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A lenta unificação italiana

25 de maio de 2013 0

O desaparecimento do Império Romano provocou uma involução política na península italiana, pela fragmentação: cada região tornou-se um paese. Esse espírito localista ficou conhecido como “mentalidade de campanário”. O território, dividido entre 60 cidades que se intrigavam constantemente, era convite à invasão estrangeira, sendo disputado pela França, Espanha e Áustria. Os italianos mostraram-se incapazes de se unir, cada qual tentando tirar algum proveito da ocupação estrangeira para usá-la contra os rivais locais: Milão X Veneza X Gênova; Florença X Pisa, e assim por diante. Além disso, o Sacro Império Romano-germano (fundado por Otão em 962) fraturava-se entre gibelinos e o papado (guelfos), cada qual tentando hegemonizar o controle político, polarizando entre si ao longo da Idade Média.

A situação desesperava intelectuais. Dante, em 1310, escreveu um ensaio propondo um acordo entre o papado e o Sacro Império. Petrarca, em 1347, celebrou a grandeza romana passada nos poemas África e Canção da Itália. Maquiavel sonhou com um príncipe capaz de liderar unificação em 1513. Mas o Renascimento do Humanismo e da Ciência, entre os séculos XV e XVI, não conseguiu chegar à política. A Itália permanecia desunida.

Com a Revolução Francesa, a região reviveu o sentimento de voltar a formar uma pátria: Napoleão Bonaparte era de família da Córsega e incendiou a imaginação italiana. Em 1797 fundou a República Cisalpina (que englobava a Lombardia e parte dos estados pontifícios, estabelecidos em 756), mais tarde a rebatizando de República Italiana. Este foi o futuro embrião do estado nacional italiano. Mas durou apenas até 1804.

No Norte, na Lombardia e no Vêneto, o nacionalismo se fortificou, como reação à ocupação austríaca, mesmo após a derrota de Napoleão, em 1815. O Sacro Império, encabeçado pelo imperador austríaco, havia assegurado seus direitos sobre esta região pelo Tratado de Rastatt em 1714, não pretendendo dela abrir mão. Mas Napoleão ajudou a disseminar um mito romântico do estado étnico, sedimentando o nacionalismo semeado pela Revolução Francesa.

Dentre os desdobramentos da Revolução de 1848, na França, conhecida como a “primavera dos povos”, estalou uma sublevação contra o domínio austríaco. Mas, apesar de Giuseppe Garibaldi, hábil e corajoso, foi frustrada por inépcia militar e falta de unidade interna. Muitos ainda preferiam suportar o despotismo a aceitar ideias socialistas advogadas por outro líder, Giuseppe Mazzini: defendiam a igualdade política na teoria, mas igualitarismo econômico poucos queriam. Assim, o republicanismo caiu em descrédito.

Entrementes, grupos dominantes por toda a Europa reabilitam a Igreja católica, abalada com o Iluminismo e a Revolução Francesa, pois viram nela uma forma de guardar o populacho contra as “heresias sociais”. O Papado fez novos acordos com Espanha, França, Áustria.

Em 1852, fracassou um levante em Mântua. No ano seguinte, uma sublevação em Milão foi desbaratada. Em julho de 1857, 300 seguidores de Mazzini foram trucidados por camponeses em Sanza, que os tomaram por bandidos. A centelha política do socialismo romântico se apagava.

Depois desses sucessivos fracassos, republicanos e democratas se colocaram a reboque da política de Conde Camilo de Cavour, que passou a liderar a unificação. O Primeiro Ministro do Piemonte, depois de 1848, defendeu o constitucionalismo, investiu em irrigação e modernização da agricultura, renovou a indústria, ativou o comércio (mediante tratados com França, Bélgica e Países Baixos), renovou o sistema fiscal e fortaleceu os bancos. Garibaldi, engenho militar do movimento, aderiu à causa. Mas manteve-se fiel aos princípios republicanos. Quando finalmente foi eleito ao parlamento nacional, criado em seguida à vitória do Reino do Piemonte na 2ª Guerra da Independência (1859), renunciou por se negar a prestar juramento a um monarca.

As principais unidades políticas na Itália, então, eram o Reino do Pimonte (capital Turim), da Lombardia (Milão), a República de Veneza, o Reino das duas Sicílias (Nápoles), os Estados Pontifícios (Roma), o Ducado de Parma e o Ducado de Módena. Cavour cerziu uma complicada engenharia militar-diplomática. A entrada do Piemonte-Sardenha na malfadada Guerra da Criméia (1853-56) lhe deu voz internacional. Mas as esperanças de Cavour não se concretizaram no Congresso de Paris, que discutiu a paz, e a questão italiana não entrou na pauta das grandes potências.

Em janeiro de 1857, Cavour estabeleceu um tratado secreto com Napoleão III contra a Áustria, pelo qual a França prometia defender a Sardenha em caso de ataque. Napoleão não desejava enfraquecer o Papa, mas estava de olho nas sobras de eventual esfacelamento de possessões austríacas na região. Cavour, assim, provocou Viena, que abriu hostilidades em abril de 1959. Em 4 de junho desferiu-se a grande batalha de Magenta, com derrota austríaca. Em seguida, no dia 24, o embate sanguinário de Solferino. Napoleão ficou deprimido com a matança e temeroso de que Prússia se aliasse à Áustria, precipitando o concerto da paz com Francisco José, Imperador austríaco, sem consultar seus aliados sardos. Cavour quis que a Sardenha prosseguisse sozinha na luta e renunciou ao cargo quando o pragmático rei do Piemonte, Vitor Emmanuel, aceitou a decepcionante paz. A Sardenha ganhou a Lombardia, mas Veneza permaneceu em poder austríaco.

Plebiscitos, então, foram desferidos em Parma, Modena, Romania e Toscana, que decidiram se unir à Sardenha. Partidários da União se lançaram contra Roma e Nápoles. Garibaldi desembarcou com os famosos Mil na Sicília e se apoderou da ilha. Semanas depois, foi recebido em Nápoles como libertador. Estava a ponto de avançar sobre Roma, quando Cavour, reposto no cargo, frustrou a investida, temendo que as potências católicas acudissem o Papa Pio IX e o processo de unificação refluísse. Em 17 de março de 1861, foi proclamado novo Reino da Itália, tendo Victor Emanuel por rei e o Statuto piemontês de 1848 por Constituição.

Cavour morreu em 6 de junho de 1861, esgotado pelos esforços. A Itália unificada era já uma realidade, mas o processo não terminara. Em 1866, na chamada IIIª Guerra da Independência, italianos liderados pelo intrépido Garibaldi lutaram contra os austríacos para libertar Veneza, logrando êxito. Mas um tratado foi assinado antes de conseguirem capturar Trento, que só aderiu à Itália na Primeira Guerra Mundial. Roma, por sua vez, continuava sob domínio papal. Em 1870, a guarnição francesa que protegia o Papa se retirou da cidade, invadida então pelas tropas de Vitor Emmanuel, que encerraram o Papa no Vaticano. Seria preciso esperar pelo século XX para que um acordo entre a Itália e o papado se firmasse.

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