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Uma tarde de sábado com Allain Robbe-Grillet – muitos e muitos tons de cinza mais

07 de outubro de 2012 0

Na madrugada do dia 18 de fevereiro de 2008, a França, o cinema e as letras perderam Alain Robbe-Grillet. Aos 85 anos de idade, Grillet partiu deixando uma importante obra, com cerca de 20 livros e participação em 9 filmes. Conhecido como o pai do nouveau roman, movimento literário que marcou a França nos anos 1950 e 60, Grillet também escreveu roteiros, como o do célebre “O Ano Passado em Marienbad”, de 1961, dirigido por Alain Resnais, que antecipou a ousadia da nouvelle vague de Jean-Luc Godard e outros. Também dirigiu seus próprios filmes, como o “O jogo com o Fogo”, de 1975. Membro da Academia Francesa de Letras desde 2005, a sua morte repercutiu também no Brasil, onde os principais jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre lhe dedicaram artigos. Grillet viria ao Brasil em maio, para conferenciar no Fronteiras do Pensamento. Foi para formalizar este convite que fui visitá-lo em uma tarde de sábado, em dezembro de 2007, em Paris.

Proporcionou-me uma agradável acolhida, em seu amplo apartamento no Boulevard Maillot, em prédio de frente para o Bois de Boulogne, num dos endereços mais elegantes do 16éme. Confesso que não esperava encontrá-lo na Rive-Droit, talvez por seu vínculo ao grupo Rive-Gauche, composto de intelectuais, como Jean Cayrol, Margherite Duras e Agnes Varda – aficionados aos temas da memória e do esquecimento e que abraçavam elaborados processos mentais para suas narrativas.

Explicou-me pacientemente ao telefone como eu deveria fazer para saltar na estação Porte Maillot, atravessar a avenida Charles de Gaulle e seguir pelo Boulevard André Maurois, que se transformaria no Bd. Maillot, passar pelo portão do jardim, pela porta principal do prédio, digitando senhas de acesso. Ao telefone não me pareceu tão complicado, mas claro que me enrolei. Perdido no pátio, liguei do celular. Explicou-me o elaborado itinerário novamente e deve ter me achado um descordenado. Finalmente, recebeu-me a porta, sorridente. Conduziu-me a uma sala de estar, com pilhas de livros pelos cantos e sobre as mesas e aparadores.

Generoso, elogiou o meu francês pedestre. Bem disposto, estava muito mais interessado em bater um papo do que em revisar o extenso contrato que eu levara. Atento, achou logo um erro de francês. Mas tranqüilizou-me em seguida, dizendo que ninguém mais escrevia corretamente o francês e que ele vivia notando erros até nos tradicionais jornais de Paris. Curioso, quis saber sobre o Rio Grande do Sul. Perguntou-me se se tratava de uma zona de imigração. Sim, respondi. Disse ele compreender o alemão, embora não o falasse. Gostava de ler clássicos da filosofia e da literatura alemã no original. Contou-me ter estado algumas vezes na Alemanha, ministrando palestras. E lamentou, divertindo-se um pouco, a má acolhida que seu último livro “Un Roman Sentimental”, tivera naquele País. Lemos juntos uma crítica recente publicada no Frankfurter Algemeine. Arrasadora. Dizia que Grillet enterrava o nouveau roman.

Rimos. Ele contou-me um pouco sobre o início de sua carreira de escritor, quando seus primeiros livros foram recusados pelos editores. Aparentou não se importar muito com o que dizia a crítica. Aproveitei para sacar o livro da bolsa, pedindo-lhe um autógrafo. Claro, na dedicatória ele fez uma referência jocosa ao contrato que eu levara. Ficou surpreso de eu estar lendo o livro. Disse-me que embora gostasse dele, achava que não representava a sua obra. Era uma passagem rápida e não muito importante de seu último livro, “A Retomada”, segundo ele, que resolvera desenvolver e transformar em um novo projeto, quando alguém lhe pedira para escrever algo sobre uma casa no Canadá. Bem, acontece que esta passagem promovia uma bizarra combinação de pedofilia, incesto, prostituição infantil e sadomasoquismo. Era a história envolvendo o personagem de Gigi, que agora virava um livro!

Olhando em volta, na agradável sala onde estávamos, notei outro elemento presente em “A Retomada”. Um pôster com uma fotografia de um château Luis XIV, na Normandia, onde o escritor mantinha sua casa de campo, e cuja descrição mergulha desconcertantemente, em breve parêntesis, numa narrativa que se passa na Berlim pós-guerra. Este é o estilo de Grillet. Explosão de modernidade, desconstrução da narrativa, do espaço, desestruturação do sujeito. Em “A Retomada”, uma rocambolesca história de espiões na Berlim arrasada pela guerra e ocupada pelas forças aliadas, um espaço de caos entre a queda dramática do totalitarismo nazista e a tentativa de reconstrução da nova Europa social-democrata, onde as normas sociais achavam-se em suspenso ou em processo de redefinição e vigorava a justiça militar, Grillet nos apresenta um personagem narrador de múltiplas identidades: com três passaportes, que encontra o seu duplo em um trem, às vezes é o narrador da história, outras vezes é interpretado por um terceiro narrador, externo, às vezes torna-se o seu duplo, isto quando o próprio Grillet não invade a narrativa para descrever a visão de destruição que um tornado provocara, na passagem para o ano 2000, na vegetação vista da janela de seu gabinete, no château na Normandia.

O personagem central do livro, este sujeito múltiplo e desconstruído, emaranhado em incertezas, tenazmente contestado pelo Outro – o narrador duplo –, não deixa também de trazer elementos biográficos do próprio Grillet, como a origem bretã, a infância passada em Brest e o encanto pela Alemanha. Com sua linguagem sofisticada, seu estilo poético, úmido, poderosamente imagético, com longas e detalhadas descrições quebrando o ritmo convencional da narrativa, de maneira a potencializar angustiantemente o suspense do enredo, Grillet desestrutura também o tempo, misturando presente, passado e futuro.

Em “A Retomada”, abraça o tom enigmático, o estilo fotográfico, econômico em ação que já se afirmara com clareza em “O Ciúme”, de 1957. É ainda a recuperação de “Les Gommes”, de 1953, um de seus romances mais célebres. Vários também são os elementos recorrentes entre os filmes que dirigiu nos anos 60 e 70: o enigma cerebral de um homem que se encontra com uma mulher de identidade confusa em Istambul, um ator em crise de identidade, erotismo sadô – jovens amarradas, amordaçadas, flageladas, seqüestradas, aprisionadas; intriga policial, encontros misteriosos em trens, velhos palácios.

Mantendo o leitor num limite entre o real e o imaginário, afogando-o em magníficas descrições imagéticas, quase ausentes de ação, Grillet dilui certezas, verdades. E desenha a contradição como norma, como sistema. Numa única história, múltiplas perspectivas, diversos olhares sobre um mesmo fato, a mesma cena contada várias vezes, de diferentes maneiras. Aceitação intrínseca da fragmentação da uma modernidade exacerbada. E faz do leitor seu refém, conduzindo-o por este labirinto, onde as fronteiras do mundo inteligível se mostram tão esfumaçadas e embaralhadas. Provocativo retrato do mundo pós-guerra.

Não pude deixar de notar que, apesar da corrosão de sentido dessa narrativa desconstruída, o personagem central de “A Retomada” insinuava-se como uma alegoria da reaproximação entre França e Alemanha no pós-guerra. Impossível não lembrar aqui do polêmico “L’ideologie française”, de Bernard-Henri Lévy, com sua denúncia à vertente autoritária do pensamento francês, que encontrou terreno fértil durante a República de Vichy. Em “A Retomada”, o gêmeo secreto, o duplo desconhecido, pode estar sinalizando para a inexorabilidade da união entre os dois países, identitariamente afirmada, mas conscientemente negada. Convergências que se dão em diversas vibrações, do delírio autoritário ao esforço de retomada humanística. A morte do corrupto agente duplo alemão, quem sabe, sinaliza uma chance para a democracia. Otimismo tênue de um crítico figadal da sociedade burguesa moderna? De qualquer forma, a porta aberta para a ressurreição do duplo teima em não sumir de cena ao final e a sua morte, acontecida em meio a mirabolantes teorias de conspiração, nos remete para este perturbador traço da cultura de massas contemporânea: a desconfiança pós Watergate na autoridade do estado.

Mas de fato, o destaque dado às detalhadas cenas SM me pareceram um tanto gratuitos. Eu mal havia começado a ler o “Un roman sentimental”. A vendedora da Fnac da Rue de Rennes não fora simpática quando pedi o livro, que veio embrulhado em plástico, selado por uma tarja vermelha alertando para o conteúdo erótico e polêmico. O pior é que as páginas não estavam separadas. Precisei me valer de uma lixa de unhas de uma senhora que ocupara o meu lugar – estávamos em plena greve geral – num trem da SNEF para descolar as páginas.

E então estávamos ali, numa tarde de sábado, quando sua esposa, Catherine, entrou na sala. Ambos estavam animados com a perspectiva da viagem ao Brasil e Catherine contou-me sobre a viagem que fizeram ao País nos anos 1960, quando visitaram várias capitais, em virtude de uma agenda de conferências de Grillet em universidades. Há poucos dias, uma entrevista sua à televisão francesa provocara furor. Ela começava a admitir a autoria dos livros SM publicados com o pseudônimo Jean de Berg, em 1956 (L’image), e Jeanne de Berg (Cérémonies de Femmes, 1985), entre outros mais recentes. Falou-me com entusiasmo do Rio de Janeiro e, em particular, de uma visita aos bares da Praça Mauá. Lembrei-me de Caio Fernando Abreu.

A atração que a cultura SM exerce na França parece-me um enigma. Foucault provavelmente identificaria nestas práticas a chance de construção de uma nova subjetividade, revolucionária. Apesar de combater os estruturalistas franceses, é mais ou menos o que sugere Camille Paglia em “Vamps & Tramps”, especialmente no saboroso diálogo com a Drag Queen Glenda. Há aqui uma linha direta com crença na condição libertária da contracultura dos anos 1960 e sua revolução sexual e dos costumes. Neste particular, no lado oposto do debate, está Michel Houellebecq, para quem, em “A Plataforma”, a cultura SM é o resultado extremo e extravagante de uma mecanização do ser-humano, do esvaziamento do conteúdo humanístico da sociedade contemporânea, do excesso de individualismo e da ausência progressiva de contatos físicos carinhosos e de intercâmbios afetivos entre as pessoas. Para Houellebecq, o SM é o funeral do amor, uma espécie de degradação para onde nos levou a contracultura, a sociedade do consumo e o individualismo. O autor, com efeito, em “Partículas Elementares”, traça um retrato feroz das conseqüências negativas da contracultura na contemporaneidade. Mas em Robbe-Grillet, nem libertação sexual, nem falência do sentimento, mas, ao que tudo indica, uma falange de fantasmas sexuais a assombrarem sua obra e, talvez, sua vida.

Perdia-me nesses devaneios quando me lembrei de pedir a Robbe-Grillet algumas fotos e direitos de imagens sobre trechos de seus filmes, pois precisaríamos delas para um documentário que faríamos sobre sua participação no Fronteiras do Pensamento. Grillet, então, achou conveniente apresentar-me seu amigo, Olivier Corpet, diretor do IMEC. Apanhou uma agenda de telefones, com puída capa de couro marrom e começou a procurar o número de Olivier. Com alguma dificuldade para ler as letras pequeninas, pediu-me auxílio. Então vi o primeiro nome da lista: Jorge Luís Borges. Por um breve lapso de tempo, parecia possível telefonar para Borges… Por um tempo, pareceu possível recebermos Grillet no Brasil…

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