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Alguns dilemas do jornalismo, por Gonçalo Tavares: da maçã na encruzilhada ao Ausente no teatro Nô

16 de junho de 2012 0

Dentre os momentos altos do IV Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, no teatro do Tuca, na última semana de maio, em São Paulo, esteve a conferência do escritor português, nascido em Luanda, Gonçalo Tavares. Com 41 anos de idade, Tavares é uma das grandes revelações contemporâneas das letras lusas. Há semanas estou tentando comentar aqui no blog alguns dos livros dele que li, mas sempre e cada vez mais me falta tempo. Então, tomei algumas notas de aspectos que me pareceram interessantes na sua fala e as compartilho aqui com vocês.

A conferência combinou simplicidade e profundidade. Valendo-se de metáforas e imagens poderosas, Gonçalo procurou abordar alguns dos dilemas do jornalismo, o que encantou a plateia com forte presença de estudantes.

Passado, presente e futuro se entrelaçam na experiência da escrita e do fazer jornalismo. De algum modo, sustentou, as gerações de hoje precisam entender os sinais deixados pelas que passaram. Escritores, jornalistas e também historiadores estão entre os profissionais que ajudam a evidenciar estas pistas para o entorno social.

Para Gonçalo, este dilema parece bem representado num antigo hábito cigano: ao chegarem a uma encruzilhada e dobrarem para a direita, deixavam os viajantes uma maçã pousada num moirão próximo, sinalizando o local para os carroções que viriam no encalço. Como a maçã amadureceria durante o tempo em que estivesse ali, tratava-se também de um marco temporal, pois além da rota seguida o estado da maçã indicava há quanto tempo a família passara por aquele local. Os familiares, então, que encontrassem a maçã, poderiam decidir, com livre arbítrio, se tomariam ou não o mesmo rumo, mas abraçariam tal decisão conscientes dos passos seguidos por quem os antecedera. Um pouco como um certo personagem cômico, que, estando numa quarta-feira, de tão vesgo, tinha um olho na segunda-feira e outro no domingo…

Em seguida, Gonçalo observou seguir a civilização ocidental um modelo analítico cartesiano, que recomenda a compreensão de um objeto por extrema aproximação, dividindo-o e analisando-lhe cada pedaço, até se conseguir uma visão do todo. Mas, segundo ele, há outro método de análise, que pressupõe o afastamento. Seria assim também possível perceber-se o todo se afastando do objeto, até que se consiga uma perspectiva mais ampla do mesmo.

Outro dilema do texto jornalístico passa pelo ideal de neutralidade, que se afirma em oposição ao envolvimento com o objeto. No primeiro caso, estaríamos seguindo um princípio estoico, segundo o qual era sábio o homem apático, isto é, desprovido de paixão em relação ao entorno a ser estudado. Bem ao contrário de Baudelaire quando, em uma bela passagem citada na palestra, propugna a embriaguez, de vinho, de poesia, de informação, etc…, enlevo que sugere a fusão do analista com o seu objeto, já que o vinho sorvido deixa de ser um corpo distinto para se fundir com o corpo humano.

Para além da embriaguez e da apatia, coloca-se ainda a relação entre o belo e o feio. Gonçalo se revelou entusiasmado com o projeto de Oscar Niemeyer para o Museu de Niterói. A construção, em formato circular, está disposta em uma península, da qual se enxerga a deslumbrante vista do Rio de Janeiro. Mas não é possível caminhar ao redor de toda a fachada. Ao chegar-se no meio do percurso, o passeio interrompe-se, contrariando o visitante, num primeiro momento, até que este se vê obrigado a virar de volta e então enxerga parte da cidade de Niterói, aliás, uma parte feia da cidade. Então, esta fórmula arquitetônica pareceu-lhe genial, pois joga com o confronto permanente entre o belo e o feio, algo que acompanha e persegue o fazer jornalístico.

Nesse diapasão, Gonçalo Tavares registrou que a presença do indivíduo no século XXI tem a ver com a sintonia da atenção, isto é, está mais conectada à atenção de alguém do que ao local físico no qual seus pés se encontram. Nesse sentido, as viagens físicas seriam uma certa forma de incapacidade mental de imaginar, pois só há viagem de fato, isto é, mudança de posição, quando a atenção da pessoa altera o foco.

Destarte, o jornalista na contemporaneidade é cada vez mais parecido com o personagem do teatro Nô japonês que representa a Ausência. Trata-se de um dos papéis mais importantes, consistindo num personagem que não se mexe, permanece estático durante toda a peça, pois representa uma pessoa que já morreu, que está ausente, mas cuja lembrança ali permanece.

O gênero Nô foi promovido pelo shogunato no século 14. Basicamente, é um teatro de máscaras, com influência xintoísta e zen budista, praticado apenas por homens. O Nô investe em temas caros ao budismo, tais como a transcendência da ilusão, impregnando-se de arrebatadoras metáforas para grandes questões existenciais, mas sem as desconectar do cotidiano. Como não se verifica compartimentação entre a arte cênica, a dança, o canto e os instrumentos, o ator domina com maestria todas as linguagens.

Assim, Gonçalo desenha o dilema no jornalismo entre a difícil condição de estar presente e ausente ao mesmo tempo. E a referência ao sofisticado teatro Nô é sugestiva, pois sinaliza

Sim, certamente, há o status da escrita. No passado, segundo Tavares, a distância entre a escrita oficial e a individual era imensa. O que era produzido pelo estado tinha poder de lei e de verdade, enquanto a escrita individual era nominada rascunho. Atualmente, no mundo dos blogs e que tais, o rascunho ganhou status equivalente ao da escrita oficial. Se no século XX, a opinião da imprensa nas sociedades democráticas tornou-se um novo poder, equivalendo-se ao estado, no século XXI o que circula pelos blogs está no mesmo patamar da agora velha imprensa tradicional. Portanto, vive-se numa época em que é muito difícil saber o que é realmente importante.

No passado, antes da invenção do papel, a escrita tinha a madeira ou a pedra por suporte. Escrever era em alguma medida golpear. Demandava um instrumento firme e exigia força. Aquilo que tinha sido escrito a golpes, não mais se apagava. Um pouco como hoje, na Internet, pois o que nela é publicado, dificilmente se remove. Mas se antes se escreviam a golpes na pedra as sentenças lapidares, dos filósofos luminares, por exemplo, hoje já não se requerem golpes, e se escreve de tudo.

Finalmente, Gonçalo chamou a atenção para a tensão entre fato e a representação deste. Uma coisa é o que acontece no mundo e outra é o que se diz a propósito desse acontecimento, que pode ter inúmeras perspectivas. A linguagem é dramaticamente simplificadora. O vocábulo “cadeiras”, por exemplo, consegue abarcar numa única definição bilhões de objetos diferentes entre si, ainda que com uma essência em comum.

No século XXI, acredita, precisamos de aulas de defesa pessoal para sair às ruas de uma cidade, mas também necessitamos, e cada vez mais, de aulas de defesa de linguagem, pois ela está permanentemente a nos enganar, a nos roubar sentidos. A esse propósito, lembrou-se de uma frase de Fernando Pessoa: “contra argumentos, não há fatos” – numa instigante inversão do célebre aforismo positivista.

E se para muitos dos dilemas que vivemos não há receita fácil, Gonçalo remeteu-se a algumas sentenças consideradas inspiradoras, como uma de Jesus, que dissera preferir pescar com linha a com rede, algo que nos remeteria à ideia de acalentar paciência e estratégia para se fisgar o peixe certo, que mais vale do que dezenas e centenas de peixes apanhados a granel. Não pude aqui deixar de lembrar a metáfora do cineasta David Lynch, com quem estive há alguns anos, e que costuma explicar seu processo criativo ancorado na meditação oriental como uma fórmula para pescar os peixes grandes, que estão em águas profundas.

Gonçalo arrematou invocando passagem de uma carta do Padre Antônio Vieira, que se desculpa com o interlocutor pela missiva que já ia muito longa, vez que lhe faleceu o tempo de fazê-la mais curta – algo que nos alerta para a necessidade de burilarmos o texto, torando-o mais enxuto e belo antes de apresenta-lo aos outros, quase como que celebrando a máximo do arquiteto modernista Mies van de Rohe, “menos é mais”.

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