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Posts de fevereiro 2013

A Revolução Francesa de 1830

25 de fevereiro de 2013 0

O Rei da França, Luís XVIII, irmão do decapitado Luís XVI, foi entronado pelas potências europeias reunidas no Congresso de Viena, em 1814/15, após o fim das Guerras Napoleônicas: depois da Revolução Francesa e de Napoleão Bonaparte, a França voltava aos braços dos Bourbons. Ele estava conseguindo alcançar em seu país o difícil equilíbrio entre forças liberais e conservadoras, mas morreu em 1824. Sucedeu-o seu irmão mais moço, o intransigente Carlos X, que em cinco anos fez tudo o que não devia: pretendeu recompensar a velha nobreza em detrimento da burguesia já relativamente consolidada, prestigiou o clero e desprezou necessidades do povo. Pelas Ordenanças de 25 de julho de 1830, impôs censura total à imprensa, tentou um golpe de Estado e dissolveu a Câmara, de maioria liberal, recém-eleita. Foi a gota d’água.

O contexto era delicado. Havia uma crise de subprodução agrícola, importando na alta dos gêneros alimentícios, e entorpecimento da atividade industrial. O comércio sofrera com o bloqueio marítimo durante o período napoleônico e só começara a se recuperar depois de 1825. A indústria, por seu turno, amargara um duro golpe depois da queda de Napoleão Bonaparte, perdendo mercados cativados com a expansão da influência política e militar sobre a Europa. Agravava o quadro certa timidez intrínseca ao capital francês, tradicionalmente mais voltado para mercados locais, bem como a falta de visão dos estadistas – na Bélgica, por exemplo, o governo alavancava o desenvolvimento, criando ferrovias estatais. Com o dobro da superfície e da população da Inglaterra, a França patinava, não igualando nem de perto a indústria britânica. Falências de estabelecimentos fabris se precipitavam, o desemprego urbano crescia e, junto com ele, o descontentamento popular. Em paralelo, as ideias liberais varriam o continente, apesar do refluxo imposto pelo Congresso de Viena, de modo que o reacionarismo de Carlos X era percebido como extemporâneo. Nem mesmo a bem-sucedida campanha militar na Argélia, que deu início à longa ocupação colonial francesa no país africano, melhorou a popularidade do rei com fumaças absolutistas.

Assim, o povo, mais uma vez, se sublevou em Paris. Os protestos foram iniciados pela burguesia. Banqueiros e agiotas suspenderam operações; industriais fecharam as fábricas, precipitando os trabalhadores com medo do desemprego às ruas. Jornalistas liberais inflamaram as multidões. Barricadas foram armadas pela cidade, e enfrentamentos aconteceram durante os chamados Três Dias Gloriosos, de 26 a 28 de julho.

A Guarda Nacional, lançada contra a massa, como já o fizera durante a Revolução Francesa, acabou negando-se a prosseguir com a repressão. Carlos X foi, desse modo, derrubado em 2 de agosto. Morreu seis anos depois, no exílio. Substituiu-o seu filho, Luís Antônio, que também abdicou 20 minutos depois em favor do sobrinho do decaído, Henrique, último rei da dinastia Bourbon, o qual permaneceu apenas sete dias no trono. Liberais lograram coroar Felipe de Orleans. A indicação não apenas era uma garantia às pretensões absolutistas dos antecessores, como ainda colocava um freio nos excessos da massa amotinada: a lembrança de 1789 ainda estava viva na memória.

O clima revolucionário daqueles dias está retratado no célebre romance de Vitor Hugo Os Miseráveis. Um famoso quadro do pintor Delacroix, A Liberdade guiando o Povo, também remete às lutas de 1830. No centro da Praça da Bastilha, em Paris, ergue-se a Coluna de Julho, monumento de 47 metros, inaugurado em 1840. Ornado em bronze e encimado por uma alegoria colossal do Espírito da Liberdade, em sua base repousam os restos mortais das 615 vítimas da Revolução de Julho.

Os eventos de julho de 1830 representaram menos uma revolução do que a confirmação da Constituição de 1814, ameaçada por Carlos X. A Carta foi liberada de ambiguidades, explicitando-se a constitucionalidade da monarquia, representativa e responsável. O direito ao voto se estendeu de 100 mil para 250 mil eleitores, todos proprietários, conformando 1% da população. As garantias liberais, portanto, ficaram relativamente restritas. Luiz Felipe, por sua vez, tornou-se o célebre Rei Burguês. Mas seu compromisso com a burguesia também encontrava limites, pois seu governo privilegiou a aliança com banqueiros, cujos interesses nem sempre coincidiam com os dos industriais e comerciantes de vários estratos.

Como de outras vezes, a erupção de ânimos na França detonou uma onda de reação em cadeia pela Europa, sendo o componente nacionalista combinado com o liberal. Levantes se registraram na Bélgica, em regiões da Itália ainda não unificada, em diversos estados alemães e na Polônia. Todos esperaram em vão o apoio francês, que nunca chegou.

As mudanças mais importantes aconteceram na Bélgica, que deixara de ser um domínio do Império Austríaco e estava associada à Holanda no Reino dos Países Baixos, por decisão do Congresso de Viena, desde 1814. Agora, conquistava independência, coroando o Rei Leopoldo. Foi decisivo o apoio dissuasório da frota inglesa, senhora dos mares. A partir daí, a Bélgica abraçou a posição diplomática de neutralidade perpétua.

Portugal também conseguiu registrar sucessos. Dom Pedro I renunciou à coroa no Brasil, onde crescia sua impopularidade, em favor do filho, Dom Pedro II. Tornou-se Dom Pedro IV em Portugal e liderou uma bem-sucedida revolução contra o domínio retrógrado do irmão Dom Miguel. Em 1834, o país ganhou uma Constituição de matizes liberais. Também na Espanha, as pretensões reacionárias de Carlos de Borbón foram frustradas pela guerra civil de 1833 a 1840. Na Suíça, ainda, o liberalismo se afirmou.

De modo geral, entretanto, forças reacionárias prevaleceram na Europa Oriental. A França constitucional seguiu a Inglaterra e se apartou da cega rigidez do programa da Restauração. Ambas as nações eram economicamente progressistas, haviam rompido com o feudalismo e simpatizavam com vizinhos menos avançados que buscavam emancipação política. A Europa daqueles anos se dividiria entre países com governos representativos, de um lado, e países com despotismo monárquico, de outro, liderados pela Áustria, pela Prússia e pela Rússia.

Cultura de alto a baixo - entrevista com Camille Paglia em O Globo

12 de fevereiro de 2013 0

Caros, continuo desaparecido daqui do blog e acho que isso ainda vai um bom tempo, tendo em vista a montanha de coisas que estou escrevendo no momento. Mas faço uma pausinha na minha concentração aqui para postar essa breve mensagem, até porque vários amigos têm me escrito, perguntando a respeito.

Saiu uma ótima entrevista com a Camille Paglia no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, nesse sábado. Confere aí! Eu estou de acordo com a percepção dela de que a arte contemporânea,  embora possa apresentar bons testemunhos, está cada vez mais difícil de apresentar algo com uma carga dramática e densidade semiológica de amplo impacto. O exemplo oferecido de David Bowie é muito feliz. Ele passou por pelo menos duas décadas revolucionando o rock, articulando poesia e música de qualidade, com mímica, teatro, figurinos extraordinários, cinema, fotografia, iluminação. Antecipou tendências estéticas e revolucionou costumes. E o que há hoje? Lady Gaga, uma figura medíocre em todos os sentidos, adorada por uma combinação melancólica de falta de educação com excesso de mercado. Ahh..Camille faz referência a um livro que ajudarei ela a produzir, sobre o carnaval de Salvador. Verdade! Nós conversamos sobre e isso desde 2009. Mas a Camille nunca disse que sou baiano. Isso foi enxertado na fala dela pelo pessoal do jornal, na hora de produzir a versão. Mas tudo bem, tomei como um baita elogio.

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