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Nota sobre o patrimônio histórico industrial

20 de outubro de 2012 0

Como registra Dominique Poulot, a história da transmissão e da proteção do patrimônio social atravessou várias fases. No Direito Romano, o patrimônio era o conjunto de bens familiares, associado à ideia de herança privada, não evocando qualquer noção de tesouro social ou de obra prima. Na época moderna, a sua identificação e a publicidade de acervos estavam ao serviço do fausto dos príncipes. Com as revoluções liberais do século XVIII e XIX, o triunfo do projeto de formar novos cidadãos pela instrução e pelo culto do Estado-Nação ampliou a evocação do patrimônio para o elogio dos grandes vultos, arautos dos valores embalados pela Nação, e para a celebração dos grandes feitos, atrelando-o a uma história balizada pelos eventos e guiada pelos marcos da Administração Pública.

Porém, na virada do século XX para o século XXI, difundiu-se uma nova concepção de patrimônio, pela qual se espera que, deixando de funcionar como ferramenta pedagógica e doutrinária, contribua para revelar a identidade de cada indivíduo ou de cada segmento diverso da sociedade. No lugar da história edificante, afirmou-se a identidade cultural.

Se as primeiras medidas conservadoras, iniciadas pelo papado e por outros estados na Itália renascentista, culminaram no reconhecimento de cânones e mestres e no princípio de um corpus a proteger, atualmente registra-se uma verdadeira explosão de iniciativas patrimoniais, emulando a participação ativa de indivíduos e coletividades distintas no espaço público. Há, presentemente, uma generalização da sensibilidade com relação à herança cultural, e, também, uma crescente ampliação desse conceito, de maneira a converter o patrimônio num grande desafio para o desenvolvimento cultural hodierno. A partir dos anos 1980, firmou-se o entendimento de que qualquer vestígio ou prática podem ser considerados patrimônio. Esta tomada de posição descartou o patrimônio como corpus classicamente definido de maneira normativa e instituiu um caleidoscópio de identidades.

Nesse contexto, a análise dos vestígios do processo industrial passou também a integrar o horizonte das populações urbanas, por conectar-se a história do trabalho, da técnica e da urbanização. Na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, na década de 1950, bens industriais começaram a ser listados e reconhecidos pelo Conselho Nacional de Arqueologia. Em 1963, surgiu o primeiro periódico especializado na área, o Journal of Industrial Archaeology. Vários acadêmicos promoveram levantamentos patrimoniais, sensibilizando a opinião pública para a importância desses vestígios. Em 1973, em Ironbridge, promoveu-se o I Congresso para a Conservação dos Monumentos Industriais. Em 1978, por ocasião da terceira edição do evento, em Estocolmo, fundou-se o The International Committee for the Conservation of Industrial Heritage (TICCIH), organismo cuja finalidade é promover a cooperação internacional no campo da valorização do patrimônio industrial.

No Brasil, funciona desde 2004 um ativo Comitê ligado ao TICCIH. O tombamento, realizado em 1964, da Real Fábrica de Ferro de Ipanema, fundada em 1810, é considerado por muitos a ação pioneira do IPHAN no campo do patrimônio industrial. De lá para cá, muitos foram os tombamentos e aproveitamentos de prédios relacionados ao patrimônio industrial, com ênfase para Estados como São Paulo e o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, por exemplo, a antiga Usina Termelétrica da Volta do Gasômetro, popularmente conhecida como Usina do Gasômetro, importante exemplar da arquitetura industrial em concreto armado, inaugurada em 1928 e desativada na década de 1970, foi tombada e hoje abriga um centro cultural. Há outros exemplos impactantes na Capital gaúcha, tais como o prédio da antiga fábrica de cervejas Brahma, que atualmente abriga um shopping Center, assim como acontece com as instalações da antiga tecelagem A. J. Renner. Todavia, apesar de muitos exemplos importantes, ainda é pouco sedimentada a reflexão teórica e metodológica sobre as especificidades da preservação do patrimônio industrial.

Ensaiando-se um balanço do quadro atual, como propõe Marly Rodrigues, percebe-se que vem crescendo a compreensão do Poder Público sobre a matéria. Porém, como os órgãos de proteção ao patrimônio raramente se antecipam à obsolescência das estruturas fabris, cuja natureza, por conta de sua funcionalidade, encerra um caráter mais transitório, quando começam a ser estudadas, já se encontram descaracterizadas, esvaziadas, por exemplo, do maquinário original. Tal situação tende valorizar as características externas das edificações, em prejuízo dos espaços internos, onde se organizava a produção. As fábricas tombadas dificilmente guardam informações necessárias à recuperação de saberes técnicos e da organização dos trabalhos. Além disso, baseados na qualidade arquitetônica das construções, os tombamentos de bens industriais raramente levam em conta o seu impacto no entorno sócio urbano. O esforço para captar os significados que o patrimônio industrial suscita é, portanto, necessariamente multidisciplinar.

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