultural e a economia eram ainda mais concentrados no Sudeste, etc.

É preciso sim discutir-se a acessibilidade dos produtos culturais gerados no âmbito da Lei, mas também a ampliação do leque de empresas aptas a participar do processo, a desconcentração dos investimentos e, sobretudo, o fortalecimento do fundo nacional de cultura, bem como a criação de outros instrumentos de financiamento, como uma eventual Lei da Dação, por exemplo, sobre a qual já falei inúmeras vezes, sempre pregando no deserto. Um dos grandes problemas do atual sistema é a dificuldade de se financiar a cultura em longo prazo. Os projetos submetidos à Lei Rouanet exigem organogramas de um ou dois anos, o que é pouco para determinadas ações culturais. A formação de acervos museais, por exemplo, é prejudicada pelo atual sistema de financiamento à cultura no Brasil. E esta deveria ser a base de qualquer política cultural sólida e de longo prazo, pois é sustentáculo, por exemplo, do que há de melhor no turismo cultural, outra indústria que pode ser fortemente geradora de renda e de empregos.

Há projetos mais business que não precisam de 100% de abatimento de impostos, enquanto outros, que investem na formação de leitores, de gestores, de plateias ou de acervos, mereceriam uma atenção mais carinhosa. Mas se daí depreendermos que proponentes iniciantes devem ser necessariamente privilegiados em detrimento dos proponentes experienciados, estaremos cometendo uma injustiça com quem trabalha direitinho e desprezando a meritocracia.

Falta ainda uma política mais afirmativa quanto à divulgação da cultura brasileira no exterior. Há um poderoso mercado de bens simbólicos a ser conquistado lá fora, o que potencializaria a geração de renda e a afirmação identitária aqui dentro. Muitas são as ações nesse campo que poderiam ser implantadas e pouco se fez até hoje, até porque apenas recentemente o MinC vem recebendo mais prestígio político e orçamentário do Governo. MinC e Itamaraty deveriam funcionar irmanados, o que não acontece.

É também lamentável que não tenhamos até hoje um bom observatório de cultura funcionando no País. Na França, por exemplo, há excelentes experiências nesse sentido, que poderiam nos estar servindo de modelo. Da mesma forma, muito se falou em incubadoras culturais, mas pouco se fez e concreto. Falta apoio de parte do MinC, do Ministério da Educação e dos órgãos de ciência e tecnologia a projetos pedagógicos consistentes na área de formação de gestores em cultura. As instâncias governativas precisariam dialogar mais, possuir mais projetos interinstitucionais e interdisciplinares. Em plena afirmação da cadeia da economia criativa no globo terrestre, não se explica que o Ministério do Planejamento não esteja diretamente envolvido em ações ligadas à cultura.

Bom, não quero me estender além da conta num simples post, mas a lista de sugestões poderia continuar, inclusive com indicação de ações práticas bem objetivas.

Diante de tudo isso, posso dizer que o pouco que vi do projeto do Deputado Pedro Eugênio, que pretende reformar a Lei Rouanet no Congresso, não me agradou. O que está ali sinaliza para um retrocesso. Este é o debate que poderíamos estar fazendo, ao invés de pessoalizarmos e partidarizarmos disputas.

Florianópolis e as ostras

26 de março de 2012 1

Quem realmente aprecia ostras tende a preferi-las in natura, frescas, pois, dessa forma, o sabor permanece mais autêntico. Tudo estaria a indicar, então, que Florianópolis seria um paraíso da iguaria. De fato, as ostras produzidas na Ilha são fantásticas. Dizem que tem a ver com a água fria e limpa do Ribeirão, no sul da Ilha. Em peixarias, não é difícil encontrar-se uma dúzia de ostras vivas por R$ 5 ou R$ 6, isto é, uma das poucas coisas que permanecem baratas na cidade. Mas nos restaurantes, mesmo em alguns dos mais badalados, a coisa muda de figura. Uma porção dificilmente sai por menos de R$ 25,00 e é quase que invariavelmente servida de forma errada. Num conhecido restaurante em Santo Antônio de Lisboa trouxeram outro dia um prato de ostras emborcadas sobre o gelo, de maneira que o líquido salobro que a acompanha havia se perdido… Em outros bares e restaurantes da região bem como no Ribeirão da Ilha, é comum servirem as ostras cobertas de gelo, o que é inadequado, e, pior ainda, desprendem-nas das conchas. Dizem que é para facilitar a vida das pessoas! Mas a prática é um atentado, porque assim, já não se consegue comprovar estarem realmente frescas – e sabe-se que intoxicação por ostras não é brincadeira! Então, é incrível que numa cidade produtora de ostras de alta qualidade haja tanto despreparo na hora de servi-las in natura.

Shame, de Steve McQueen

25 de março de 2012 1

Ontem assisti ao Shame, escrito e dirigido por Steve McQueen. O filme é espetacular! Alguns disseram por aí ser uma história sobre um cara viciado em sexo. Não é! Trata-se de um poderoso drama psicológico, ampliado por ganchos arquetípicos atualíssimos. É um retrato pungente da desorientação do indivíduo e do vazio que se instalou na moderna sociedade de consumo de massas.

A adição ao sexo do personagem central, magistralmente encarnado por Michael Fassbender, tem contraponto na figura de sua doce e depressiva irmã, vivida com igual maestria por Carey Mulligan, que aparece repentinamente para uma temporada em seu apartamento, em Nova Iorque. Se ele se atira no sexo impessoal para, na realidade, fugir dos sentimentos e da afetividade, ela é puro afeto, se jogando nas paixões de uma maneira humilhante, masoquista e não menos autodestrtuva.

Ambos são reveladoramente atentos à estética retrô. O romantismo dela está morto no mundo que os cerca e a sexualidade desbragada dele é mais um objeto de consumo, uma degeneração viciante e mecânica da liberação sexual dos anos 1960, filha bastarda daquela generosa utopia. A relação dos dois é glacial, distante, o que apenas mascara e oculta a forte pulsação que os ata. Não é à toa que um dos poucos pontos de contato entre os dois é um velho toca discos de vinil, a única peça com acento sensível num apartamento pequeno, com decoração cinza e escovada. A longa e tocante cena em que ela canta New York, New York, em ritmo lento e dramático, detona a transformação do personagem, que subitamente se reconecta ao seu afeto afogado. Resta implícito, negado e mal resolvido, o viés incestuoso do afeto entre os dois.

O filme todo é feito de contrastes, de polarizações e metalinguagem. A relação tumultuada dos irmãos é mediada pelo chefe do protagonista, homem casado e materialista que o chantageia veladamente quando descobre a sujeira sexual no disco rígido de seu computador. Seu objetivo, usar o subordinado para encontrar prazer e diversão extraconjugais. Entre bares padronizados e um ambiente de trabalho tão frio e cinzento quanto o apartamento no qual vive o protagonista, a relação vai se desenrolando de forma a potencializar o escancarar dos conflitos entre os dois irmãos.

O cenário para esta tensão é estéril. É notável que o filme todo o aconteça como se fosse o palco de uma peça de teatro ou como um quadro sendo pintado. Há um ar de ficção científica na estética crua, pois o filme transcorre sem que nem mesmo um único ramo de planta ou uma única flor apareçam. Na Nova Iorque desses personagens consumidos não há árvores, não há folhas, não há verde! A única cor mais viva é o vermelho de um chapéu da irmã, que o irmão diz ser esquisito, mas se diverte fugazmente ao experimentá-lo, numa estação de metrô, espaço, aliás, que funciona em diversos momentos como território de transição entre uma cena e outra, conferindo-lhes ênfase. Mais tarde, o mesmo vermelho intenso aparece no sangue da irmã…

As tomadas são feitas registrando ausência de profundidade. Há sempre uma parede disposta no fundo imediato. O único momento em que aparece uma réstia de sol e uma vista, do skyline de Nova Iorque e do Rio Hudson, é quando o protagonista tenta se livrar de seu bloqueio emocional e convida uma colega de trabalho para sair. Mas a tentativa resta frustrada, porque ele não avançará afetivamente se não conseguir recuperar a relação familiar, rompida em algum ponto do trajeto.

Os personagens simplesmente vivem: não há profundidade e não há história. Num breve momento do filme, a irmã diz algo como “não somos pessoas más: somos apenas duas pessoas que vieram de um lugar ruim”. E é tudo o que se sabe dos dois. Indivíduos de classe média que garantiram alguma segurança patrimonial, mas que, perdendo valores familiares e, quiçá, religiosos ao longo do processo de ascensão social e afirmação pessoal, tornaram-se errantes desprovidos de gravidade, numa sociedade de consumo que aprisiona ao libertar.

É reveladora a longa e torturante cena que se desenvolve em um bom restaurante. Para o protagonista, é irrelevante o prato a ser saboreado, ou o vinho a ser bebido. Tanto faz, ele simplesmente acompanha o pedido da companheira e as sugestões do garçom. A comida e o ritual da mesa são indicativos de complexidade simbólica e sofisticação cultural na vida das pessoas. E, sobretudo, de vontade de compartilhar. Neste caso, estão em total estado de suspensão, reforçando a imagem de um indivíduo cujo narcisismo apenas escamoteia a falta de assunto, de vontades e de iniciativas. Um típico personagem niilista ao estilo Albert Camus, um l’Étranger pós-moderno cuja busca frenética pelo prazer sexual como fim em si mesmo se processa numa existência ausente de quaisquer outros prazeres, uma espécie de boicote autoinduzido, de solidão absoluta, mas confortavelmente tépida numa prisão cultural de platitudes e superficialidades avassaladoras.

Sim, porque é mais uma vez o jogo de opostos que anima a narrativa e expõe as tensões do personagem em toda a sua dramaticidade angustiante. Tão distante e tão próxima da realidade de cada um de nós.

Os diálogos são curtos, intensos, viscerais e escassos. A dinâmica do filme é pautada por longos e angustiantes silêncios, durante os quais Fassbender arrebata o espectador com brilhantes interpretações. Quase como se fosse uma transposição da lógica do teatro para as telas, numa linguagem que faria especial sentido para Bob Wilson. Como o momento em que seu corpo se contorce enquanto a irmã transa com o seu chefe na sua própria cama. Ou aquele em que seu gozo se mistura com um choro desesperado, há muito tempo sufocado.

Destaque para o tenso diálogo entre os dois irmãos, sentados muito próximos em um pequeno sofá, filmado por uma câmera postada atrás do encosto, enquadrando ao fundo a tela desfocada de uma televisão transmitindo um desenho animado dos anos 1950 ou 1960: candente contraste implicitamente remetendo aos traumas subliminares de uma infância distópica. Com sua bagunça pessoal, sua afetividade desbragada, suas trapalhadas sexuais, sua depressão latente e seu fracasso profissional, ela se afirma como o obsessor que liberta, enquanto pede socorro. Muito pertinente para um mundo no qual mocinhos e bandidos estão mortos, onde o bem e o mal bubuiam na imprecisão e no relativismo.

No auge da crise, o protagonista revela sua tara pela cunilíngua, se envolve numa degradante briga de bar e experimenta uma furtiva excitação homoerótica, para acabar num ménage à trois com duas prostitutas. Tudo muito lógico, aparentemente: a fuga da afetividade levou-o a oscilar de um prazer ou submisso ou dominador e mecânico com as mulheres. Seu foco na sexualidade anônima e centrada em si mesma o conduz ao homoerotismo, numa super excitação dos sentidos mais masculinos. Sua culpa e sofrimento o impelem, de forma masoquista, a provocar uma briga na qual ele apanha de um valentão, em autoflagelo, autopunição.

Depois de assistir ao filme, reveja Guerra ao Terror, de Kathrin Bigelow…

Diversitas - USP

24 de março de 2012 0

Saúdo o nascimento do Diversitas - Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ao qual me filio como pesquisador associado. O Núcleo reúne pesquisadores de diferentes áreas das humanidades que se articulam para a docência em nível de Pós-Graduação no Programa Humanidades, Direitos e outras Legitimidades e à pesquisa no projeto Fronteiras em Movimento.
Os trabalhos realizados por seus pesquisadores estão disponíveis para consulta no Portal na Internet.

Motorola EX 119 dual chip

23 de março de 2012 94

Recentemente, aderi aos aparelhos de celular dual chip. Achei uma ótima ideia, porque, como tenho necessariamente de andar com duas linhas, já que preciso de chips com código de área de Florianópolis e outro de Porto Alegre, poder reunir os dois num único dispositivo foi uma mão na roda. O chato é que é preciso fazer-se uma opção por um modelo mais simples, com menos opções, pois os dual chips disponíveis no mercado são bem básicos. Nada de GPS e o escambáu!

Achei que um melhorzinho era o Motorola EX 119. Estão tentando ressuscitar a Motorola, que já havia se transformado numa empresa zumbi. Não achei ruim, porque lembro o quanto eu gostava daqueles aparelhinhos V6, V8…

O EX combina teclado físico com uma tela sensível ao toque. Isto é bom, porque tive uma porcaria de um Samsung que depois de alguns meses de uso travou a tela e não se fazia mais nada. Foi um drama, não conseguia nem digitar a senha de acesso.

Além disso, esse EX 119 é fininho e levíssimo. Cabe em qualquer bolso. É perfeito para se carregar de um lado para o outro. Dispensa capinhas e toda esta tralha que acompanha os celulares que cresceram de tamanho.

Mas as qualidades do aparelho param por aí. O sistema operacional não é difícil no seu conjunto, depois que você se acostuma com ele. O que não é fácil, porque o manual é precário e não fornece informações elementares. Para saber como trocar o som da campainha, por exemplo, ou como fazer para acessar as agendas dos dois chips, eu precisei entrar em contato com a central de atendimento da Motorola. Nunca havia me acontecido isso antes! Todos os dispositivos eletrônicos que eu tive eram autoexplicativos. Eventualmente consultei o manual. Mas, no caso desse Motorola, o manual não serve para nada! Um desrespeito!

Depois de falar com uma atendente bem simpática, quase todos os problemas foram resolvidos. Mas alguns restam insolúveis, diante dos quais a atendente se limitou a dizer que aquela anomalia ainda não havia sido informada. Duvido! Todas as pessoas que encontro usando este aparelho reportam os mesmos problemas.

Em primeiro lugar, o áudio é muito baixo. Para atender a uma chamada, é preciso estar em um ambiente muiiiitooooo silencioso. Caso contrário, não se consegue ouvir o que estão falando do outro lado da linha!!! Patético! Acabo usando o aparelho só com fones de ouvido ou no bluetooth.

Mas isso não é nada! O aparelho desliga sozinho, de vez em quando. Sem explicação! Simplesmente desliga! Então, se você está esperando uma chamada importante, se está contando com a conexão, se programou o despertar, esqueça, porque o aparelho pode desligar a qualquer momento. Da mesma forma, sem qualquer explicação razoável, o aparelho baixa o volume do toque a toda hora. Mesmo com o teclado bloqueado, baixa o volume, sozinho…

Há outros absurdos. A tela se desconfigura sozinha, sem explicação, bagunçando os ícones que a gente organizou. Pensei que só acontecia comigo, mas vi que se trata também de um problema recorrente. E há ainda relatos de que o aparelho possa estar acessando a internet sozinho, sem indicação disso ao usuário, desperdiçando créditos.

Então, pois é: vão ainda precisar injetar muito ânimo na Motorola para ressuscitá-la. Aliás, a empresa deveria estar discutindo uma forma de indenizar os clientes que compraram um aparelho com tamanhas deficiências. E, sobretudo, parar de dizer que se trata de um caso isolado, pois todas as pessoas que usam este telefone, indicam problemas parecidos.

Restauração da Ponte Hercílio Luz

18 de março de 2012 3

Em Santa Catarina está em curso um debate interessante, sobretudo da perspectiva de quem atua no campo da gestão da cultura com foco no patrimônio histórico. A obra de restauração da histórica ponte Hercílio Luz, na Capital, que liga a Ilha de Santa Catarina ao continente, está orçada em pelo menos 170 milhões de reais, dos quais 64,5 milhões viriam de patrocinadores, sob os auspícios da Lei Federal de Incentivo à Cultura, na forma de renúncia fiscal. O projeto de captação foi aprovado esta semana pelo Ministério da Cultura, em tempo recorde, vez que foi protocolado em novembro passado. Trata-se do projeto de maior vulto nos 21 anos de história da Lei Rouanet (a proposta original era de 76,8 milhões de reais, mas a CNIC cortou 12,3 milhões do projeto). Até então, os orçamentos mais vultosos aprovados no âmbito da Lei Rouanet foram a restauração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (R$ 50 milhões) e a restauração da Catedral de Brasília (R$ 25 milhões).

A ponte, inaugurada em 1926, está fechada para o tráfego de veículos desde 1981. Nesse meio tempo, já se investiu um bom recurso na sua manutenção: estimam-se cifras da ordem de 350 milhões… O asfalto, que revestia o piso de rodagem da ponte, por exemplo, foi retirado, para aliviar a carga de uma estrutura que ameaça ruir. Segundo os engenheiros que cuidam da restauração, além dos velhos problemas, como o avanço inclemente da ferrugem nas barras de sustentação, descobriu-se que dos quatro pilares, três estão bastante corroídos.

Do ponto de vista do patrimônio histórico vale o investimento? Sem dúvida! A estrutura é um bem cultural e artístico do Brasil, tombado e reconhecido pelo Iphan. É a maior ponte pênsil do Brasil e talvez a única neste estilo ainda em pé no mundo. A ponte é linda, é um dos cartões postais mais conhecidos do Brasil, foi adotada pela gente de Florianópolis como símbolo da cidade – foi, aliás, a sua inauguração que consolidou a cidade na condição de Capital do Estado, até então questionada por cidadãos do interior que achavam o deslocamento até a Ilha incômodo.

Mas é razoável investir-se tanto dinheiro na restauração de um bem histórico quando existem tantas outras urgências em Santa Catarina? Pensa-se, por exemplo, no pessoal que sofre com as cheias no Vale do Rio Itajaí, ou na necessidade de ampliação das estranguladas rodovias do Estado. É verdade que a ponte, uma vez restaurada, poderá até ser reaberta ao tráfego de veículos. Porém, quanto custaria uma ponte pênsil moderna, que substituísse a Hercílio Luz?

Ironicamente, a ponte que consolidou Florianópolis como Capital e que foi adotada como símbolo da cidade, provoca ranger de dentes em muitos catarinenses do interior, que olham para a insistência em mantê-la de pé como um despropósito do ponto de vista da lógica econômica e da ordem de prioridades da população. Para os críticos, a custosa restauração seria um sumidouro de dinheiro público. O que se explica em grande parte pelo fato de ser obra de engenharia obsoleta, além de a estrutura estar deteriorada.

A propósito, no último dia 21 de fevereiro, o departamento de transportes do estado norte-americano de Ohio implodiu a Fort Steuben Bridge, ao custo de 2,3 milhões de dólares. A ponte, que servia a cidade de Steubenville, no centro-oeste dos Estados Unidos, era muito semelhante à Hercílio Luz. Inauguradas nos anos 1920, ambas foram erguidas por estruturas de aço em bases de concreto. A Steuben foi bloqueada para uso apenas em 2009. Depois de três anos de estudos, os técnicos norte-americanos concluíram que não valia a pena tentar restaurar a ponte, pois o custo superaria em muito a construção de uma nova, com tecnologia mais moderna.

Assim, enquanto o mais recente projeto de restauro é festejado por muitos como uma conquista de Santa Catarina e um indicador de prestígio para Florianópolis, há quem veja nele uma inversão de prioridades e um desperdício de recursos. De qualquer forma, a manutenção da ponte mostra que o valor simbólico de determinados bens pode em muito superar o interesse objetivo. A ponte Hercílio Luz parece ter transcendido a sua utilidade fim, adquirindo uma importância afetiva ímpar.

Afinal, e vocês, o que acham?

Infoto 2012

14 de março de 2012 0

Dia 15 de março de 2012, inaugura a Exposição “INFOTO”

Às 19h – Casa de Cultura Mário Quintana, 3º andar – Espaço Maurício Rosenblatt

O Contestado no Estadão

14 de março de 2012 0

Boa a série de matérias publicadas no Estadão sobre o Contestado. Está de parabéns o jornal pela qualidade dos textos e pela pertinência da abordagem.

Marcel Duchamp e o Modernismo

11 de março de 2012 0

Já está on line o meu artigo do mês na revista Voto. Reproduzo-o abaixo.


L.H.O.O.Q. Estas cinco letras, lidas em francês, colocaram a arte ocidental de pernas para o ar – literalmente: soam como “Elle a chaud au cul”, ou, em português, algo como, “ela tem fogo no rabo”. Marcel Duchamp – iconoclasta supremo, “le grand  saboteur” – as dispôs embaixo de um quadro seu, de 1919, que consistia numa reprodução da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci, com um bigodinho militar e um cavanhaque!

Era uma brincadeira! Com certa inspiração nos cartunistas de jornais. Era como se Duchamp trouxesse para as artes visuais a carnavalização que Rabelais aplicara à literatura em pleno Renascimento e que chegara ao século XX pelas charges, com forte apego ao cotidiano e à cultura popular. Era preciso rir de si mesmo, não se sentir tão importante assim. O patrimônio cultural celebrado, mas não cultuado. Como se dissesse: discutam-se as tradições inventadas, pois o novo pode, ou não, ser mais interessante.

E foi além: se, a partir daí, qualquer coisa poderia ser considerada arte se acompanhada de uma assinatura, então a arte já não mais desfrutava de um altar sagrado. Ela podia estar num objeto do cotidiano, numa instalação efêmera, numa atitude. Abria-se a porta para a liberdade total da criação, para a permanente reinvenção das fronteiras mais longínquas e borradas do pensamento, para a exploração não apenas de uma nova estética, mas de uma nova linguagem, em permanente construção, associada a uma nova racionalidade, desconhecida, muito além da convencional razão iluminista.

Foi um escândalo, encarado por muitos como vandalismo. Em 1912, o Salão dos Independentes na França recusou a inscrição de seu genial quadro cubista Nu Descendo a Escada. Em 1913, a sua Roda de Bicicleta, montada em cima de um banquinho branco, já tinha suscitado consternação mesmo entre a vanguarda modernista norte-americana. Em 1917, a sua célebre Fonte, um mictório de louça invertido, foi recusado pelo conselho de uma exposição de arte de vanguarda em Nova Iorque, considerado obsceno e não artístico.

O novo paradoxo cinzelado por Duchamp era imenso: do simples esforço para destruir a arte, brotava mais arte! Qual o limite disso? Impossível dizer. Qual a chance de sucesso? Domínio insondável. Estava posta a pedra fundamental da arte contemporânea. Nada além da liberdade total de uma idéia disposta no espaço multidimensional, multi-sensorial. Mas, também, como mostra Affonso Romano de Sant’Anna, uma terrível armadilha tecida por uma lógica cínica, desdobrada da argúcia de jogador, e nem sempre compreendida.

Embora Duchamp seja às vezes associado ao grupo dadaísta – cujo caos organizado, tributo à liberdade, à fantasia e à irracionalidade, terminou configurando-se em crítica consistente ao caos letal da carnificina em massa trazida pela Guerra de 1914 -, seriam necessários ainda alguns anos para que seus conceitos impregnassem uma geração inteira de artistas. Quando a arte pop surgiu, no raiar dos anos 1960, muitos críticos divertiram-se com suas paródias e sátiras e sua linguagem quase jornalística, mas concordavam que ela carecia de consistência para permanecer. Não passaria de uma moda engraçada!

Não foi assim! Dez anos depois, todos concordavam que o pop alcançara um tremendo sucesso, conformando-se, mesmo, num fenômeno de massas. Era a arte falando com extraordinária amplitude a linguagem de seu tempo. O modernismo, como sublinha Peter Gay, no auge de seu alcance. E, talvez, seu irremediável eclipse.

O pop investiu sistematicamente contra as convenções. Apagou maciçamente a fronteira entre obra de arte e criações de outra natureza, a divisa entre original e cópia, aproximou alta cultura e cultura popular, chegando a emular o kitsh e o vulgar. Inseriu a arte no cotidiano e na lógica do mercado consumidor de massas, implodindo os significados ocultos e herméticos do abstracionismo e do expressionismo, engendrando uma arte auto-explicável.

Andy Warhol, o mais célebre dos artistas pop, muito embora não talvez o mais consistente, fez de sua própria trajetória de vida uma obra de arte. Trabalhava constantemente a sua imagem, erigindo poderosos alicerces da fama. Mostrava, com isto, mais uma vez, que o admirável mundo novo que chegava era todo ele linguagem. E escancarava sua indiferença total para com a obra de arte: “Tudo é arte e nada é arte (…) tudo é belo, se for certo”, disse.

Como registra Peter Gay, foi um ataque “à missão reformadora do modernismo”, o seu “toque de finados”. O crítico de arte e articulista da revista The Nation, Arthur Danto, foi além: identificou nas caixas de Brillo de Warhol, de 1964, o fim da própria arte.

Ponto máximo de expansão e réquiem para o modernismo, base de lançamento para a arte contemporânea, o experimentalismo contracultural e a pop art dos anos 1960, parafraseando e expandindo a semente dadaísta, projetaram o gênero performático. Em 2005, o crítico do New York Times, Barry Gewen, inventariava a fórmula, desenhando o paradoxo do vale-tudo: em 1975, Chris Burden crucificara-se na capota de um fusca. Günther Brus, urinou e defecou num palco, bebeu a própria urina, envolveu-se com o próprio excremento e masturbou-se cantando o hino austríaco: foi preso. Em 1989, Bob Flanagan pregou seu pênis numa tábua de madeira. Todos estavam fazendo arte…

Em 2001, o incensado artista britânico Damien Hirst, montou em uma galeria de Londres uma instalação composta de detritos de um atelier: xícaras sujas e partidas, garrafas vazias, baganas de cigarro, papéis de bala, pincéis gastos, uma paleta manchada de tinta, folhas de jornais velhos… No dia seguinte à abertura da exposição, encontrando “aquela bagunça”, o faxineiro da galeria varreu tudo, pôs em sacos de lixo e jogou fora! Hirst achou o destino de sua instalação “histericamente engraçado”!

Por mais que a arte tenha diluído as fronteiras entre cotidiano e erudição, entre alta cultura e cultura popular, quanto mais caminhou no sentido da morte da própria arte, mais afirmou a permanência de uma hierarquia de gostos. Para o faxineiro, converter lixo em obra de arte não passava de uma perplexidade. Hirst estava certo ao divertir-se, pois com o gesto de destinar a instalação ao lixo, o faxineiro – representando aqui uma massa que não acompanhara a trajetória de destruições do modernismo, no sentido da construção de uma nova e insondável linguagem, como propusera Pablo Picasso – emergia de sua apatia. O episódio ganhou manchetes pelos cadernos de cultura ao redor do mundo!

Para muitos, o triunfo da bobagem, do non-sense, expressões de um mundo com narrativas fragmentadas, consumismo desenfreado, materialismo exacerbado, hedonismo e individualismo narcísico. Quadro diante do qual o pessimismo é um diapasão recorrente em parte da intelectualidade.

8 de Março - Múltiplas Escolhas. Entrevista com Camille Paglia

08 de março de 2012 3

Bom dia! Posto neste Dia Internacional da Mulher versão expandida do texto publicado no domingo passado, dia 4, no Caderno Donna, da Zero Hora, de Porto Alegre, juntamente com link para a entrevista que fizemos com a historiadora da cultura Camille Paglia. Aproveito também para postar duas perguntas adicionais, com respostas ainda inéditas, que consegui fazer com a Camille – ela está ocupadíssima com a finalização do seu novo livro.


“Uma mulher em público está sempre deslocada”, disse Pitágoras, a cerca de 2.500 anos, condensando uma das mais perenes formas de dominação conhecidas. Homem público: sucesso! Mulher pública: vergonha!

Em 8 de Março de 1857, 129 mulheres em greve por melhores condições de trabalho foram queimadas vivas, pela polícia, dentro de uma fábrica têxtil em Nova Iorque. Em 1975, a ONU fixou a data como o Dia Internacional da Mulher, ensejando a reflexão sobre a mulher no espaço público, em torno da igualdade de direitos e responsabilidades entre os gêneros. De lá para cá, muito vem mudando.

No Brasil, no século XIX, enquanto mulheres da elite eram mantidas em reclusão fundamentalista, com menos privilégios que muitas orientais, homens de prestígio mantinham cortesãs com relativo descaramento, como fez o próprio Dom Pedro I. Em 1878, O primo Basílio – clássico da literatura portuguesa –, de Eça de Queiroz, foi tachado de pornográfico, por tratar da paixão adúltera de uma mulher casada. Nos anos 1950, atrizes famosas eram estigmatizadas como prostitutas. Ainda nos anos 1980, promotores de justiça penavam em certos júris do interior para condenar réus acusados de matar a esposa infiel, pois a comunidade achava que ele acertara ao lavar a honra com sangue.

Hoje, uma mulher está na Presidência da República! E conseguimo-lo antes dos Estados Unidos, onde jamais uma mulher foi sequer nominada candidata pelos maiores partidos.

Mas segue a desproporção na política. Partidos têm dificuldade de preencher a cota de 30% de mulheres nas candidaturas. No Rio Grande do Sul, que já foi governado por uma mulher (algo impensável há 50 anos), apenas em 1951 uma mulher elegeu-se Deputada: e hoje são só 7 dentre 55. Houve enorme transformação na identidade feminina, mas permanece o desequilíbrio. Mudanças e tensões que geraram manifesta ansiedade.

É sobre esta ansiedade que Camille Paglia, uma das mais potentes vozes feministas do planeta, se debruça. Nascida em Endicott, Nova Iorque, em 1947, Camille doutorou-se em Yale e é professora na University of the Arts, da Filadélfia. Desde seu grande livro de estreia, Personas Sexuais, publicado aqui em 1990, é conhecida pela combatividade.

Reconhecendo um papel importante à natureza e ao afetivo em seu sistema teórico, Camille provocou a ira das feministas ao propor que o ser-humano é mais do que trabalho e que nem toda tensão pode ser reduzida ao machismo. As emoções de homens e mulheres, sustenta, diferem, pois os hormônios impactam o cérebro diferentemente. Ela argumenta que as mulheres devam respeitar o relógio biológico e, quando têm esta vocação, priorizar a maternidade enquanto jovens. Camille festejou as Drag Queens no que elas têm de exaltação do feminino. O feminismo de Camille é receptivo às múltiplas escolhas de cada um e não prescreve receitas genéricas. Por outro lado, ela também percebe os homens sob forte pressão social para se adaptar a um novo ambiente, no qual o patriarcalismo está em crise e a agressividade primitiva para enfrentar um entorno hostil é cada vez mais inútil.

Tributária da herança libertária dos anos 60, atribui centralidade ao sexo. Chocou ao emular a pornografia e ao celebrar a moda: enquanto a maioria das feministas condena seu poder de coisificação e subjugação da mulher ao desejo masculino, Camille viu aí chance para a afirmação do indivíduo diante de uma moral aplastante, bem como um canal para o brilho do poder feminino sobre o masculino. A pornografia, crê, ajuda a reconectar o humano à animalidade atávica.

Enquanto muitos se preocupam com banalização o sexo, Camille se inquieta com a supressão da sensualidade numa contemporaneidade esterilizada. A grotesca exposição do corpo por Lady Gaga, por exemplo, longe de sensual, lhe sugere mais o sintoma de uma neurose alienada com relação ao próprio corpo. É a languidez sensual dos movimentos de Daniela Mercury ou a autenticidade da beleza madura de Catherine Deneuve, sem plásticas, que a sensibiliza.

Camille abraçou teses polêmicas: foi a favor da legalização da prostituição, dos direitos civis para homossexuais, da liberalização do aborto e da liberalização das drogas. Para ela, o estado não pode interferir na vida privada, tampouco como as pessoas gerem seu corpo. Irritando ativistas, se opôs ao casamento homossexual, pois assim como não reconhece aos religiosos legitimidade para regular a vida civil, pensa não caber ao estado ditar como cada religião organiza seus sacramentos.

Camille se interessou pela cultura pop e viu elementos positivos na cultura de massas. Ela aprecia o rock e o cinema, se dedicando à trajetória de estrelas de Hollywood. Embora ateia, acredita que a religião tem um papel importante a desempenhar na sociedade.

Camille visitou 7 vezes o Brasil, país que adora. Em 1996, promovendo o lançamento de Vampes e Vadias, foi ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Em 2007, conferenciou em Porto Alegre, e, em 2008, em Salvador. Retornou a Salvador em 2009 para curtir o carnaval e, novamente, pouco depois, visitando amigos. Em 2010, conferenciou em Olinda e, em 2011, em São Paulo.

Suas ideias lhe parecem ser mais facilmente compreendidas pelos brasileiros. Sua gesticulação profusa e a personalidade enérgica, intui, são por aqui aceitas com naturalidade. Ela adora provar os pratos típicos regionais e é fã do nosso chope. Incorporou a farofa e o queijo-minas aos seus hábitos. Tornou-se apreciadora da música brasileira e está estudando português.



Durante a década de 1970, você se envolveu em muitas disputas e incidentes extravagantes em seu primeiro trabalho como professora no Bennington College em Vermont. Em 1979, você largou Bennington e passou por um período de isolamento. Em 1981, terminou de escrever Sexual Personae, trabalho em que expandiu sua tese de doutorado em Yale e que foi supervisionado por Harold Bloom. O manuscrito, rejeitado por sete grandes editoras de Nova York, foi finalmente publicado em 1990 e tornou-se um best-seller. Como foi essa passagem rápida da obscuridade para a fama?

CP: Nunca pensei que veria aquele livro publicado enquanto vivesse! No entanto, encontrei inspiração em Emily Dickinson, que persistiu em escrever poemas ousadamente experimentais embora ninguém fosse publicá-los. Ela nunca foi compreendida por seus contemporâneos e morreu em 1886 na completa obscuridade. Se isso aconteceu com uma grande poeta e gênio, as agruras de uma mera professora universitária foram certamente insignificantes!

Quando Sexual Personae foi lançado, fiquei subitamente no meio de uma tempestade. O feminismo estava travando uma guerra cultural com pornografia, assédio sexual e liberdade de expressão, e a elite acadêmica havia se tornado dominada pelo pós-estruturalismo, que eu detesto. Então, durante vários anos, fiquei envolvida em combates constantes em jornais e revistas e na televisão. Foi uma transição muito estranha e abrupta para a fama, porém eu estava preparada para isso devido à minha longa pesquisa sobre escândalos e controvérsias de Hollywood. Eu venci meus oponentes graças à minha habilidade de falar diretamente ao público através de “sound bites” (expressões de efeito que agora aparecem em muitos dicionários de citações) condensados, epigramáticos e divertidos. Quando revistas que publicariam matérias sobre mim enviavam fotógrafos, eu adotava poses “padrão” para transmitir minhas ideias ao público de uma forma dramática, assim subvertendo qualquer negatividade e parcialidade que pudessem ser encontradas no próprio artigo. Por exemplo, para a revista People, posei como uma lutadora de rua segurando um canivete em um túnel escuro. Era completamente inédito professoras nos seus 40 anos de idade encenando quadros como esses, mas eu estava imitando as táticas travessas do “teatro de rua” de ativistas políticos nos anos 1960, como os Yippies.

Contudo, apesar da minha imagem pública controversa, recebi pouquíssimas “mensagens de ódio”. De fato, nestes 22 anos em que tenho sido uma pessoa pública, duvido que tenha recebido mais de 10 cartas negativas – e a maioria delas era curta e não assinada. É como se as pessoas estivessem com medo de provocar uma guerreira amazona italiana! Ao invés disso, houve uma enxurrada de cartas de fãs, especialmente depois que apareci na televisão. Isso pode parecer lisonjeiro, no entanto muitas vezes me deixou bastante desconfortável. Por exemplo, recebi cartas de 16 páginas de pessoas aprisionadas, ou um homem no Havaí que enviou um envelope todos os dias durante duas semanas. Não achei agradável me tornar o foco de fantasia e obsessão – que estrelas de cinema, é claro, enfrentam em um nível milhares de vezes pior. Como estudiosa da história de Hollywood, achei interessante experimentar esse processo de dentro, porém, após três anos intensos nos olhos do público, eu me retirei dessa grande visibilidade. Valorizo muito minha privacidade. Exceto por me mudar de um apartamento apertado, de dois quartos, em um sótão para uma pequena casa, minha vida é exatamente a mesma agora como era antes de eu me tornar subitamente reconhecida, em 1990. Eu evitei o agito de Nova York e Washington e me concentrei em ensinar e escrever na Filadélfia. Apesar de trabalhar na cidade, vivo no subúrbio porque preciso ver a natureza todo dia!

Pós-estruturalistas acreditam que o gênero é uma construção social refratada através da linguagem. Então o que dizer dos hormônios? Você acha que nascemos como folhas em branco nas quais a sociedade inscreve tudo? Então, nesse caso, poderia a homossexualidade ser uma escolha e, portanto, curável através de terapia ou aconselhamento religioso?

CP: Os hormônios são uma força extremamente poderosa no desenvolvimento humano. A cada ano, a ciência faz mais e mais descobertas sobre a base genética de traços de personalidade. Nenhum dos principais acadêmicos pós-estruturalistas estudou biologia, neurologia ou genética, que estão completamente ausentes de sua visão de mundo estreitamente linguística. Na primeira página de Sexual Personae, digo que a sexualidade é “uma interseção complexa de natureza e cultura”. O ambiente social realmente desempenha um papel importante na forma como definimos e expressamos o sexo. Porém, há certas características duradouras da masculinidade e feminilidade que têm uma base biológica.

A homossexualidade é certamente uma “escolha” na medida em que voluntariamente escolhemos nos envolver em qualquer ato sexual. No entanto, a pessoa pela qual nos apaixonamos pode não ser questão de escolha. É algo profundamente impresso dentro de uma constelação de impressões e influências da primeira infância. Acredito que haja um forte componente psicológico na homossexualidade, mas agora é impossível discutir essa questão porque ativistas gays furiosamente insistem que a homossexualidade é inata. Essa posição ideológica extrema me preocupa, porque pode levar a homossexualidade a algum dia ser definida por fascistas semelhantes a Hitler como uma defeito de nascença que precisa de extermínio em massa. Quanto à terapia ou aconselhamento como “cura”, não vejo nada de errado em alguém tentar mudar a sua própria orientação sexual. Seria detestável forçar uma cura assim em um indivíduo contra sua vontade, porém todos devem possuir liberdade de escolhas na vida, sem pressão de figuras religiosas moralistas ou de ativistas políticos fanáticos.