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Posts de maio 2012

O porto, Le Havre

27 de maio de 2012 0

Um filme sobre um porto, sobre a esperança e sobre a amizade. Assim foi descrito “O Porto”, do diretor finlandês Aki Kaurismäki, agraciado com o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 2011. Talvez. Mas acho que a sua essência temática está em certas sutilezas e nos silêncios, isto é, naquilo que não é mostrado, que não é dito, que resta implícito, ou escondido nas sombras.

Podia ser mais feliz a tradução do título em português, pois Le Havre (original em francês) é muito mais do que um porto. Trata-se de uma cidade emblemática. É um dos maiores portos da Europa e ponto de partida da rota atlântica: de lá saíam muitos navios que seguiam para Nova Iorque ou para a América do Sul. Boa parte dos antepassados dos descendentes de alemães, judeus, italianos, eslavos, etc que vivem no Brasil deixaram o Velho Mundo pelo Le Havre…

Os habitantes locais eram muito orgulhosos de sua cidade, pontilhada de prédios elegantes e animada por uma burguesia dinâmica e empreendedora. Há traços desse tempo áureo na coleção de magníficos quadros impressionistas do Museu André Malraux, um dos mais importantes museus de arte franceses fora de Paris, cujo acervo foi em grande parte constituído a partir de coleções privadas locais.

A cidade foi destruída pela aviação inglesa, já no final da segunda Grande Guerra. Para os ingleses, tratava-se de um golpe incontornável a ser bramido contra a ocupação nazista. Mas, segundo se comenta a boca pequena ainda hoje por lá, não havia necessidade de tamanha hecatombe, vez que os nazistas já então se achavam combalidos. Não só o porto, mas toda a cidade foi posta abaixo. Do ponto de vista econômico, entretanto, o arrasamento do segundo mais importante porto de mar francês aproximou a França e a Inglaterra, cuja infraestrutura estava em frangalhos pelos constantes bombardeios nazistas. Por mais paradoxal que possa parecer, em jogo estaria já a reconstrução e a retomada democrática pós-Guerra…

Então, se há um lugar na França aonde você terá dificuldades de encontrar alguém elogiando os ingleses será no Le Havre, justamente o grande porto que está do outro lado do Canal da Mancha, ou English Channel, como preferem os ingleses, ou Mor Breizh, como querem os bretões, num indício das rivalidades que agitaram a região. Não que as pessoas queixem-se abertamente…

Um silêncio sugerido com delicadeza na pergunta que o protagonista, um velho hippie decadente que ganha a vida como engraxate, faz ao jovem africano imigrante ilegal que chega ao porto num container – porque você quer chegar a Londres? O que há lá? É a mãe que ele tenta encontrar, mas também a promessa de uma vida menos sofrida do que a conhecida numa África convulsionada por guerras civis e jugulada pela pobreza.

Sim, a guerra, que foi marca contundente no Havre… Depois de mais de 12 mil prédios destruídas pelas forças aliadas, a cidade, mais de 90% dela em ruínas, precisou ser reerguida. Urgia acolher as pessoas (eram 80 mil os desabrigados) e não havia nem tempo nem bases para uma restauração minuciosa. Destarte, chamou-se o arquiteto modernista Auguste Perret para conceber uma nova urbe. O Havre tem assim a peculiar característica de ser uma cidade planejada e com arquitetura moderna encravada no continente europeu.

Um eixo triangulando o Boulevard François I, a Avenida Foch e a Rue de Paris converge desimpedido para centro. A área comercial da Rue de Paris foi redesenhada com passeios e marquises largos. A Place de l’Hotel de Ville, a praça central, é cercada de refinadas habitações. Os apartamentos inovaram: amplos, calefados, continham mobiliário básico embutido (o que era importante, pois as pessoas haviam perdido tudo na guerra), atualizavam as tradicionais janelas francesas e todos possuíam generosa orientação solar.  O conjunto, com algumas torres se projetando, forma uma bela vista para quem chega pelo mar. Segundo se diz, Perret inspirou-se no skyline de Nova Iorque, cidade que se ligava ao Havre pela rota do Atlântico.

Dentre os principais edifícios públicos projetados por Perret incluem-se o Hotel de Ville, a Bourse du Commerce, e as igrejas de Saint Michel e Saint Joseph. Esta, com sua torre de 110 metros de altura, é um memorial para os mais de 5 mil mortos durante a Guerra. Há muitos parques, jardins e bosques, com uma média de 41 metros quadrados de espaço verde por habitante.

Perret baseou a concepção dos edifícios e espaços abertos em um módulo quadrado de 6.24m, o que permitiu acelerar a construção e conferiu à cidade uma harmonia semelhante àquela do Bairro da Baixa em Lisboa, área igualmente planejada, reconstruída depois do terremoto de 1755. O modernismo de Perret dialogou com o neoclássico, patente nas sacadas e aberturas. Novidade foi um uso vanguardista do concreto armado. A estrutura dos prédios é quase aparente e a arquitetura tem uma incrível uniformidade, mas que não é de forma alguma tediosa. O traçado é elegante e cartesiano, as cores sóbrias.

Para brasileiros acostumados com Brasília, é uma cidade lindíssima. Mas os franceses, aferrados ao estilo neoclássico, torceram o nariz por muitos anos. Não era difícil encontrar um disposto a afirmar com convicção ser o Havre a mais feia cidade da França. Esse mau humor só começou a ceder quando a cidade foi tombada como patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 2005.

Nada disso, entretanto, é mostrado no filme. A ação se desenrola num dos poucos pontos da cidade velha que não foi arrasado, um antigo bairro de pescadores que se localiza junto ao porto. Quem não conhece o Havre e assiste ao filme, tem a sensação de que se trata de uma cidade simples, pequena e antiga. Apenas na última cena, quando um barco zarpa em direção ao Canal da Mancha, tem-se um vislumbre do magnífico skyline.

A conversa entre os frequentadores de um café no início do filme talvez dê uma pista das opções do diretor. As pessoas bebericam num balcão e divergem sobre marcas identitárias de normandos, bretões, etc… Uma remissão ao velho jeito de ser francês, insulado nas poucas quadras antigas de uma cidade projetada. Um modo de vida soterrado, que subsiste nas fímbrias da sociedade, talvez amparado em estereótipos ou lembranças de vivências pretéritas. Os enquadramentos revelando fachadas azuis e vermelhas das pequenas casinhas antigas contrastam com o não dito dos tons pastéis da majestosa Havre planejada.

A aura de fábula melancólica é reforçada pelo desempenho peculiar dos atores, com expressões neutras e diálogos recitados, quase como se fossem zumbis, meio vivos, meio mortos. O recurso a situações de apelo, piegas, longe de ridicularizar o filme, reforça o tom fabular, irrealista.

A rotina modorrenta é quebrada pela chegada do jovem imigrante ilegal Idrissa. A desdita do menino sensibiliza Marcel, o velho engraxate hippie, e detona uma rede de solidariedade entre vizinhos para escondê-lo da polícia. Aos poucos, o humor vai se instalando na narrativa que, apesar de melancólica, não é de modo algum pesada. A piedade permite a identificação com o Outro, convertido magicamente em semelhante pela solidariedade, cimentada às margens da lei, em brechas de contravenção, exigindo um esforço de adaptabilidade que provoca o riso, incensando o humor. E aí se desencadeia a renovação do que estava encanecido, desidratado e moribundo.

Culturas ossificadas, sugere o filme, se renovam a partir do contato com o Outro, assim como a velhice se reanima pelo contato com a infância e a juventude. Ali, além disso, a solidariedade se estabelece entre marginalizados e é capaz de comover até agentes da lei, cujo humanismo pode assim falar mais alto do que a letra fria da norma baseada na intolerância. E é justamente o hippie quem funciona como ponte entre o Outro e a comunidade mumificada, como se o diretor reclamasse para a herança esfumada da Contracultura o condão da renovação pela interculturalidade numa modernidade que de algum modo se tornou estéril. É sintomático que a beleza do Havre é descortinada ao espectador apenas como imagem ao fundo, na cena final, quando o jovem Idrissa consegue escapulir, graças à solidariedade das pessoas que viviam insuladas na vila dos pescadores. Mais do que um filme sobre a solidariedade ou sobre a amizade, trata-se de uma fábula sobre a mobilidade e a necessidade de contato entre os povos e as culturas.

Simpósio sobre o Centenário do Contestado - Florianópolis - 29 de maio a 1º de junho de 2012

23 de maio de 2012 0

A Universidade Federal de Santa Catarina está promovendo um simpósio sobre a Guerra do Contestado, com uma ótima programação. Para quem se interessa pelo tema e pode estar em Florianópolis no final de maio, fica aí a dica.

Terça-feira, dia 29 de maio de 2012

8:00 às 12h e das 14 às 18h

Auditório da Reitoria da UFSC


Inscrições de ouvintes e Credenciamento de participantes

9:00h Cerimônia de abertura

Auditório da Reitoria da UFSC


9:40 às 11:50h

Conferência I

Abertura:

Prof. Dr. Alexandre Karsburg (UFRJ) O EREMITA DO NOVO MUNDO.  A odisseia de um monge peregrino na América Católica do século XIX.

11:50 às 14h

Intervalo

14:00h às 15:50h

Auditório da Reitoria da UFSC

Mesa 1:

Território, povoamento e conflitos.

Dr. Paulo Afonso Zarth (UNIJUÍ) e Dr. Marcio Antônio Both da Silva (UFFS/Unioeste). Religiosidade popular, autoridade constituída e conflitos no sul do Brasil (1860-1930).

Dr. Milton Cleber Pereira Amador (UNC). Colonização de Concórdia e a expulsão dos caboclos.

16:00h às 17:50h

Auditório da Reitoria da UFSC


Mesa 2:

Economia e sociedade

Dr. Nazareno Campos (UFSC)e Dr. Pablo Martin Bender (UNL- Argentina) Região do Contestado e Noroeste Santafesino no inicio do século XX: grandes capitais transformando a realidade socioeconômica e ambiental.

Ms. Alexandre Assis Tomporoski. (UFSC).Do antes ao depois: a influência da Lumber Company para a deflagração do movimento sertanejo do Contestado e seu impacto sobre a região fronteiriça entre Paraná e Santa Catarina. Três Barras, 1911-1960.

Dr. Antonio Marcos Myskiw (UFFS). A Colônia Bom Retiro (Pato Branco/PR) e sua relação com o êxodo camponês da região do Contestado.

17:50 – 19:00h

Intervalo

19:00 às 21:50h

Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH

Conferência II

Dra. Márcia Janete Espig (UFPEL).  Uma ferrovia estratégica? A atuação da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande durante a Guerra do Contestado.



Quarta-feira, dia 30 de maio de 2012

8:30  às 10:50h

Auditório da Reitoria da UFSC

Mesa 3  Campesinato e Colonização

Dr. Paulo Pinheiro Machado (UFSC). Terras e colonização no planalto e a questão do Contestado.

Dr. Flavio Braune Wiik (UEL). O Contestado e seu impacto sobre modos e regimes de relação Homem-Natureza entre os Kaingang da Terra Indígena Xapecó – SC.


Dr. José Carlos Radin e Dr. Delmir José Valentini (UFFS) O Contestado e a expansão da colonização.

Ms. Soeli Regina Lima (UNESPAR). Capital transnacional na região do Contestado: um estudo de caso da Southem Brazil Lumber and Colonization Company.

11:00 às 11:50h

Auditório da Reitoria da UFSC

Conferência III


Dr. César Hamilton Brito de Góes (UNISC). Nos caminhos do Santo Monge: religião, sociabilidade e lutas sociais no sul do Brasil.


11:50 às 14h

Intervalo

14:00 às 15:50h

Auditório da Reitoria da UFSC

Mesa 4


Saúde e profetismo popular

Dra. Nikelen Acosta Witter  (UNIFRA). O Poder social da cura: uma análise cultural.

Prof. Rui Bragado Sousa (UEM). Entre o céu e a terra: messianismo e materialismo no conflito do Contestado (1912-1916).


16:00 às 17:50h

Auditório da Reitoria da UFSC

Mesa 5

Historiografia do Contestado

Dr. Claiton Marcio da Silva (UFFS). “Uma Guerra Desconhecida”(?): disputas simbólicas, ressigni-ficações sobre a memória do Contestado (1970-2011).


Dra. Ivone Gallo  (Unicamp). Os Contestados: suas histórias, suas fontes e suas ficções.

17:50 às 19:00h

Intervalo

19:00h  Saguão do Bloco de aulas do CFH.

Lançamento de livros dos participantes do Simpósio

20:00 às 21:50h

Conferência  IV

Auditório do CFH.


Dra. Jacqueline Hermann (UFRJ). Messianismo e Sebastianismo no Brasil e no Contestado.





Quinta-feira, dia 31 de maio de 2012

9:00 às 11:50h

Mesa 6

Imaginação, santificação e cultura popular

Dra. Susan Aparecida de Oliveira (UFSC) Tramas entre memórias e imaginário colonial: as vidas de santos e os relatos sobre os monges do Contestado.


Prof. Celso Viana Bezerra de Menezes (UEL) Rituais de Devoção: Dádivas no Messianismo do Contestado.

Ms. Henrique Aniceto Kujawa  (UNO-CHAPECÓ).  Representações e Resignificações do Monge João Maria na construção do Movimento dos Monges Barbudos.


11:50 às 14:00h

Intervalo

14:00 as 15:50h

Mesa 7

Religiosidade e representação

Prof. Fernando Tokarski (UnC). A ermida de São João Maria e a invenção de Santa Emídia.

Dra. Tânia Welter (UFFS).Discursos e interpretações contemporâneos em torno do Profeta São João Maria.


16:00 às 17:50h

Mesa 8

Fontes especiais: O Contestado na arte e na arqueologia

Dr. Delmir José Valentini (UFFS) e Prof. Gerson Witte (IFSC) Hassis e o Contestado – Terras Contestadas.

Dra. Rita Inês Petrykowski Peixe (UNIVILLE e UNOESC) A crônica visual (re)constrói um conflito?


Ms. Jaisson Teixeira Lino (UFFS). Monges sacralizando a paisagem: grutas, fontes d’água e outras formações naturais no viés da arqueologia do sagrado.

17:50 às 19:00h

Intervalo

19:00 às 21:50h

Auditório do CFH

Conferência V

Profa. Dra. Márcia Maria M. Motta (UFF) Terras: ocupação e conflito no início da República.






Sexta-feira, dia 1º  de junho de 2012

9:00 às 11:50h

Auditório da Reitoria da UFSC

Mesa 9

Guerra e História

Ms. Alexandre dos Santos e Dra. Noeli Weschenfelder (UNIJUÍ) A Guerra do Contestado no cinema e no ensino de História através da obra A Guerra dos Pelados.


Dr. Geraldo Antônio da Rosa (UNIPLAC) Panorama da Educação na Região do Contestado após cem anos da Guerra do Contestado.

Ms. Cláudio Calaza (UNIFA) Aviões no Contestado: descortinando um emprego inédito.

Ms. Juçara Nair Wolff (PUC-RS). Colônia Militar de Chapecó: economia de bens, pessoas e leis. 1882-1909.


11:50 às 14h

Intervalo

14:00 às 16h

Auditório da Reitoria

Conferência de Encerramento

Dr. Rogério Rosa Rodrigues (UDESC). A guerra, a memória, a história: os historiadores de farda e a escrita da história do Contestado


Promoção:

Programa de Pós-Graduação em História – Universidade Federal de Santa Catarina

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

PET-História – UFSC

Universidade Federal da Fronteira Sul

Programa de Pós-Graduação em História – Universidade Federal de Pelotas

CAPES

Memorial do Ministério Público de Santa Catarina


Informações:

centenariocontestado@gmail.com e   http://simpsiocentenriocontestado1912-2012.blogspot.com.br/

Inscrições de ouvintes:

Na antessala do auditório da Reitoria da UFSC, a partir das 8h do dia 29 de maio.

Chamada para trabalhos (até 31 de maio) - Simpósio Internacional de História Pública - USP

13 de maio de 2012 0

Achei bem interessante a proposta desse evento na USP. O encontro pretende discutir múltiplas faces da relação entre o ofício do historiador e o espaço público, para além das fronteiras acadêmicas convencionais. Já não era sem tempo desse tema ser encampado pelo debate acadêmico no Brasil! Veja aí.


CHAMADA PARA TRABALHOS
Chamada para trabalhos com conteúdo histórico em múltiplos formatos
Até 31 de maio de 2012
• Comunicação oral • Pôster • Vídeo documentário
• CD-Rom • Blog • Podcast • Documentário sonoro
• Conversas sobre livros • Site • Rede social
• Apresentação artística • Painéis coletivos
• Relato de experiência • Artigo jornalístico
• Fotografia • Ficção histórica • Portal ATIVIDADES PROGRAMADAS
Sessão plenária
• História pública no século XXI
com Michael Frisch (University at Buffalo, The State University of New York)
Mesas redondas • Qual o papel do intelectual público?
• Qual o papel da história diante da demanda pública por memória?
• Como a informática tem transformado o ofício do historiador?
• Quanto de história há na literatura histórica?
• O que o mercado editorial espera da história?
• A história em revista: Publicação ou divulgação?
• Arquivos e museus são lugares da memória pública?
• Quanto de história pública há na educação histórica?
• História em imagens: Visualidade é credibilidade?
Painéis • Memórias em movimento: Audiovisual e a escrita da história pública
• Perspectivas internacionais sobre a história pública Oficinas • Elaboração de projetos culturais
• Narrativa em novas mídias
• Introdução ao roteiro de documentário
• Narrativas fotográficas
• Documentário radiofônico
• História oral e história pública
• História digital e mídias sociais
• Direitos autorais para história pública e outras atividades REALIZAÇÃO

Núcleo de Estudos em História da Cultura Intelectual (NEHCI-USP)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo
historiaintelectualusp@gmail.com

INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES

Gilberto Freyre e o elogio da mestiçagem

12 de maio de 2012 3

Gilberto de Mello Freyre (1900-1987) nasceu em uma família da elite patriarcal do Estado de Pernambuco, tradicional zona de colonização portuguesa e de cultura de cana de açúcar. Em 1922, publicou dissertação na Hispanic American Historical Rewiew, conquistando o grau de Master in Arts. Na Columbia University, foi orientado por Franz Boas, sua referência intelectual mais explícita. Sua obra é vasta e multipremiada.

Por meio de seu poderoso livro de estreia, “Casa Grande e Senzala”, publicado em 1933, propôs formulações intuitivas no modo de fazer ciência, aproximando-a da literatura e diluindo a distância entre o conhecimento erudito e o cotidiano. Acolheu uma proposta radicalmente interdisciplinar. Segundo o historiador Peter Burke, mostrou-se como uma verdadeira esponja intelectual, absorvendo o que lhe parecia pertinente de outras disciplinas, sem estabelecer hierarquias entre elas. Para Freyre a Sociologia é a mais dependente de todas as ciências e absolutamente indissociável da História.

Freyre elegeu o cotidiano como seu objeto de estudo. Sua narrativa pulsa em torno dos rituais do dia-a-dia, da música, da dança, dos costumes, tempera-se pela libido, os sabores, as falas. A natureza assoma com protagonismo no seu sistema teórico. Há uma efusão de sexualidade que permeia seu texto. A todo o instante, propõe conexões palpitantes, desconcertantes, tais como perceber a sensualidade contida num pequeno doce elaborado por receitas secretas de conventos; identificar o caráter sadomasoquista na relação senhor e escravo e derivar daí uma compreensão do sistema político patriarcal; ou, ainda, a correlação entre vida na floresta, guerra de guerrilha e de movimento (como a bramida contra os invasores holandeses no século XVII) e a ginga do futebol-arte, cujo apogeu foi encarnado por Garrincha e Pelé.

Nesse sentido, o conhecimento oportunizado pelas bibliotecas e arquivos estaria no mesmo plano, por exemplo, das receitas culinárias. Colocou-se na contramão do pessimismo reinante nas Ciências Sociais de sua época no que tange às interpretações sobre o Brasil, mostrando-se por vezes desbragadamente otimista.

Freyre absorveu as lições da École des Annalles, que modernizou a História no início do século XX, operando com múltiplas temporalidades, como fizera Ferdinand Braudel. Para Freyre, é diferente o ritmo das transformações da política, das mentalidades, dos costumes, da geografia. Para Gilberto Freyre, assim como para Câmara Cascudo e Mário de Andrade, a identidade nacional brasileira está fortemente marcada pela cultura popular. Para ele, contudo, a questão da cultura regional adquire centralidade.

Mas deve muito também aos que o precederam. O etnólogo bávaro Carlos Frederico Felippe von Martius, no artigo seminal “De como se deve escrever a história do Brasil”, publicado em 1845 na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, já havia destacado a importância de se perceber a contribuição do negro e do índio, juntamente com o branco, para a formação da brasilidade, adubada por uma síntese única. Francisco Adolpho de Varnhagen, em meados dos anos 1850, propôs o elogio à colonização portuguesa, argumento central na legitimação dos albores do estado nacional independente e quando o mundo espasmava-se sob o tacão da arrogância eurocentrista. João Capistrano de Abreu, em 1902, matizou o conceito de cultura, em detrimento do de raça, bem como cerziu uma história íntima e familiar, valorizando o popular como sujeito social e objeto de pesquisa. Já o Manifesto Antropofágico, de 1928, dos poetas Oswald e Mário de Andrade, foi uma articulada profissão de fé em favor da hibridação aplicada à cultura – que funcionou com uma espécie de certidão de nascimento da modernidade brasileira. E, certamente, não se pode olvidar o magnífico Padre Antônio Vieira, jesuíta do século XVII que arrostou interesses inconfessáveis em defesa da tolerância, elevando sua voz erudita em favor dos índios e judeus no Brasil.

Com sua linguagem coloquial, colada ao cotidiano e avessa a termos técnicos próprios do universo acadêmico formal, o ensaísta Gilberto Freyre chegou a propor uma nova disciplina científica, a tropicologia, que se dedicaria a estudar, por meio de conceitos próprios, as civilizações tropicais. Muito de sua análise é valorativa e sentimental e nem sempre empiricamente comprovável, pois seu método é flagrantemente intuitivo e sensorial, desdobrando-se em metáforas poderosas e poéticas, tais como “a reação vegetal do índio ao homem branco”. De um modo geral, entretanto, visualizou uma preponderância dos fatores culturais sobre o político e o econômico, embasando conceito de identidade em constantes psicossociais a determinarem o desenvolvimento econômico e político.

O conceito de raça revelou-se ansilar em seu método, pois abraçou a apologia da mestiçagem, da qual deriva muito do seu otimismo. Assim como para Martius, o Brasil estaria numa condição vantajosa, vez que fora pioneiro no desenvolvimento de uma meta-raça. Freyre propõe uma história da sociedade, com ênfase nos destinos da família patriarcal, cuja inevitável decadência confere ao seu trabalho certo ar melancólico. O estado, assim, não lhe importa, não lhe interessa, fazendo-se manifestamente ausente em toda a sua vasta obra.

Promovendo o elogio da mestiçagem, da colonização portuguesa e do patriarcalismo, Freyre celebra certa tradição democrática brasileira e idealiza a unidade nacional. Focado na cultura regional nordestina, Freyre, além disso, pareceu não reconhecer grande importância cultural nos estados do sul. Dos gaúchos, chegou a dizer que tinham mais a ver com o “caráter espanhol” do que os luso-brasileiros.

A aceitação de sua obra experimentou declínio, sobretudo a partir dos anos 1960. Contribuíram para isso as posições políticas à direita que assumiu, tais como sua militância na UDN (partido ideologicamente orientado para o liberalismo e avesso ao trabalhismo dos anos 1940), o apoio ao golpe militar de 1964 e a defesa do extemporâneo colonialismo português na África. Foi duramente criticado por ter contribuído para o mito da democracia racial brasileira. Nos anos 1970, impactada pela chamada escola sociológica de São Paulo – na qual pontificavam, dentre outros, Fernando Henrique Cardoso, futuro Presidente do Brasil –, a academia o anatematizou. Ainda assim, há autores, como Roberto Da Matta, que mesmo sem citá-lo, devem muito às suas ideias. Nos anos 1990, diversos intelectuais interessaram-se por uma reabilitação de sua obra e muita coisa vem sendo publicada sobre Freyre desde então.

Em sua obra, a identidade nacional e a modernidade precipitam-se em conflito, mas, no limite, ele acredita na possibilidade de conciliação entre o universal e o arcaísmo regional, em cujo marco seria possível uma modernidade baseada também nas diferenças e capaz de conviver com a multiplicidade cultural. Nesse sentido, afirma-se como um defensor da adaptabilidade e da tolerância, o que, definitivamente, não faz dele um conservador.