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Posts na categoria "América Latina"

Revista Carátula

08 de fevereiro de 2012 0

Está on-line a revista Carátula, periódico cultural centro-americano dirigido pelo escritor nicaraguense Sérgio Ramirez. Ele proferiu uma excelente palestra em Porto Alegre, no Fronteiras do Pensamento, em 2007. Há bons artigos. Confiram aí.

Entrevista comigo, por Mark Dery, publicada no site Thought Catalog

21 de outubro de 2011 0

Foi publicada hoje no site Thought Catalog, de Nova Iorque, uma entrevista comigo, feita pelo jornalista e crítico cultural norte-americano Mark Dery (cujo livro “Não Devo Pesar em Coisas Ruins” foi publicado no Brasil no final do ano passado pela Editora Sulina). Falamos sobre Carnaval, Gilberto Freyre, preferência nacional pelo bum bum, José Vasconcello e muito mais. Confere aí o link!

Sobre o sigilo eterno dos documentos diplomáticos

22 de junho de 2011 1

De repente, esse assunto do sigilo dos documentos ultrassecretos no Brasil virou um ba-fa-fá. Em parte por inabilidade do próprio governo, que se enrolou com um avança-e-recua, com declarações precipitadas da Ministra Ideli Salvatti e com ameaças de rebelião da base aliada no Congresso. Embora debate sempre pertinente, o tema ganhou dimensão exagerada.

Em tempos de ocaso da privacidade burguesa e escancaro via wikileaks e que tais, não faz sentido em democracias reais pretender o sigilo eterno de documentos oficiais. Entretanto, creio, têm os países todo direito de entender não ser recomendável certos documentos venham a público fora de contexto. Para isso, existem as classificações e os tempos de reserva. Os critérios que os definem e regulam podem ser técnicos até um certo ponto. Depois, começa a ficar algo nebuloso. Dependendo do documento, 50 anos pode ser muito tempo, ou pouco… Penso que devamos ser contrários ao sigilo em assuntos que tangem a administração pública, por exemplo. Mas, com efeito, há aspectos do interesse nacional que podem merecer reserva mais cuidadosa.

O Itamaraty, em geral, tem se mostrado conservador com relação a certos temas, atinentes, por exemplo, à fixação de limites do País. Penso que na maior parte dos casos há exagero nessa abordagem. Um exagero encarquilhado, que se mantém mais por inércia. É coisa que vem, talvez, do tempo da Proclamação da República, quando muitos políticos brasileiros abraçaram a tese, animada por estrangeiros, de que o Império fora agressivo e expansionista.

Hoje, ainda, vemos o Itamaraty pecando pelo silêncio, quando podia explicar suas posições históricas com segurança e propriedade. É o caso, por exemplo, da fixação de limites com a República do Uruguai, um processo do qual não há nada do que o Brasil deva se envergonhar, pelo contrário, como mostrou recentemente o livro do Ministro Fernando Cacciatore de Garcia. Também o Tau Golin, no exaustivo estudo sobre a fronteira, sublinha que o Brasil não subornou os demarcadores uruguaios, como se chegou a dizer. Enfim, o que esse autores mostram é justamente que o Brasil procedeu dignamente em muitos aspectos tidos por polêmicos.

Vale o mesmo para o Acre. Quando o oportunista Evo Morales disse que o Acre foi trocado por um cavalo, não só cometeu uma leviandade como proclamou uma mentira. O governo do Brasil só abraçou a causa acreana – motivada por uma rebelião autônoma de seringueiros e posseiros (em parte, sim, financiados pelo Governo do Amazonas e liderada, num segundo momento, pelo gaúcho Plácido de Castro) – quando a Bolívia, incapaz de manter a soberania sobre aquele território, entregou-o a uma chartered company norte-americana. Ora, a intervenção do Itamaraty preservou o continente sul-americano de uma inconveniente e ameaçadora intervenção estado-unidense. Isso seria motivo de orgulho para o povo brasileiro, mas é tratado com descaso pelo nosso governo. O próprio Ex-presidente Lula se calou quando o Morales invadiu com o exército instalações da Petrobrás. Assim, o silêncio do Itamaraty toda a vez que alguém levanta essa lebre, é lamentável. Nós, brasileiros, não merecemos que nos inculquem uma má consciência e um recalque que não nos cabem. E por aí vai.

Mas admite-se que alguns documentos exijam de fato retenção mais prolongada – por 60, 100 anos, sei lá… Até, em certos casos, para preservar a autoestima dos nossos próprios vizinhos. Duvidam? Cito um caso, só unzinho. No início da década de 1820, territórios da hoje Bolívia realizaram votações internas e pediram para integrar a nacionalidade brasileira. Em respeito à soberania dos vizinhos e também para evitar criar novas frentes de atritos, o então Imperador Dom Pedro I desautorizou estas movimentações e negou-se a admitir o fatiamento da Bolívia, país que estava em formação. Ora, um país que aspira à condição de potência não pode sair por aí colocando sua política externa e a de seus vizinhos na saia justa, como quem vai às pitangas.

Precisamos entender também que diplomatas não denigrem os opositores. Em caso de derrota, seria aumentar o fracasso. Em caso de vitória, seria diminuí-la. A diplomacia tem o seu tempo, o seu ritmo próprio. Um bom diplomata tem a tradição por trás e a eternidade pela frente.

O tema da necessidade de preservação do sigilo de certos documentos por mais de 50 anos foi recentemente suscitado no Congresso Nacional pelos Senadores Collor e Sarney. São duas figuras que inspiram pouca credibilidade em muitos de nós, é verdade. Um, foi afastado da Presidência por processo de impeachment; o outro, é uma conhecida raposa felpuda, para alguns, uma sarna sobre a epiderme nacional. Recentemente, os dois protagonizaram um constrangedor episódio no Senado em torno das temáticas relativas à memória: quando da inauguração de uma exposição, Sarney, Presidente da Casa, tentou justificar o silêncio sobre, justamente, o impeachment do Collor. A iniciativa é típica de coroneletes que pensam serem capazes de escrever a história de acordo com o seu próprio gosto. Sarney precisou recuar e, parece, colocou-se lá, finalmente, um painel sobre o impeachment.

Os dois, contudo, queiramos ou não, presidiram a República. E são hoje Senadores. De sorte que o argumento não pode ser desprezado a priori. Embora o que venha deles possa naturalmente despertar suspeitas, acho que neste caso a imprensa está errando a mão ao pretender atribuir à motivação dos dois um possível desejo sub-reptício de esconder o próprio passado. A documentação relativa aos governos deles, segundo consta, não está contingenciada. Além do mais, ambos foram exaustivamente investigados, por CPIs, pela mídia, etc. Agora, cabe aos historiadores se debruçarem sobre o período e escrever a história dessa época, o que, aliás, já vem sendo feito por alguns, quer eles queiram, quer não.

Se os documentos que o Collor, o Sarney e o Itamaraty ambicionam preservar precisam de fato ser ocultados, só uma comissão isenta poderia dizê-lo com propriedade. Uma comissão formada por diplomatas, arquivistas, historiadores, parlamentares… Correríamos, é verdade, o risco de estarmos aqui a um passo do ultrassecreto deixar de sê-lo, pois, quanto mais representativa tal comissão, maior a chance de vazamento. Uma boa sinuca de bico, que precisa ser administrada com cuidado.

De qualquer forma, merecemos uma solução melhor do que a hoje em dia existente, que estabelece um sigilo eterno de alguma amplitude sobre a documentação diplomática, estimulando, inclusive, essa impressão de que o Brasil fez coisas impublicáveis com os vizinhos, o que não necessariamente é verdade. Mas também não acho que devamos desguarnecer o interesse nacional, expondo irresponsavelmente nossas estratégias como se o País fosse agora a casa da Mãe Joana. É razoável e possível alcançarmos uma posição intermediária, criteriosa e transparente, que respeite a tradição de nossa diplomacia e atenda às nossas mais dignas aspirações democráticas.

Pedro Juan Gutierrez no III Congresso de Jornalismo Cultural

26 de maio de 2011 0

Caros, estou postando hoje aqui para vocês o vídeo da conferência do escritor cubano Pedro Juan Gutierrez no III Congresso de Jornalismo Cultural, em São Paulo.

Artes, Humanidades e o Forum Social Mundial de 2012

10 de fevereiro de 2011 0

Estive nesta terça-feira, dia 8, num jantar no galpão crioulo do Palácio Piratini, em Porto Alegre, cujo tema foi “o papel das artes e das Humanidades no Fórum Social Mundial de 2012”. O evento contou com a presença do Governador, Tarso Genro, e do Secretário de Cultura, Assis Brasil, além do Deputado Flávio Koutzi, que compunham a mesa. Dentre os convidados, dezenas de militantes das artes e Humanidades no Rio Grande do Sul.


Achei a iniciativa altamente meritória, pois, para muito além da agradável surpresa de poder encontrar vários amigos em pleno e escaldante fevereiro porto-alegrense, confere-se por meio dela extraordinária centralidade para a cultura no atual governo, que investe ainda francamente na fundação do diálogo. O Governador estava lá pontualmente na hora marcada para o início do evento e permaneceu durante todo o tempo, até o final, ouvindo as manifestações dos convidados – muitos fizeram uso da palavra. Dentre os convivas, gente de todos os matizes, reafirmando que a cultura será tratada no Governo Tarso acima das questões partidárias, o que me parece louvável e necessário.


Os convidados, em gral, aproveitaram o ensejo para louvar a iniciativa e apresentar demandas para a Cultura, área que vem sendo tratada com notório descuido nos últimos anos. O ponto alto ficou por conta da promessa do Governador Tarso Genro, provocado pelo jornalista Tatata Pimentel, de que a construção do novo teatro da Ospa terá início ainda neste ano de 2011. Chamou também a atenção notícia de revogação pelo Governo de norma que considerava falta escolar quando alunos e professores da rede pública de ensino em Passo Fundo assistissem a sessões das Jornadas Literárias naquela cidade. De fato, tratava-se de diretriz absurda, reveladora da falta de sincronicidade entre Secretaria de Educação e a Secretaria de Cultura, no governo que passou.


Embora relativamente pouco abordado pelos convivas, o tema proposto para o jantar-reunião é da mais alta relevância. A tolerância, o respeito às diversidades e o diálogo entre as culturas precisa estar na base da sociedade que estamos construindo no presente. São questões de grande centralidade para o debate no âmbito do Fórum Social Mundial, para o qual a área da Cultura pode agregar contribuições significativas.


O próprio Governador Tarso Genro chamou a atenção para um aspecto relevante de sua recente visita oficial ao vizinho Uruguai, quando se tratou da adoção do ensino bilíngüe nas escolas sul-rio-grandenses e uruguaias. Muito se fala em integração econômica no Mercosul, mas esta não se realiza com a necessária eficácia sem uma cooperação cultural consistente.


Mas o debate pode ainda avançar sobre muitos outros aspectos. Um tema premente, por exemplo, é o das normas que regem a circulação de obras de arte e bens culturais nos países do Cone Sul e do continente americano. É enorme a burocracia que cerca a circulação de obras de arte e difícil a conquista de isenções aduaneiras.


Outro assunto candente, lembrando com pertinência também pelo Governador, diz respeito diz respeito à circulação relativamente precária da literatura latino-americana contemporânea entre os próprios países da região. Isto é, tirando os autores consagrados do grande boom da literatura latino-americana nos anos 1960, os escritores contemporâneos são relativamente pouco conhecidos do grande público leitor. Esta é uma realidade que precisa sem dúvida ser modificada.


O próprio cinema latino-americano poderia estar muito mais presente nas redes de televisão. Enfim, muitos são os elementos que podem enriquecer este debate. Daqui para frente, novos encontros serão agendados pelo secretário Assis Brasil e, muito provavelmente, grupos de estudos temáticos serão constituídos. É importante é que um governo inicie conferindo centralidade estratégica para a Cultura e abrindo-se para o debate com a comunidade da forma como está acontecendo. Trata-se, sem dúvida, de uma novidade no cenário político gaúcho, que não pode deixar de ser destacada.

Novo livro de Andrés Oppenheimer, por Jorge Castañeda

01 de novembro de 2010 0

Boa a dica de leitura de Jorge Castañeda. Reproduzo-a abaixo para vocês.


Basta de Histórias!


Por Jorge G. Castañeda
Reforma
(28-Oct-2010).-


Hay libros de académicos que si fueran leídos aportarían muchísimo a sus lectores, pero no lo son porque suelen ser difíciles de leer; y hay libros de periodistas redactados con agilidad que se leen en pocas horas, pero cuya superficialidad los vuelve intrascendentes. De vez en cuando aparecen libros de académicos tan bien escritos que impactan -los de Fergusson y Judt vienen a la mente-; o de periodistas con sustancia -como los de Diamond o el nuevo de Riding sobre la cultura parisina bajo el nazismo-, libros a la vez legibles y trascendentes. El nuevo de Andrés Oppenheimer, ¡Basta de historias!, es uno de ésos. Tiene varias virtudes pero sólo reseñaré algunas.


La primera, obviamente, es escoger sólo uno de los desafíos de América Latina en lugar de hablar de todo al mismo tiempo: la educación. Oppenheimer la considera, como muchos, no sólo el talón de Aquiles de la región, sino la clave de su porvenir. Acierta en seleccionar la educación, aunque siempre podrá uno preguntarse si detrás del rezago educativo no hay otros dilemas y obstáculos. Otro acierto es el enfoque comparativo. Dedica el primer y último capítulos a tesis generales, pero los otros 11 a casos específicos: de éxitos educativos (Finlandia, Singapur, la India, China, Israel); o de países latinoamericanos variopintos (Chile, Brasil, Argentina, Uruguay, Perú, México, Venezuela y Colombia). De este modo hay a la vez ejemplos de éxito relativo como Chile y Uruguay; y otros de fracaso, no tan relativo, como Brasil, Venezuela y México. Este enfoque permite mostrar casos concretos del rezago, pero también cómo superarlo.


El autor nos recuerda verdades ya conocidas a propósito de la educación latinoamericana en general, y de la mexicana en particular. Retoma las tesis de Gladwell en Outliers sobre la brevedad del año escolar de nuestros países: 155 días en Uruguay, 180 en Argentina, 190 en Chile, 200 en Brasil y México; vs. 243 días en Japón y 220 en Corea del Sur. Vuelve a mencionar la aberración mexicana de que cada año egresen de la UNAM 188 licenciados en historia, 59 en ciencias de la computación y 49 en ingeniería petrolera. Reafirma que, por extrañas razones, latinoamericanos en general y mexicanos en particular se sienten satisfechos con la educación pública que reciben. Doy un dato increíble, pero hasta donde pudimos comprobarlo cierto: en las pruebas internacionales de PISA, calificadas sobre 800 puntos, en la India anualmente 250 mil estudiantes superan los 650 puntos y en Corea otros 250 mil; en México sólo 4 mil 500. Es decir, en México llegan a los niveles de excelencia de PISA 60 veces menos jóvenes que en la India y que en Corea del Sur, siendo que la India tiene 10 veces más habitantes, y un PIB ligeramente mayor, y Corea del Sur un PIB similar al de México, pero la mitad de sus habitantes.


Oppenheimer propone 12 claves del progreso que no puedo resumir, me quedo con cuatro. Una, evidente pero que no sobra subrayar, es ver lo que hacen otros cuando lo hacen bien. Otra, más original e ingeniosa, es entender que la disyuntiva entre educación pública y privada es falsa, y que se resuelve con grandes coaliciones de la sociedad civil, empresariales, mediáticas, etcétera, que presionen al gobierno para mejorar la educación. Otra más, reducir en términos relativos los presupuestos de educación superior para concentrarlos en preescolar y primaria, pero no castigando a las universidades, sino exigiéndoles que salgan a ganar dinero vendiendo sus productos y servicios. Finalmente, quizás la más importante, darle mayor estatus social a los maestros, que incluye un buen salario pero no sólo. Se trata de cerrar la brecha entre lo que ganen los maestros y los demás y valorar el trabajo único que realizan. Como lo ha dicho Héctor Aguilar Camín en nuestras reuniones con las secciones del SNTE en muchas partes del país, la gente entra al magisterio por vocación. Hay que engrandecer esta vocación y agradecerle a Oppenheimer este espléndido texto.

Refletindo sobre a lei da Ficha Limpa

01 de agosto de 2010 4

Há no Brasil, em contraponto a um otimismo ufanista que não admite críticas, um sentimento derrotista, fatalista em relação aos destinos e ao futuro do país. Fatos recentes, entretanto, mostram que essas pessoas se equivocam. Contra todas as previsões, a Lei da Ficha Limpa está pegando.


A Lei surgiu de iniciativa popular. É, portanto, a sociedade civil mobilizada que empurrou aqui o Congresso para fazer uma parte da reforma política, o que em si já funciona como um poderoso indício de vitalidade da democracia brasileira.


Depois, quando todos achavam que o dispositivo seria amorcegado, a Justiça garantiu a vigência imediata e o TSE negou autorização para registro de candidaturas que tinham contas a prestar. Em seguida, o Ministério Público movimentou-se para impugnar cerca de 400 candidaturas em todo o País.


Ainda há muita água para rolar e recursos precisarão ser avaliados. Mas o fato é que esta aliança entre o cidadão-eleitor mobilizado, a Justiça Eleitoral e o Ministério Público tem contribuído sobremaneira para empurrar a reforma política para diante.


É uma perspectiva alvissareira, sobretudo se comparada com as eleições recentemente realizadas no México. Lá, escritórios de campanha eleitoral sofreram atentados a bomba, candidatos foram ameaçados e assassinados e cadáveres expostos em áreas públicas. A violência, em grande medida provocada pelo narcotráfico, apavora mesários, afugenta eleitores. Naquele país, há candidatos que se elegem fazendo a apologia das drogas e declarando-se aliados do narcotráfico!

Justiça comunitária: entre o ideal e a realidade

31 de julho de 2010 1

Com os desdobramentos advindos da queda do Muro de Berlim, muita gente que sinceramente aspirava a um mundo mais justo basculou da idealização da centralização estatal para a idealização do empoderamento comunitário. Trabalhos como a tese do sociólogo Boaventura de Souza Santos, defendida nos anos 1970, que incensava as fórmulas de justiça comunitária surgidas na esteira do vácuo da presença do Estado nas favelas do Rio de Janeiro, funcionaram como senha para a necessidade de um novo horizonte.


Entretanto, nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Em pleno regime militar brasileiro, Boaventura Santos não poderia imaginar que o populismo irresponsável dos anos 1980 retiraria ainda mais o estado das favelas, abandonando-as ao comando do crime organizado, imensamente potencializado nos anos seguintes pelo avanço do tráfico de drogas e de armas e pela corrupção da polícia. Assim, a idílica justiça comunitária de Boaventura Santos converteu-se no pesadelo dos tribunais do tráfico, que sentenciam milhares de pessoas à morte e à tortura.


A tal justiça comunitária também vem provocando horríveis distorções pelo mundo afora. No Paquistão, tribunais tribais condenam mulheres adúlteras à morte por apedrejamento, chocando até mesmo as autoridades judiciárias do próprio país. Mas os mais recentes escândalos da justiça comunitária eclodiram mais perto, na vizinha Bolívia.


Compromisso de campanha do Presidente Evo Morales, da etnia aimará, a reforma constitucional de 2009 passou a considerar a Bolívia um estado “plurinacional”, prevendo autonomia para as áreas indígenas. Num país marcado pelo histórico de brutal centralização político-administrativa, a medida pareceu a muitos um feliz avanço. No que diz respeito à justiça, as comunidades ganharam o direito de exercer funções jurídicas, desde que respeitando o limite do “direito à vida”. Os índios podem agora julgar os acusados de crimes cometidos em suas terras, prolatando sentenças completamente livres de apelação para a Justiça comum. Na prática, entretanto, institucionalizou-se o estado paralelo e escancarou-se a porta a notáveis abusos.


Em maio, quatro policiais bolivianos, acusados de roubo e de extorsão, foram sentenciados ao espancamento até à morte na localidade de Uncia. Foram enterrados de bruços, para que seus espíritos – como reza a tradição local – não tentassem se vingar. Os responsáveis alegam que apenas aplicaram a justiça comunitária. E o frágil estado boliviano não consegue nem mesmo fiscalizar a exigência de respeito à vida, não observada no caso em tela. Já penas como amputação de membros, tortura e açoitamentos não seriam de modo algum inconstitucionais.


Independentemente da culpa ou não dos acusados, que sequer tiveram direito justo à defesa, o bárbaro assassinato é um retorno à justiça medieval, como se todas as conquistas do liberalismo moderno simplesmente não existissem. No Brasil, por exemplo, até os códigos penal e de processo penal de inícios dos anos 1830, vigia o vetusto Capítulo V das Ordenações Filipinas, farto na cominação de penas atrozes, contra o corpo, a alma, a memória e a família dos réus.


Há alguns meses, todos acompanhamos pelos noticiários o drama de turistas, dentre os quais havia brasileiros, que foram feitos reféns por índios em uma estrada boliviana. Com todo o respeito e reconhecimento pelos séculos de espoliação e barbaridades a que foram submetidos os índios bolivianos, uma coisa não pode justificar a outra. As barricadas, com graves conseqüências às liberdades das pessoas, tornaram-se comuns na Bolívia plurinacional: faces corriqueiras da justiça feita pelas próprias mãos. Analistas temem, ainda, que esta autonomia oportunize a emergência de relações promíscuas com o crime organizado, dando azo a atividades ilegais de dimensões ainda maiores.


Antropólogos garantem que a justiça indígena tradicional é realizada por um conselho de anciãos e desconhece a pena de morte e o supliciamento dos réus. Considerando não estarem esses antropólogos iludidos, então talvez a justiça indígena já esteja sendo confundida com linchamentos e sendo usada como guarda-chuvas para garantir impunidade a tormentos perpetrados pelo crime organizado. Mais ou menos, quem sabe, como se deu com os tribunais populares de Boaventura Santos, agora convertidos em tribunais do tráfico.


E, aliás, está em aberto a questão: seriam os quatro policiais brutalmente assassinados efetivamente corruptos, ou estariam eles combatendo crimes executados pelos indígenas, sendo esta a razão para o destino que lhes coube?


Casos como estes não são isolados. Como mostra matéria no Estado de São Paulo, de 11 de julho, em 2004 uma turba queimou o prefeito de Ayo Ayo em praça pública e em 2008 outros três policiais foram linchados em Epizana.  Só em 2009, foram 30 linchamentos e 77 tentativas frustradas em território boliviano. Calcula-se que esses linchamentos sempre aconteceram, mas estariam se tornando bem mais freqüentes após a Constituição de 2009.


Na prática, o idílio da justiça comunitária na Bolívia parece estar se convertendo em fonte de novas brutais injustiças. E a autonomia indígena parece proclamar a face do desgoverno nacional, expondo o estado boliviano em toda a sua imensa fragilidade estrutural.

A luta dos dissidentes cubanos

31 de julho de 2010 0

Reproduzo aqui para vocês um comovente artigo da blogueira cubana Yoane Sanches publicado no Estadão. Vale a pena ler e ter a dimensão da injustiça que algumas lideranças políticas influentes fizeram e fazem contra os dissidentes cubanos: Os verdadeiros protagonistas da luta em Cuba

Enfoques - política, ideologia e espaço urbano, por Beatriz Sarlo

02 de maio de 2010 0

Amanhã teremos conferência, em São Paulo, no Teatro do Tuca, da ensaísta argentina Beatriz Sarlo, uma das mais respeitadas críticas da cultura contemporânea no mundo. A título de reflexão, desejo indicar para vocês um artigo que ela publicou no Jornal La Nacion, em 6 de setembro de 2009, sobre a patrulha ideológica promovida por intelectuais peronistas na Argentina. Pergunta Beatriz: qual é o debate possível quando toda crítica é lido como uma conspiração?

El país de los fiscales ideologicos

Aproveito, também, para postar aqui link para outro artigo de Sarlo, a propósito de seu último livro, sobre Buenos Aires.

La Buenos Aires secreta de Beatriz Sarlo