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Posts na categoria "cultura contemporânea"

Kikogate - Kiko e a política da celebridade

20 de abril de 2013 0

Oi gente, saiu uma entrevista comigo no Caderno de Cultura da ZH de hoje sobre essa polêmica do Kiko indicado como “embaixador” de Porto Alegre para a Copa do Mundo e a relação entre política e cultura de celebridades.

Cultura de alto a baixo - entrevista com Camille Paglia em O Globo

12 de fevereiro de 2013 0

Caros, continuo desaparecido daqui do blog e acho que isso ainda vai um bom tempo, tendo em vista a montanha de coisas que estou escrevendo no momento. Mas faço uma pausinha na minha concentração aqui para postar essa breve mensagem, até porque vários amigos têm me escrito, perguntando a respeito.

Saiu uma ótima entrevista com a Camille Paglia no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, nesse sábado. Confere aí! Eu estou de acordo com a percepção dela de que a arte contemporânea,  embora possa apresentar bons testemunhos, está cada vez mais difícil de apresentar algo com uma carga dramática e densidade semiológica de amplo impacto. O exemplo oferecido de David Bowie é muito feliz. Ele passou por pelo menos duas décadas revolucionando o rock, articulando poesia e música de qualidade, com mímica, teatro, figurinos extraordinários, cinema, fotografia, iluminação. Antecipou tendências estéticas e revolucionou costumes. E o que há hoje? Lady Gaga, uma figura medíocre em todos os sentidos, adorada por uma combinação melancólica de falta de educação com excesso de mercado. Ahh..Camille faz referência a um livro que ajudarei ela a produzir, sobre o carnaval de Salvador. Verdade! Nós conversamos sobre e isso desde 2009. Mas a Camille nunca disse que sou baiano. Isso foi enxertado na fala dela pelo pessoal do jornal, na hora de produzir a versão. Mas tudo bem, tomei como um baita elogio.

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Camille Paglia: Taylor Swift, Katy Perry e Hollywood estão arruinando as mulheres

07 de dezembro de 2012 1

Duas entrevistas recentes de Camille Paglia

15 de setembro de 2012 0

Duas ótimas entrevistas saíram com a historiadora e crítica da cultura norte-americana Camille Paglia, no The Independent e no The Times Higher Education. Camille está lançando um livro novo nos Estados Unidos: Glittering Images: A Journey through Art from Egypt to Star Wars. Confere aí.

Mikhail Bakhtin, Roberto Da Matta, Ortega y Gasset e os carnavais brasileiros

17 de junho de 2012 0

Na sua tese de doutorado de 1941 sobre François Rabelais na Idade Média, o linguista russo Mikhail Bakhtin desenvolve a instigante fórmula da carnavalização da literatura, com vezo, talvez, muito menos marxista do que fenomenológico, já que condensa percepção de haver uma expansão da vida no âmbito da cultura popular, em relação complementar e, ao mesmo tempo, conflituosa, com as engrenagens de regulação institucional. Bakhtin revela como, por meio de Rabelais, emerge a cultura da Idade Média, alavancada por uma incrível potência do fazer cotidiano, onde o grotesco, ao impregnar-se de comicidade, torna-se subversivo. Suspenso, porém, o mecanismo de inversão ritual, a carnavalização opera como válvula de escape para a pressão social, reafirmando, no limite, as hierarquias vigentes.

Esta é, essencialmente, a tese que o sociólogo Roberto DaMatta absorve, no seu clássico Carnavais, malandros e heróis, publicado em 1979, talvez o último grande exemplar dos monumentais esforços ensaísticos de interpretação sintética do Brasil, iniciados por Varnhagen na década de 1850, e aos quais tanto devemos. DaMatta chega a analisar o carnaval em correlação com as paradas e procissões, exatamente como propõe Bakhtin, dispondo o carnaval do Rio de Janeiro dentre os rituais fundados no princípio de inversão, enquanto inclui a Semana da Pátria e as procissões da Semana Santa dentre aqueles afirmadores da estrutura hierárquica da sociedade. Estranhamente, DaMatta não cita Bakhtin e não lhe reconhece como fonte da fórmula…

Assim como Gilberto Freyre, com sua linguagem fluída e descomplicada, com seus temas da cultura popular, DaMatta logrou levar a sociologia a um público amplo, para muito além da academia. E se tornou um dos intelectuais brasileiros mais influentes. Carnavais… foi originalmente recebido com certo estranhamento. Mas seu olhar antropológico arejou o ambiente acadêmico brasileiro, então impregnado pelo marxismo e engajado no combate à ditadura militar. No auge do ostracismo universitário imposto a Gilberto Freyre, DaMatta reabilitou os temas que lhe eram caros.

É sem dúvida na abordagem antropológica que reside a grande riqueza de Carnavais…, bem como é neste recorte exclusivo que está o seu calcanhar de Aquiles. Siderado pelo método estruturalista, DaMatta dissocia a sua análise da História. Seu livro é um magnífico retrato. Mas um retrato possível, e datado, especificamente do Rio de Janeiro, de fins dos anos 1970.

Seu mundo é estático, se retroalimenta. Conclui que o Brasil tem um sistema de permanência, atemporal, hierárquico, que rege o conjunto de nossas relações sociais e interpessoais. DaMatta reconhece haver um polo liberalizante, conectado à modernização e à urbanização. É o espaço da legislação impessoal. Contudo, para ele, toda a vez que o indivíduo é retirado da rede de significação hierárquica, emanada das estruturas duais e cerzida no plano da comunidade, da família, das relações de compadrio, cai na impessoalidade, não como igual, mas como ultra-explorado. Isto porque aqueles indivíduos que logram manter a sua condição de pessoa no âmbito de uma formação patrimonial, preservando em alguma medida suas relações pessoais de poder, delas se valem para escapar às normas impessoais, estratégia esta que seria interditada aos pobres, aos imigrantes dos Estados nordestinos nas capitais do Sudeste… Portanto, para DaMatta, a impessoalidade que nos Estados Unidos é o cimento da democracia, no Brasil jogaria o papel inverso, reiterando e aprofundando o quadro de exploração.

Ora, se esta fórmula pode ser útil para ajudar a explicar a permanência renitente de injustiças na sociedade brasileira, tem dificuldade em dar conta da enorme transformação pela qual a mesma vem passando nos últimos anos. Eu creio que o próprio DaMatta percebeu isso: seus textos mais recentes sobre o comportamento do brasileiro no trânsito urbano já levam em consideração que as pessoas podem reagir diversamente às leis em conjunturas diferentes.

Outras fragilidades teóricas lhe são atribuídas, tais como, resumidamente, a ausência de uma problematização do conceito de classe social; uma percepção algo idealizada do indivíduo ocidental; e uma inversão do esquema explicativo do patrimonialismo, amplamente reconhecido como marcado por uma indistinção entre espaço público e privado, mas que, para DaMatta, se negrita por uma oposição entre casa e rua.

Em Carnavais…, DaMatta pretende descrever uma totalidade, acabando por expandir sua vivência de Rio de Janeiro para todo o universo brasileiro. Assim, não há em seu livro uma única palavra sobre o carnaval de Salvador, de Recife, etc… E cada cidade brasileira possui um carnaval completamente diferente. Em Salvador, há blocos, afoxés e trios elétricos e não existem escolas de samba, tampouco os desfiles no sambódromo, tão característicos do Rio de Janeiro. Em Olinda e Recife há o frevo e o maracatu. E assim por diante.

Genericamente, como sublinha o antropólogo Antonio Risério, a tese de Bakhtin, encampada por DaMatta, está correta e se aplica a todos os carnavais, de Nova Orleans a Olinda. Mas o desafio está em compreender as especificidades, dando-se um passo além do universalismo.  O carnaval de Salvador, por exemplo, aprofunda a inversão, na medida em que acontece na rua, e não no espaço regrado do sambódromo, dividido em zona de desfiles e em plateia. O espetáculo cênico do Rio de Janeiro que tão bem se presta às emissões televisivas, não se realiza em Salvador, onde se estabelece uma espontaneidade caleidoscópica impossível de ser documentada em toda a sua intensidade por câmeras.

Além disso, como também registra Risério, se a retórica do carnaval flui pela inversão das desigualdades do cotidiano, ela também possui o componente de exagerar a dramatização dessas desigualdades. DaMatta, que já teve dificuldade de perceber isso para o Rio de Janeiro de fins dos anos 1970, afastou-se ainda mais da verdade sobre o carnaval ao ignorar Salvador, pois ali esta dramaticidade veio carregada em cores mais fortes pelos blocos afros: as entidades afrocarnavalescas, nos anos 1970, dramatizavam o desejo de uma igualdade social inexistente. Ali, a emergência dos blocos afro e dos afoxés, como o Ilê Ayê e o Olodum, convergiam no congraçamento e brincavam a festa, mas sem deixar de assinalar a assimetria. Além disso, essas entidades carnavalescas negromestiças (o conceito é de Risério), contribuíram para re-significar e valorizar o passado étnico num presente mestiço, esboçando um futuro no qual direitos deveriam ser conquistados e consolidados. Como afirma Glicério, com razão, com o adensamento da festa, a partir dos anos 1980, a Bahia nunca mais foi a mesma.

De lá para cá, houve uma assimilação desse carnaval negromestiço pelos poderes públicos e pela indústria turística e cultural. Mas isto, longe de configurar uma derrota, afirmou um novo horizonte, no qual os valores simbólicos que lhes eram intrínsecos ganharam musculatura, sendo expandidos e partilhados pela sociedade branca, mais ou menos como aconteceu com o samba no Rio de Janeiro no segundo quartel do século XX. Ora, essa transmutação esta longe de autorizar a concepção do carnaval como um veículo muito mais de permanência do que de transformação, como pretendeu Roberto DaMatta em seu livro.

Daniela Mercury, que é branca, veicula hits como “Oyá por Nós”, inspirado numa reza de candomblé a Iansã, o Orixá arquetípico da beleza e do poder femininos, cujo elemento é o vento. Daniela, que é excelente dançarina, constrói muito de suas coreografias a partir dos movimentos ritualísticos do candomblé, onde a cada gesto corresponde uma reza, um ritmo, uma história, valendo-se aqui a memória coletiva – que estamos acostumados no Ocidente a transmitir fundamentalmente pela escrita – do corpo humano como suporte.

O carnaval de Salvador, hoje, também é animado por uma potente indústria cultural. E muitos espaços da rua foram loteados, sendo privatizados durante a festa. Ao longo dos circuitos dos blocos carnavalescos, montam-se camarotes, para todos os gostos e para todos os bolsos. Mas isto faz parte da evolução natural da festa, que cresce em público e em visibilidade e que precisa se viabilizar economicamente.

Trata-se de um raro caso de festa celebradora da identidade nacional que está franqueada a qualquer um. Tanto no Rio de Janeiro, quanto em Olinda, ou em Salvador, qualquer estrangeiro é bem vindo. Mais do que isso, rapidamente integrado, não se sentirá deslocado. No Rio, milhares de estrangeiros desfilam fantasiados todos os anos nas Escolas de Samba, não mais se limitando a acompanhar o espetáculo da arquibancada. Em Salvador, muitos mais se apinham nos camarotes ou se deixam levar pelas ruas e avenidas. Assim, há no carnaval uma síntese peculiar entre o regional e o específico, de um lado, e o universal, de outro, que se reveste de brilho no mundo hedonista contemporâneo. E aqui DaMatta acerta ao perceber que o carnaval, mesmo quando apoiado no ferramental de produção simbólica burguês, engendra um horizonte antipuritano, pois investe na glorificação do feminino, na exaltação do nu masculino, na celebração do hedonismo, da invocação da sensualidade, franqueando o erotismo e acolhendo a possibilidade do sexo sem reprodução.

Além disso, pelo carnaval, as multidões se afirmam quase sempre de maneira pacífica e lúdica, o que, num mundo assombrado pela paranoia da segurança, ganha especial relevo. Como notou com precisão Camille Paglia, não há paralelo nos Estados Unidos para a liberdade de movimento das multidões manifesta no carnaval de Salvador. Conservadores empedernidos, como José Ortega y Gasset, estavam errados em não reconhecer às massas capacidade de autorregulação, não apenas descentralizada, mas também pacífica.

Esta festa de multidões, ao mesmo tempo fluída e hibridizante, se ancora numa tradição. Como notou DaMatta corretamente, o carnaval se inscreve numa cronologia cósmica, pois situa-se numa escala cíclica, independente de datas fixas: é o momento de exagero que se antecipa à continência da Quaresma, revelando valores não apenas brasileiros, mas cristãos. As teses de Ortega y Gasset, que não reconhece às massas a possibilidade de uma ação legitimada em tradições, não se sustentam quando expostas à realidade do carnaval brasileiro.

Nos últimos anos o espaço da celebração religiosa vem encolhendo: a Quaresma esta cada vez mais circunscrita a um feriado burguês com algum resquício de componente espiritual concentrado na sexta-feira santa. Já o carnaval vem expandindo-se, começando cada vez mais cedo e terminando cada vez mais tarde, sem mencionar os cada vez mais frequentes carnavais fora e época, como as Micaretas, celebradas em pequenas cidades do interior do Nordeste.

Alguém poderia ler esta ode hedonista ao antipuritanismo como uma válvula de escape domesticada num mundo encharcado pelo mercado de consumo de massas, destinada a confirmar o status quo pela inversão temporária. Isto pode ser também provavelmente verdade. Mas está longe de dar conta da complexidade da questão.

Como lembra Risério, as pessoas que brincam o carnaval são de carne e osso. Suas experiências afetivas e sensoriais não podem ser estancadas e rasuradas pela prisão racionalista da lógica dual. Num mundo no qual a polícia alveja mortalmente um rapaz que corre atrasado para apanhar o metrô, com uma mochila às costas (Jean Charles, em Londres), ou que não permite que as pessoas parem por alguns minutos para jogar conversa fora numa calçada, o carnaval brasileiro emerge como um notável contraponto. Há muito mais aqui do que uma defesa apaixonada da liberdade. O excesso de regulação do cotidiano é esterilizante e imbecilizante.

Alguns dilemas do jornalismo, por Gonçalo Tavares: da maçã na encruzilhada ao Ausente no teatro Nô

16 de junho de 2012 0

Dentre os momentos altos do IV Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, no teatro do Tuca, na última semana de maio, em São Paulo, esteve a conferência do escritor português, nascido em Luanda, Gonçalo Tavares. Com 41 anos de idade, Tavares é uma das grandes revelações contemporâneas das letras lusas. Há semanas estou tentando comentar aqui no blog alguns dos livros dele que li, mas sempre e cada vez mais me falta tempo. Então, tomei algumas notas de aspectos que me pareceram interessantes na sua fala e as compartilho aqui com vocês.

A conferência combinou simplicidade e profundidade. Valendo-se de metáforas e imagens poderosas, Gonçalo procurou abordar alguns dos dilemas do jornalismo, o que encantou a plateia com forte presença de estudantes.

Passado, presente e futuro se entrelaçam na experiência da escrita e do fazer jornalismo. De algum modo, sustentou, as gerações de hoje precisam entender os sinais deixados pelas que passaram. Escritores, jornalistas e também historiadores estão entre os profissionais que ajudam a evidenciar estas pistas para o entorno social.

Para Gonçalo, este dilema parece bem representado num antigo hábito cigano: ao chegarem a uma encruzilhada e dobrarem para a direita, deixavam os viajantes uma maçã pousada num moirão próximo, sinalizando o local para os carroções que viriam no encalço. Como a maçã amadureceria durante o tempo em que estivesse ali, tratava-se também de um marco temporal, pois além da rota seguida o estado da maçã indicava há quanto tempo a família passara por aquele local. Os familiares, então, que encontrassem a maçã, poderiam decidir, com livre arbítrio, se tomariam ou não o mesmo rumo, mas abraçariam tal decisão conscientes dos passos seguidos por quem os antecedera. Um pouco como um certo personagem cômico, que, estando numa quarta-feira, de tão vesgo, tinha um olho na segunda-feira e outro no domingo…

Em seguida, Gonçalo observou seguir a civilização ocidental um modelo analítico cartesiano, que recomenda a compreensão de um objeto por extrema aproximação, dividindo-o e analisando-lhe cada pedaço, até se conseguir uma visão do todo. Mas, segundo ele, há outro método de análise, que pressupõe o afastamento. Seria assim também possível perceber-se o todo se afastando do objeto, até que se consiga uma perspectiva mais ampla do mesmo.

Outro dilema do texto jornalístico passa pelo ideal de neutralidade, que se afirma em oposição ao envolvimento com o objeto. No primeiro caso, estaríamos seguindo um princípio estoico, segundo o qual era sábio o homem apático, isto é, desprovido de paixão em relação ao entorno a ser estudado. Bem ao contrário de Baudelaire quando, em uma bela passagem citada na palestra, propugna a embriaguez, de vinho, de poesia, de informação, etc…, enlevo que sugere a fusão do analista com o seu objeto, já que o vinho sorvido deixa de ser um corpo distinto para se fundir com o corpo humano.

Para além da embriaguez e da apatia, coloca-se ainda a relação entre o belo e o feio. Gonçalo se revelou entusiasmado com o projeto de Oscar Niemeyer para o Museu de Niterói. A construção, em formato circular, está disposta em uma península, da qual se enxerga a deslumbrante vista do Rio de Janeiro. Mas não é possível caminhar ao redor de toda a fachada. Ao chegar-se no meio do percurso, o passeio interrompe-se, contrariando o visitante, num primeiro momento, até que este se vê obrigado a virar de volta e então enxerga parte da cidade de Niterói, aliás, uma parte feia da cidade. Então, esta fórmula arquitetônica pareceu-lhe genial, pois joga com o confronto permanente entre o belo e o feio, algo que acompanha e persegue o fazer jornalístico.

Nesse diapasão, Gonçalo Tavares registrou que a presença do indivíduo no século XXI tem a ver com a sintonia da atenção, isto é, está mais conectada à atenção de alguém do que ao local físico no qual seus pés se encontram. Nesse sentido, as viagens físicas seriam uma certa forma de incapacidade mental de imaginar, pois só há viagem de fato, isto é, mudança de posição, quando a atenção da pessoa altera o foco.

Destarte, o jornalista na contemporaneidade é cada vez mais parecido com o personagem do teatro Nô japonês que representa a Ausência. Trata-se de um dos papéis mais importantes, consistindo num personagem que não se mexe, permanece estático durante toda a peça, pois representa uma pessoa que já morreu, que está ausente, mas cuja lembrança ali permanece.

O gênero Nô foi promovido pelo shogunato no século 14. Basicamente, é um teatro de máscaras, com influência xintoísta e zen budista, praticado apenas por homens. O Nô investe em temas caros ao budismo, tais como a transcendência da ilusão, impregnando-se de arrebatadoras metáforas para grandes questões existenciais, mas sem as desconectar do cotidiano. Como não se verifica compartimentação entre a arte cênica, a dança, o canto e os instrumentos, o ator domina com maestria todas as linguagens.

Assim, Gonçalo desenha o dilema no jornalismo entre a difícil condição de estar presente e ausente ao mesmo tempo. E a referência ao sofisticado teatro Nô é sugestiva, pois sinaliza

Sim, certamente, há o status da escrita. No passado, segundo Tavares, a distância entre a escrita oficial e a individual era imensa. O que era produzido pelo estado tinha poder de lei e de verdade, enquanto a escrita individual era nominada rascunho. Atualmente, no mundo dos blogs e que tais, o rascunho ganhou status equivalente ao da escrita oficial. Se no século XX, a opinião da imprensa nas sociedades democráticas tornou-se um novo poder, equivalendo-se ao estado, no século XXI o que circula pelos blogs está no mesmo patamar da agora velha imprensa tradicional. Portanto, vive-se numa época em que é muito difícil saber o que é realmente importante.

No passado, antes da invenção do papel, a escrita tinha a madeira ou a pedra por suporte. Escrever era em alguma medida golpear. Demandava um instrumento firme e exigia força. Aquilo que tinha sido escrito a golpes, não mais se apagava. Um pouco como hoje, na Internet, pois o que nela é publicado, dificilmente se remove. Mas se antes se escreviam a golpes na pedra as sentenças lapidares, dos filósofos luminares, por exemplo, hoje já não se requerem golpes, e se escreve de tudo.

Finalmente, Gonçalo chamou a atenção para a tensão entre fato e a representação deste. Uma coisa é o que acontece no mundo e outra é o que se diz a propósito desse acontecimento, que pode ter inúmeras perspectivas. A linguagem é dramaticamente simplificadora. O vocábulo “cadeiras”, por exemplo, consegue abarcar numa única definição bilhões de objetos diferentes entre si, ainda que com uma essência em comum.

No século XXI, acredita, precisamos de aulas de defesa pessoal para sair às ruas de uma cidade, mas também necessitamos, e cada vez mais, de aulas de defesa de linguagem, pois ela está permanentemente a nos enganar, a nos roubar sentidos. A esse propósito, lembrou-se de uma frase de Fernando Pessoa: “contra argumentos, não há fatos” – numa instigante inversão do célebre aforismo positivista.

E se para muitos dos dilemas que vivemos não há receita fácil, Gonçalo remeteu-se a algumas sentenças consideradas inspiradoras, como uma de Jesus, que dissera preferir pescar com linha a com rede, algo que nos remeteria à ideia de acalentar paciência e estratégia para se fisgar o peixe certo, que mais vale do que dezenas e centenas de peixes apanhados a granel. Não pude aqui deixar de lembrar a metáfora do cineasta David Lynch, com quem estive há alguns anos, e que costuma explicar seu processo criativo ancorado na meditação oriental como uma fórmula para pescar os peixes grandes, que estão em águas profundas.

Gonçalo arrematou invocando passagem de uma carta do Padre Antônio Vieira, que se desculpa com o interlocutor pela missiva que já ia muito longa, vez que lhe faleceu o tempo de fazê-la mais curta – algo que nos alerta para a necessidade de burilarmos o texto, torando-o mais enxuto e belo antes de apresenta-lo aos outros, quase como que celebrando a máximo do arquiteto modernista Mies van de Rohe, “menos é mais”.

Robert Darnton, no Congresso de Jornalismo Cultural da Cult, apresenta projeto da Biblioteca Pública Digital

10 de junho de 2012 0

Eu creio que um dos pontos altos do último Congresso de Jornalismo Cultural promovido pela revista Cult, em São Paulo, na última semana de maio, foi a participação do célebre historiador nova-iorquino Robert Darnton, que nos apresentou o novíssimo projeto da Biblioteca Pública Digital Americana, uma revolucionária proposta de acesso gratuito, organizado e massivo à informação de qualidade. Reproduzo abaixo para vocês uma matéria que saiu na Folha de São Paulo.

IV Congresso de Jornalismo Cultural - revista Cult - São Paulo, 28 a 30 de maio

28 de abril de 2012 3

Alô, pessoal! Já está on-line a programação para o IV Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, de São Paulo, que este ano acontecerá na última semana de maio, no teatro do Tuca. O evento, para cuja curadoria contribuo, já se tornou uma referência no calendário cultural brasileiro. Este ano teremos as presenças, dentre outros do historiador Robert Darnton, do escritor Gonçalo Tavares, do quadrinista Art Spiegelman e do escritor Gay Talese. A programação, como sempre, está imperdível.

Moedas Criativas - Fronteiras do Valor na Economia da Cultura

28 de abril de 2012 0

Achei bacana a programação do evento “Moedas Criativas – Fronteiras do Valor na Economia da Cultura”, que acontece nos dias 29-30 de abril e 1 de maio, no MIS, em São Paulo, no âmbito das atividades agendadas pelo Diversitas da USP. Vale a pena conferir!

Bad Thoughts & The Politics Of The Polysyllabic: An Interview With Mark Dery

14 de abril de 2012 1

E por falar em Mark Dery, saiu esta interessante entrevista dele para o blogueiro Sirius, a propósito da edição norte-americana do livro. Confere aí!