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Posts na categoria "Arquitetura"

Restauração da Ponte Hercílio Luz

18 de março de 2012 3

Em Santa Catarina está em curso um debate interessante, sobretudo da perspectiva de quem atua no campo da gestão da cultura com foco no patrimônio histórico. A obra de restauração da histórica ponte Hercílio Luz, na Capital, que liga a Ilha de Santa Catarina ao continente, está orçada em pelo menos 170 milhões de reais, dos quais 64,5 milhões viriam de patrocinadores, sob os auspícios da Lei Federal de Incentivo à Cultura, na forma de renúncia fiscal. O projeto de captação foi aprovado esta semana pelo Ministério da Cultura, em tempo recorde, vez que foi protocolado em novembro passado. Trata-se do projeto de maior vulto nos 21 anos de história da Lei Rouanet (a proposta original era de 76,8 milhões de reais, mas a CNIC cortou 12,3 milhões do projeto). Até então, os orçamentos mais vultosos aprovados no âmbito da Lei Rouanet foram a restauração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (R$ 50 milhões) e a restauração da Catedral de Brasília (R$ 25 milhões).

A ponte, inaugurada em 1926, está fechada para o tráfego de veículos desde 1981. Nesse meio tempo, já se investiu um bom recurso na sua manutenção: estimam-se cifras da ordem de 350 milhões… O asfalto, que revestia o piso de rodagem da ponte, por exemplo, foi retirado, para aliviar a carga de uma estrutura que ameaça ruir. Segundo os engenheiros que cuidam da restauração, além dos velhos problemas, como o avanço inclemente da ferrugem nas barras de sustentação, descobriu-se que dos quatro pilares, três estão bastante corroídos.

Do ponto de vista do patrimônio histórico vale o investimento? Sem dúvida! A estrutura é um bem cultural e artístico do Brasil, tombado e reconhecido pelo Iphan. É a maior ponte pênsil do Brasil e talvez a única neste estilo ainda em pé no mundo. A ponte é linda, é um dos cartões postais mais conhecidos do Brasil, foi adotada pela gente de Florianópolis como símbolo da cidade – foi, aliás, a sua inauguração que consolidou a cidade na condição de Capital do Estado, até então questionada por cidadãos do interior que achavam o deslocamento até a Ilha incômodo.

Mas é razoável investir-se tanto dinheiro na restauração de um bem histórico quando existem tantas outras urgências em Santa Catarina? Pensa-se, por exemplo, no pessoal que sofre com as cheias no Vale do Rio Itajaí, ou na necessidade de ampliação das estranguladas rodovias do Estado. É verdade que a ponte, uma vez restaurada, poderá até ser reaberta ao tráfego de veículos. Porém, quanto custaria uma ponte pênsil moderna, que substituísse a Hercílio Luz?

Ironicamente, a ponte que consolidou Florianópolis como Capital e que foi adotada como símbolo da cidade, provoca ranger de dentes em muitos catarinenses do interior, que olham para a insistência em mantê-la de pé como um despropósito do ponto de vista da lógica econômica e da ordem de prioridades da população. Para os críticos, a custosa restauração seria um sumidouro de dinheiro público. O que se explica em grande parte pelo fato de ser obra de engenharia obsoleta, além de a estrutura estar deteriorada.

A propósito, no último dia 21 de fevereiro, o departamento de transportes do estado norte-americano de Ohio implodiu a Fort Steuben Bridge, ao custo de 2,3 milhões de dólares. A ponte, que servia a cidade de Steubenville, no centro-oeste dos Estados Unidos, era muito semelhante à Hercílio Luz. Inauguradas nos anos 1920, ambas foram erguidas por estruturas de aço em bases de concreto. A Steuben foi bloqueada para uso apenas em 2009. Depois de três anos de estudos, os técnicos norte-americanos concluíram que não valia a pena tentar restaurar a ponte, pois o custo superaria em muito a construção de uma nova, com tecnologia mais moderna.

Assim, enquanto o mais recente projeto de restauro é festejado por muitos como uma conquista de Santa Catarina e um indicador de prestígio para Florianópolis, há quem veja nele uma inversão de prioridades e um desperdício de recursos. De qualquer forma, a manutenção da ponte mostra que o valor simbólico de determinados bens pode em muito superar o interesse objetivo. A ponte Hercílio Luz parece ter transcendido a sua utilidade fim, adquirindo uma importância afetiva ímpar.

Afinal, e vocês, o que acham?

O Arquiteto Daniel Libeskind no Rio de Janeiro

01 de fevereiro de 2012 0

O arquiteto Daniel Libeskind, responsável por projetos como o Ground Zero em Nova Iorque e o Museu Judaico em Berlim, fará palestra no próximo dia 7, no Rio de Janeiro. Confira aí.

Daniel Libeskind em Porto Alegre - Centro Cultural Shofar - pedra fundamental de uma joia arquitetônica

25 de novembro de 2011 1

O texto que reproduzo abaixo para vocês foi publicado na revista Lubavitch, divulgada na última segunda-feira, nos salões do Clube Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre, durante a cerimônia de lançamento do Centro Cultural Shofar, cujo projeto conceitual base é do arquiteto polonês Daniel Libeskind


Coincidências, acasos: é como muitas vezes as pessoas explicam o encadeamento fortuito de acontecimentos na vida da gente. Talvez… Ou quiçá alguns eventos, tais como fios desgarrados de uma elaborada tapeçaria, a encontrarem outras linhas, que lá estavam, também viúvas, como por mágica, lavrem dessa união novo desenho, imantando de significado o que jazia solto. Se olharmos sobre o ombro, para traz, trilhas, por vezes caprichosas, convergem em encontros. Ecos esfumados subitamente timbram. Sobre pequenas surpresas, ou dissabores, ou experiências que pareciam pontuais, revigorada luminosidade incide, realçando nuances, desvelando sentidos.

Foi em 2007. Debatíamos, no âmbito da curadoria do seminário Fronteiras do Pensamento, da qual então eu participava, o conceito para a edição do ano seguinte. Desejava-se que a programação contemplasse com mais ênfase o foco das artes. Músicos, dramaturgos, cineastas, escultores, escritores… Um arquiteto, também, claro! Sim, a cidade precisa ouvir um grande arquiteto, logo disse alguém.

Porto Alegre preparava-se para acolher a inauguração do prédio da Fundação Iberê Camargo, projeto premiado do português Álvaro Siza. Mais do que um fato isolado, nutria-se a expectativa de que o edifício contribuísse para reconciliar a cidade com sua sólida tradição conceitual, da qual é testemunho, entre outros exemplos, a elegante sede do Jóquei Clube, projetada pelo uruguaio Román Siri e inaugurada em 1959. Como se sabe, a partir da segunda metade dos anos 1960, a arquitetura modernista local precipitara-se em desgaste, diante da banalização de soluções e de um funcionalismo como um fim em si mesmo.

O momento era propício, com debates ventilados no horizonte, como aquele em torno da perspectiva de revitalização do cais da Mauá. Entendia-se, assim, que o seminário poderia agregar alguma parcela de contribuição. Mas jamais imaginamos os desdobramentos que estariam por vir.

Esboçada uma relação de nomes sonhados, nos pusemos a campo para tentar localizar os contatos. Daniel Libeskind, pela sua importância, evidentemente, estava dentre aqueles logo considerados.

Por uma coincidência de trajetória própria, eu nutria curiosidade especial pelo trabalho de Libeskind, torcendo, no íntimo, para que ele fosse um dos primeiros a responder acedendo ao convite. Daniel estava dentre os que, desde os anos 1980, questionavam o convencionalismo da arquitetura moderna e, inspirados numa leitura de Derrida, apostavam na desconstrução das formas, percebendo a arquitetura também como linguagem.

Daniel começara a sua carreira com o icônico Museu Judaico, erguido entre 1993 e 1998, na curvinha da Lindenstrasse, no bairro de Kreuzberg, em Berlim, distante, em linha quase retilínea, umas doze pequenas quadras do local onde morei por um tempo, em 1990. De todos os destinos de Berlim, eu me sentia emocionalmente atado àquele antigo bairro operário, arrasado durante a Segunda Grande Guerra, reconstruído nos anos 1960 e pulsando, nos anos 1980, com suas fachadas coloridas e etnias diversas, como o coração intercultural da velha metrópole. A Berlim que eu conhecera era uma cidade murada, uma espécie de ilha comprimida pelo concreto e pelo aparato militar, com mobilidade restrita, marcas do passado sangrento a rasgarem o tecido urbano a todo instante, mas sem deixar por um só segundo de acreditar num futuro alvissareiro. Eu ainda conheci um Portão de Brandemburgo arruinado, cujo vão por onde se dava originalmente a passagem da Pariser Platz para o Tiergarten o muro bloqueava. O dramático prédio de Libeskind, logo apelidado de “raio” pelos Berlinenses, em alusão a sua forma característica, foi um marco na base da história da urbe reunificada e um importante agente propulsor da revitalização do bairro, ao mesmo tempo em que encarou e frente a complexa dimensão da memória trágica.

Filho de sobreviventes do Holocausto, Libeskind nasceu na Polônia, em 1946, e tornou-se cidadão estado-unidense em 1965. Formou-se em 1970. Em 1989, com a esposa e os filhos, mudava-se para Berlim, depois de vencer o concurso para o Museu Judaico. Embora o prédio tenha sido dado por concluído em 1999, a exposição permanente, com cerca de quatro mil objetos, foi inaugurada apenas em… 11 de setembro de 2001!

Em 2003, Daniel Libeskind venceu o concurso para desenhar e coordenar o conjunto do projeto para a reurbanização do Ground Zero, a pavorosa cratera surgida depois do ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, que eu visitara uns quatro ou cinco dias antes do fatídico 11 de setembro.

Lembro-me ainda hoje daquela enlutada manhã, a incredulidade inicial diante das imagens se repetindo na TV substituída pelo choque e, depois, por corrosiva angústia. Para alguém que acabara de chegar de uma Nova Iorque plena de atitude e pujança e vivera, 11 anos antes, o contexto vertiginoso da queda do Muro de Berlim, um evento parecia a face negativada do outro. A derrubada das Torres ceifava milhares de vidas e calava fundo a compreensão de que o mundo, dali para diante, mudaria substancialmente. Tudo indicava que uma nova guerra se instalaria, lenta, difusa, sofrida. Senti como se ruísse ali aquela que talvez tenha sido a última grande utopia do século XX, amplificada com a queda do muro: a de que um mundo com fronteiras permeáveis seria possível. Pode parecer tolo para quem é jovem nos dias de hoje, mas era uma visão estimulante para quem crescera no clima de intolerância da Guerra Fria e numa era pré-internet.

O projeto de Daniel para o Ground Zero é, sem exagero, titânico. Distribuiu cerca de um milhão de metros quadrados de escritórios em cinco diferentes torres, numa área total de 16 acres, para onde também foram previstos memoriais, espaços culturais e uma nova estação de metrô.

Instigava-me, então, ouvir o que tinha a dizer este arquiteto, que interpretara eventos tão dramáticos, em projetos que divisavam o futuro com otimismo, sem jamais perder de vista os silêncios e os ruídos da memória.

Foi, assim, uma agradável surpresa quando a assessoria de Daniel prontamente respondeu ao nosso estímulo, concordando com os termos do convite, sem tergiversar ou formular exigências, traduzindo espontaneidade e disponibilidade em partilhar experiências e conceitos. Agendamos a conferência para o dia 21 de julho de 2008.

Poucos dias antes da data aprazada, entretanto, um telefonema dos escritórios de Libeskind, de Nova Iorque, trouxe inquietação. Sua querida esposa Nina, que sempre lhe acompanha, tivera um contratempo de saúde e a viagem precisaria ser adiada. Confirmado o seu restabelecimento e após um exercício de engenharia para conciliar as disponibilidades da disputada agenda de Daniel com a do salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que abrigava o ciclo de palestras, a fala de Libeskind foi transferida para a noite de 3 de novembro.

Daniel e Nina, destarte, chegariam ao Brasil no dia 2, um domingo. E partiriam de Porto Alegre com destino ao Rio de Janeiro no dia 4. Era a primeira vez do casal no Brasil e eles se mostravam entusiasmados com a visita.

Mas um novo susto nos espreitava. Ao embarcar de Nova Iorque para São Paulo, Daniel apanhara por distração o passaporte americano. Eis que para cidadãos estado-unidenses a política de reciprocidade do Governo Brasileiro exige a concessão de vistos para ingressos no País. E Daniel não solicitara um visto brasileiro… Assim, ao desembarcar em São Paulo, a Imigração logo detectou a falha e, seguindo o procedimento padrão para casos de tal natureza, reteve-o em uma sala da Polícia, programando o seu reembarque no primeiro voo de volta para Nova Iorque.

A organização do Fronteiras do Pensamento tinha o costume de manter um receptivo no aeroporto de São Paulo, de sorte que a dificuldade foi logo detectada. Em pouco tempo, estávamos nos comunicando com Daniel e Nina pelo celular. Mas o problema não era nada fácil de resolver. Pelo contrário! Descobrimos, enfim, que o Itamaraty admite o instituto de um visto de trânsito no Brasil, concedido em situações muito especiais, sob autorização da cúpula da Presidência da República ou do Ministério das Relações Exteriores. Por agravante, todavia, tratava-se de um domingo e, ainda por cima, feriado de finados! Uma tarefa já em si árdua parecia inexequível!

Mas a equipe de produção se mobilizou. Decidimos não medir esforços para contornar o obstáculo que inviabilizaria a estada dos Libeskind em Porto Alegre. De telefonema em telefonema, depois de várias horas, durante as quais o casal permaneceu acomodado na sala da Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, conseguimos chegar às altas autoridades da República, sensibilizando-as, e um visto extraordinário para uma semana, salvo engano, foi, milagrosamente, concedido!

Quando o casal finalmente aterrissou em Porto Alegre, esperávamos encontrá-los tensos, incomodados, abatidos. Mas não! Embora fatigados, o que era perfeitamente compreensível, transmitiam bom humor e simpatia, declarando-se impressionadíssimos por termos resolvido algo que lhes parecia intangível. Nos Estados Unidos, garantiram, uma exceção como aquela seria inimaginável, ainda mais num espaço de tempo tão curto!

Daniel e Nina puderam, enfim, registrar-se na recepção do hotel por volta das 18 horas daquele domingo, dia 2 de novembro de 2008.

Cabe aqui, talvez, o registro de mais uma curiosidade. A organização do seminário garantia aos seus convidados hospedagem em hotéis de padrão superior, previsão que constava, inclusive, em cláusula contratual. As reservas eram feitas com um ano de antecedência, para se garantirem as vagas desejadas. Porém, com a mudança da data da conferência, perdeu-se a preferência. Casualmente, na época em que a nova palestra aconteceria, Porto Alegre acolhia grandes eventos, de sorte que não havia acomodações disponíveis. Eu fui a todos os hotéis da cidade. O único lugar vago era a antiga suíte presidencial do Hotel Plaza São Rafael. Foi lá, assim, que hospedamos, excepcionalmente, o casal Libeskind! E eles puderam repousar, depois da estafante jornada, com uma bela vista para o Lago Guaíba.

O dia seguinte seria agitado. Dentre os únicos pedidos que Daniel e Nina nos haviam feito estavam um city tour e uma visita à Fundação Iberê Camargo: a fama do prédio de Álvaro Siza às margens do Guaíba corria o mundo!

Numa luminosa manhã, guapuruvús e jacarandás espargindo as calçadas de amarelo e lilás, fomos à Fundação Iberê Camargo, especialmente aberta numa segunda-feira para receber o casal: “é o melhor de Siza”, exclamou Daniel, exultante, ao final da visita.

De volta ao Centro Histórico, logo depois de um giro pela cidade, Nina, curiosa com as barraquinhas que vira pela janela da van espremidas entre o Margs e o Santander Cultural, quis saber do que se tratava: “é nossa feira do livro”, respondi. Daniel e Nina, amantes dos livros e donos de uma biblioteca com mais de 10 mil volumes, perguntaram-me então se não seria possível trocar o almoço com autoridades, previsto para acontecer numa badalada churrascaria, por um passeio na aprazível feira. Claro!, acedi. E lá se foram os dois, percorrendo as alamedas da Praça da Alfândega, circulando por entre os estandes, furungando nos balaios.

Havia uma barraca que homenageava a Polônia! Daniel entrou, fascinado por encontrar um pedacinho da sua pátria de origem, ali, tão longe, no Brasil tropical. A surpresa foi ainda maior quando o livreiro reconheceu-o prontamente e dirigiu-se a ele em bom polonês: era um dos muitos gaúchos descendentes de imigrantes.

Nina adorou a sineta do Xerife e impressionou-se com a quantidade de crianças. Expliquei-lhes que se tratava da maior feira do livro ao ar livre da América Latina e que se dirigia, sobretudo, para os leitores. Como a promoção já acontecia há 54 anos, quase todo o porto-alegrense, ou gaúcho em visita à Capital, trazia impressa na memória a lembrança de, quando criança, ser trazido à Feira pelos pais, pelos tios, pelos avós, para comprar pelo menos um livro, para encontrar os amigos, para ver de perto os autores. Frequentar a Feira tornara-se um hábito incorporado às rotinas familiares. Foi quando Daniel, que escolhe a dedo os convites profissionais que aceita, me disse: “esta é uma acidade para a qual eu adoraria desenvolver um projeto!”

À tarde, levamos o casal Libeskind ao Porto da Capital, região para a qual se discutia há 12 anos um projeto de revitalização. E até passeamos de barco.

“Pedra Fundamental”. Foi o título que Daniel deu para a sua conferência, proferida à noite, no salão de atos da Universidade lotado, com cerca de 1.300 pessoas. Daniel comentou com vivacidade vários de seus projetos. Especialista na criação de museus, sustentou que a cidade pode se transformar a partir de um prédio. Disse que a arquitetura contemporânea está mais pluralística, mais democrática. Ele, a propósito, nega-se a trabalhar em países não democráticos. Construir um edifício, para Daniel, é como contar uma estória. A arquitetura, assim, seria uma classe de narrativa, porque fala sobre o passado e sobre o momento presente. Ela confere identidade e descortina um futuro, operando uma combinação de poesia, de filosofia, de música, de dança, de astronomia, de todas as coisas, enfim, que matizam a civilização. Eis porque sua arquitetura não é apenas construção, mas, sobretudo, uma forma de transmissão de experiência cultural. Daniel se declarou interessado em eliminar categorias: “os museus precisam ser bem-sucedidos comercialmente, ao passo que os espaços comerciais precisam ter uma dimensão cultural, um componente cultural”. Justamente por causa da globalização, registrou, é preciso que cada lugar possa contar a sua história e emular uma identidade. Criticando o modernismo, revelou-se incrédulo na possibilidade de repetir experiências do Humano. Eis porque os museus não devem existir apenas para eles mesmos, mas sim atender as necessidades éticas de uma comunidade. Otimista, avaliou que a arquitetura pode gerar crescimento para uma cidade, e não apenas econômico, mas também cultural. [1]

Terminada a conferência, sob entusiásticos aplausos da plateia, dirigimo-nos para um jantar. Fazia parte da sistemática do Fronteiras do Pensamento receber os convidados com uma apurada ceia de boas vindas em um dos bons restaurantes locais, na véspera da conferência. Seguíamos, nesse sentido, orientação estabelecida pelo idealizador do seminário, o então Superintendente da Copesul, empresa patrocinadora do evento, Dr. Luis Fernando Cirne Lima, que entendia esses momentos como uma oportunidade de interação para algumas pessoas da comunidade cujos interesses e trajetórias dialogassem com as do conferencista convidado. A intenção era que as ideias pudessem frutificar em convívio mais íntimo, deitando raízes no entorno comunitário.

A confraternização, contudo, tinha sido transferida para a segunda-feira, pois como o casal ficara o dia inteiro retido no aeroporto de Guarulhos, isso depois de longa viagem de Nova Iorque para São Paulo, todos entenderam que eles precisariam repousar na noite de domingo. O problema foi que os restaurantes com os quais estávamos acostumados a operar fechavam nas segundas-feiras e estava difícil localizar uma alternativa. Percebendo minha aflição, a querida amiga Sandra Axelrud Saffer, uma das convidadas para a ceia, ofereceu-se para recepciona-los em sua residência. Assim, Sandra, que também é arquiteta, recebeu-nos depois da conferência com um delicioso salmão.

A solução revelou-se providencial, pois o clima instaurado foi descontraído e doméstico. Nina e Daniel, que inclusive trabalham juntos, são muito ligados à convivência familiar. Recordo-me que, depois do jantar, todos ainda à mesa, Nina ergueu-se com uma taça na mão e propôs um brinde de agradecimento aos anfitriões, sublinhando residir a mais agradável surpresa daquela viagem no sentir-se tão vivamente em família. Eles tinham vindo de tão longe para se sentirem tão em casa, exclamou, manifestando certeza de que ali se iniciava uma bela e duradoura amizade.

Já não me lembro se foi antes ou depois da refeição. Em pé, na sala, com drinques, formou-se uma animada roda de bate-papo com Daniel. Quando então alguém lhe perguntou se havia algo que ele desejasse construir sem tê-lo ainda feito. Sim, ele respondeu, observando que ainda não aparecera a oportunidade para erigir algo na América Latina. Participava da conversa Ricardo Sondermann, que imediatamente transmitiu-nos saber estar em curso em Porto Alegre a intenção, por parte do movimento Beit Lubavitch, de construção de um centro cultural. Os olhos de Libeskind brilharam…

Nos meses seguintes, as conversas avançaram. Ricardo e Sandra introduziram o casal Libeskind ao Rabino Mendel Liberow e a sua esposa Mimi, instalando-se pronta sintonia entre todos. Aos poucos o conceito evoluiu para um centro cultural de inédita concepção. Nina apelidou o projeto em curso de “Joia Arquitetônica” e passamos a chama-lo de “little pearl”: estávamos todos, enfim, engajados na lapidação de uma joia. Daniel, finalmente, batizou o projeto conceitual de Centro Cultural Shofar, em alusão aos poderosos significados do chifre de carneiro – um dos mais antigos instrumentos de sopro de que se tem notícia – tocado na cerimônia de celebração do Ano Novo judaico.

Escrevo este texto pouco depois de chegar de uma viagem a Berlim, cidade aonde não retornava há 21 anos. Pude finalmente caminhar pela Unten den Linden, avenida que ficara em Berlim Oriental, respirando o frescor das tílias, e passei sob as imponentes colunatas do Portão de Brandemburgo, em direção à Grosse Stern. Conheci o refinado palácio rococó de Sansouci, erguido por Frederico o Grande no século XVIII, na vizinha Potsdam – antes localizada na Alemanha Oriental, a DDR, que ao exigir um complicado visto inviabilizava a visita para estrangeiros como eu. Vi o Reichstag renovado, agora com uma magistral cúpula de vidro. E fui, também, ao prédio que Libeskind concebeu para o Museu Judaico.

Eu conhecia a edificação por fotos. Mas visitá-la representou uma experiência sensorial inusitada. Muito mais do que ser visto, é um prédio para ser vivido e sentido. Poderíamos encher páginas e páginas sobre os detalhes que compõem o conjunto, sobre as sensações que suscitam, tais como a instigante maneira como as aberturas, vislumbradas de fora, remetem-nos a uma estrela de David estilhaçada. Mas um espaço, em particular, me chamou muito a atenção: o Jardim da Diáspora é acessado por uma porta pesada, ao final do Eixo do Exílio. É um jardim incomum, como se estivesse de cabeça para baixo. Belas oliveiras, que não podem ser tocadas, crescem no topo de desconcertantes blocos de concreto alinhados geometricamente. Caminhar por entre esses blocos, de igual proporção, causa certa desorientação, pois o piso tem inclinações. A experiência sugere a imponderabilidade da História, cujos desafios, muitas vezes opressores, enfrentam-se coletivamente. Mas a mensagem é otimista, pois se lançarmos os olhos para o alto, veremos o verde das oliveiras projetando-se para o céu, num registro claro de esperança.

Impossível não lembrar aqui da pomba que trouxe um ramo de oliveira no bico para o patriarca Noé, anunciando a terra tão sonhada, depois da longa deriva pelas torrentes sem fim do dilúvio, cujas águas purificaram a matéria física e ampliaram a consciência dos homens no Divino. Para os judeus, o azeite extraído das olivas era medicinal, ajudava a cicatrizar. O seu uso indicava o sentimento de alegria, ao passo que a sua falta, tristeza e humilhação. Um pequeno jardim, no museu, condensa experiências tão arrebatadoras.

Quando Daniel concebeu o seu prédio, em 1988, ninguém imaginaria que o muro cairia em novembro do ano seguinte e a Berlim dividida se reunificaria tão rápido. Quando morei em Berlim, naqueles tempos, ninguém imaginaria que um dia Porto Alegre pudesse sonhar com um prédio de Daniel Libeskind.



[1] A conferência de Daniel Libeskind está transcrita no livro “Fronteiras do Pensamento: ensaios de cultura e estética”, organizado por mim e por Fernando Schüler e publicado em 2010 pela Editora Civilização Brasileira.





O Arquiteto Daniel Libeskind, sobre o projeto para o Ground Zero, em Nova Iorque

23 de outubro de 2011 0

Aqui no Brasil, a cerca de um mês atrás, falou-se exaustivamente obre o 11 de setembro. Mas vi relativamente poucos depoimentos do arquiteto Daniel Libeskind sobre o seu trabalho de coordenação dos esforços de reconstrução da imensa área de 16 acres do Ground Zero. Bem, abaixo segue uma relação de links com algumas entrevistas recentes dele.

nytimes.com (9/10/11)

WNYC, “Weekend Edition Saturday”(9/10/11)

NPR, DIANE REHM

NPR, “Weekend Edition Sunday” (9/11/11)

The Wall Street Journal

Huffington Post

THE NEW YORKER

PBS NewsHour

CRAIN’S

FRANCE 24

Surge a Associação Victorino Fabião Vieira

04 de junho de 2011 2

Bem legal a iniciativa de um grupo de intelectuais pelotenses, que convidam para um Sarau de Inauguração da Associação Victorino Fabião Vieira – AVFV, a ser realizado no domingo dia 05 de junho, a partir das 16:30, na sede da ABB em Porto Alegre.

A AVFV resulta de uma mobilização de pelotenses residentes em Porto Alegre em prol da preservação do patrimônio cultural de sua cidade natal. Preocupados com o ritmo acelerado de perda irreparável de importantes bens patrimoniais, organizaram-se para criar, em Porto Alegre, um grupo articulado para desenvolver ações, projetos e iniciativas voltadas a cooperar com a preservação da memória e do patrimônio pelotense.

Sobretudo nesse momento em que se alça polêmica em torno da violência contra parte do acervo da Biblioteca Pública pelotense, uma iniciativa como esta de parte da sociedade civil organizada merece ser saudada.


Redenção, site e portal

21 de abril de 2011 0

Nos últimos dias, estive envolvido direto com o lançamento do meu último livro, que saiu pela Editora Paiol, sobre o Parque da Redenção em Porto Alegre. Encantou-me a receptividade que a obra tem alcançado. O lançamento foi concorrido: uma bonita festa oferecida junto ao espelho d’água do parque por um dos patrocinadores do livro, a Souza Cruz. Concedi diversas entrevistas. No programa da Katia Suman, o Camarote TV Com, na terça-feira, conheci o pessoal do adorável projeto Redenção CC, cujo portal interativo é o máximo! Hoje recebi também pelo meu site pessoal um gentil contato do jornalista Luiz Timotheo, que mantém um site pioneiro sobre o Parque da Redenção, com informações e imagens preciosas. Vale conferir!





Lançamento livro Redenção. Foto Luiz Timotheo




Com amigos, foto Clleber Passus



Com o Prefeito José Fortunati. Foto Ricardo Giusti, PMPA





Cais da Mauá

24 de dezembro de 2010 0

Gostei de saber da cerimônia que celebrou a assinatura do contrato entre o Governo do Estado e o consórcio vencedor da licitação para a reforma do Cais da Mauá, em Porto Alegre. O projeto é um anseio geral da população da cidade e a sua execução condição estratégica para uma Porto Alegre moderna e renovada, capaz de agasalhar forças do desenvolvimento e do progresso. Se por acaso ainda persistiam no futuro Governo dúvidas com relação à excelência da iniciativa, elas agora dificilmente prosperarão, pois o Governador Tarso não pretenderá fazer do Cais da Mauá a sua Ford. As resistências ao projeto são minoritárias e tenderão a ser devidamente sufocadas pelo bom senso. Mais uma vez, felicito todos os responsáveis pela iniciativa, a começar por Edemar Tutikian, incansável batalhador pelo sucesso do empreendimento.

Entre a majestade e o desleixo: resenha de Kathrin Rosenfield sobre livro "Cidade Livre", de João Almino

19 de dezembro de 2010 0

Gostei muito da resenha que Kathrin Rosenfield publicou na Zero Hora de ontem sobre o livro “Cidade Livre”, de João Almino – o mesmo que, por coincidência, comentei há algumas semanas aqui no blog. Abaixo, reproduzo para vocês o belo texto de Kathrin, reforçando, assim, esta dica de leitura.



“Brasilia – um mito, uma cidade, um divisor de águas: ou se adora, ou se detesta – eis o clichê sempre repetido. Mas raramente vemos de Brasilia surgir uma imagem tangível ou, talvez seria melhor dizer: envolvente, pois Brasilia tem algo de fantasmagórico – irreal na topografia cósmica que dá a sensação de estarmos no topo do mundo; e irreal também pela combinação de majestade faraônica e de desleixo mesquinho. A monumental falta de cuidado é prova de um déficit de sensibilidade estética (e ética) que rodeia os magníficos prédios. O patente desleixo espalha a atmosfera de decadência pequeno burguesa, acomodada nas frinchas, frestas e ferrugens do concreto armado, com os alagamentos e vidros quebrados e sujos. Todo o cuidado, mimo e protocolo estão voltados para as meteóricas aparições dos homens poderosos que deslizam entre o aeroporto, os escritórios e gabinetes, hotéis e restaurantes em carros oficiais, rodeados por motoristas e secretárias diligentes. As mulheres e filhos destes homens (quando vivem na mesma cidade, o que não é a regra) se parecem com acessórios, que ocasionalmente abrem a porta, atendem o telefone e acompanham esses homens sem serem registrados como parceiros e pessoas pelos assessores, sub-chefes e vice-presidentes que falam da política (e do seu fantasmático e efêmero poder) com a volúpia pedestre dos homens médios.


Eis a realização dos sonhos que entusiasmaram Aldous Huxley como “jornada dramática através do tempo e da história! Uma jornada do Ontem para o Amanhã, do que terminou para o que vai começar, das velhas realizações, para novas promessas.” (171) Para quem teve a oportunidade de mergulhar no fascínio de Brasília de hoje, é apaixonante a leitura do mais recente romance de João Almino, Cidade Livre.  Poucos sabem que em 1959 Cidade livre (hoje o Núcleo Bandeirante) era o nome de um “aglomerado de casas esparsas com cerca de trezentas pessoas, quase todos homens, junto com o acampamento da Candangolândia, a única nova aglomeração de população da região da nova capital.” (101) É dessa cidade que se lembra um bloguista-jornalista, num relato extraído em parte do pai encarcerado e a beira da morte. Esse relato – deliberadamente descuidado e errático, como é de costume num blog – torna incrivelmente plástica a essência de Brasília vista através da vida de um menino (porém não mais n’”As margens da alegria” rosiana). O menino é o próprio bloguista anônimo que aí chega com duas tias e um pai biológico que, recentemente, substitui o pai de criação – o traçado deste menino quase se parece com uma modulação (mais urbana, mais recente) da aventura de Riobaldo. Porém despojada da aura mítico-lendária, mais voltada para uma alegoria das derivas tão freqüentes da grande família Brasil nas suas variações pessoais, sociais e políticas. Os perfis quase alegóricos de certas figuras antropológicas da sociabilidade brasileira aparecem em filigrano na história caótica do bloguista, amigo ou alter-ego de infância de João Almino. Ele debita no seu blog a torrente de recordações que recolheu junto ao pai em desgraça numa cela de prisão, acuando impiedosamente o velho moribundo em busca de esclarecimentos de alguns mistérios que rodeiam a instável existência do pai alcoólatra, seus fracassos financeiros e deslizes passionais, e, seu possível envolvimento na morte de um amigo humilde, Valdivino.


Como o próprio livro-blog, construído por mentes fantasmas de outras mentes, Brasília, os homens e mulheres que a construíram, se desdobram em fantasmas simultaneamente tangíveis e irreais, cuja verdade adivinhamos sem jamais trazê-la totalmente à luz. O que vemos desfilar é a versão urbana e ‘moderna’ do “sertão que está dentro da gente” – histórias que repetem as estruturas do mando clientelista, a dependência da gente miúda (inclusive do pai do menino) à espera de apadrinhamento e proteção, os clãs (políticos, policiais, empresariais…) que reproduzem, no seio do milagre utópico, como um deboche da sociabilidade masculina que remonta à ‘genesia violenta’ dos colonizadores solitários de antanho.


A meninice pré-adolescente e adolescente do narrador dá um colorido particularmente erotizado aos fragmentos  que retornam do passado, o que permite aos múltiplos ‘eus’ do bloguista intuir os desejos ávidos e predadores dos homens que circulavam pela cidade em construção, e que o menino, na época, observava apenas de fora. Dessa técnica multi-focal resultam interessantes sobreposições de imagens ‘inocentes’ – descrições muito palpáveis de corpos e roupas femininos, ou da vestimenta masculina com suas conotações hierárquicas e sociais: botas caprichosamente enceradas, por exemplo -, e de vislumbres que adivinham e antecipam os gestos predadores, cálculos assombrosos e armações infames que resultarão pouco a pouco das rivalidades veladas desses conquistadores do novo-nosso Brasil.


A aventura dos engenheiros e políticos, especuladores imobiliários e policiais que mandam na cidade livre entretece-se com a trajetória semi-oculta (e ocultista-espiritista) de Lucrécia – puta baiana, ‘princesa’ brasiliense e sacerdotisa de uma seita de fracassados e criminosos –, que enfeitiça todos os homens da Cidade Livre, destruindo sua paz como uma labareda, mas ao mesmo tempo vítima ‘protegida’, explorada e destruída pelos mais valentes destes mandões. A morte misteriosa e suspeita de Valdivino, seu companheiro baiano marginalizado pelos mais poderosos, é o mistério que intriga o bloguista e o fio vermelho da narrativa.


Não é um romance apenas, é um documento precioso que capta o mundo submerso da história recente de uma cidade, de um pais e de uma forma de vida profundamente ancorada nas tradições (talvez esquecidas) do Brasil.”


Daniel Libeskind na IstoÉ: "Perto do caos e do gigantismo de uma megalópole como São Paulo, Nova York é uma vila toscana"

18 de dezembro de 2010 0

Está ótima a entrevista à IstoÉ do arquiteto polonês, radicado em Nova Iorque, Daniel Libeskind, que esteve há pouco em São Paulo para lançar o seu primeiro empreendimento no Brasil. Daniel, que participa com um excelente artigo no último livro que organizei – “Fronteiras do Pensamento: ensaios sobre cultura e estética” –, editado pela Civilização Brasileira, fala aqui do compromisso ético da arquitetura, de uma arquitetura humanista e dramática. Destaque para a importância que ele confere ao caos urbano de uma megalópole como São Paulo, que encerraria forte potência criativa. Não deixe de conferir!


http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/115262_PERTO+DO+CAOS+DE+SAO+PAULO+NOVA+YORK+E+UMA+VILA+TOSCANA+?sms_ss=facebook&at_xt=4d0cc0f09e4c81ac%2C0

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Cidade Livre, de João Almino

23 de novembro de 2010 0

Dentre os bons livros que li este ano está “Cidade Livre”, de João Almino. Diplomata de careira, natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte, João Almino doutorou-se em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort. Ensinou na UNAM (México), na UNB, no Instituto Rio Branco, em Berkeley e em Stanford. Conheci-o em junho, num colóquio em Petrópolis, no Rio de Janeiro.


O livro é deliciosamente bem escrito, com linguagem fluente e bem cuidada. O texto encanta pelo ritmo, oscilando da loquacidade às reticências, da voluptuosidade imagética à simplicidade narrativa.


Estão ali os componentes da estética pós-moderna que tanto encantam os críticos entendidos. Mas vazados de forma singela, despretensiosa, suave. O narrador é fragmentado, descontruído e significado em metalinguagem. O filho (que assina J.A. – João Alino?) de um dos primeiros colonizadores de Brasília – jornalista, historiador e empreiteiro – conta a história do pai, num blog, que virou o livro, ao mesmo tempo em que altera o próprio texto à medida que escreve e reage às críticas de leitores imaginários, em tempo real, uns, dentre os quais, comentaristas anônimos no seu blog, o outro, o próprio João Almino, identificado pelo narrador como um amigo e revisor. A estrutura caleidoscópica, contudo, não confunde o leitor. Pelo contrário, ela se presta magnificamente para conferir ritmo ao imaginário estilhaçado e polifônico da cultura popular, que João Almino traz para o texto na forma de mitos coletivos e trajetórias individuais que se entrecruzam e se misturam, vertendo-os em prosa cristalina, palavras bem postas, naturalmente incorporando o linguajar cotidiano do povo.


A leitura, atraente no estilo, cativa também pelo enredo. Já de saída, o leitor é fisgado por um sombrio mistério, em torno do qual se desenrola uma trama bem urdida e cujo desfecho explode ao final: uma mulher fatal, de personalidade multifária e cambiante, um retirante nordestino com habilidades incomuns, um dedicado historiador que se torna empreendedor corrupto, um pré-adolescente descobrindo a sexualidade – personagens que se entrelaçam em torno do sumiço de uma pessoa, um possível assassinato jamais solucionado.


Mas a força do romance vai ainda além. Antes do livro de João Almino me cair nas mãos, eu não me apercebera que Brasília parece não ter escritores. A literatura, ao ambientar-se numa cidade, preenche um esqueleto de prédios e avenidas com carne semiótica. Ela dialoga com a alma de uma cidade, significando-lhe, cerzindo identidades. Eu nunca tinha lido um livro ambientado em Brasília. Cidade nova, moderna, projetada, seu artificialismo aparente parece não ter inspirado a literatura.


O livro de João Almino não apenas ambienta-se em Brasília, o que por si só já se constitui em cenário inusitado para uma narrativa de ficção, mas perscruta escaninhos esmaecidos de uma memória fugidia e esmalta um adorável esforço de condensação identitária para uma cidade que se estribou na voragem do novo, numa modernidade adejante, precipitada na vertigem do progresso e infensa às tradições. João Almino, ao escrever, faz História. Ao fazer História, fermenta a ficção. Nesse vai-e-vem, nessa fronteira coleante, João Almino vai encontrando a alma de uma cidade nova, surgida quase que de um dia para o outro, e que encantou o mundo inteiro ao nascer.


Fantasias de uma criança desenham traumas psicológicos arrebatadores e funcionam como portas de acesso ao passado, cadenciando a narrativa. Seu pai, um insólito jornalista, improvisado em historiador, coleciona frases de visitantes ilustres, anota pequenos detalhes do dia-a-dia de um frenético canteiro de obras, na contramão do fluxo do progresso que a todos engole num hausto, mas ciente de que um dia seus cadernos de encargos serão úteis como testemunhos de origens esfumadas.


Velhacap, Novacap, Cidade Livre, Candangolândia, enchentes, favelas, bordéis, uma polícia corrupta e autoritária, um povo exaurido, explorado, mas esperançoso e confiante, uma cidade transitória, de tendas e barracos, de obreiros, que deu lugar a uma capital imponente, erguida em cristal e concreto – um terreno sem Juízes se metamorfoseou na sede de todos os Poderes. O vazio que vira concreto. O vazio onde se aninhava fauna e flora de enorme diversidade e beleza, sobre as quais se apoia uma cultura cujos fundamentos escoam pelas bordas das pilastras a brotarem do chão. O concreto que, décadas mais tarde, ressoa pelas paredes frias o clamor por uma história.


João Almino conseguiu transformar a descrição de uma cerimônia oficial, a inauguração de Brasília, numa narrativa eletrizante, pois, entre fragmentos de discursos e desfiles apoteóticos, engancha o leitor com a promessa de respostas para o mistério que amarra a trama. Mas é na morte que o livro encontra o seu ápice. O sumiço do candango, imigrante nordestino, um possível assassinato, que tão profundamente impactou a família do narrador J.A., mas sem reverberação coletiva, em contraste enviesado ao velório grandioso de Bernardo Sayão. Sim, porque uma cidade se torna viva quando tem mortos para enterrar. E, para cada pioneiro heroico, imortalizado no panteão da glória, milhares sucumbem em anonimato.


Anonimato, entretanto, ruidoso. A Brasília de João Almino pendula entre a uniformidade urbanística e arquitetônica e a diversidade sincrética. É polimorfa, híbrida, mestiça. Nela se fundem o idealismo político, a voracidade corrosiva do capitalismo corrupto, a utopia modernista e o enlevo socialista, a miragem progressista, a delicada natureza do cerrado, o misticismo popular, a ressignificação ansilar de vozes imigrantes, tragadas no torvelinho da urbe, um lugar mágico, refúgio do desespero, onde o absurdo dá lucro e onde o sonho vale mais do que o medo, onde a mobilidade é estonteante, os largos horizontes infundem liberdade e dispersão…, e prostitutas podem virar sacerdotisas.