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Posts de setembro 2013

Flores Raras, filme de Bruno Barreto sobre romance entre urbanista Lota de Macedos Soares e poetisa Elizabeth Bishop

08 de setembro de 2013 4

Não sou especialista em Elizabeth Bishop, tampouco na história de Lota de Macedo Soares, mas fui assistir essa semana ao filme Flores Raras, dirigido por Bruno Barreto, e me chamaram a atenção algumas impressões, que compartilho aqui, de forma meio descosida. Confesso que eu estava com certa má vontade inicial em relação ao filme, porque me enjoa ver no cinema esse dramalhão abotoadinho de novela das seis que virou meio típico dos filmes dos Barreto. O último que eu assistira do pessoal foi uma porcaria constrangedora, A Paixão de Jacobina, dirigido pelo Fábio Barreto, em 2002. Era a estreia, no Festival de Gramado de 2002, salvo engano, e foi muito difícil ficar até o final de sessão. Mas Flores Raras é bem razoável e chega-se ao final com relativo entusiasmo.

Acho que, no geral, o filme recria bem os cenários de época propostos e o figurino é bom. As atrizes – Glória Pires, Miranda Otto e Tracy Middendorf – estão todas muito bem nos papeis, sendo competentemente dirigidas.

É louvável o destaque dado à Lota na concepção e construção do Parque do Flamengo, talvez, uma das maiores contribuições femininas à arte, dado as suas dimensões, seu magnetismo conceitual e sua importância diária na vida de milhões de pessoas. Até há pouco tempo, quando se falava do Parque do Flamengo, ouvia-se em geral por aí apenas os nomes de Burle Marx e Affonso Reidy, o que é injusto. O filme parece acertar também numa boa caracterização psicológica da Elizabeth, figura conectada de forma meio mórbida com os traumas de uma infância solitária e infeliz.

Também creio que o tema do homossexualismo feminino foi tratado com elegância. Há cenas diretas de romance e erotismo, corajosas, abordadas com respeito e beleza, livres de estereótipos banais. Jovens de hoje em dia podem se perguntar como duas mulheres lésbicas podiam transitar com tanta desenvoltura e tranquilidade pelos melhores salões da época. Num país ainda praticamente desprovido de classe média, elas integravam a elite e faziam-no com autonomia financeira. Além disso, eram reservadas, não se expondo aos beijos em público. Nessas condições, membros da elite gozavam no Brasil de razoável margem de manobra em face à moral convencionada. Basta lembrar-se de Dom Pedro I, que só mobilizou de fato a repulsa da sociedade contra a sua relação extraconjugal quando quis impor sua amante, a Marquesa de Santos, goela abaixo de todos em plena Capela Imperial, ou nomeando-a dama de companhia da Imperatriz.

Mas há também licença poética do diretor em relação à história. Mary Morse é descrita como uma medíocre moça de classe média, mas isso talvez possa ser injusto para com ela e para com o real papel desempenhado no triângulo amoroso. Inculta, ela não era. Até onde sei, Lota e Bishop se conheceram por intermédio de Morse, de fato, mas em Nova Iorque, antes dela vir ao Brasil, e não em Petrópolis. Bishop desembarcou no Brasil pelo porto de Santos e não pelo do Rio de Janeiro, cidade que alcançou de trem. O apartamento de Lota era no Leme e não no Posto 6 em Copacabana. O carro de Lotta nessa época era um jaguar vermelho, e não um esportivo branco. Lota, segundo todos os relatos, fascinada por corridas e carros esporte, dirigia agressivamente – a quantidade de multas de trânsito recebidas seria proverbial.

Bishop ficou hospedada no apartamento do Rio de Janeiro, depois na casa das Samambaias. O primeiro contato com as peças de Calder foi nesse apartamento, pois boa parte da mobília de Lota levava a sua assinatura. Foi no Rio de Janeiro, e não na serra, que Bishop teve a alergia decorrente do caju. É verdade que foi por causa das atenções recebidas nesse momento que se apaixonou pelo país, mas Bishop já estava interessada em Lota quando veio para o Rio de Janeiro.

A Casa das Samambaias não é nada daquilo que o filme mostra, pois era rústica, geométrica e inacabada: um galpão, com cobertura singela de telhas de alumínio. O chão era de cimento, marcado por pegadas de cachorro, a iluminação feita com lampiões a querosene. A decoração era despojada, crua. Aquele jardim perfeitamente concluído de Burle Marx não existia. Bishop descreve esse cenário em suas cartas. Mas Barreto preferiu lê-lo com hipérboles hollywoodianas.

Quando da época da construção do Parque do Flamengo, Lota estava grisalha e gordinha, informação que o filme não incorporou. Dá a impressão de que Barreto quis preservar uma fictícia ilusão estética de juventude típica de comédia gosmântica. Lota era muito enfática ao falar, o que lhe valeu alguns bons atritos. Mas o filme a caracteriza de forma excessivamente ponderada em diversas passagens, sobretudo da metade em diante. Também achei que não foi feliz ao representar a tensão e o drama que vertiam entre Lota e Bishop. As duas, segundo vários relatos, eram muito intensas. Nesse sentido, o filme foi contido.

Achei ridícula a passagem que atribui a Bishop um posicionamento político militante, contra Carlos Lacerda e contra o golpe militar de 1964. Bishop gostava muito de Lacerda e apoiava-o apaixonadamente. Ela defendeu a “revolução de 1955” e procurou apoiar Lacerda no exílio nos Estados Unidos, indicando-lhe contatos. As cartas a Robert Lowell revelam tendência ao pensamento liberal conservador, repulsa ao comunismo chinês e soviético, simpatia a movimentos contrarrevolucionários de cunho conservador e acendrado patriotismo norte-americano. Bishop apenas criticou Lacerda quando este se aliou a JK e a Jango, em 1966, justamente porque estaria traindo sua posição ideológica anti-getulista e anti-comunista, nesse sentido acompanhando a opinião de Lota, que a esta altura estava rompendo com o velho amigo. Bishop, mais tarde elevada à condição de ícone do feminismo e do movimento lésbico, não aprovava a revolução sexual dos anos 1960 e não se empolgou com o feminismo. Era, em grande medida, uma dama puritana, embora muito bem integrada à elite modernista brasileira.

O Brasil foi determinante na sua vida e para sua arte. Dominou razoavelmente bem o português, chegando a se dedicar a traduções. Apreciava alguns poetas e escritores brasileiros e portugueses. Mas jamais deixou de ser uma típica anglo-americana e a brasilidade não impregnou a sua escrita de maneira antropofágica e intercultural. Nunca se adaptou completamente à culinária local. Gostava de ser servida pelos “negros” da casa, mas não se conformava com a incapacidade dos criados de preparar ovos mexidos ou cozidos no ponto. Agradecia a Lowell pelo envio de temperos de Nova Iorque, já que não se adaptava bem com os locais. Detestava o carnaval, que considerava “coisa dos negros”, embora reconhecesse que o samba era boa música. Lota e Bishop ficavam apreensivas cada vez que o casal Calder vinha visita-los, porque eles gostavam de festejar e pular o carnaval a noite toda.

A alusão de que ela não lia bem em francês me pareceu ultrajante! Bishop morou em Paris antes de vir ao Brasil. A umbilical relação de Lota com Nova Iorque também é desprezada, o que é uma bobagem, pois Lota ajudou a introduzir no Brasil a paixão por esta cidade – ela, aliás, foi criticada na época por gostar tanto de uma metrópole então considerada vulgar pela elite brasileira. As duas, inclusive, passaram longas temporadas juntas em Nova Iorque, muito antes do trágico suicídio de Lota. E a jovem estudante, que se tornou amante de Bishop nesse entremeio, veio ao Brasil, hospedando-se, contudo, na Casa Mariana, a casa que a poetisa americana adquiriu em Ouro Preto, enquanto Lota ainda era viva. Depois da morte de Lota, Bishop continuou vindo ao Brasil regularmente.

O pai de Lota é retratado como um puritano preconceituoso. Lota não rompeu com ele por desaprovação ao seu lesbianismo, mas por questões familiares bem mais complexas. A família foi duramente impactada pelas perseguições de Getúlio Vargas e o pai de Lota deixou-as sem boa parte da herança. Mas, até onde se sabe, salvo engano, Lota nunca aprovou uma disputa judicial com o pai.