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Pina, de Wim Wenders

08 de abril de 2012 0

“Dancem, dancem: de outra forma estaremos perdidos”. Com este apelo, meio repto, meio lamento, testemunho gravado da legendária dançarina e coreógrafa alemã, conclui-se o magnífico documentário Pina, de Wim Wenders, um dos mais importantes cineastas da atualidade. Quem é Pina Bausch? Ela misturou dança e teatro, criando uma nova linguagem. Usou o corpo como discurso, para expressar, mediante movimentos minimalistas, gestos desconstruídos, repetitivos, a essência profunda e imediata de sentimentos, de elegias e tensões. Usou o corpo como tinta e pincel, para desenhar exuberantes quadros em movimento. Pina é teatro, é dança, é poesia, é escultura, é pintura… Ela está sem dúvida no rol dos mais influentes e importantes artistas do século XX.

Quem espera de Wim Wenders um documentário formal, que conta uma historinha a partir de um narrador central, vai se surpreender. Pina é um filme a um tempo impressionista, a um tempo expressionista. É a impressão de um artista, cuja base é o expressionismo, captada por outro. Wenders dialoga com o método e a estética da artista, usando a linguagem fílmica. É próprio do seu acento pessoal a capacidade de captar a essência identitária de cada local, de cada paisagem. E, partindo da dança de Pina, isso ele faz magistralmente, seja filmando num palco, seja reproduzindo o making off e os ensaios de uma peça, seja transportando a coreografia de Pina Bausch para ambientes insólitos, como uma pedreira abandonada, um riacho, o interior de um trem urbano, ou uma avenida no coração de uma cidade. Se Pina trazia elementos como a terra, a água, a pedra para o palco, Wim leva suas coreografias para o ambiente urbano e para a natureza, com forte acento modernista. As tomadas foram todas feitas na cidade de Wuppertal e arredores, onde fica a sede da companhia de Pina Bausch, o Tanztheater Wuppertal.

O documentário parece não ter início, nem meio, nem fim. É uma seqüência de extratos de algumas das peças mais conhecidas de Pina, fragmentos de ensaios, coreografias. A técnica do 3D enfatiza a dramatização de cada passo, transportando o espectador para o assento de uma platéia em um teatro, ou mesmo para o coração da cena. A costura entre um fragmento e outro se dá por depoimentos pungentes dos dançarinos do Tanztheater. Coletados na língua mãe de cada um, ajudam a acessar uma exegese para o método de Pina, profundamente subjetivo, delicadamente técnico, construído colaborativamente, em permanente interação com cada um dos membros da companhia. Não há no documentário uma narrativa sobre a vida de Pina, que nasceu em 1940, estudou na Julliard de Nova Iorque e morreu em 2009, vítima de um câncer avassalador, provavelmente ligado a anos de um tabagismo pesado.

Wenders começou a conceber o documentário, com a colaboração da própria Pina, quando ela ainda estava viva. Sua morte inesperada quase implicou no cancelamento da produção, mantida apenas graças à mobilização dos membros do Tanztheater, o que faz deles não apenas personagens e depoentes no documentário, mas também co-artífices do trabalho. Para uma artista colaborativa como Pina, a fórmula revelou-se mais do que pertinente. A pulsão melancólica fica por conta da sobreposição de áudio das entrevistas com a imagem dos depoentes olhando para a câmara, sem falar. Essa aparente desconexão dialoga em sintonia com o espírito pictórico do documentário, contornando o tom jornalístico que as entrevistas gravadas normalmente têm.

O filme começa com a versão de Pina para “Le sacre du Printemps”, balé seminal de Igor Stravinsky. Com uma estrutura rítmica complexa, recheada de timbres e dissonâncias, esta obra prima condensa a primavera da música e da dança modernas, tendo sido coreografada pela primeira vez por Nijinsky. O extrato final é da peça Vollmond (lua cheia). São magníficas as imagens feitas do palco inundado de água, em uma piscina preta, tendo uma enorme pedra ao centro. O contraste foi bem dimensionado para revelar o profundo investimento de Pina na beleza e na ferocidade da natureza, como na capacidade ilimitada do corpo humano para a expressão. Vollmond foi a última criação de Pina.

Em uma de suas sínteses que ecoam, Pina disse não estar interessada em como as pessoas se movimentam, mas naquilo que faz com que se movam. O que lhe serve então por inspiração é extraordinariamente próximo a cada um de nós. Um universalismo em interface com cada indivíduo. A alma e a identidade de cada dançarino impregnam os passos e conformam os movimentos com feições únicas. De cada dançarino ela extrai uma forma específica. Assim, adolescentes e idosos partilham o palco com profissionais cheios de vitalidade técnica. Porque a técnica não se impõe ao corpo, mas brota a partir da alma, ajustando-se ao corpo, ampliando sua capacidade de expressão.

O filme de Wenders é um tributo a essas pessoas que se expressam pelo corpo, uma imersão pungente na estética e no método de Pina. É imperdível!

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