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Posts de dezembro 2012

A revolução industrial e a sociedade da técnica

15 de dezembro de 2012 0

Revolução Industrial é um conceito estabelecido pela tradição para explicar os acontecimentos na Inglaterra a partir do século XVIII, tendo sido inventado no século XIX por socialistas franceses, por analogia à Revolução Francesa. Karl Marx (O Capital, 1867), Arnold Toynbee (1884) e Paul Mantoux (1906) estão entre os que, a seguir, consolidaram a expressão, que destaca menos a noção de ruptura e mais a rapidez e extensão das transformações, bem como a profundidade das suas consequências: a decisiva transição de um esquema pré-capitalista incompleto para o capitalismo, cujas características centrais residem no progresso técnico continuado, capitais mobilizados para o lucro, formação da classe burguesa, de um corpo técnico encarregado de gerir o capital e do proletariado urbano e, ainda, a marca da convergência entre técnica e ciência. Tudo começou quando o escocês James Watt aperfeiçoou a máquina a vapor e Arkwright aperfeiçoou o tear hidráulico, em 1769. As mudanças tornaram-se visíveis na década de 1780.

O Mundo Antigo conhecera importantes avanços técnicos, mas grandes obras recrutavam abundância de mão de obra, uma massa de dominados, servos e escravos, não havendo necessidade de formas alternativas de energia. O trabalhador pré-histórico, por exemplo, utilizava como arado uma haste de veado para abrir sulcos na terra. Daí evoluiu-se para ramos de madeira com ponta endurecida com fogo. Os romanos inseriram uma longa prancha inclinada atrás dessa ponta e os gauleses colocaram a roda.  Já a foice era conhecida desde o século XIV, mas seu uso se difundiu apenas no século XVIII, quando a necessidade de ir mais depressa permitiu desperdício de grãos. Portanto, as inovações se davam com lentidão.

A Idade Média viveu lenta adoção de novas técnicas e aprimoramento de forças. Os moinhos de vento vieram na esteira dos melhoramentos da navegação, no século XV. A China conhecia desde o século V a.C a fundição do ferro, que se difundiu na Europa penas no século XIX. Também foram inventados na China o aquecimento pelo carvão, o tear de laços, o papel, a imprensa e a bússola. Mas esse desenvolvimento estagnou no séc XIII, pois faltou a aliança da técnica com a ciência e o capital.

O contato com os árabes, nas Cruzadas, a expansão comercial e urbana e mortandade causada pelas pestes e guerras contribuíram para a difusão e consolidação de novas técnicas na Europa. O arrendamento de terras surgiu como uma forma de trabalho mais rentável para compensar desorganização da produção. Em função disso, a partir do século XV liberaram-se progressivamente os servos para vender excedentes nas cidades, o que os estimulou a incrementar técnicas agrícolas e concorreu para a dissolução do sistema feudal. Para a nobreza rural, ficou cada vez mais difícil disponibilizar de mão de obra. Paralelamente, cresceu o seu endividamento com as guerras. Foi, assim, se desfazendo de terras. Enquanto o poder da nobreza enfraquecia, as cidades conseguiam ampliar seus privilégios.

Havia resistência às novas técnicas. Em 1579, por exemplo, em Dantzig, tecelões e autoridades, temendo o desemprego em decorrência da invenção do tear de fitas (aperfeiçoado no Ocidente a partir de uma técnica oriental), proibiram a ferramenta e estrangularam o inventor. Muitos inventores foram perseguidos e mortos.

As antigas guildas eram associações de trabalhadores especializados num ofício, numa arte. As firmas organizavam-nos de forma hierárquica, do aprendiz ao mestre, e todos viviam na mesma casa. As normas eram severas e conservadoras. As guildas sistematizavam técnicas, mas impediam a inovação e o aumento da produção. A propaganda era proibida. O objetivo era mais o próprio produto e não a sua comercialização. Havia pouca concorrência entre as unidades de produção, não havendo porque melhorar técnicas.

As Grandes Navegações ampliaram o comércio. Novas mercadorias surgiram e o mercado consumidor se estendeu. O mercador ganhou importância. Nesse ponto surgiu a manufatura, reunindo camponeses em grandes oficinas, combinando-os com estratégias novas de gestão e operação.

Nasceu um novo empresário, que perseguia aumento de produtividade. Não foram poucos os conflitos estabelecidos entre guildas e manufaturas. O povo temia as péssimas condições de trabalho das manufaturas e os mestres de ofício temiam perder seu status. A manufatura só conseguiu se impor de forma absoluta no séc XVIII.

Em paralelo, o Iluminismo foi colocando o Homem e não mais Deus no centro do mundo. A partir do séc XVI, cresceu a prática da observação metódica da natureza e do trabalho e impôs-se o método experimental. Surgiram academias e especializações.

As grandes navegações trouxeram grandes negócios, o que exigia bancos regulares, novas operações financeiras, o desenvolvimento da escrituração mercantil. Aos poucos, a burguesia começou a tomar postos da aristocracia, a competição e o lucro se difundem. Finalmente, a unificação política e a emergência do Estado Nacional (Península Ibérica, França e Inglaterra) padronizou moedas, impostos, leis e normas, trazendo ainda a pacificação das guerras feudais. Nasceram os monopólios estatais, ao mesmo tempo em que o indivíduo se libertava paulatinamente das regras corporativas.

A França dispunha de superioridade técnica na Europa, mas desde a Revolução Gloriosa (1688) o lucro privado havia sido culturalmente aceito na Inglaterra, onde, ainda, o protestantismo se consolidou e o parlamentarismo foi instalado. Em 1700, uma política protecionista para a manufatura da lã, proibindo importação de algodão da Índia, acabou favorecendo a manufatura algodoeira na Inglaterra, pois foi preciso aprimorar a produção interna. Enquanto isso, as cidades se expandiam, abastecidas com a população expulsa do campo pelo movimento dos cercamentos e pelo fim dos cultivos comunais. O comércio marítimo multiplicara capitais, que agora eram investidos em terras. Os chamados yeomen, pequenos proprietários rurais, desapareceram. Introduziram-se melhorias no cultivo, adubação das terras e a rotação de culturas. Os animais passaram a se alimentar melhor. Este processo trouxe o enriquecimento dos grandes proprietários, mas o empobrecimento dos camponeses, que encheram os bolsões de miséria nas cidades e proveram a mão der obra necessária para a nascente indústria, onde era férrea a disciplina. As Leis do Senhor e Empregado, por exemplo, permitiam até prisão de operários faltosos. Abolidos os regulamentos sobre ofício, o controle da produção passou dos trabalhadores para os capitalistas. Estabeleceu-se uma super-exploração, inclusive do trabalho infantil. A jornada de trabalho era de 12 a 19 horas diárias, brutalidades eram frequentes, assim como a aplicação de multas. A vida urbana era malsã. Aos poucos, se organizou a reação dos trabalhadores. Os sindicatos deixaram de ser ilegais em 1824.

A Revolução Industrial se consolidou com a invenção do coque e da máquina a vapor. A primeira ferrovia foi construída em 1830, ligando Liverpool a Manchester. A partir daí, imantou-se com a mística da velocidade e do progresso. As ferrovias trouxeram profunda desagregação social por onde passavam, mudando formas de comércio e hábitos culturais locais. Foi também por meio delas que os grandes investidores entraram na indústria, o que animou o processo com novos capitais. Em 1856, descobriu-se a fundição do aço, técnica aperfeiçoada em 1877. Na química, os avanços também eram notáveis. Na agricultura, o fertilizante artificial provocou uma revolução. Novos métodos de conservação de alimentos, como os enlatados, ajudaram a deprimir a taxa de mortalidade. A rede de comunicações foi poderosamente ampliada com as ferrovias, navios a vapor e estradas de rodagem. Em 1838 aconteceu a primeira viagem sem escalas entre Liverpool e NY e Morse inventou o telegrafo por esta época. O selo postal foi criado em 1840. Entre 1750 e 1850, a população do mundo passou de 600 milhões para 1,2 bilhão de pessoas. O aumento da produção e da produtividade catapultou a população, alargando o mercado consumidor e de trabalho. Um mundo inteiramente novo surgiu.

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