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O porto, Le Havre

27 de maio de 2012 0

Um filme sobre um porto, sobre a esperança e sobre a amizade. Assim foi descrito “O Porto”, do diretor finlandês Aki Kaurismäki, agraciado com o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 2011. Talvez. Mas acho que a sua essência temática está em certas sutilezas e nos silêncios, isto é, naquilo que não é mostrado, que não é dito, que resta implícito, ou escondido nas sombras.

Podia ser mais feliz a tradução do título em português, pois Le Havre (original em francês) é muito mais do que um porto. Trata-se de uma cidade emblemática. É um dos maiores portos da Europa e ponto de partida da rota atlântica: de lá saíam muitos navios que seguiam para Nova Iorque ou para a América do Sul. Boa parte dos antepassados dos descendentes de alemães, judeus, italianos, eslavos, etc que vivem no Brasil deixaram o Velho Mundo pelo Le Havre…

Os habitantes locais eram muito orgulhosos de sua cidade, pontilhada de prédios elegantes e animada por uma burguesia dinâmica e empreendedora. Há traços desse tempo áureo na coleção de magníficos quadros impressionistas do Museu André Malraux, um dos mais importantes museus de arte franceses fora de Paris, cujo acervo foi em grande parte constituído a partir de coleções privadas locais.

A cidade foi destruída pela aviação inglesa, já no final da segunda Grande Guerra. Para os ingleses, tratava-se de um golpe incontornável a ser bramido contra a ocupação nazista. Mas, segundo se comenta a boca pequena ainda hoje por lá, não havia necessidade de tamanha hecatombe, vez que os nazistas já então se achavam combalidos. Não só o porto, mas toda a cidade foi posta abaixo. Do ponto de vista econômico, entretanto, o arrasamento do segundo mais importante porto de mar francês aproximou a França e a Inglaterra, cuja infraestrutura estava em frangalhos pelos constantes bombardeios nazistas. Por mais paradoxal que possa parecer, em jogo estaria já a reconstrução e a retomada democrática pós-Guerra…

Então, se há um lugar na França aonde você terá dificuldades de encontrar alguém elogiando os ingleses será no Le Havre, justamente o grande porto que está do outro lado do Canal da Mancha, ou English Channel, como preferem os ingleses, ou Mor Breizh, como querem os bretões, num indício das rivalidades que agitaram a região. Não que as pessoas queixem-se abertamente…

Um silêncio sugerido com delicadeza na pergunta que o protagonista, um velho hippie decadente que ganha a vida como engraxate, faz ao jovem africano imigrante ilegal que chega ao porto num container – porque você quer chegar a Londres? O que há lá? É a mãe que ele tenta encontrar, mas também a promessa de uma vida menos sofrida do que a conhecida numa África convulsionada por guerras civis e jugulada pela pobreza.

Sim, a guerra, que foi marca contundente no Havre… Depois de mais de 12 mil prédios destruídas pelas forças aliadas, a cidade, mais de 90% dela em ruínas, precisou ser reerguida. Urgia acolher as pessoas (eram 80 mil os desabrigados) e não havia nem tempo nem bases para uma restauração minuciosa. Destarte, chamou-se o arquiteto modernista Auguste Perret para conceber uma nova urbe. O Havre tem assim a peculiar característica de ser uma cidade planejada e com arquitetura moderna encravada no continente europeu.

Um eixo triangulando o Boulevard François I, a Avenida Foch e a Rue de Paris converge desimpedido para centro. A área comercial da Rue de Paris foi redesenhada com passeios e marquises largos. A Place de l’Hotel de Ville, a praça central, é cercada de refinadas habitações. Os apartamentos inovaram: amplos, calefados, continham mobiliário básico embutido (o que era importante, pois as pessoas haviam perdido tudo na guerra), atualizavam as tradicionais janelas francesas e todos possuíam generosa orientação solar.  O conjunto, com algumas torres se projetando, forma uma bela vista para quem chega pelo mar. Segundo se diz, Perret inspirou-se no skyline de Nova Iorque, cidade que se ligava ao Havre pela rota do Atlântico.

Dentre os principais edifícios públicos projetados por Perret incluem-se o Hotel de Ville, a Bourse du Commerce, e as igrejas de Saint Michel e Saint Joseph. Esta, com sua torre de 110 metros de altura, é um memorial para os mais de 5 mil mortos durante a Guerra. Há muitos parques, jardins e bosques, com uma média de 41 metros quadrados de espaço verde por habitante.

Perret baseou a concepção dos edifícios e espaços abertos em um módulo quadrado de 6.24m, o que permitiu acelerar a construção e conferiu à cidade uma harmonia semelhante àquela do Bairro da Baixa em Lisboa, área igualmente planejada, reconstruída depois do terremoto de 1755. O modernismo de Perret dialogou com o neoclássico, patente nas sacadas e aberturas. Novidade foi um uso vanguardista do concreto armado. A estrutura dos prédios é quase aparente e a arquitetura tem uma incrível uniformidade, mas que não é de forma alguma tediosa. O traçado é elegante e cartesiano, as cores sóbrias.

Para brasileiros acostumados com Brasília, é uma cidade lindíssima. Mas os franceses, aferrados ao estilo neoclássico, torceram o nariz por muitos anos. Não era difícil encontrar um disposto a afirmar com convicção ser o Havre a mais feia cidade da França. Esse mau humor só começou a ceder quando a cidade foi tombada como patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 2005.

Nada disso, entretanto, é mostrado no filme. A ação se desenrola num dos poucos pontos da cidade velha que não foi arrasado, um antigo bairro de pescadores que se localiza junto ao porto. Quem não conhece o Havre e assiste ao filme, tem a sensação de que se trata de uma cidade simples, pequena e antiga. Apenas na última cena, quando um barco zarpa em direção ao Canal da Mancha, tem-se um vislumbre do magnífico skyline.

A conversa entre os frequentadores de um café no início do filme talvez dê uma pista das opções do diretor. As pessoas bebericam num balcão e divergem sobre marcas identitárias de normandos, bretões, etc… Uma remissão ao velho jeito de ser francês, insulado nas poucas quadras antigas de uma cidade projetada. Um modo de vida soterrado, que subsiste nas fímbrias da sociedade, talvez amparado em estereótipos ou lembranças de vivências pretéritas. Os enquadramentos revelando fachadas azuis e vermelhas das pequenas casinhas antigas contrastam com o não dito dos tons pastéis da majestosa Havre planejada.

A aura de fábula melancólica é reforçada pelo desempenho peculiar dos atores, com expressões neutras e diálogos recitados, quase como se fossem zumbis, meio vivos, meio mortos. O recurso a situações de apelo, piegas, longe de ridicularizar o filme, reforça o tom fabular, irrealista.

A rotina modorrenta é quebrada pela chegada do jovem imigrante ilegal Idrissa. A desdita do menino sensibiliza Marcel, o velho engraxate hippie, e detona uma rede de solidariedade entre vizinhos para escondê-lo da polícia. Aos poucos, o humor vai se instalando na narrativa que, apesar de melancólica, não é de modo algum pesada. A piedade permite a identificação com o Outro, convertido magicamente em semelhante pela solidariedade, cimentada às margens da lei, em brechas de contravenção, exigindo um esforço de adaptabilidade que provoca o riso, incensando o humor. E aí se desencadeia a renovação do que estava encanecido, desidratado e moribundo.

Culturas ossificadas, sugere o filme, se renovam a partir do contato com o Outro, assim como a velhice se reanima pelo contato com a infância e a juventude. Ali, além disso, a solidariedade se estabelece entre marginalizados e é capaz de comover até agentes da lei, cujo humanismo pode assim falar mais alto do que a letra fria da norma baseada na intolerância. E é justamente o hippie quem funciona como ponte entre o Outro e a comunidade mumificada, como se o diretor reclamasse para a herança esfumada da Contracultura o condão da renovação pela interculturalidade numa modernidade que de algum modo se tornou estéril. É sintomático que a beleza do Havre é descortinada ao espectador apenas como imagem ao fundo, na cena final, quando o jovem Idrissa consegue escapulir, graças à solidariedade das pessoas que viviam insuladas na vila dos pescadores. Mais do que um filme sobre a solidariedade ou sobre a amizade, trata-se de uma fábula sobre a mobilidade e a necessidade de contato entre os povos e as culturas.

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