Saiu artigo meu no Caderno de Cultura da Zero Hora desse sábado passado. Confira aí.
Saiu artigo meu no Caderno de Cultura da Zero Hora desse sábado passado. Confira aí.
Esta virada de ano tem sido dura para a cultura, tantos e tão importantes têm sido os que nos deixam. No sábado retrasado, o Caderno de Cultura da ZH trouxe um belo obituário escrito pelo Prof. Martin Dreher para o historiador Telmo Müller. Eu conheci o Prof Müller há uns 17 anos. Era um sujeito alegre, divertido, apaixonado pela história e pela trajetória da comunidade germânica no Rio Grande do Sul. Prestou serviços inestimáveis à nossa cultura ao contribuir na organização do Museu Visconde de São Leopoldo e se tornou uma das grandes referências para os estudos sobre imigração alemã. Seu nome estará para sempre cinzelado dentre aqueles que mais contribuíram para o engrandecimento da cultura no Rio Grande do Sul.
Em dezembro, a revista Voto fez uma matéria bem interessante sobre o chamado ócio criativo, aproveitando citação de respostas minhas a uma breve entrevista. Resolvi desenvolver um pouco mais o tema aqui no blog.
A ideia de a criatividade fluir com dinamismo num ambiente menos carregado de compromissos e mais pautado pelo ócio não é nova. Está em Platão e em Sócrates. Era assim que os gregos antigos da Atenas clássica percebiam as pré-condições necessárias para a emergência da boa filosofia, da arte e da política, dimensões então apreendidas de uma forma orgânica e inter-relacionada. Naturalmente, nem todos os cidadãos podiam deixar o trabalho nas suas propriedades para passar os dias em palestras, banquetes, colóquios... Então, havia certo tom elitista nesta fórmula. Alguns dispunham de escravos para suportarem as tarefas pesadas e manuais, liberando-se para a política e a filosofia. Finalmente, por suposto, o exercício da cidadania não era extensivo às mulheres, cuja capacidade de pensar, inclusive, muito raramente se reconhecia.
Com a vulgata cristã que se espalhou na Idade Média europeia, o ócio criativo e elitista dos gregos derivou em desabrido preconceito contra as atividades manuais e argentárias. Agricultores, manufatureiros e comerciantes eram considerados como essencialmente inferiores ao clero e à nobreza – em tese, devotados à pregação, à contemplação espiritual e, no caso dos nobres, à guerra. Clero, nobreza e povo formavam então os três estados, convocados em assembleia pelos reis em tempos de aguda crise. Ao povo, certamente cabia mourejar e arcar com os impostos. Em nenhum outro país, como talvez na Espanha, a mais poderosa nação da primeira metade do século XVII, estes preconceitos calaram tão fundo e foram levados tão longe, com sequelas perceptíveis ainda em plena Era moderna.
Seria necessário o advento do protestantismo para que a cristandade lançasse outro olhar sobre a labuta. No século XVI, os puritanos na Inglaterra interpretaram todo o sinal de sucesso pessoal como uma benção divina. Calvinistas e Luteranos fizeram o mesmo. Mais tarde, a burguesia, cuja ascensão conecta-se também à ética protestante, entronizou o respeito ao trabalho, ainda que seu sucesso inicial tenha se dado na esteira da exploração feroz da mão de obra operária.
O enriquecimento das nações predominantemente protestantes e o declínio das católicas consolidou a convicção de que o trabalho era o melhor percurso para o progresso e para a felicidade. Com os horrores da Segunda Grande Guerra, quando se montou uma macabra indústria da morte, submergindo o mundo num pesadelo, alguns começaram a perceber que algo estava errado. Foi o caso do célebre escritor suíço Stefan Zweig, em 1941, quando, desejando escapar de um mundo que se precipitava na autodestruição desenfreada, viu no então aparentemente pacato e tolerante Brasil o “país do futuro”.
No fim do século XX, quando a aceleração da história, a vida on-line e a fartura se instalaram numa Europa desenvolvida no pós-guerra e agora pretensamente unificada, elevaram-se vozes lembrando que era preciso voltar a curtir a vida, relaxar, flanar. O ócio criativo timbrou então como grande novidade num Continente envelhecido e em sociedades ossificadas. Alguns levaram a concepção tão ao pé da letra que a confundiram com uma exacerbada concessão de benefícios supostamente sociais, a serem bancados por estados endividados. Protegidos e mimados, muitos passaram a se aposentar com proventos integrais, incrivelmente jovens e faziam ainda pouco caso do trabalho durante a curta vida ativa. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Grécia e na Itália, onde, aliás, não só a economia criativa parece ter se beneficiado muito pouco de todo esse ócio, como toda a economia naufragou.
Enquanto isso, no Brasil, se continuou trabalhando. E muito! Qualquer brasileirinho, a despeito da fama maldosa que ao nosso respeito se construiu no mundo nas décadas passadas, e na qual muitos de nós até acreditaram, trabalha em média muito mais – e em condições nem sempre tão confortáveis – do que qualquer europeu. Há estatísticas e pesquisas que o provam! Ok, talvez em setores da burocracia não funcione bem assim..: são até folclóricos certos casos de funcionários públicos que nada fazem e nunca são demitidos. Mas cabe realmente perguntar se esta é a regra, mesmo na burocracia.
Paralelamente, desenvolvemos uma espécie de tecnologia de ponta da cultura hedonista, da qual o carnaval e o futebol são sem dúvida expressões eloquentes, o que subitamente se tornou muito apreciado na contemporaneidade pós-moderna.
Mas o país é recheado de contradições. O trabalho intelectual e literário entre nós não goza do mesmo prestígio que em outras sociedades. Nossos mestres, professores, escritores, artistas e intelectuais são em geral mal remunerados e, lentes da nova economia criativa, vivem ainda sufocados por uma burocracia sem fim – como a das leis de incentivo à cultura, por exemplo – ou assoberbados pela exigência de, num mundo hiper-interativo, funcionarem permanentemente como caixeiros-viajantes de sua própria obra.
Sim, a situação já foi muito pior. Há alguns anos, mal se falava em direitos autorais para escritores e os mecanismos de financiamento à cultura, se hoje são precários, então praticamente não existiam. Ainda assim, o investimento brasileiro em cultura, educação e pesquisa é muito aquém do que seria razoável e o país desperdiça diariamente talentos, que precisam se desdobrar em mil para produzirem alguma coisa, para divulgarem seu trabalho e para se sustentarem economicamente. Já nem sonho com o ócio criativo, mas imaginem só se as condições de trabalho dos agentes da economia criativa fossem incrementadas? Considerando o peso que esta cadeia produtiva tem no desenvolvimento contemporâneo, poderíamos estar promovendo uma verdadeira revolução...
Então, penso, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem o delírio autodestrutivo e desumanizado do trabalho sem fim, nem a indolência. E, no Brasil, está na hora de aprimorarmos as políticas de incentivo à cultura e à pesquisa, bem como melhorarmos significativamente a educação. Antes do ócio criativo, precisamos melhorar as condições básicas para o advento definitivo da economia criativa.
Terminei nesta quinta-feira leitura da última parte dos manuscritos para o primeiro volume da monumental biografia do Getúlio Vargas que o Lira Neto está escrevendo. Jornalista e escritor de mão cheia, Lira Neto vem se especializando em produzir excelentes estudos biográficos, dentre os quais se destacam obras sobre José de Alencar, a cantora Maysa, Castelo Branco e Padre Cícero. Ele tem um ótimo site: confira aí!
O texto do novíssimo livro sobre Getúlio Vargas, que será publicado pela Companhia das Letras, é elegante, bem escrito, equilibrado e substancioso. Conseguiu, ao mesmo tempo, produzir uma excelente síntese a partir da historiografia corrente e ir além do que se tinha até então, apresentando bons argumentos com base na consulta às fontes. Teremos com certeza um grande livro! O Lira organizou até um blog para o livro que está na forma.
O pessoal tem me perguntado pelas livrarias nas quais já é possível encontrar o “Gênese do Estado Moderno no RS (1889-1929)”, a minha tese de doutorado recém-publicada pela Editora Paiol. Então, abaixo relaciono algumas, em Porto Alegre, Pelotas e Caxias do Sul:
BECO DO LIVROS
CAMERON - COUNTRY
CAMERON - BOURBON
LIVRARIA CULTURA
ISASUL DISTRIBUIDORA
MANECO CAXIAS (Caxias do Sul)
MANECO UCS (Caxias do Sul)
MARTINS LIVREIRO
SARAIVA PRAIA DE BELAS
SARAIVA BARRA SCHOPPING
ESPAÇO CULTURAL - PUC
INDEPENDENCIA
ROMA - PRAIA DE BELAS
TERCEIRO MUNDO - UFRGS
LIVROS DE NEGOCIOS (nas 4 filiais)
PALAVRARIA
UNIVERSITÁ - FAPA
VANGUARDA (Pelotas)
Leitura XXI: www.leituraxxi.com.br (link Paiol)
Bem legal a animação feita para a Prefeitura de Porto Alegre pela Hype. Dá para ver bem a quantidade e grandiosidade de obras importantes previstas para a cidade. Há décadas Porto Alegre não passava por uma repaginada dessas. Parabéns a todos os envolvidos neste processo!
Tem estado particularmente fresco em Gramado, para esta época do ano. À noite, puxa-se um edredom e pela manhã liga-se até uma estufinha no banheiro. Favorece a preguiça e o acordar um pouco mais tarde. Durante o dia, um sol ameno convida ao jardim. Estou conseguindo assistir filmes, ler um pouco e escrever. Se permanecesse aqui por alguns meses, colocaria em dia muito do que me proponho a escrever. A escrita rende um monte em Gramado. Talvez seja o clima, o ar da serra, a vegetação no entorno, sei lá. Acho, aliás, uma pena que, em se tratando de uma cidade turística, esta vocação não seja melhor trabalhada. Há dúzias de escritores e intelectuais produzindo discretamente em Gramado. Mas na livraria da cidade, a Sucellus, nem uma estante dedicada a eles. A bem ajeitada biblioteca municipal parece que também não se acordou para isso.
O lado B da cidade também existe. O trânsito, por exemplo, tem estado bem chatinho. Quando não são turistas abobalhados, que não sabem circular em rótulas, são alguns gramadenses e canelenses. Muitos perderam a paciência com o trânsito lento e se tornaram agressivos. Na RS entre as duas cidades, excedem a velocidade, grudam nos veículos da frente de forma impertinente, tentando passar por cima, com sinais de luz e buzinas. Nas rótulas, ignoram a preferência de quem chega primeiro e, ao contrário dos turistas, que sempre acham pertencer a preferencial aos outros, se atravessam na frente de todos. Na Avenida São Pedro, é quase impossível conseguir que alguém dê passagem com gentileza, quando se quer sair de uma vaga de estacionamento. Mesmo com fluxo a 20 Km/h, uma paradinha gentil, nem pensar! Alguns taxistas, em especial, dão medo, de tal maneira cortam, costuram e tentam administrar cada espaçinho. Essa agressividade toda deveria ser tratada. A Prefeitura, infelizmente, não tem programas educativos e é deficiente na fiscalização. Deveriam distribuir folhetos, postar fiscais para orientação e, quiçá, aplicar multas. Na RS, urge a instalação de câmeras de vigilância para coibir manobras violentas. Gramado está ficando com problemas de trânsito de cidade grande, dado a atividade econômica frenética e o fluxo intenso de turistas. É o cúmulo que a Prefeitura se abstenha de agir. Obras viárias são necesárias, mas não são tudo. E, a propósito, acho que a cidade já reclama um melhor serviço de transporte público, como lotações, pequenos micro-ônibus, como forma de desafogar a área central. Faltam, também, bicicletários e ciclovias!
Voltando aos filmes, ontem revi pela televisão o excelente Salve Geral. Ainda há gente conservadora e mal informada que ignora a excelente safra do cinema nacional. O filme de Sérgio Rezende é, sem dúvida, ótimo! Melhor do que a maioria absoluta das porcarias policiais americanas que se atulham nas locadoras. Além de tecnicamente bem resolvido, é uma percepção inteligente do trágico Levante do Dias das Mães, em São Paulo. É um policial impactante como eram aqueles filmados na Nova Iorque dos anos 1970. Quem ainda não assistiu, não deve perdê-lo.
Eu ainda não tinha assistido ao Meia-noite em Paris, do Woody Allen. Ouvi dizer que muita gente achou se tratar de um filme sobre Paris. É um filme delicado sobre o diálogo entre culturas, pois aborda os estereótipos dos americanos com relação a Paris. Cada personagem representa um desses estereótipos turistas, típicos da era da sociedade de consumo de massas. O filme capta, sobretudo, como cidades icônicas estão morrendo por terem se tornado reféns de sua própria fama, o que atrai levas de moradores transitórios que anseiam por viver o seu passado e sua “atitude”. Dado o volume desses fluxos, acabam cidades com um presente cada vez menos profícuo e menos criativo. Woody enfrentou esta questão ultra-contemporânea pela ambiência de Paris, mas, creio, era de Nova Iorque que ele estava mesmo falando, ao fim e ao cabo, cidade onde vive e que ama. Metrópole que, junto com Paris, mais vem sofrendo desse mal. São hoje cidades que consomem tudo o que se faz e o que há no mundo, mas que cada vez mais vivem das imagens que se fazem do seu passado e cada vez menos produzem conceitos e novas atitudes para a contemporaneidade. São cidades cansadas.
Consegui, finalmente, terminar a leitura do Homem no Escuro, de Paul Auster. O livro começa bem, com um ótimo argumento. Um thriller cativante de um sujeito que se vê tragado para uma oura dimensão, paralela, na qual os Estados Unidos entraram em guerra civil, depois das eleições fraudelentas do Bush e do 11 de Setembro. O enredo fica ainda mais palpitante quando esse sujeito é comissionado para matar um velho jornalista na dimensão “real”, pois os líderes políticos do mundo paralelo descobriram que esta guerra acontece por estar sendo imaginada na cabeça desse alvo. Mas tudo não passa de uma conspiração do próprio, que se encontra imerso numa terrível depressão, deseja se suicidar e, para tanto, criou um personagem imaginário para matá-lo, dando-lhe carne e osso graças a esse trânsito entre dimensões. Há boas ironias sobre a ideologia norte-americana, sobram críticas à mercantilização de nossa sociedade e explora-se o conceito de múltiplas realidades paralelas, típico do pós-modernismo: “a gente entende que as piores possibilidades da imaginação são o país onde a gente vive”. Um bom testemunho da sombria era Bush. Outra peculiaridade do livro, bem característica da literatura da virada do milênio, é protagonismo atribuído a um personagem encanecido. Os velhos raramente eram protagonistas de romances pré-modernistas, como registra Simone de Beauvoir. Mas com o envelhecimento da sociedade contemporânea, isso mudou. Estão ali todos os dramas da velhice, mas o recado final é otimista. Ao fim e ao cabo, o “suicídio” não se confirma, graças a chance de interlocução do velho com a sua neta, uma adolescente que também está depressiva. Solução muito próxima àquela que Coetzee vem dando à velhice em sua obra. Foi pena que a narrativa acabou de forma meio amadora. Os personagens imaginários simplesmente desaparecem e tudo o que fica é uma conversa sobre o fim de um casamento. Dá a impressão que Auster comportou-se como os gregos antigos, que, nas tragédias mal estruturadas, chamavam um deus ex machina para terminar com o drama e encerrar o que não sabiam concluir. Mas esta é a vantagem de ser um escritor famoso – pode-se acabar um bom livro de qualquer jeito, que todos vão continuar adorando.
Oi gente! Saiu uma entrevista comigo no blog da CLL de Porto Alegre. Confiram aí.
No último dia 16 de dezembro, os jornais noticiaram a morte do célebre crítico literário e polemista britânico radicado nos Estados Unidos, Christopher Hitchens. Vitimou-o uma pneumonia decorrente de um feroz câncer no esôfago, contra o qual lutava há 18 meses. Foi, indubitavelmente, um desses sujeitos que deixava o mundo mais interessante, mesmo quando se batia por teses insustentáveis.
Não sou especialista na sua obra. Li dele a ótima coletânea Amor, Pobreza e Guerra, o comentadíssimo Deus não é Grande, ainda na edição americana, alguns artigos esparsos publicados na Nation e na Vanity Fair... e estava justamente me deliciando com seu Hitch 22, livro de memórias lançado em 2010. Dono de um texto elegante e provocativo, este irrequieto intelectual público é quase sempre instigante.
Encontrei-o pessoalmente em duas oportunidades. A primeira vez foi em 2006, na Flip, em Paraty, no Rio de Janeiro. Havia grande expectativa em torno de sua aparição, afinal, tratava-se de um dos mais badalados polemistas da segunda metade do século XX, que pretendia seguir a tradição de um George Orwell, sobre quem, aliás, escreveu um livro. Ele participaria de uma sessão com Fernando Gabeira, discutindo, dentre outras coisas, a chamada guerra ao terror. A composição não era de todo improvável, pois ambos tinham em comum a origem na esquerda, de cuja versão mais doutrinária vinham se distanciando progressivamente desde os anos 1980.
Para Hitchens, o ponto de inflexão mais evidente fora a timidez da esquerda europeia diante da condenação, pelo regime iraniano, do escritor Salman Rushdie, então ameaçado de morte. Gabeira, por sua vez, divergiu de uma visão romântica da luta armada durante a ditadura militar e reconheceu que a resistência radical carregou também o componente de ajudar o regime a justificar a sua permanência. Ambos concordavam que, depois da queda do Muro de Berlim, a sobrevivência das bandeiras de esquerda no Ocidente passava por uma atualização das pautas, sendo inescapável o compromisso com a radicalidade democrática e a liberdade. Gabeira lançou-se na pugna pelos direitos das minorias e abraçou a causa ecológica. Hitchens cada vez mais chamou a atenção investindo contra celebridades, como a Madre Teresa de Calcutá, Lady Di, Bill Clinton e, finalmente,... Deus.
O encontro não foi dos mais felizes. Gabeira considerou a guerra do Iraque aberrante. Já Hitchens – o mesmo que investira na denúncia do esquecido genocídio dos armênios, perpetrado pelos Jovens Turcos durante a Primeira Guerra Mundial, ou, ainda, que militara contra a Guerra do Vietnã – surpreendera a todos assumindo em 2003 uma posição declaradamente favorável à invasão americana no Iraque. Para os neo-cons de Bush, não poderia haver melhor garoto propaganda do que o verborrágico polemista, cuja verve vinha fulminando o legado da política externa de Henry Kissinger, a quem insistia em declarar criminoso de guerra. Desde o 11 de setembro, Hitchens tornara-se obcecado pela ideia de um islamofascismo a ameaçar os valores do Ocidente, parecendo absorver a frágil, mas mobilizadora, lógica do conceito de choque das civilizações, cunhado por Samuel Huntington.
Em Paraty, assim, assisti-o garantir que as provas da existência das armas de destruição em massa, que serviram de pretexto para justificar a invasão norte-americana, ainda seriam encontradas. Não apenas nunca apareceram, como, depois de dez anos, mais de 100 mil mortos e trilhões de dólares jogados pelo ralo, torna-se cada vez mais improvável reconhecer a pertinência daquela surtida.
Curiosamente, não era a primeira vez que Hitchens engajava-se na defesa de uma intervenção militar. Em 1982, rompera com a Internacional Socialista ao apoiar a Inglaterra no conflito com a Argentina em torno das Ilhas Malvinas. Aparentemente, acreditava que os ingleses ajudariam a depor o ditador General Leopoldo Galtieri, quando tudo o que de fato pretendiam era preservar a sua posição estratégica no Atlântico Sul. Dez anos mais tarde, Hitchens debruçou-se sobre a questão bósnia, fustigando o sanguinário Milosevic, enquanto a esquerda ainda flertava com o suposto herdeiro de Tito. Pelo menos um ano antes do horror de Sebreninca, Hitchens alertava para a iminência de um genocídio. Clamou por uma intervenção militar das forças internacionais na Ex-Iugoslávia, que acabou chegando, mas não antes que 200 mil pessoas morressem.
Outro badalante polemista, o francês Bernard-Henri Levy, também se mobilizara em favor de uma intervenção militar na Iugoslávia, encampando os mesmos argumentos. Todavia, mais cauteloso, BHL, embora entusiasta da cultura norte-americana na França, jamais festejou a guerra de Bush. Considerou-a inconveniente por não contar com a legitimidade da ONU e a adesão da França e da Alemanha.
Vagamente informado sobre o envolvimento de Gabeira no sequestro do Embaixador Norte-Americano, em 1969, Hitchens alfinetou seu colega de mesa, com agressiva ironia: alertou-o manterem os americanos salas especiais para os terroristas nos aeroportos do País. Um frêmito constrangido percorreu a lotada e atenta plateia. Para um homem conhecido por suas explosões de ira na pugna por uma ideia, não era atitude de se estranhar. Mas em seguida, seu semblante traduziu certa insegurança diante da reação da assistência, que repudiou a grosseria. Afinal, Gabeira é dos políticos brasileiros mais respeitados, justamente por seu compromisso com a ética, com a liberdade e com a democracia. Seu envolvimento em ações chamadas terroristas no passado explicava-se em um contexto do qual o próprio Gabeira, já distanciado dos fatos, fazia a crítica.
Percebendo o erro, ao retornar aos Estados Unidos, Hitchens escreveu uma crônica se retratando. Disse – não, talvez, sem certa ironia – que apreciava dois ex-terroristas: um deles era o Gabeira. Mas do episódio ficou-me a impressão de Hitchens ser capaz de sustentar posições com veemência, mesmo sem o necessário conhecimento do contexto e dos fatos.
No ano seguinte, recebi-o em Porto Alegre, aonde viera conferenciar no âmbito do seminário Fronteiras do Pensamento, cuja curadoria então eu integrava. Lembro-me de ter sido aquela uma semana atípica, pois em função de alguma dificuldade de datas e agendas – cujos detalhes hoje já me escapam – dois dias depois da conferência de Hitchens, outra grande intelectual pública norte-americana, Camille Paglia, proferiria também sua fala. Normalmente, o Fronteiras do Pensamento recebia no máximo um convidado por semana. Mas, naquela oportunidade, Hitchens e Paglia estariam ao mesmo tempo em Porto Alegre. Sabedor dos diversos temas que os opunham, a começar pela Guerra do Iraque, contra a qual Camille havia sido das primeiras vozes intelectuais e se levantar nos Estados Unidos, vi-me numa verdadeira saia justa para evitar a todo custo um encontro dos dois.
Pessoalmente, Hitchens mostrou-se um sujeito afável e envolvente, de conversa agradável e inteligente. Olhos azuis penetrantes faiscando num rosto bonito, embora algo inchado. E continuava fazendo jus a sua fama, consumindo quantidades industriais de bebida alcoólica. Foi agradabilíssimo com todos em um jantar de boas vindas oferecido pela organização do seminário do restaurante Don Peppo. Surpreendeu-se ao ouvir contar da importância que o Brasil tivera no Iraque nos anos 1970, até a Guerra do Golfo, trocando, por petróleo, frangos, carros, material bélico e obras de engenharia. O desenvolvimento da indústria petrolífera dos dois países estava umbilicalmente conectado. Por que ninguém sabe disso, quis saber? Porque se sabe muito pouco sobre o Brasil, alguém respondeu com percuciência. Encantou-se com a conversa de convivas eu conheceram bem Bagdá antes da guerra. Elogiou os vinhos chilenos que foram servidos. E, finalmente, confirmou-me que se arrependera da indelicadeza precipitada contra Gabeira no ano anterior.
No dia seguinte, não gostou muito de ficar aguardando no camarim e na sala de recepção o momento de subir ao palco do salão de atos da Ufrgs. Pediu para dar uma rápida caminhada no Parque da Redenção, enquanto aguardava. Queria respirar o ar da noite que caía e, aparentemente, descarregar a adrenalina contida antes do início da conferência. Tinha uma energia física impressionante.
A intimidade com o palco era completa. Em segundos, preencheu todo o ambiente e engolfou a todos com movimentos lânguidos e uma voz aveludada, timbrada em inconfundível sotaque britânico. Hitchens era um virtuose da palavra escrita, mas também da oratória. Pausava e acentuava com elegância, conferindo ritmo a sua exposição e magnetizando a audiência. Suas primeiras palavras trataram de conquistar o público, agradecendo a oportunidade de estar em uma cidade tão encantadora, na qual ele pôde caminhar sob a copa florida dos jacarandás... – estávamos em princípios de novembro.
Em seguida, enfrentou seu foco com determinação, expondo o argumento central do livro recém-lançado Deus não é Grande. Por cerca de 60 minutos, destrinchou a encruzilhada entre fé e razão – instâncias para ele irreconciliáveis – como a questão mais importante da contemporaneidade. Para Hitchens, a religião não só não teria função prática apreciável que não pudesse ser substituída, como a sua presença no mundo a tudo envenenaria. Propôs um ateísmo radical como forma de combater o domínio da ilusão e contribuir para a emancipação do ser-humano, professando sua adesão inequívoca ao evolucionismo e à ciência, bem como se afirmando como uma espécie de paladino de um Iluminismo renovado. Depois de empenhar-se em escandalizar a esquerda doutrinária desde o fim dos anos 1980, agora, por meio desse libelo ateísta, Hitchens estava se reconciliando com parte de sua origem trotskista, reproduzindo a máxima materialista que percebia a religião como ópio do povo. No espaço destinado às perguntas do público, descartou ainda a utilidade do compromisso do catolicismo latino-americano com os direitos humanos e desprezou as conquistas estadeadas pela Teologia da Libertação, resumida a mais uma estratégia de mistificação.
A íntegra da conferência está publicada no livro que organizei juntamente com Fernando Schüler e Juremir Machado, editado pela Editora da Unisinos.
Terminada a sessão, tive a oportunidade de trocar algumas impressões com o conferencista, dando sequencia a conversa iniciada já na véspera. Perguntei-lhe se não estava partindo de uma premissa frágil e, de certa forma, também algo sectária, ao repelir a possibilidade da uma razão lúdica, tal qual a imaginada por São Tomás de Aquino, cuja retomada, mais recentemente, vem desenvolvida em autores diversos como Heidegger e Michel Maffesoli. Hitchens considerou Aquino um místico, crente em fábulas como a astrologia. A religião, argumentou, surgiu como explicação de mundo antes do advento da ciência, depois da qual se tornou uma narrativa ilógica, descartável e inconveniente. Infelizmente, acreditava, o mundo contemporâneo estava retroagindo ao abraçar um retorno ao irracionalismo místico no momento em que a era da razão deveria se consolidar. Objetei-lhe que talvez esse retorno ao lúdico estivesse se dando em decorrência de um estresse coletivo causado pelo excesso de materialismo e racionalismo, lembrando precisamente o que Stephen Zweig escrevera no prefácio de seu Brasil, um país do futuro; e, ainda, que Zygmunt Bauman interpretara o Holocausto como um drama de toda Humanidade, e não apenas do povo judeu, justamente por ter sido um desdobramento em escala industrial do padrão racional modernista. Hitchens fitou-me com um misto de curiosidade e ceticismo – não indicava ter lido o livro de Zweig, o Brasil parecia figura improvável no seu esquema mental ancorado numa dinâmica de cânones ocidentais e, por fim, o nazismo lhe parecia um fenômeno totalitário muito mais potencializado pelo irracionalismo do que pelo excesso de racionalismo. O impulso para o religioso, insistira, estava na origem do totalitarismo, cuja versão mais acabada seria a indistinção absoluta entre espaço público e privado por conta da afirmação de um panóptico sistema de autoridade e vigilância.
Mas o Iluminismo não necessariamente vivia em estado de choque sistêmico com o religioso, podendo em muitos casos emergir da própria ambiência espiritual, insisti, invocando a generosidade precursora do jesuíta Padre Antônio Vieira para com índios e judeus no Brasil do século XVII. Para quem se acostumou a perceber o Iluminismo como apanágio do século XVIII francês e anglo-saxão, creio ter meu argumento lhe parecido insólito. Disposto a enquadrar logo aquele debate com uma questão de efeito, Hitchens desafiou-me a citar pelo menos uma religião que não se valera do divino para justificar um esquema de dominação do masculino sobre o feminino e que não promovera a diluição do indivíduo e da liberdade em face de um arcabouço moral aplastante.
Pensei em enveredar por considerações sobre a centralidade da mulher na cultura judaica (HItchens era filho de mãe judia, embora tenha sido informado dessa condição apenas depois da morte de sua progenitora), mas antevi a pletora de argumentos ensarilhados de antemão para contrapô-las. Desloquei assim a questão do monoteísmo para o sincretismo, registrando serem parte expressiva dos sacerdotes nas religiões afro-brasileiras mulheres ou gays. Associando tais manifestações do sagrado à Santeria cubana, Hitchens foi logo argumentando que não podia ser bem assim, pois em Cuba o comando dos terreiros era hegemonizado por homens e ele não percebia nada de libertário nesses sistemas. Seu tom parecia indicar que os considerava no mesmo plano das superstições banidas da Europa com o extermínio das bruxas durante a Idade Média. Bizarro, pensei, pois tal conceito não estaria a indicar uma vitória definitiva, sobre mentes pretensamente ilustradas, da Inquisição, talvez a mais totalitária – para estar em sintonia com o pensamento de Hitchens – das manifestações monoteístas?
Com calma, procurei explicar-lhe que o sincretismo afro-brasileiro guardava, na melhor das hipóteses, parentesco distante da Santeria cubana, pois reconfigurara elementos de diversas tradições africanas, combinando-se historicamente com o catolicismo popular, a pajelança indígena, o espiritismo kardecista e até o budismo, tornando-se, portanto, algo bem diferente daquilo que ele eventualmente conhecera em Cuba e ainda mais distante do vodoo praticado em New Orleans, tradição, esta, muito pouco conhecida no Brasil. Tratava-se de uma crença dinâmica e diversificada, com razoável grau de penetração e visibilidade na sociedade. Ademais, se era o totalitarismo de uma moral generalizante que tanto o incomodava nos monoteísmos, porque considerar como primitivos estes sistemas de crenças que eram exatamente incapazes de estabelecer universalismos morais, nos quais a noção de pecado é fluída, quase inexistente, o paraíso e o inferno se realizam no aqui e agora, na vida real – religiões, enfim, que aceitam o mundo como ele é e as pessoas como elas são, propugnando a satisfação dos desejos individuais no presente? De resto, para quem encampava a lógica dos cânones ocidentais, reconhecendo nos gregos antigos a origem de nossa cultura, como ignorar que os criadores da filosofia crítica achassem perfeitamente natural combinar o exercício da lógica com oferendas, inclusive sacrificiais, às suas divindades, como, aliás, o próprio Sócrates recomendou a um discípulo seu?
Hitchens ouviu-me, talvez mais por cordialidade do que por interesse. Nossa conversa infelizmente não pôde prosseguir, pois o tempo do qual dispúnhamos se esvaía. Disse-me, amável, que adoraria voltar ao tema em outra oportunidade. Pareceu-me sincero. Mas não pude afastar a impressão de que, para alguém que se propunha a discutir o divino, ele dominava com superficialidade constrangedora a história comparada das religiões. Senti impulsos de recomendar-lhe leituras básicas, como o romance infanto-juvenil A viagem de Théo, de Catherine Clément. Isso provavelmente o teria irritado. Mas a evidência científica de argumentos sociológicos e antropológicos, buscados à realidade cultural brasileira, desmontavam a tese deblaterada em seu libelo ateísta.
Hitchens poderia ter-se limitado a combater os males do fatalismo religioso, com seus fundamentalismos, intolerâncias e constrangimentos de toda ordem à liberdade, à ciência e ao indivíduo, no que estaríamos de pleno acordo. Mas pretendeu ampliar sua crítica para um universalismo simplificador da realidade, tão aplastante quanto qualquer fatalismo moralista. E fê-lo apoiando-se em conceitos rasos fixados em terreno argiloso. Em especial, por desconsiderar as especificidades contextualizantes da História e perceber o sistema de crenças humano como uma engrenagem estruturalista. A confusão dos fundamentalismos com a totalidade das religiões nos manifestos de Hitchens, bem como de Sam Harris e Richard Dawkins, foi, em seguida, precisamente apontada pela historiadora britânica Karen Armstrong, em artigo de 2009.
Normalmente, confesso, não tenho muita paciência em digerir esses manifestos. Li, por exemplo, Luc Ferry, que, basicamente, diz as mesmas coisas que Hitchens, mas em francês, num estilo menos figadal e revestido de pretensa legitimidade filosófica. Penso que estas são expressões intelectuais de uma Europa culturalmente cansada, cada vez mais tíbia em desenhar algo novo. Ademais, entre o ateísmo reducionista de Hitchens e o fatalismo de criacionistas ou fundamentalistas há um universo inteiro a ser explorado.
Registre-se a obra do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, ou dos poetas modernistas Mario e Oswald de Andrade, cuja ode à hibridação cultural brasileira testemunha a desimportância entre nós dessa cisão quase genética entre fé e ciência que tanto abala os europeus e norte-americanos. Outra coisa não o mostram as pesquisas recentes que indicam que cerca de 90% dos brasileiros acreditam em Deus, sem, contudo, necessariamente precipitarem-se em um fatalismo desabalado e atávico. Embora, por exemplo, o debate sobre o uso científico de células tronco tenha alcançado o STF, envolto em forte emocionalização, o criacionismo não tem hoje força suficiente para arrancar posições ao estado laico instaurado desde a Proclamação da República em 1889. Da mesma forma, se o reconhecimento dos direitos dos homossexuais é cassado no Congresso Nacional, por pressão de bancadas evangelizadas, o está sendo paulatinamente garantido na Justiça.
Vale também invocar o peculiar testemunho do filósofo paulista Vicente Ferreira da Silva, morto prematuramente em 1963, que combinou com originalidade a problemática existencialista heideggeriana com a tradição espiritualista portuguesa, propondo uma razão lúdica, uma ciência irredutível a utopias, combinada com o poético, um humanismo indissociável do afeto e da natureza. No extremo oposto, por suposto, desse Iluminismo afunilado ventilado por Hitchens.
Pode-se referir, ainda, o ateísmo ilustrado de Camille Paglia, cuja tese de doutorado, sua obra seminal, muito a propósito, deslinda uma abordagem cultural a partir da história comparada das religiões. Camille, ateia assumida, acredita que as religiões carregam um sistema ético e de valores capaz de contrabalançar com certa eficácia a exacerbação hedonista e consumista do indivíduo contemporâneo. Desconcertando muitos libertários de esquerda em cujo front ela também se aduna, Camille ainda sustenta a pertinência do ensino religioso nas escolas. Mas o esgrime numa perspectiva culturalista, pois, segundo ela, a história comparada das religiões permitiria aos jovens a percepção de diferentes visões e interpretações de mundo, já que, ao fim e ao cabo, é isso o que cada sistema de crenças promove, donde se descobririam muito mais transversalidades e semelhanças do que oposições irreconciliáveis, favorecendo-se, assim, a emergência da tolerância.
De qualquer forma, o mundo tornou-se menos interessante depois da morte de Hitchens. Meu contato com ele foi efêmero e eu não li senão uma pequena fração de sua obra. Não tenho, portanto, condições de avaliar o quanto sua projeção pública apoiava-se com solidez sobre um conjunto de fôlego, escrito para permanência no futuro, ou sobre libelos apaixonados catalisadores das atenções no presente imediato. Em sites e revistas, sobretudo nos Estados Unidos, já começaram a sair artigos e dossiês sobre Hitchens, como este no Salon.com. Então, o tempo dirá. Mas Hitchens era sem dúvida um sujeito de conversa muito agradável, sedutor, dono de uma oratória brilhante e articulada e que exercia um importante papel – mesmo estrando errado, ou mal escorado em seus argumentos –, ao suscitar questões polêmicas, de instigar permanentemente o debate de ideias.
Dezembro foi um mês com muitas perdas para a cultura. Posto aqui hoje o link para post do Gerald Thomas, em seu blog, sobre o Sérgio Britto.