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Posts na categoria "Cidades"

Livro novo: A Faculdade de Direito de Porto Alegre/UFRGS: memória, ensino e política, desde 1900.

31 de maio de 2014 1

Em 25 de abril passado foi lançado no Salão Nobre da Faculdade de Direito da UFRGS meu novo livro A Faculdade de Direito de Porto Alegre/UFRGS: memória, ensino e política, desde 1900. O livro tem 192 páginas, com papel couchê e formato 27,5 cm X 21,5 cm, com seleção de cores, com fotos da fotógrafa Adriana Donato, design de Maria do Rosário Grossi. A pesquisa foi abrigada pelo Núcleo Diversitas da USP, programa de pós-graduação interdisciplinar. Trabalhamos por quatro anos na edição dessa obra e o resultado geral me deixou bem satisfeito. Não foi nada fácil alcança-lo, pela complexidade do tema, que exigiu considerável esforço de pesquisa, e porque o projeto, realizado sob os auspícios da Lei Rouanet, captou apenas cerca de 40% do valor autorizado, o que nos obrigou a uma série de cortes e ajustes. O livro, selado pela editora Paiol, não será comercializado.

A Faculdade de Direito da UFRGS, fundada entre 17 de fevereiro e 3 de maio de 1900, com a denominação de Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, é uma das mais tradicionais e influentes escolas de Direito do País. Foi a primeira Faculdade de Direito do Rio Grande do Sul, a primeira do Sul do Pais e a sexta instalada no Brasil.
A instalação solene da Faculdade ocorreu a 3 de maio de 1900, com a presença, entre outras autoridades, do Presidente do Estado, Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, e do chefe republicano Júlio Prates de Castilhos. Refletindo o pendor da cultura jurídica gaúcha para o direito público, sua aula inaugural, em 4 de maio, foi proferida pelo professor Plínio Casado, responsável pela disciplina de Direito Público e Constitucional.
Foi seu primeiro diretor o Des. Carlos Thompson Flores, com mandato de quatro anos. Sucedeu-lhe o professor Manoel André da Rocha, que permaneceu no cargo por três décadas até assumir a Reitoria quando da fundação da Universidade de Porto Alegre em 1934. Foram ainda seus diretores Luiz Mello Guimarães, Leonardo Macedônia Franco e Souza, Edgar Luiz Schneider, Elpídio Ferreira Paes, José Salgado Martins, Eloy José da Rocha, Galeno Vellinho de Lacerda, Ruy Cirne Lima, Fernando Jorge Schneider, Clóvis Veríssimo do Couto e Silva, Almiro Régis Mattos do Couto e Silva, José Sperb Sanseverino e Peter Walter Ashton.
Por seus bancos escolares passaram ilustres homens públicos, entre os quais Getúlio Vargas, Joaquim Maurício Cardoso, João Neves da Fontoura, João Goulart, Francisco Brochado da Rocha, Alberto Pasqualini. Contou entre seus professores com algumas das mais altas expressões da cultura jurídica do país. A sua influência sobre a cultura jurídica e sobre a política do País é imensa, sendo ombreada apenas pela Faculdade do Largo de São Francisco, da USP.
Já quando dos debates na Assembleia Constituinte de 1823, a elite política brasileira teve plena consciência da importância do ensino superior, impulsionado pelo Estado, para a construção do Estado nacional. A criação dos cursos jurídicos em 1827, por iniciativa governamental, possibilitou tanto a constituição de uma burocracia qualificada para a gestão do Estado, como a sistematização da nova ideologia político-jurídica, de tal forma que Joaquim Falcão pode dizer que “a criação dos cursos jurídicos confunde-se com a formação do Estado nacional”.
Ao longo de sua história, os cursos jurídicos no Brasil, através da formação de sucessivas gerações de bacharéis, têm alimentado as instituições, em especial as instituições constitucionais. Surgida sob o impulso da modernização da sociedade, a história desta Faculdade de Direito está estreitamente ligada à história republicana do Estado e do país.
Desde cedo revelou sua vocação universalista. Sua criação marcou o início dos cursos humanísticos no Estado. A Escola de Comércio de Porto Alegre, futura Faculdade de Ciências Econômicas, originou-se em 1909 na Faculdade de Direito, desligando-se apenas em 1945. A Faculdade de Educação, Ciências e Letras, futura Faculdade de Filosofia, instituída em 1936, embora funcionando apenas a partir de 1942, instalou-se durante algum tempo em seu prédio. Por ocasião da fundação da Universidade de Porto Alegre, em 1934, a Reitoria localizou-se na Faculdade de Direito.
Funcionando inicialmente no antigo prédio do Liceu (Escola Normal), localizado na esquina das ruas Duque de Caxias e Bragança, hoje Marechal Floriano Peixoto, transferiu-se, em 1910, para a atual construção neoclássica na Avenida João Pessoa, réplica do “Palais du Rhin”, em Estrasburgo, antigo palácio de verão do Kaizer Guilherme II, imperador da Alemanha. O famoso arquiteto Theodore Wiedersphan assumiu a construção do prédio, a cargo da célebre firma porto-alegrense de Rudolph Ahrons. Já em 1913, o prédio recebia o ex-presidente norte-americano Theodor Roosevelt.FAC_DIR_UFRGS_capa_baixa

Tele-taxi com frequência não funciona em Porto Alegre entre aproximadamente 17hs30min e 20hs

26 de maio de 2013 2

Quando alguma coisa é um fato consumado, é necessário que alguma instância regulatória o reconheça. É um fato consumado que o serviço de tele-taxi não funciona em Porto Alegre entre aproximadamente 17hs30min e 20hs. Tente requisitar um taxi por alguma cooperativa nesse horário: os telefones estarão quase sempre ocupados, ou chamam e ninguém responde, ou, se atendem, prometem um taxi que nunca chega. O tema pode parecer prosaico, mas há uma dimensão ética aí que cabe reconhecer. Aparentemente, os taxistas desligam a sua comunicação por gps com as centrais porque temem assumir chamados, ficarem presos no trânsito, atrasarem e, quando finalmente chegam, verificam que o passageiro já tomou outro veículo. Então, preferem ou sair das ruas no horário de pico do trânsito, ou apanhar passageiros apenas nas ruas, ignorando os chamados. Até a alguns anos, havia uma confiança mútua entre taxistas e passageiros na cidade. Os primeiros sabiam que seriam aguardados e os outros sabiam que seriam atendidos. Ninguém mais sabe nada, nem confia em ninguém. Passageiros chamam veículos, mas tomam o primeiro que aparecer. Taxistas aceitam chamados, mas desistem da corrida no meio do caminho quando supõem que o tempo de espera superou o razoável, sem dar satisfações. Diante desse quadro, as centrais de atendimento telefônico das cooperativas simplesmente resolvem o problema tirando o telefone do gancho. Assim, nem mesmo aqueles poucos taxistas que mantém os gps ativos recebem os chamados. A EPTC, por sua vez, a quem cabe fiscalizar o serviço, nada faz. Se não consegue fiscalizar competentemente o serviço, porque não expede algum tipo de portaria, regulamento, norma, sei lá, reconhecendo que as cooperativas não atendem os usuários nesse horário? É incrível o acordo de hipocrisia que se estabelece em torno dessa questão.

PANORAMA DA PARTICIPAÇÃO DA INICIATIVA PRIVADA NACIONAL NO SETOR ELÉTRICO DO INTERIOR GAÚCHO (1889-1947): CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DO PATRIMÔNIO INDUSTRIAL URBANO.

22 de setembro de 2012 0

Saiu artigo novo meu, na revista Memória em Rede, número 7, da Universidade Federal de Pelotas, intitulado PANORAMA DA PARTICIPAÇÃO DA INICIATIVA PRIVADA NACIONAL NO SETOR ELÉTRICO DO INTERIOR GAÚCHO (1889-1947): CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DO PATRIMÔNIO INDUSTRIAL URBANO. Trata-se de um trecho de minha dissertação de mestrado, defendida em 1995 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que agora revisitei.

A Zona Sul – despossuída pelo “desenvolvimento”? - Artigo de Kathrin Rosenfield

23 de julho de 2012 0

Caros, reproduzo abaixo artigo da amiga Kathrin Rosenfield, a propósito do sonhado centro cultural na Tristeza, em Porto Alegre, publicado na Zero Hora desse último domingo.


A cidade de Amherst, Massachussets, onde me encontro nesse momento, é chamada The Commonwealth of Amherst – Prosperidade Conjunta de Amherst. Ela tem 25 mil habitantes (mais ou menos o tamanho da Vila Assunção, da Tristeza e da Conceição juntos) e, para as decisões de administração e planejamentos, 250 cidadãos são eleitos para apresentar projetos e votar como serão desenvolvidas as diferentes áreas.  A cidade decide. Não é nem o prefeito, nem o secretário, nem o governador, nem o parlamento. São os delegados constituídos da cidade. Há críticas a essa atitude e talvez muitas delas sejam justas. No entanto, é admirável que uma cidade possa não somente decidir, mas ter critérios para decidir. Agora penso em Porto Alegre, no bairro em que moro e pelo qual eu luto – uma luta muitas vezes inglória, sobretudo quando se trata do planejamento de médio e longo prazo…


O desenvolvimento é atropelado, sem planejamento, feito ao sabor de interesses e idéias desconjuntadas. Rapidamente eliminam-se os pulmões verdes da orla, que – em vez de ser reservada para o uso comum (Common Wealth) dos moradores atuais e futuros -  já tem grandes partes loteadas para torres comerciais e residenciais. E como ficará o trânsito e os serviços básicos (de escolas a centros médicos e hospitais)? Ninguém sabe muito bem como tudo isso irá funcionar num futuro próximo. É claro que pouco se pensa nos espaços culturais. Enquanto os prédios históricos do Centro são restaurados, os bairros perdem seus casarões – ou ainda, eles caem em abandono, ou são cedidos para fins bizarros – como acontece nesse momento com os charmosos prédios do complexo arquitetônico localizado na Rua Landell de Moura, 430, no bairro Tristeza. Os moradores reivindicam há anos a transformação do local em centro cultural, ações explicitas, racionalizadas e insistentes começaram em 2005! Havíamos sugerido que o Governo se unisse com a iniciativa privada para criar uma ilha cultural necessária para o desenvolvimento saudável da Zona Sul, onde faltam cinemas de qualidade, livrarias e bibliotecas, teatros e salas para dança, salas de exposição e de conferências, cafés…

No entanto, fomos surpreendidos com a recente notícia de que esse mesmo local – que reivindicamos desde 2005 – será ocupado por nada menos que quatro entidades que não refletem nenhum dos desejos dos moradores: pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, pelo Instituto de Artes Cênicas do programa “Galpões Culturais”, por “um grupo da comunidade, que já está no local, mas que deverá apresentar um projeto de ações culturais e de manutenção do espaço”, e… pela Superintendência de Serviços Penitenciários – conforme uma decisão tomada numa “audiência pública” para a qual nenhum morador e nenhuma das entidades de bairro foram chamados.

As perguntas que se colocam são sem fim: quando e onde foi realizada essa audiência e quem participou? Sob que base o lugar foi cedido para o MTG e o que a SUSEPE vai fazer lá? E porque os reiterados pedidos da população não tiveram nenhuma resposta?   Se existia um movimento da comunidade desde 2005, porque ninguém foi chamando?

Mas a pergunta principal, a pergunta de principio para qualquer planejamento urbanístico e cultural é: Que critérios foram utilizados para que quatro atividades tão díspares fossem escolhidas para um espaço público? Um email para o gabinete da Secretaria da Cultura (enviado no dia 13 de julho) ficou – como é quase sempre de praxe – sem resposta.  As idéias, contribuições e reivindicações dos moradores são ignoradas. Fica claro que, aqui, não se trata de “prosperar conjuntamente”!

Hotel Bavária é agente de poluição sonora em Gramado

30 de junho de 2012 1

O Hotel Bavária, um dos mais tradicionais da cidade de Gramado, tornou-se um problema para hóspedes e vizinhos. As pessoas vêm para o adorável destino turístico gaúcho em busca dos ares, da natureza e do descanso que o ambiente serrano proporciona. Mas quem se hospeda no Hotel Bavária ou tem o azar de habitar no seu entorno é diariamente importunado por uma desagradável poluição sonora que poderia ser facilmente evitada. Sobretudo aos sábados pela manhã, por volta das 8hs, justamente quando as pessoas que se deslocam para Gramado mais pretendem aproveitar a paz do fim de semana, jardineiros impertinentes ligam suas assopradeiras do inferno!

Trata-se de barulhentas maquininhas que prometem ajudar no serviço de varrição. Talvez sejam efetivamente uma mão na roda para os jardineiros – bem, isto é, até que eles, depois de anos expostos a esta agressão, desenvolvam algum provável problema de surdez –, mas para hóspedes e vizinhos que desejam acordar no sábado calmamente, ouvindo o canto dos passarinhos, é um tormento inominável. Se fosse uns quinze minutos de barulho, tudo bem, seria até suportável. Mas os tais jardineiros mantém suas maquininhas ligadas durante a manhã inteira!

Já se apelou diversas vezes para a gerência do Hotel Bavária por compreensão. Gentilmente, prometem solucionar o problema. De fato, depois de cada reclamação, determina-se a suspensão do barulho. Mas a cada fim de semana, o drama se repete. Depois que alguém é acordado pelo berreiro das assopradeiras, o prejuízo já está feito. É inacreditável que um hotel que vende tranquilidade para seus hóspedes produza tamanho incômodo para clientes e vizinhos. É evidente que a Prefeitura precisa coibir esta ação que ofende o perfil identitário da cidade e agride moradores.

Mikhail Bakhtin, Roberto Da Matta, Ortega y Gasset e os carnavais brasileiros

17 de junho de 2012 0

Na sua tese de doutorado de 1941 sobre François Rabelais na Idade Média, o linguista russo Mikhail Bakhtin desenvolve a instigante fórmula da carnavalização da literatura, com vezo, talvez, muito menos marxista do que fenomenológico, já que condensa percepção de haver uma expansão da vida no âmbito da cultura popular, em relação complementar e, ao mesmo tempo, conflituosa, com as engrenagens de regulação institucional. Bakhtin revela como, por meio de Rabelais, emerge a cultura da Idade Média, alavancada por uma incrível potência do fazer cotidiano, onde o grotesco, ao impregnar-se de comicidade, torna-se subversivo. Suspenso, porém, o mecanismo de inversão ritual, a carnavalização opera como válvula de escape para a pressão social, reafirmando, no limite, as hierarquias vigentes.

Esta é, essencialmente, a tese que o sociólogo Roberto DaMatta absorve, no seu clássico Carnavais, malandros e heróis, publicado em 1979, talvez o último grande exemplar dos monumentais esforços ensaísticos de interpretação sintética do Brasil, iniciados por Varnhagen na década de 1850, e aos quais tanto devemos. DaMatta chega a analisar o carnaval em correlação com as paradas e procissões, exatamente como propõe Bakhtin, dispondo o carnaval do Rio de Janeiro dentre os rituais fundados no princípio de inversão, enquanto inclui a Semana da Pátria e as procissões da Semana Santa dentre aqueles afirmadores da estrutura hierárquica da sociedade. Estranhamente, DaMatta não cita Bakhtin e não lhe reconhece como fonte da fórmula…

Assim como Gilberto Freyre, com sua linguagem fluída e descomplicada, com seus temas da cultura popular, DaMatta logrou levar a sociologia a um público amplo, para muito além da academia. E se tornou um dos intelectuais brasileiros mais influentes. Carnavais… foi originalmente recebido com certo estranhamento. Mas seu olhar antropológico arejou o ambiente acadêmico brasileiro, então impregnado pelo marxismo e engajado no combate à ditadura militar. No auge do ostracismo universitário imposto a Gilberto Freyre, DaMatta reabilitou os temas que lhe eram caros.

É sem dúvida na abordagem antropológica que reside a grande riqueza de Carnavais…, bem como é neste recorte exclusivo que está o seu calcanhar de Aquiles. Siderado pelo método estruturalista, DaMatta dissocia a sua análise da História. Seu livro é um magnífico retrato. Mas um retrato possível, e datado, especificamente do Rio de Janeiro, de fins dos anos 1970.

Seu mundo é estático, se retroalimenta. Conclui que o Brasil tem um sistema de permanência, atemporal, hierárquico, que rege o conjunto de nossas relações sociais e interpessoais. DaMatta reconhece haver um polo liberalizante, conectado à modernização e à urbanização. É o espaço da legislação impessoal. Contudo, para ele, toda a vez que o indivíduo é retirado da rede de significação hierárquica, emanada das estruturas duais e cerzida no plano da comunidade, da família, das relações de compadrio, cai na impessoalidade, não como igual, mas como ultra-explorado. Isto porque aqueles indivíduos que logram manter a sua condição de pessoa no âmbito de uma formação patrimonial, preservando em alguma medida suas relações pessoais de poder, delas se valem para escapar às normas impessoais, estratégia esta que seria interditada aos pobres, aos imigrantes dos Estados nordestinos nas capitais do Sudeste… Portanto, para DaMatta, a impessoalidade que nos Estados Unidos é o cimento da democracia, no Brasil jogaria o papel inverso, reiterando e aprofundando o quadro de exploração.

Ora, se esta fórmula pode ser útil para ajudar a explicar a permanência renitente de injustiças na sociedade brasileira, tem dificuldade em dar conta da enorme transformação pela qual a mesma vem passando nos últimos anos. Eu creio que o próprio DaMatta percebeu isso: seus textos mais recentes sobre o comportamento do brasileiro no trânsito urbano já levam em consideração que as pessoas podem reagir diversamente às leis em conjunturas diferentes.

Outras fragilidades teóricas lhe são atribuídas, tais como, resumidamente, a ausência de uma problematização do conceito de classe social; uma percepção algo idealizada do indivíduo ocidental; e uma inversão do esquema explicativo do patrimonialismo, amplamente reconhecido como marcado por uma indistinção entre espaço público e privado, mas que, para DaMatta, se negrita por uma oposição entre casa e rua.

Em Carnavais…, DaMatta pretende descrever uma totalidade, acabando por expandir sua vivência de Rio de Janeiro para todo o universo brasileiro. Assim, não há em seu livro uma única palavra sobre o carnaval de Salvador, de Recife, etc… E cada cidade brasileira possui um carnaval completamente diferente. Em Salvador, há blocos, afoxés e trios elétricos e não existem escolas de samba, tampouco os desfiles no sambódromo, tão característicos do Rio de Janeiro. Em Olinda e Recife há o frevo e o maracatu. E assim por diante.

Genericamente, como sublinha o antropólogo Antonio Risério, a tese de Bakhtin, encampada por DaMatta, está correta e se aplica a todos os carnavais, de Nova Orleans a Olinda. Mas o desafio está em compreender as especificidades, dando-se um passo além do universalismo.  O carnaval de Salvador, por exemplo, aprofunda a inversão, na medida em que acontece na rua, e não no espaço regrado do sambódromo, dividido em zona de desfiles e em plateia. O espetáculo cênico do Rio de Janeiro que tão bem se presta às emissões televisivas, não se realiza em Salvador, onde se estabelece uma espontaneidade caleidoscópica impossível de ser documentada em toda a sua intensidade por câmeras.

Além disso, como também registra Risério, se a retórica do carnaval flui pela inversão das desigualdades do cotidiano, ela também possui o componente de exagerar a dramatização dessas desigualdades. DaMatta, que já teve dificuldade de perceber isso para o Rio de Janeiro de fins dos anos 1970, afastou-se ainda mais da verdade sobre o carnaval ao ignorar Salvador, pois ali esta dramaticidade veio carregada em cores mais fortes pelos blocos afros: as entidades afrocarnavalescas, nos anos 1970, dramatizavam o desejo de uma igualdade social inexistente. Ali, a emergência dos blocos afro e dos afoxés, como o Ilê Ayê e o Olodum, convergiam no congraçamento e brincavam a festa, mas sem deixar de assinalar a assimetria. Além disso, essas entidades carnavalescas negromestiças (o conceito é de Risério), contribuíram para re-significar e valorizar o passado étnico num presente mestiço, esboçando um futuro no qual direitos deveriam ser conquistados e consolidados. Como afirma Glicério, com razão, com o adensamento da festa, a partir dos anos 1980, a Bahia nunca mais foi a mesma.

De lá para cá, houve uma assimilação desse carnaval negromestiço pelos poderes públicos e pela indústria turística e cultural. Mas isto, longe de configurar uma derrota, afirmou um novo horizonte, no qual os valores simbólicos que lhes eram intrínsecos ganharam musculatura, sendo expandidos e partilhados pela sociedade branca, mais ou menos como aconteceu com o samba no Rio de Janeiro no segundo quartel do século XX. Ora, essa transmutação esta longe de autorizar a concepção do carnaval como um veículo muito mais de permanência do que de transformação, como pretendeu Roberto DaMatta em seu livro.

Daniela Mercury, que é branca, veicula hits como “Oyá por Nós”, inspirado numa reza de candomblé a Iansã, o Orixá arquetípico da beleza e do poder femininos, cujo elemento é o vento. Daniela, que é excelente dançarina, constrói muito de suas coreografias a partir dos movimentos ritualísticos do candomblé, onde a cada gesto corresponde uma reza, um ritmo, uma história, valendo-se aqui a memória coletiva – que estamos acostumados no Ocidente a transmitir fundamentalmente pela escrita – do corpo humano como suporte.

O carnaval de Salvador, hoje, também é animado por uma potente indústria cultural. E muitos espaços da rua foram loteados, sendo privatizados durante a festa. Ao longo dos circuitos dos blocos carnavalescos, montam-se camarotes, para todos os gostos e para todos os bolsos. Mas isto faz parte da evolução natural da festa, que cresce em público e em visibilidade e que precisa se viabilizar economicamente.

Trata-se de um raro caso de festa celebradora da identidade nacional que está franqueada a qualquer um. Tanto no Rio de Janeiro, quanto em Olinda, ou em Salvador, qualquer estrangeiro é bem vindo. Mais do que isso, rapidamente integrado, não se sentirá deslocado. No Rio, milhares de estrangeiros desfilam fantasiados todos os anos nas Escolas de Samba, não mais se limitando a acompanhar o espetáculo da arquibancada. Em Salvador, muitos mais se apinham nos camarotes ou se deixam levar pelas ruas e avenidas. Assim, há no carnaval uma síntese peculiar entre o regional e o específico, de um lado, e o universal, de outro, que se reveste de brilho no mundo hedonista contemporâneo. E aqui DaMatta acerta ao perceber que o carnaval, mesmo quando apoiado no ferramental de produção simbólica burguês, engendra um horizonte antipuritano, pois investe na glorificação do feminino, na exaltação do nu masculino, na celebração do hedonismo, da invocação da sensualidade, franqueando o erotismo e acolhendo a possibilidade do sexo sem reprodução.

Além disso, pelo carnaval, as multidões se afirmam quase sempre de maneira pacífica e lúdica, o que, num mundo assombrado pela paranoia da segurança, ganha especial relevo. Como notou com precisão Camille Paglia, não há paralelo nos Estados Unidos para a liberdade de movimento das multidões manifesta no carnaval de Salvador. Conservadores empedernidos, como José Ortega y Gasset, estavam errados em não reconhecer às massas capacidade de autorregulação, não apenas descentralizada, mas também pacífica.

Esta festa de multidões, ao mesmo tempo fluída e hibridizante, se ancora numa tradição. Como notou DaMatta corretamente, o carnaval se inscreve numa cronologia cósmica, pois situa-se numa escala cíclica, independente de datas fixas: é o momento de exagero que se antecipa à continência da Quaresma, revelando valores não apenas brasileiros, mas cristãos. As teses de Ortega y Gasset, que não reconhece às massas a possibilidade de uma ação legitimada em tradições, não se sustentam quando expostas à realidade do carnaval brasileiro.

Nos últimos anos o espaço da celebração religiosa vem encolhendo: a Quaresma esta cada vez mais circunscrita a um feriado burguês com algum resquício de componente espiritual concentrado na sexta-feira santa. Já o carnaval vem expandindo-se, começando cada vez mais cedo e terminando cada vez mais tarde, sem mencionar os cada vez mais frequentes carnavais fora e época, como as Micaretas, celebradas em pequenas cidades do interior do Nordeste.

Alguém poderia ler esta ode hedonista ao antipuritanismo como uma válvula de escape domesticada num mundo encharcado pelo mercado de consumo de massas, destinada a confirmar o status quo pela inversão temporária. Isto pode ser também provavelmente verdade. Mas está longe de dar conta da complexidade da questão.

Como lembra Risério, as pessoas que brincam o carnaval são de carne e osso. Suas experiências afetivas e sensoriais não podem ser estancadas e rasuradas pela prisão racionalista da lógica dual. Num mundo no qual a polícia alveja mortalmente um rapaz que corre atrasado para apanhar o metrô, com uma mochila às costas (Jean Charles, em Londres), ou que não permite que as pessoas parem por alguns minutos para jogar conversa fora numa calçada, o carnaval brasileiro emerge como um notável contraponto. Há muito mais aqui do que uma defesa apaixonada da liberdade. O excesso de regulação do cotidiano é esterilizante e imbecilizante.

O colapso do serviço de taxis em Porto Alegre

10 de abril de 2012 4

Desde que fui morar em Florianópolis, tornei-me usuário bem mais frequente do serviço de transporte público em Porto Alegre. Afinal, chegando à Capital de avião ou de ônibus, a locomoção na zona urbana depende de outros meios, que não o veículo particular. Lembro-me da época de estudante, nos anos 1980 e 1990, quando eu costumava usar mais o transporte público. Os ônibus eram velhos, viviam lotados, às vezes sujos, a malha de linhas era precária e o atendimento dos funcionários ruim. Isso tudo mudou muito! Hoje, a cidade conta com uma frota renovada e uma malha bastante eficiente. Andar de ônibus ou de lotação é quase sempre uma experiência confortável.

Em compensação, desorganizou-se incrivelmente o serviço de taxis. Todo mundo reclama! Há dois anos venho denunciando esta barbaridade aqui pelo blog. De uns tempos para cá, o tema ganhou as manchetes dos jornais. Mas a Prefeitura, nada faz!

São poucas as cooperativas e companhias de teletaxi atuando na cidade. Em horários de pico e em dias de chuva, é impossível conseguir ser atendido ao telefone. As atendentes simplesmente tiram o telefone do gancho! Faltam veículos nos pontos de taxi. Em alguns, estabelecem-se filas monumentais. Reconheço que seja difícil de atender um fluxo ímpar como o do retorno do feriadão de Páscoa na rodoviária. Mas o problema do ponto de aeroporto Salgado Filho existe há anos e acontece em qualquer dia. E ninguém faz nada!

Certa vez, depois de perder cerca de meia hora esperando um táxi no aeroporto – e olha que era um dia normal, nada de feriadão – liguei para a EPTC para reclamar. Disseram-se que não tinham nada a ver com isso, que a fiscalização do funcionamento do ponto cabia à cooperativa. Vejam, cidadãos de Porto Alegre, a que situação absurda estamos condenados! O próprio prestador do serviço se autofiscaliza.

No ano passado, uma fratura obrigou-me a depender por um mês de muletas, de bengala e, logicamente, dos taxis. Foi um pesadelo! Quando se tem alguma dificuldade de locomoção, quando se está carregado de malas, o serviço de taxi não é um luxo, mas um gênero de primeira necessidade! Uma cidade que não consegue organizar este serviço convenientemente desrespeita o cidadão.

Um aspecto positivo no serviço de taxis em Porto Alegre é que a maior parte dos motoristas é composta de gente educada, honestíssima e respeitadora das leis de trânsito. Sou fã dos nossos taxistas. Não acreditam em mim? Experimente usar regularmente os taxis em cidades como Florianópolis, Rio de Janeiro ou – a pior de todas! – Buenos Aires! No Rio, a coisa já melhorou muito. Mas ainda há risco de se tomar um veículo imundo ou ilegal. Em Florianópolis, a regra dos taxistas é dirigir muito acima do limite de velocidade, falando ao celular, tagarelando baboseiras com os coitados dos passageiros. Depender de taxi comum em Florianópolis é uma praga! Em Buenos Aires, então, a todos estes problemas, soma-se razoável quantidade de motoristas sem vergonhas, que tentam roubar os passageiros. Se você for a Buenos Aires, não confie nos taxistas!

Diz a EPTC que não adianta conceder licenças extras tendo em vista eventos pontuais, como a Copa do Mundo. Estou de acordo. Mas já faz muito tempo que o dia-a-dia do usuário do serviço virou um inferno!

É evidente que faltam licenças em Porto Alegre! A Zero Hora já denunciou aquilo que todos sabiam, por ouvir dizer e por dedução lógica: que há um comércio paralelo e ilegal de licenças na cidade! Todos sabem que a concessão de licenças está congelada desde 1973. De lá para cá, muita coisa mudou. Se a população pode ter aumentado relativamente pouco, há um fluxo muito maior de pessoas de fora pela cidade, como aquelas ligadas ao turismo de eventos ou de negócios, por exemplo. O interior do Estado cresceu e as pessoas viajam mais. Dependem da rodoviária, do aeroporto e dos hospitais da Capital, por exemplo. E, além disso, imaginem o impacto numa cidade como Porto Alegre da enorme ascensão social que animou o Brasil nos últimos dez anos! É claro que as pessoas estão com mais dinheiro no bolso e mais dispostas a usar serviços como o de taxi!

Só ampliar significativamente as licenças resolveria tudo? Provavelmente não, embora resida aí o X da questão. Também seria preciso obras de engenharia em pontos mais tumultuados, como o da rodoviária e do aeroporto e, sobretudo, uma fiscalização com mais aferro e mais transparência sobre o serviço das cooperativas. A população tem o direito de exigir que as cooperativas sejam multadas quando tiram o telefone do gancho. E se não o são, alguém tem de explicar porque estamos reféns dessa barbaridade! É vácuo de atribuição? Incompetência? Falta de estrutura? Alguma maracutaia? Sei lá, mas a resposta tem de ser dada!

Se o Prefeito não enxerga isso tudo é porque está cego! Eu estou entre os mais de 70% de porto-alegrenses que aprova a gestão do Prefeito José Fortunati. Penso que é o melhor Prefeito que a cidade tem em muitos anos! Mas não é possível tapar o sol com a peneira nesse caso. A reação dele ao problema tem sido lenta e insatisfatória. Se a EPTC está mostrando incompetência para gerir o problema, o que já está mais do que notório para os usuários do serviço, deveria um Prefeito dinâmico chamar esta gente à responsabilidade e intervir no processo. É a imagem dele que está em risco aqui. E Fortunati é candidato à reeleição.

Não tem cabimento estarmos há anos discutindo este tema. O assunto já encheu o saco! Está na hora de ações objetivas e concretas. Chega de nhém nhém nhém!

Restauração da Ponte Hercílio Luz

18 de março de 2012 3

Em Santa Catarina está em curso um debate interessante, sobretudo da perspectiva de quem atua no campo da gestão da cultura com foco no patrimônio histórico. A obra de restauração da histórica ponte Hercílio Luz, na Capital, que liga a Ilha de Santa Catarina ao continente, está orçada em pelo menos 170 milhões de reais, dos quais 64,5 milhões viriam de patrocinadores, sob os auspícios da Lei Federal de Incentivo à Cultura, na forma de renúncia fiscal. O projeto de captação foi aprovado esta semana pelo Ministério da Cultura, em tempo recorde, vez que foi protocolado em novembro passado. Trata-se do projeto de maior vulto nos 21 anos de história da Lei Rouanet (a proposta original era de 76,8 milhões de reais, mas a CNIC cortou 12,3 milhões do projeto). Até então, os orçamentos mais vultosos aprovados no âmbito da Lei Rouanet foram a restauração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (R$ 50 milhões) e a restauração da Catedral de Brasília (R$ 25 milhões).

A ponte, inaugurada em 1926, está fechada para o tráfego de veículos desde 1981. Nesse meio tempo, já se investiu um bom recurso na sua manutenção: estimam-se cifras da ordem de 350 milhões… O asfalto, que revestia o piso de rodagem da ponte, por exemplo, foi retirado, para aliviar a carga de uma estrutura que ameaça ruir. Segundo os engenheiros que cuidam da restauração, além dos velhos problemas, como o avanço inclemente da ferrugem nas barras de sustentação, descobriu-se que dos quatro pilares, três estão bastante corroídos.

Do ponto de vista do patrimônio histórico vale o investimento? Sem dúvida! A estrutura é um bem cultural e artístico do Brasil, tombado e reconhecido pelo Iphan. É a maior ponte pênsil do Brasil e talvez a única neste estilo ainda em pé no mundo. A ponte é linda, é um dos cartões postais mais conhecidos do Brasil, foi adotada pela gente de Florianópolis como símbolo da cidade – foi, aliás, a sua inauguração que consolidou a cidade na condição de Capital do Estado, até então questionada por cidadãos do interior que achavam o deslocamento até a Ilha incômodo.

Mas é razoável investir-se tanto dinheiro na restauração de um bem histórico quando existem tantas outras urgências em Santa Catarina? Pensa-se, por exemplo, no pessoal que sofre com as cheias no Vale do Rio Itajaí, ou na necessidade de ampliação das estranguladas rodovias do Estado. É verdade que a ponte, uma vez restaurada, poderá até ser reaberta ao tráfego de veículos. Porém, quanto custaria uma ponte pênsil moderna, que substituísse a Hercílio Luz?

Ironicamente, a ponte que consolidou Florianópolis como Capital e que foi adotada como símbolo da cidade, provoca ranger de dentes em muitos catarinenses do interior, que olham para a insistência em mantê-la de pé como um despropósito do ponto de vista da lógica econômica e da ordem de prioridades da população. Para os críticos, a custosa restauração seria um sumidouro de dinheiro público. O que se explica em grande parte pelo fato de ser obra de engenharia obsoleta, além de a estrutura estar deteriorada.

A propósito, no último dia 21 de fevereiro, o departamento de transportes do estado norte-americano de Ohio implodiu a Fort Steuben Bridge, ao custo de 2,3 milhões de dólares. A ponte, que servia a cidade de Steubenville, no centro-oeste dos Estados Unidos, era muito semelhante à Hercílio Luz. Inauguradas nos anos 1920, ambas foram erguidas por estruturas de aço em bases de concreto. A Steuben foi bloqueada para uso apenas em 2009. Depois de três anos de estudos, os técnicos norte-americanos concluíram que não valia a pena tentar restaurar a ponte, pois o custo superaria em muito a construção de uma nova, com tecnologia mais moderna.

Assim, enquanto o mais recente projeto de restauro é festejado por muitos como uma conquista de Santa Catarina e um indicador de prestígio para Florianópolis, há quem veja nele uma inversão de prioridades e um desperdício de recursos. De qualquer forma, a manutenção da ponte mostra que o valor simbólico de determinados bens pode em muito superar o interesse objetivo. A ponte Hercílio Luz parece ter transcendido a sua utilidade fim, adquirindo uma importância afetiva ímpar.

Afinal, e vocês, o que acham?

Porto Alegre e as obras que estão começando

05 de janeiro de 2012 8

Bem legal a animação feita para a Prefeitura de Porto Alegre pela Hype. Dá para ver bem a quantidade e grandiosidade de obras importantes previstas para a cidade. Há décadas Porto Alegre não passava por uma repaginada dessas. Parabéns a todos os envolvidos neste processo!

Gramado, São Paulo, Paris, Nova Iorque

05 de janeiro de 2012 0

Tem estado particularmente fresco em Gramado, para esta época do ano. À noite, puxa-se um edredom e pela manhã liga-se até uma estufinha no banheiro. Favorece a preguiça e o acordar um pouco mais tarde. Durante o dia, um sol ameno convida ao jardim. Estou conseguindo assistir filmes, ler um pouco e escrever. Se permanecesse aqui por alguns meses, colocaria em dia muito do que me proponho a escrever. A escrita rende um monte em Gramado. Talvez seja o clima, o ar da serra, a vegetação no entorno, sei lá. Acho, aliás, uma pena que, em se tratando de uma cidade turística, esta vocação não seja melhor trabalhada. Há dúzias de escritores e intelectuais produzindo discretamente em Gramado. Mas na livraria da cidade, a Sucellus, nem uma estante dedicada a eles. A bem ajeitada biblioteca municipal parece que também não se acordou para isso.

O lado B da cidade também existe. O trânsito, por exemplo, tem estado bem chatinho. Quando não são turistas abobalhados, que não sabem circular em rótulas, são alguns gramadenses e canelenses. Muitos perderam a paciência com o trânsito lento e se tornaram agressivos. Na RS entre as duas cidades, excedem a velocidade, grudam nos veículos da frente de forma impertinente, tentando passar por cima, com sinais de luz e buzinas. Nas rótulas, ignoram a preferência de quem chega primeiro e, ao contrário dos turistas, que sempre acham pertencer a preferencial aos outros, se atravessam na frente de todos. Na Avenida São Pedro, é quase impossível conseguir que alguém dê passagem com gentileza, quando se quer sair de uma vaga de estacionamento. Mesmo com fluxo a 20 Km/h, uma paradinha gentil, nem pensar! Alguns taxistas, em especial, dão medo, de tal maneira cortam, costuram e tentam administrar cada espaçinho. Essa agressividade toda deveria ser tratada. A Prefeitura, infelizmente, não tem programas educativos e é deficiente na fiscalização. Deveriam distribuir folhetos, postar fiscais para orientação e, quiçá, aplicar multas. Na RS, urge a instalação de câmeras de vigilância para coibir manobras violentas. Gramado está ficando com problemas de trânsito de cidade grande, dado a atividade econômica frenética e o fluxo intenso de turistas. É o cúmulo que a Prefeitura se abstenha de agir. Obras viárias são necesárias, mas não são tudo. E, a propósito, acho que a cidade já reclama um melhor serviço de transporte público, como lotações, pequenos micro-ônibus, como forma de desafogar a área central. Faltam, também, bicicletários e ciclovias!

Voltando aos filmes, ontem revi pela televisão o excelente Salve Geral. Ainda há gente conservadora e mal informada que ignora a excelente safra do cinema nacional. O filme de Sérgio Rezende é, sem dúvida, ótimo! Melhor do que a maioria absoluta das porcarias policiais americanas que se atulham nas locadoras. Além de tecnicamente bem resolvido, é uma percepção inteligente do trágico Levante do Dias das Mães, em São Paulo. É um policial impactante como eram aqueles filmados na Nova Iorque dos anos 1970. Quem ainda não assistiu, não deve perdê-lo.

Eu ainda não tinha assistido ao Meia-noite em Paris, do Woody Allen. Ouvi dizer que muita gente achou se tratar de um filme sobre Paris. É um filme delicado sobre o diálogo entre culturas, pois aborda os estereótipos dos americanos com relação a Paris. Cada personagem representa um desses estereótipos turistas, típicos da era da sociedade de consumo de massas. O filme capta, sobretudo, como cidades icônicas estão morrendo por terem se tornado reféns de sua própria fama, o que atrai levas de moradores transitórios que anseiam por viver o seu passado e sua “atitude”. Dado o volume desses fluxos, acabam cidades com um presente cada vez menos profícuo e menos criativo. Woody enfrentou esta questão ultra-contemporânea pela ambiência de Paris, mas, creio, era de Nova Iorque que ele estava mesmo falando, ao fim e ao cabo, cidade onde vive e que ama. Metrópole que, junto com Paris, mais vem sofrendo desse mal. São hoje cidades que consomem tudo o que se faz e o que há no mundo, mas que cada vez mais vivem das imagens que se fazem do seu passado e cada vez menos produzem conceitos e novas atitudes para a contemporaneidade. São cidades cansadas.

Consegui, finalmente, terminar a leitura do Homem no Escuro, de Paul Auster. O livro começa bem, com um ótimo argumento. Um thriller cativante de um sujeito que se vê tragado para uma oura dimensão, paralela, na qual os Estados Unidos entraram em guerra civil, depois das eleições fraudelentas do Bush e do 11 de Setembro. O enredo fica ainda mais palpitante quando esse sujeito é comissionado para matar um velho jornalista na dimensão “real”, pois os líderes políticos do mundo paralelo descobriram que esta guerra acontece por estar sendo imaginada na cabeça desse alvo. Mas tudo não passa de uma conspiração do próprio, que se encontra imerso numa terrível depressão, deseja se suicidar e, para tanto, criou um personagem imaginário para matá-lo, dando-lhe carne e osso graças a esse trânsito entre dimensões. Há boas ironias sobre a ideologia norte-americana, sobram críticas à mercantilização de nossa sociedade e explora-se o conceito de múltiplas realidades paralelas, típico do pós-modernismo: “a gente entende que as piores possibilidades da imaginação são o país onde a gente vive”. Um bom testemunho da sombria era Bush. Outra peculiaridade do livro, bem característica da literatura da virada do milênio, é protagonismo atribuído a um personagem encanecido. Os velhos raramente eram protagonistas de romances pré-modernistas, como registra Simone de Beauvoir. Mas com o envelhecimento da sociedade contemporânea, isso mudou. Estão ali todos os dramas da velhice, mas o recado final é otimista. Ao fim e ao cabo, o “suicídio” não se confirma, graças a chance de interlocução do velho com a sua neta, uma adolescente que também está depressiva. Solução muito próxima àquela que Coetzee vem dando à velhice em sua obra. Foi pena que a narrativa acabou de forma meio amadora. Os personagens imaginários simplesmente desaparecem e tudo o que fica é uma conversa sobre o fim de um casamento. Dá a impressão que Auster comportou-se como os gregos antigos, que, nas tragédias mal estruturadas, chamavam um deus ex machina para terminar com o drama e encerrar o que não sabiam concluir. Mas esta é a vantagem de ser um escritor famoso – pode-se acabar um bom livro de qualquer jeito, que todos vão continuar adorando.