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Posts na categoria "Cinema"

Decifra-me ou te devoro: o enigma de Vargas

31 de maio de 2014 0

 

Saiu na Zero Hora do dia 18 de maio um artigo meu no novo Caderno PrOA a propósito do novo filme sobre o Getúlio Vargas. Copio aí abaixo o link em html.

 

Decifra-me ou te devoro: o enigma de Vargas

Flores Raras, filme de Bruno Barreto sobre romance entre urbanista Lota de Macedos Soares e poetisa Elizabeth Bishop

08 de setembro de 2013 4

Não sou especialista em Elizabeth Bishop, tampouco na história de Lota de Macedo Soares, mas fui assistir essa semana ao filme Flores Raras, dirigido por Bruno Barreto, e me chamaram a atenção algumas impressões, que compartilho aqui, de forma meio descosida. Confesso que eu estava com certa má vontade inicial em relação ao filme, porque me enjoa ver no cinema esse dramalhão abotoadinho de novela das seis que virou meio típico dos filmes dos Barreto. O último que eu assistira do pessoal foi uma porcaria constrangedora, A Paixão de Jacobina, dirigido pelo Fábio Barreto, em 2002. Era a estreia, no Festival de Gramado de 2002, salvo engano, e foi muito difícil ficar até o final de sessão. Mas Flores Raras é bem razoável e chega-se ao final com relativo entusiasmo.

Acho que, no geral, o filme recria bem os cenários de época propostos e o figurino é bom. As atrizes – Glória Pires, Miranda Otto e Tracy Middendorf – estão todas muito bem nos papeis, sendo competentemente dirigidas.

É louvável o destaque dado à Lota na concepção e construção do Parque do Flamengo, talvez, uma das maiores contribuições femininas à arte, dado as suas dimensões, seu magnetismo conceitual e sua importância diária na vida de milhões de pessoas. Até há pouco tempo, quando se falava do Parque do Flamengo, ouvia-se em geral por aí apenas os nomes de Burle Marx e Affonso Reidy, o que é injusto. O filme parece acertar também numa boa caracterização psicológica da Elizabeth, figura conectada de forma meio mórbida com os traumas de uma infância solitária e infeliz.

Também creio que o tema do homossexualismo feminino foi tratado com elegância. Há cenas diretas de romance e erotismo, corajosas, abordadas com respeito e beleza, livres de estereótipos banais. Jovens de hoje em dia podem se perguntar como duas mulheres lésbicas podiam transitar com tanta desenvoltura e tranquilidade pelos melhores salões da época. Num país ainda praticamente desprovido de classe média, elas integravam a elite e faziam-no com autonomia financeira. Além disso, eram reservadas, não se expondo aos beijos em público. Nessas condições, membros da elite gozavam no Brasil de razoável margem de manobra em face à moral convencionada. Basta lembrar-se de Dom Pedro I, que só mobilizou de fato a repulsa da sociedade contra a sua relação extraconjugal quando quis impor sua amante, a Marquesa de Santos, goela abaixo de todos em plena Capela Imperial, ou nomeando-a dama de companhia da Imperatriz.

Mas há também licença poética do diretor em relação à história. Mary Morse é descrita como uma medíocre moça de classe média, mas isso talvez possa ser injusto para com ela e para com o real papel desempenhado no triângulo amoroso. Inculta, ela não era. Até onde sei, Lota e Bishop se conheceram por intermédio de Morse, de fato, mas em Nova Iorque, antes dela vir ao Brasil, e não em Petrópolis. Bishop desembarcou no Brasil pelo porto de Santos e não pelo do Rio de Janeiro, cidade que alcançou de trem. O apartamento de Lota era no Leme e não no Posto 6 em Copacabana. O carro de Lotta nessa época era um jaguar vermelho, e não um esportivo branco. Lota, segundo todos os relatos, fascinada por corridas e carros esporte, dirigia agressivamente – a quantidade de multas de trânsito recebidas seria proverbial.

Bishop ficou hospedada no apartamento do Rio de Janeiro, depois na casa das Samambaias. O primeiro contato com as peças de Calder foi nesse apartamento, pois boa parte da mobília de Lota levava a sua assinatura. Foi no Rio de Janeiro, e não na serra, que Bishop teve a alergia decorrente do caju. É verdade que foi por causa das atenções recebidas nesse momento que se apaixonou pelo país, mas Bishop já estava interessada em Lota quando veio para o Rio de Janeiro.

A Casa das Samambaias não é nada daquilo que o filme mostra, pois era rústica, geométrica e inacabada: um galpão, com cobertura singela de telhas de alumínio. O chão era de cimento, marcado por pegadas de cachorro, a iluminação feita com lampiões a querosene. A decoração era despojada, crua. Aquele jardim perfeitamente concluído de Burle Marx não existia. Bishop descreve esse cenário em suas cartas. Mas Barreto preferiu lê-lo com hipérboles hollywoodianas.

Quando da época da construção do Parque do Flamengo, Lota estava grisalha e gordinha, informação que o filme não incorporou. Dá a impressão de que Barreto quis preservar uma fictícia ilusão estética de juventude típica de comédia gosmântica. Lota era muito enfática ao falar, o que lhe valeu alguns bons atritos. Mas o filme a caracteriza de forma excessivamente ponderada em diversas passagens, sobretudo da metade em diante. Também achei que não foi feliz ao representar a tensão e o drama que vertiam entre Lota e Bishop. As duas, segundo vários relatos, eram muito intensas. Nesse sentido, o filme foi contido.

Achei ridícula a passagem que atribui a Bishop um posicionamento político militante, contra Carlos Lacerda e contra o golpe militar de 1964. Bishop gostava muito de Lacerda e apoiava-o apaixonadamente. Ela defendeu a “revolução de 1955” e procurou apoiar Lacerda no exílio nos Estados Unidos, indicando-lhe contatos. As cartas a Robert Lowell revelam tendência ao pensamento liberal conservador, repulsa ao comunismo chinês e soviético, simpatia a movimentos contrarrevolucionários de cunho conservador e acendrado patriotismo norte-americano. Bishop apenas criticou Lacerda quando este se aliou a JK e a Jango, em 1966, justamente porque estaria traindo sua posição ideológica anti-getulista e anti-comunista, nesse sentido acompanhando a opinião de Lota, que a esta altura estava rompendo com o velho amigo. Bishop, mais tarde elevada à condição de ícone do feminismo e do movimento lésbico, não aprovava a revolução sexual dos anos 1960 e não se empolgou com o feminismo. Era, em grande medida, uma dama puritana, embora muito bem integrada à elite modernista brasileira.

O Brasil foi determinante na sua vida e para sua arte. Dominou razoavelmente bem o português, chegando a se dedicar a traduções. Apreciava alguns poetas e escritores brasileiros e portugueses. Mas jamais deixou de ser uma típica anglo-americana e a brasilidade não impregnou a sua escrita de maneira antropofágica e intercultural. Nunca se adaptou completamente à culinária local. Gostava de ser servida pelos “negros” da casa, mas não se conformava com a incapacidade dos criados de preparar ovos mexidos ou cozidos no ponto. Agradecia a Lowell pelo envio de temperos de Nova Iorque, já que não se adaptava bem com os locais. Detestava o carnaval, que considerava “coisa dos negros”, embora reconhecesse que o samba era boa música. Lota e Bishop ficavam apreensivas cada vez que o casal Calder vinha visita-los, porque eles gostavam de festejar e pular o carnaval a noite toda.

A alusão de que ela não lia bem em francês me pareceu ultrajante! Bishop morou em Paris antes de vir ao Brasil. A umbilical relação de Lota com Nova Iorque também é desprezada, o que é uma bobagem, pois Lota ajudou a introduzir no Brasil a paixão por esta cidade – ela, aliás, foi criticada na época por gostar tanto de uma metrópole então considerada vulgar pela elite brasileira. As duas, inclusive, passaram longas temporadas juntas em Nova Iorque, muito antes do trágico suicídio de Lota. E a jovem estudante, que se tornou amante de Bishop nesse entremeio, veio ao Brasil, hospedando-se, contudo, na Casa Mariana, a casa que a poetisa americana adquiriu em Ouro Preto, enquanto Lota ainda era viva. Depois da morte de Lota, Bishop continuou vindo ao Brasil regularmente.

O pai de Lota é retratado como um puritano preconceituoso. Lota não rompeu com ele por desaprovação ao seu lesbianismo, mas por questões familiares bem mais complexas. A família foi duramente impactada pelas perseguições de Getúlio Vargas e o pai de Lota deixou-as sem boa parte da herança. Mas, até onde se sabe, salvo engano, Lota nunca aprovou uma disputa judicial com o pai.

Camille Paglia: Taylor Swift, Katy Perry e Hollywood estão arruinando as mulheres

07 de dezembro de 2012 1

Uma tarde de sábado com Allain Robbe-Grillet – muitos e muitos tons de cinza mais

07 de outubro de 2012 0

Na madrugada do dia 18 de fevereiro de 2008, a França, o cinema e as letras perderam Alain Robbe-Grillet. Aos 85 anos de idade, Grillet partiu deixando uma importante obra, com cerca de 20 livros e participação em 9 filmes. Conhecido como o pai do nouveau roman, movimento literário que marcou a França nos anos 1950 e 60, Grillet também escreveu roteiros, como o do célebre “O Ano Passado em Marienbad”, de 1961, dirigido por Alain Resnais, que antecipou a ousadia da nouvelle vague de Jean-Luc Godard e outros. Também dirigiu seus próprios filmes, como o “O jogo com o Fogo”, de 1975. Membro da Academia Francesa de Letras desde 2005, a sua morte repercutiu também no Brasil, onde os principais jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre lhe dedicaram artigos. Grillet viria ao Brasil em maio, para conferenciar no Fronteiras do Pensamento. Foi para formalizar este convite que fui visitá-lo em uma tarde de sábado, em dezembro de 2007, em Paris.

Proporcionou-me uma agradável acolhida, em seu amplo apartamento no Boulevard Maillot, em prédio de frente para o Bois de Boulogne, num dos endereços mais elegantes do 16éme. Confesso que não esperava encontrá-lo na Rive-Droit, talvez por seu vínculo ao grupo Rive-Gauche, composto de intelectuais, como Jean Cayrol, Margherite Duras e Agnes Varda – aficionados aos temas da memória e do esquecimento e que abraçavam elaborados processos mentais para suas narrativas.

Explicou-me pacientemente ao telefone como eu deveria fazer para saltar na estação Porte Maillot, atravessar a avenida Charles de Gaulle e seguir pelo Boulevard André Maurois, que se transformaria no Bd. Maillot, passar pelo portão do jardim, pela porta principal do prédio, digitando senhas de acesso. Ao telefone não me pareceu tão complicado, mas claro que me enrolei. Perdido no pátio, liguei do celular. Explicou-me o elaborado itinerário novamente e deve ter me achado um descordenado. Finalmente, recebeu-me a porta, sorridente. Conduziu-me a uma sala de estar, com pilhas de livros pelos cantos e sobre as mesas e aparadores.

Generoso, elogiou o meu francês pedestre. Bem disposto, estava muito mais interessado em bater um papo do que em revisar o extenso contrato que eu levara. Atento, achou logo um erro de francês. Mas tranqüilizou-me em seguida, dizendo que ninguém mais escrevia corretamente o francês e que ele vivia notando erros até nos tradicionais jornais de Paris. Curioso, quis saber sobre o Rio Grande do Sul. Perguntou-me se se tratava de uma zona de imigração. Sim, respondi. Disse ele compreender o alemão, embora não o falasse. Gostava de ler clássicos da filosofia e da literatura alemã no original. Contou-me ter estado algumas vezes na Alemanha, ministrando palestras. E lamentou, divertindo-se um pouco, a má acolhida que seu último livro “Un Roman Sentimental”, tivera naquele País. Lemos juntos uma crítica recente publicada no Frankfurter Algemeine. Arrasadora. Dizia que Grillet enterrava o nouveau roman.

Rimos. Ele contou-me um pouco sobre o início de sua carreira de escritor, quando seus primeiros livros foram recusados pelos editores. Aparentou não se importar muito com o que dizia a crítica. Aproveitei para sacar o livro da bolsa, pedindo-lhe um autógrafo. Claro, na dedicatória ele fez uma referência jocosa ao contrato que eu levara. Ficou surpreso de eu estar lendo o livro. Disse-me que embora gostasse dele, achava que não representava a sua obra. Era uma passagem rápida e não muito importante de seu último livro, “A Retomada”, segundo ele, que resolvera desenvolver e transformar em um novo projeto, quando alguém lhe pedira para escrever algo sobre uma casa no Canadá. Bem, acontece que esta passagem promovia uma bizarra combinação de pedofilia, incesto, prostituição infantil e sadomasoquismo. Era a história envolvendo o personagem de Gigi, que agora virava um livro!

Olhando em volta, na agradável sala onde estávamos, notei outro elemento presente em “A Retomada”. Um pôster com uma fotografia de um château Luis XIV, na Normandia, onde o escritor mantinha sua casa de campo, e cuja descrição mergulha desconcertantemente, em breve parêntesis, numa narrativa que se passa na Berlim pós-guerra. Este é o estilo de Grillet. Explosão de modernidade, desconstrução da narrativa, do espaço, desestruturação do sujeito. Em “A Retomada”, uma rocambolesca história de espiões na Berlim arrasada pela guerra e ocupada pelas forças aliadas, um espaço de caos entre a queda dramática do totalitarismo nazista e a tentativa de reconstrução da nova Europa social-democrata, onde as normas sociais achavam-se em suspenso ou em processo de redefinição e vigorava a justiça militar, Grillet nos apresenta um personagem narrador de múltiplas identidades: com três passaportes, que encontra o seu duplo em um trem, às vezes é o narrador da história, outras vezes é interpretado por um terceiro narrador, externo, às vezes torna-se o seu duplo, isto quando o próprio Grillet não invade a narrativa para descrever a visão de destruição que um tornado provocara, na passagem para o ano 2000, na vegetação vista da janela de seu gabinete, no château na Normandia.

O personagem central do livro, este sujeito múltiplo e desconstruído, emaranhado em incertezas, tenazmente contestado pelo Outro – o narrador duplo –, não deixa também de trazer elementos biográficos do próprio Grillet, como a origem bretã, a infância passada em Brest e o encanto pela Alemanha. Com sua linguagem sofisticada, seu estilo poético, úmido, poderosamente imagético, com longas e detalhadas descrições quebrando o ritmo convencional da narrativa, de maneira a potencializar angustiantemente o suspense do enredo, Grillet desestrutura também o tempo, misturando presente, passado e futuro.

Em “A Retomada”, abraça o tom enigmático, o estilo fotográfico, econômico em ação que já se afirmara com clareza em “O Ciúme”, de 1957. É ainda a recuperação de “Les Gommes”, de 1953, um de seus romances mais célebres. Vários também são os elementos recorrentes entre os filmes que dirigiu nos anos 60 e 70: o enigma cerebral de um homem que se encontra com uma mulher de identidade confusa em Istambul, um ator em crise de identidade, erotismo sadô – jovens amarradas, amordaçadas, flageladas, seqüestradas, aprisionadas; intriga policial, encontros misteriosos em trens, velhos palácios.

Mantendo o leitor num limite entre o real e o imaginário, afogando-o em magníficas descrições imagéticas, quase ausentes de ação, Grillet dilui certezas, verdades. E desenha a contradição como norma, como sistema. Numa única história, múltiplas perspectivas, diversos olhares sobre um mesmo fato, a mesma cena contada várias vezes, de diferentes maneiras. Aceitação intrínseca da fragmentação da uma modernidade exacerbada. E faz do leitor seu refém, conduzindo-o por este labirinto, onde as fronteiras do mundo inteligível se mostram tão esfumaçadas e embaralhadas. Provocativo retrato do mundo pós-guerra.

Não pude deixar de notar que, apesar da corrosão de sentido dessa narrativa desconstruída, o personagem central de “A Retomada” insinuava-se como uma alegoria da reaproximação entre França e Alemanha no pós-guerra. Impossível não lembrar aqui do polêmico “L’ideologie française”, de Bernard-Henri Lévy, com sua denúncia à vertente autoritária do pensamento francês, que encontrou terreno fértil durante a República de Vichy. Em “A Retomada”, o gêmeo secreto, o duplo desconhecido, pode estar sinalizando para a inexorabilidade da união entre os dois países, identitariamente afirmada, mas conscientemente negada. Convergências que se dão em diversas vibrações, do delírio autoritário ao esforço de retomada humanística. A morte do corrupto agente duplo alemão, quem sabe, sinaliza uma chance para a democracia. Otimismo tênue de um crítico figadal da sociedade burguesa moderna? De qualquer forma, a porta aberta para a ressurreição do duplo teima em não sumir de cena ao final e a sua morte, acontecida em meio a mirabolantes teorias de conspiração, nos remete para este perturbador traço da cultura de massas contemporânea: a desconfiança pós Watergate na autoridade do estado.

Mas de fato, o destaque dado às detalhadas cenas SM me pareceram um tanto gratuitos. Eu mal havia começado a ler o “Un roman sentimental”. A vendedora da Fnac da Rue de Rennes não fora simpática quando pedi o livro, que veio embrulhado em plástico, selado por uma tarja vermelha alertando para o conteúdo erótico e polêmico. O pior é que as páginas não estavam separadas. Precisei me valer de uma lixa de unhas de uma senhora que ocupara o meu lugar – estávamos em plena greve geral – num trem da SNEF para descolar as páginas.

E então estávamos ali, numa tarde de sábado, quando sua esposa, Catherine, entrou na sala. Ambos estavam animados com a perspectiva da viagem ao Brasil e Catherine contou-me sobre a viagem que fizeram ao País nos anos 1960, quando visitaram várias capitais, em virtude de uma agenda de conferências de Grillet em universidades. Há poucos dias, uma entrevista sua à televisão francesa provocara furor. Ela começava a admitir a autoria dos livros SM publicados com o pseudônimo Jean de Berg, em 1956 (L’image), e Jeanne de Berg (Cérémonies de Femmes, 1985), entre outros mais recentes. Falou-me com entusiasmo do Rio de Janeiro e, em particular, de uma visita aos bares da Praça Mauá. Lembrei-me de Caio Fernando Abreu.

A atração que a cultura SM exerce na França parece-me um enigma. Foucault provavelmente identificaria nestas práticas a chance de construção de uma nova subjetividade, revolucionária. Apesar de combater os estruturalistas franceses, é mais ou menos o que sugere Camille Paglia em “Vamps & Tramps”, especialmente no saboroso diálogo com a Drag Queen Glenda. Há aqui uma linha direta com crença na condição libertária da contracultura dos anos 1960 e sua revolução sexual e dos costumes. Neste particular, no lado oposto do debate, está Michel Houellebecq, para quem, em “A Plataforma”, a cultura SM é o resultado extremo e extravagante de uma mecanização do ser-humano, do esvaziamento do conteúdo humanístico da sociedade contemporânea, do excesso de individualismo e da ausência progressiva de contatos físicos carinhosos e de intercâmbios afetivos entre as pessoas. Para Houellebecq, o SM é o funeral do amor, uma espécie de degradação para onde nos levou a contracultura, a sociedade do consumo e o individualismo. O autor, com efeito, em “Partículas Elementares”, traça um retrato feroz das conseqüências negativas da contracultura na contemporaneidade. Mas em Robbe-Grillet, nem libertação sexual, nem falência do sentimento, mas, ao que tudo indica, uma falange de fantasmas sexuais a assombrarem sua obra e, talvez, sua vida.

Perdia-me nesses devaneios quando me lembrei de pedir a Robbe-Grillet algumas fotos e direitos de imagens sobre trechos de seus filmes, pois precisaríamos delas para um documentário que faríamos sobre sua participação no Fronteiras do Pensamento. Grillet, então, achou conveniente apresentar-me seu amigo, Olivier Corpet, diretor do IMEC. Apanhou uma agenda de telefones, com puída capa de couro marrom e começou a procurar o número de Olivier. Com alguma dificuldade para ler as letras pequeninas, pediu-me auxílio. Então vi o primeiro nome da lista: Jorge Luís Borges. Por um breve lapso de tempo, parecia possível telefonar para Borges… Por um tempo, pareceu possível recebermos Grillet no Brasil…

O Contestado, restos mortais, de Sylvio Back

09 de agosto de 2012 1

O filme “O Contestado – Restos Mortais”, do diretor Sylvio Back, terá pré-estreia nacional em Florianópolis no dia 15 de outubropróximo. Agende-se.


O CONTESTADO – RESTOS MORTAIS

Filme de Sylvio Back

(Digital, Cor/PB, 118 min.)

Sinopse

Com o testemunho de trinta médiuns em transe, articulado ao memorial sobrevivente e à polêmica com especialistas, “O Contestado – Restos Mortais”, é o resgate mítico da chamada Guerra do Contestado (1912-1916). Envolvendo milhares de civis e militares, o sangrento episódio conflagrou Paraná e Santa Catarina por questões de fronteira e disputa de terras, mesclado à eclosão de um surto mes­siânico de grandes proporções.

Ficha técnica

Equipe
Fotografia e câmara Antonio Luiz Mendes
Diretor assistente Zeca Pires
Som-direto Juarez Dagoberto
Montagem/edição Sylvio Back/PH Souza
Abertura/efeitos visuais Fernando Pimenta
Produção PH Souza
Produção executiva Margit Richter

Produção Usina de Kyno/Anjo Azul Filmes

Pesquisas, roteiro e direção Sylvio Back


O Diretor

Sylvio Back é cineasta, poeta, roteirista e escritor. Filho de imigrantes hún­garo e alemã, é natural de Blumenau (SC). Ex-jornalista e crí­tico de cinema, au­todidata, inicia-se na direção cinematográfica em 1962, tendo escrito, dirigido e produzido até hoje trinta e sete filmes – entre curtas, médias e onze longas-metragens, esses, a saber: “Lance Maior” (1968), “A Guerra dos Pe­lados” (1971), “Ale­luia, Gretchen” (1976), “Revo­lução de 30” (1980), “Repú­blica Gua­rani” (1982), “Guerra do Bra­sil” (1987), “Rádio Auriverde” (1991), “Yndio do Brasil” (1995), “Cruz e Sousa – O Poeta do Des­terro” (1999), “Lost Zweig” (2003), e “O Contestado – Restos Mortais” (2010).

Tem editados vinte e um livros – entre poesia, ensaios, contos e os argu­men­tos/roteiros dos filmes, “Lance Maior”, “Aleluia, Gret­chen”, “Re­pública Guarani”, “Sete Quedas”, “Vida e Sangue de Po­laço”, “O Auto-Retrato de Bakun”, “Guerra do Brasil”, “Rá­dio Auriverde”, “Yndio do Brasil”, “Zweig: A Morte em Cena”, “Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro” (tetralíngüe), “Lost Zweig” (bilíngüe) e “A Guerra dos Pelados”.

Obra poética: “O ca­derno eró­tico de Sylvio Back” (Tipografia do Fundo de Ouro Preto, Minas Gerais, 1986); “Moedas de Luz” (Max Limo­nad, São Paulo, 1988); “A Vinha do De­sejo” (Geração Editorial, SP, 1994); “Yndio do Brasil” (Poemas de Filme) (No­nada, MG, 1995); “bou­doir” (7Le­tras, Rio de Janeiro, 1999); “Eurus” (7Letras, RJ, 2004); “Traduzir é poetar às avessas” (Langston Hughes traduzido) (Memorial da América Latina, SP, 2005), “Eurus” bilíngüe (português-inglês) (Ibis Libris, RJ, 2006); “kinopoems” (@-book) (Cronópios Pocket Books, SP, 2006); e “As mulheres gozam pelo ouvido” (Editora Demônio Negro, SP, 2007).

Com 74 láureas nacionais e internacionais, Sylvio Back é um dos mais premiados cineastas do Brasil. Em 2011, recebe a insígnia de Oficial da Ordem do Rio Branco, concedida pelo Ministério das Relações Exteriores, pelo conjunto de sua obra cinematográfica e de roteirista.


Dandy, de 1988

18 de junho de 2012 2

Lembrei-me de postar hoje aqui para vocês link para o filme Dandy, de 1988, uma viagem experimental dirigida por Peter Sempel. É da época em que Berlim foi o centro planetário da cultura pós-punk. O filme é uma colagem, sem roteiro claro, com trechos de conversas aleatórias, tomadas de animais, cenas urbanas e alguns objetos que se repetem, como um peixe morto e um bule de café, este, com efeito, considerado nos créditos um ator de fato! O elenco é bem interessante, com destaque para o Blixa Bargeld, líder da lendária Einstürzende Neubauten, e o Nick Cave, que está ótimo! Meio non sense nas falas, mas sempre com canções pungentes. A Nina Hagen, uma das grandes revelações do rock no fim dos anos 1980 está um luxo. A voz ainda potente, o jeito escrachado e o visual opera punk, um barroco street pós-moderno que só ela sabia imprimir. É incrível perceber como ela decaiu. Hoje, perdeu a voz, mantem um arremedo fora de época do visual cheio de personalidade daqueles tempos e tornou-se evangélica fervorosa, iso depois de uma fase esquisita em que pretendia se comunicar com extra-terrestres. Mas ela vive na patética Lady Gaga, que copia muito do visual da Nina, sem mencionar a referência, óbvio! Ainda aparecem no filme o Dieter Meier, integrante da poderosa banda eletrônica suíça, a Yello, e o Campino, da Toten Hosen. Um destaque é o dançarino butoh japonês Kazuo Ohno. A trilha sonora é impecável!

O porto, Le Havre

27 de maio de 2012 0

Um filme sobre um porto, sobre a esperança e sobre a amizade. Assim foi descrito “O Porto”, do diretor finlandês Aki Kaurismäki, agraciado com o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 2011. Talvez. Mas acho que a sua essência temática está em certas sutilezas e nos silêncios, isto é, naquilo que não é mostrado, que não é dito, que resta implícito, ou escondido nas sombras.

Podia ser mais feliz a tradução do título em português, pois Le Havre (original em francês) é muito mais do que um porto. Trata-se de uma cidade emblemática. É um dos maiores portos da Europa e ponto de partida da rota atlântica: de lá saíam muitos navios que seguiam para Nova Iorque ou para a América do Sul. Boa parte dos antepassados dos descendentes de alemães, judeus, italianos, eslavos, etc que vivem no Brasil deixaram o Velho Mundo pelo Le Havre…

Os habitantes locais eram muito orgulhosos de sua cidade, pontilhada de prédios elegantes e animada por uma burguesia dinâmica e empreendedora. Há traços desse tempo áureo na coleção de magníficos quadros impressionistas do Museu André Malraux, um dos mais importantes museus de arte franceses fora de Paris, cujo acervo foi em grande parte constituído a partir de coleções privadas locais.

A cidade foi destruída pela aviação inglesa, já no final da segunda Grande Guerra. Para os ingleses, tratava-se de um golpe incontornável a ser bramido contra a ocupação nazista. Mas, segundo se comenta a boca pequena ainda hoje por lá, não havia necessidade de tamanha hecatombe, vez que os nazistas já então se achavam combalidos. Não só o porto, mas toda a cidade foi posta abaixo. Do ponto de vista econômico, entretanto, o arrasamento do segundo mais importante porto de mar francês aproximou a França e a Inglaterra, cuja infraestrutura estava em frangalhos pelos constantes bombardeios nazistas. Por mais paradoxal que possa parecer, em jogo estaria já a reconstrução e a retomada democrática pós-Guerra…

Então, se há um lugar na França aonde você terá dificuldades de encontrar alguém elogiando os ingleses será no Le Havre, justamente o grande porto que está do outro lado do Canal da Mancha, ou English Channel, como preferem os ingleses, ou Mor Breizh, como querem os bretões, num indício das rivalidades que agitaram a região. Não que as pessoas queixem-se abertamente…

Um silêncio sugerido com delicadeza na pergunta que o protagonista, um velho hippie decadente que ganha a vida como engraxate, faz ao jovem africano imigrante ilegal que chega ao porto num container – porque você quer chegar a Londres? O que há lá? É a mãe que ele tenta encontrar, mas também a promessa de uma vida menos sofrida do que a conhecida numa África convulsionada por guerras civis e jugulada pela pobreza.

Sim, a guerra, que foi marca contundente no Havre… Depois de mais de 12 mil prédios destruídas pelas forças aliadas, a cidade, mais de 90% dela em ruínas, precisou ser reerguida. Urgia acolher as pessoas (eram 80 mil os desabrigados) e não havia nem tempo nem bases para uma restauração minuciosa. Destarte, chamou-se o arquiteto modernista Auguste Perret para conceber uma nova urbe. O Havre tem assim a peculiar característica de ser uma cidade planejada e com arquitetura moderna encravada no continente europeu.

Um eixo triangulando o Boulevard François I, a Avenida Foch e a Rue de Paris converge desimpedido para centro. A área comercial da Rue de Paris foi redesenhada com passeios e marquises largos. A Place de l’Hotel de Ville, a praça central, é cercada de refinadas habitações. Os apartamentos inovaram: amplos, calefados, continham mobiliário básico embutido (o que era importante, pois as pessoas haviam perdido tudo na guerra), atualizavam as tradicionais janelas francesas e todos possuíam generosa orientação solar.  O conjunto, com algumas torres se projetando, forma uma bela vista para quem chega pelo mar. Segundo se diz, Perret inspirou-se no skyline de Nova Iorque, cidade que se ligava ao Havre pela rota do Atlântico.

Dentre os principais edifícios públicos projetados por Perret incluem-se o Hotel de Ville, a Bourse du Commerce, e as igrejas de Saint Michel e Saint Joseph. Esta, com sua torre de 110 metros de altura, é um memorial para os mais de 5 mil mortos durante a Guerra. Há muitos parques, jardins e bosques, com uma média de 41 metros quadrados de espaço verde por habitante.

Perret baseou a concepção dos edifícios e espaços abertos em um módulo quadrado de 6.24m, o que permitiu acelerar a construção e conferiu à cidade uma harmonia semelhante àquela do Bairro da Baixa em Lisboa, área igualmente planejada, reconstruída depois do terremoto de 1755. O modernismo de Perret dialogou com o neoclássico, patente nas sacadas e aberturas. Novidade foi um uso vanguardista do concreto armado. A estrutura dos prédios é quase aparente e a arquitetura tem uma incrível uniformidade, mas que não é de forma alguma tediosa. O traçado é elegante e cartesiano, as cores sóbrias.

Para brasileiros acostumados com Brasília, é uma cidade lindíssima. Mas os franceses, aferrados ao estilo neoclássico, torceram o nariz por muitos anos. Não era difícil encontrar um disposto a afirmar com convicção ser o Havre a mais feia cidade da França. Esse mau humor só começou a ceder quando a cidade foi tombada como patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 2005.

Nada disso, entretanto, é mostrado no filme. A ação se desenrola num dos poucos pontos da cidade velha que não foi arrasado, um antigo bairro de pescadores que se localiza junto ao porto. Quem não conhece o Havre e assiste ao filme, tem a sensação de que se trata de uma cidade simples, pequena e antiga. Apenas na última cena, quando um barco zarpa em direção ao Canal da Mancha, tem-se um vislumbre do magnífico skyline.

A conversa entre os frequentadores de um café no início do filme talvez dê uma pista das opções do diretor. As pessoas bebericam num balcão e divergem sobre marcas identitárias de normandos, bretões, etc… Uma remissão ao velho jeito de ser francês, insulado nas poucas quadras antigas de uma cidade projetada. Um modo de vida soterrado, que subsiste nas fímbrias da sociedade, talvez amparado em estereótipos ou lembranças de vivências pretéritas. Os enquadramentos revelando fachadas azuis e vermelhas das pequenas casinhas antigas contrastam com o não dito dos tons pastéis da majestosa Havre planejada.

A aura de fábula melancólica é reforçada pelo desempenho peculiar dos atores, com expressões neutras e diálogos recitados, quase como se fossem zumbis, meio vivos, meio mortos. O recurso a situações de apelo, piegas, longe de ridicularizar o filme, reforça o tom fabular, irrealista.

A rotina modorrenta é quebrada pela chegada do jovem imigrante ilegal Idrissa. A desdita do menino sensibiliza Marcel, o velho engraxate hippie, e detona uma rede de solidariedade entre vizinhos para escondê-lo da polícia. Aos poucos, o humor vai se instalando na narrativa que, apesar de melancólica, não é de modo algum pesada. A piedade permite a identificação com o Outro, convertido magicamente em semelhante pela solidariedade, cimentada às margens da lei, em brechas de contravenção, exigindo um esforço de adaptabilidade que provoca o riso, incensando o humor. E aí se desencadeia a renovação do que estava encanecido, desidratado e moribundo.

Culturas ossificadas, sugere o filme, se renovam a partir do contato com o Outro, assim como a velhice se reanima pelo contato com a infância e a juventude. Ali, além disso, a solidariedade se estabelece entre marginalizados e é capaz de comover até agentes da lei, cujo humanismo pode assim falar mais alto do que a letra fria da norma baseada na intolerância. E é justamente o hippie quem funciona como ponte entre o Outro e a comunidade mumificada, como se o diretor reclamasse para a herança esfumada da Contracultura o condão da renovação pela interculturalidade numa modernidade que de algum modo se tornou estéril. É sintomático que a beleza do Havre é descortinada ao espectador apenas como imagem ao fundo, na cena final, quando o jovem Idrissa consegue escapulir, graças à solidariedade das pessoas que viviam insuladas na vila dos pescadores. Mais do que um filme sobre a solidariedade ou sobre a amizade, trata-se de uma fábula sobre a mobilidade e a necessidade de contato entre os povos e as culturas.

Pina, de Wim Wenders

08 de abril de 2012 0

“Dancem, dancem: de outra forma estaremos perdidos”. Com este apelo, meio repto, meio lamento, testemunho gravado da legendária dançarina e coreógrafa alemã, conclui-se o magnífico documentário Pina, de Wim Wenders, um dos mais importantes cineastas da atualidade. Quem é Pina Bausch? Ela misturou dança e teatro, criando uma nova linguagem. Usou o corpo como discurso, para expressar, mediante movimentos minimalistas, gestos desconstruídos, repetitivos, a essência profunda e imediata de sentimentos, de elegias e tensões. Usou o corpo como tinta e pincel, para desenhar exuberantes quadros em movimento. Pina é teatro, é dança, é poesia, é escultura, é pintura… Ela está sem dúvida no rol dos mais influentes e importantes artistas do século XX.

Quem espera de Wim Wenders um documentário formal, que conta uma historinha a partir de um narrador central, vai se surpreender. Pina é um filme a um tempo impressionista, a um tempo expressionista. É a impressão de um artista, cuja base é o expressionismo, captada por outro. Wenders dialoga com o método e a estética da artista, usando a linguagem fílmica. É próprio do seu acento pessoal a capacidade de captar a essência identitária de cada local, de cada paisagem. E, partindo da dança de Pina, isso ele faz magistralmente, seja filmando num palco, seja reproduzindo o making off e os ensaios de uma peça, seja transportando a coreografia de Pina Bausch para ambientes insólitos, como uma pedreira abandonada, um riacho, o interior de um trem urbano, ou uma avenida no coração de uma cidade. Se Pina trazia elementos como a terra, a água, a pedra para o palco, Wim leva suas coreografias para o ambiente urbano e para a natureza, com forte acento modernista. As tomadas foram todas feitas na cidade de Wuppertal e arredores, onde fica a sede da companhia de Pina Bausch, o Tanztheater Wuppertal.

O documentário parece não ter início, nem meio, nem fim. É uma seqüência de extratos de algumas das peças mais conhecidas de Pina, fragmentos de ensaios, coreografias. A técnica do 3D enfatiza a dramatização de cada passo, transportando o espectador para o assento de uma platéia em um teatro, ou mesmo para o coração da cena. A costura entre um fragmento e outro se dá por depoimentos pungentes dos dançarinos do Tanztheater. Coletados na língua mãe de cada um, ajudam a acessar uma exegese para o método de Pina, profundamente subjetivo, delicadamente técnico, construído colaborativamente, em permanente interação com cada um dos membros da companhia. Não há no documentário uma narrativa sobre a vida de Pina, que nasceu em 1940, estudou na Julliard de Nova Iorque e morreu em 2009, vítima de um câncer avassalador, provavelmente ligado a anos de um tabagismo pesado.

Wenders começou a conceber o documentário, com a colaboração da própria Pina, quando ela ainda estava viva. Sua morte inesperada quase implicou no cancelamento da produção, mantida apenas graças à mobilização dos membros do Tanztheater, o que faz deles não apenas personagens e depoentes no documentário, mas também co-artífices do trabalho. Para uma artista colaborativa como Pina, a fórmula revelou-se mais do que pertinente. A pulsão melancólica fica por conta da sobreposição de áudio das entrevistas com a imagem dos depoentes olhando para a câmara, sem falar. Essa aparente desconexão dialoga em sintonia com o espírito pictórico do documentário, contornando o tom jornalístico que as entrevistas gravadas normalmente têm.

O filme começa com a versão de Pina para “Le sacre du Printemps”, balé seminal de Igor Stravinsky. Com uma estrutura rítmica complexa, recheada de timbres e dissonâncias, esta obra prima condensa a primavera da música e da dança modernas, tendo sido coreografada pela primeira vez por Nijinsky. O extrato final é da peça Vollmond (lua cheia). São magníficas as imagens feitas do palco inundado de água, em uma piscina preta, tendo uma enorme pedra ao centro. O contraste foi bem dimensionado para revelar o profundo investimento de Pina na beleza e na ferocidade da natureza, como na capacidade ilimitada do corpo humano para a expressão. Vollmond foi a última criação de Pina.

Em uma de suas sínteses que ecoam, Pina disse não estar interessada em como as pessoas se movimentam, mas naquilo que faz com que se movam. O que lhe serve então por inspiração é extraordinariamente próximo a cada um de nós. Um universalismo em interface com cada indivíduo. A alma e a identidade de cada dançarino impregnam os passos e conformam os movimentos com feições únicas. De cada dançarino ela extrai uma forma específica. Assim, adolescentes e idosos partilham o palco com profissionais cheios de vitalidade técnica. Porque a técnica não se impõe ao corpo, mas brota a partir da alma, ajustando-se ao corpo, ampliando sua capacidade de expressão.

O filme de Wenders é um tributo a essas pessoas que se expressam pelo corpo, uma imersão pungente na estética e no método de Pina. É imperdível!

Shame, de Steve McQueen

25 de março de 2012 1

Ontem assisti ao Shame, escrito e dirigido por Steve McQueen. O filme é espetacular! Alguns disseram por aí ser uma história sobre um cara viciado em sexo. Não é! Trata-se de um poderoso drama psicológico, ampliado por ganchos arquetípicos atualíssimos. É um retrato pungente da desorientação do indivíduo e do vazio que se instalou na moderna sociedade de consumo de massas.

A adição ao sexo do personagem central, magistralmente encarnado por Michael Fassbender, tem contraponto na figura de sua doce e depressiva irmã, vivida com igual maestria por Carey Mulligan, que aparece repentinamente para uma temporada em seu apartamento, em Nova Iorque. Se ele se atira no sexo impessoal para, na realidade, fugir dos sentimentos e da afetividade, ela é puro afeto, se jogando nas paixões de uma maneira humilhante, masoquista e não menos autodestrtuva.

Ambos são reveladoramente atentos à estética retrô. O romantismo dela está morto no mundo que os cerca e a sexualidade desbragada dele é mais um objeto de consumo, uma degeneração viciante e mecânica da liberação sexual dos anos 1960, filha bastarda daquela generosa utopia. A relação dos dois é glacial, distante, o que apenas mascara e oculta a forte pulsação que os ata. Não é à toa que um dos poucos pontos de contato entre os dois é um velho toca discos de vinil, a única peça com acento sensível num apartamento pequeno, com decoração cinza e escovada. A longa e tocante cena em que ela canta New York, New York, em ritmo lento e dramático, detona a transformação do personagem, que subitamente se reconecta ao seu afeto afogado. Resta implícito, negado e mal resolvido, o viés incestuoso do afeto entre os dois.

O filme todo é feito de contrastes, de polarizações e metalinguagem. A relação tumultuada dos irmãos é mediada pelo chefe do protagonista, homem casado e materialista que o chantageia veladamente quando descobre a sujeira sexual no disco rígido de seu computador. Seu objetivo, usar o subordinado para encontrar prazer e diversão extraconjugais. Entre bares padronizados e um ambiente de trabalho tão frio e cinzento quanto o apartamento no qual vive o protagonista, a relação vai se desenrolando de forma a potencializar o escancarar dos conflitos entre os dois irmãos.

O cenário para esta tensão é estéril. É notável que o filme todo o aconteça como se fosse o palco de uma peça de teatro ou como um quadro sendo pintado. Há um ar de ficção científica na estética crua, pois o filme transcorre sem que nem mesmo um único ramo de planta ou uma única flor apareçam. Na Nova Iorque desses personagens consumidos não há árvores, não há folhas, não há verde! A única cor mais viva é o vermelho de um chapéu da irmã, que o irmão diz ser esquisito, mas se diverte fugazmente ao experimentá-lo, numa estação de metrô, espaço, aliás, que funciona em diversos momentos como território de transição entre uma cena e outra, conferindo-lhes ênfase. Mais tarde, o mesmo vermelho intenso aparece no sangue da irmã…

As tomadas são feitas registrando ausência de profundidade. Há sempre uma parede disposta no fundo imediato. O único momento em que aparece uma réstia de sol e uma vista, do skyline de Nova Iorque e do Rio Hudson, é quando o protagonista tenta se livrar de seu bloqueio emocional e convida uma colega de trabalho para sair. Mas a tentativa resta frustrada, porque ele não avançará afetivamente se não conseguir recuperar a relação familiar, rompida em algum ponto do trajeto.

Os personagens simplesmente vivem: não há profundidade e não há história. Num breve momento do filme, a irmã diz algo como “não somos pessoas más: somos apenas duas pessoas que vieram de um lugar ruim”. E é tudo o que se sabe dos dois. Indivíduos de classe média que garantiram alguma segurança patrimonial, mas que, perdendo valores familiares e, quiçá, religiosos ao longo do processo de ascensão social e afirmação pessoal, tornaram-se errantes desprovidos de gravidade, numa sociedade de consumo que aprisiona ao libertar.

É reveladora a longa e torturante cena que se desenvolve em um bom restaurante. Para o protagonista, é irrelevante o prato a ser saboreado, ou o vinho a ser bebido. Tanto faz, ele simplesmente acompanha o pedido da companheira e as sugestões do garçom. A comida e o ritual da mesa são indicativos de complexidade simbólica e sofisticação cultural na vida das pessoas. E, sobretudo, de vontade de compartilhar. Neste caso, estão em total estado de suspensão, reforçando a imagem de um indivíduo cujo narcisismo apenas escamoteia a falta de assunto, de vontades e de iniciativas. Um típico personagem niilista ao estilo Albert Camus, um l’Étranger pós-moderno cuja busca frenética pelo prazer sexual como fim em si mesmo se processa numa existência ausente de quaisquer outros prazeres, uma espécie de boicote autoinduzido, de solidão absoluta, mas confortavelmente tépida numa prisão cultural de platitudes e superficialidades avassaladoras.

Sim, porque é mais uma vez o jogo de opostos que anima a narrativa e expõe as tensões do personagem em toda a sua dramaticidade angustiante. Tão distante e tão próxima da realidade de cada um de nós.

Os diálogos são curtos, intensos, viscerais e escassos. A dinâmica do filme é pautada por longos e angustiantes silêncios, durante os quais Fassbender arrebata o espectador com brilhantes interpretações. Quase como se fosse uma transposição da lógica do teatro para as telas, numa linguagem que faria especial sentido para Bob Wilson. Como o momento em que seu corpo se contorce enquanto a irmã transa com o seu chefe na sua própria cama. Ou aquele em que seu gozo se mistura com um choro desesperado, há muito tempo sufocado.

Destaque para o tenso diálogo entre os dois irmãos, sentados muito próximos em um pequeno sofá, filmado por uma câmera postada atrás do encosto, enquadrando ao fundo a tela desfocada de uma televisão transmitindo um desenho animado dos anos 1950 ou 1960: candente contraste implicitamente remetendo aos traumas subliminares de uma infância distópica. Com sua bagunça pessoal, sua afetividade desbragada, suas trapalhadas sexuais, sua depressão latente e seu fracasso profissional, ela se afirma como o obsessor que liberta, enquanto pede socorro. Muito pertinente para um mundo no qual mocinhos e bandidos estão mortos, onde o bem e o mal bubuiam na imprecisão e no relativismo.

No auge da crise, o protagonista revela sua tara pela cunilíngua, se envolve numa degradante briga de bar e experimenta uma furtiva excitação homoerótica, para acabar num ménage à trois com duas prostitutas. Tudo muito lógico, aparentemente: a fuga da afetividade levou-o a oscilar de um prazer ou submisso ou dominador e mecânico com as mulheres. Seu foco na sexualidade anônima e centrada em si mesma o conduz ao homoerotismo, numa super excitação dos sentidos mais masculinos. Sua culpa e sofrimento o impelem, de forma masoquista, a provocar uma briga na qual ele apanha de um valentão, em autoflagelo, autopunição.

Depois de assistir ao filme, reveja Guerra ao Terror, de Kathrin Bigelow…

Revista Carátula

08 de fevereiro de 2012 0

Está on-line a revista Carátula, periódico cultural centro-americano dirigido pelo escritor nicaraguense Sérgio Ramirez. Ele proferiu uma excelente palestra em Porto Alegre, no Fronteiras do Pensamento, em 2007. Há bons artigos. Confiram aí.