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Posts na categoria "Economia"

A revolução industrial e a sociedade da técnica

15 de dezembro de 2012 0

Revolução Industrial é um conceito estabelecido pela tradição para explicar os acontecimentos na Inglaterra a partir do século XVIII, tendo sido inventado no século XIX por socialistas franceses, por analogia à Revolução Francesa. Karl Marx (O Capital, 1867), Arnold Toynbee (1884) e Paul Mantoux (1906) estão entre os que, a seguir, consolidaram a expressão, que destaca menos a noção de ruptura e mais a rapidez e extensão das transformações, bem como a profundidade das suas consequências: a decisiva transição de um esquema pré-capitalista incompleto para o capitalismo, cujas características centrais residem no progresso técnico continuado, capitais mobilizados para o lucro, formação da classe burguesa, de um corpo técnico encarregado de gerir o capital e do proletariado urbano e, ainda, a marca da convergência entre técnica e ciência. Tudo começou quando o escocês James Watt aperfeiçoou a máquina a vapor e Arkwright aperfeiçoou o tear hidráulico, em 1769. As mudanças tornaram-se visíveis na década de 1780.

O Mundo Antigo conhecera importantes avanços técnicos, mas grandes obras recrutavam abundância de mão de obra, uma massa de dominados, servos e escravos, não havendo necessidade de formas alternativas de energia. O trabalhador pré-histórico, por exemplo, utilizava como arado uma haste de veado para abrir sulcos na terra. Daí evoluiu-se para ramos de madeira com ponta endurecida com fogo. Os romanos inseriram uma longa prancha inclinada atrás dessa ponta e os gauleses colocaram a roda.  Já a foice era conhecida desde o século XIV, mas seu uso se difundiu apenas no século XVIII, quando a necessidade de ir mais depressa permitiu desperdício de grãos. Portanto, as inovações se davam com lentidão.

A Idade Média viveu lenta adoção de novas técnicas e aprimoramento de forças. Os moinhos de vento vieram na esteira dos melhoramentos da navegação, no século XV. A China conhecia desde o século V a.C a fundição do ferro, que se difundiu na Europa penas no século XIX. Também foram inventados na China o aquecimento pelo carvão, o tear de laços, o papel, a imprensa e a bússola. Mas esse desenvolvimento estagnou no séc XIII, pois faltou a aliança da técnica com a ciência e o capital.

O contato com os árabes, nas Cruzadas, a expansão comercial e urbana e mortandade causada pelas pestes e guerras contribuíram para a difusão e consolidação de novas técnicas na Europa. O arrendamento de terras surgiu como uma forma de trabalho mais rentável para compensar desorganização da produção. Em função disso, a partir do século XV liberaram-se progressivamente os servos para vender excedentes nas cidades, o que os estimulou a incrementar técnicas agrícolas e concorreu para a dissolução do sistema feudal. Para a nobreza rural, ficou cada vez mais difícil disponibilizar de mão de obra. Paralelamente, cresceu o seu endividamento com as guerras. Foi, assim, se desfazendo de terras. Enquanto o poder da nobreza enfraquecia, as cidades conseguiam ampliar seus privilégios.

Havia resistência às novas técnicas. Em 1579, por exemplo, em Dantzig, tecelões e autoridades, temendo o desemprego em decorrência da invenção do tear de fitas (aperfeiçoado no Ocidente a partir de uma técnica oriental), proibiram a ferramenta e estrangularam o inventor. Muitos inventores foram perseguidos e mortos.

As antigas guildas eram associações de trabalhadores especializados num ofício, numa arte. As firmas organizavam-nos de forma hierárquica, do aprendiz ao mestre, e todos viviam na mesma casa. As normas eram severas e conservadoras. As guildas sistematizavam técnicas, mas impediam a inovação e o aumento da produção. A propaganda era proibida. O objetivo era mais o próprio produto e não a sua comercialização. Havia pouca concorrência entre as unidades de produção, não havendo porque melhorar técnicas.

As Grandes Navegações ampliaram o comércio. Novas mercadorias surgiram e o mercado consumidor se estendeu. O mercador ganhou importância. Nesse ponto surgiu a manufatura, reunindo camponeses em grandes oficinas, combinando-os com estratégias novas de gestão e operação.

Nasceu um novo empresário, que perseguia aumento de produtividade. Não foram poucos os conflitos estabelecidos entre guildas e manufaturas. O povo temia as péssimas condições de trabalho das manufaturas e os mestres de ofício temiam perder seu status. A manufatura só conseguiu se impor de forma absoluta no séc XVIII.

Em paralelo, o Iluminismo foi colocando o Homem e não mais Deus no centro do mundo. A partir do séc XVI, cresceu a prática da observação metódica da natureza e do trabalho e impôs-se o método experimental. Surgiram academias e especializações.

As grandes navegações trouxeram grandes negócios, o que exigia bancos regulares, novas operações financeiras, o desenvolvimento da escrituração mercantil. Aos poucos, a burguesia começou a tomar postos da aristocracia, a competição e o lucro se difundem. Finalmente, a unificação política e a emergência do Estado Nacional (Península Ibérica, França e Inglaterra) padronizou moedas, impostos, leis e normas, trazendo ainda a pacificação das guerras feudais. Nasceram os monopólios estatais, ao mesmo tempo em que o indivíduo se libertava paulatinamente das regras corporativas.

A França dispunha de superioridade técnica na Europa, mas desde a Revolução Gloriosa (1688) o lucro privado havia sido culturalmente aceito na Inglaterra, onde, ainda, o protestantismo se consolidou e o parlamentarismo foi instalado. Em 1700, uma política protecionista para a manufatura da lã, proibindo importação de algodão da Índia, acabou favorecendo a manufatura algodoeira na Inglaterra, pois foi preciso aprimorar a produção interna. Enquanto isso, as cidades se expandiam, abastecidas com a população expulsa do campo pelo movimento dos cercamentos e pelo fim dos cultivos comunais. O comércio marítimo multiplicara capitais, que agora eram investidos em terras. Os chamados yeomen, pequenos proprietários rurais, desapareceram. Introduziram-se melhorias no cultivo, adubação das terras e a rotação de culturas. Os animais passaram a se alimentar melhor. Este processo trouxe o enriquecimento dos grandes proprietários, mas o empobrecimento dos camponeses, que encheram os bolsões de miséria nas cidades e proveram a mão der obra necessária para a nascente indústria, onde era férrea a disciplina. As Leis do Senhor e Empregado, por exemplo, permitiam até prisão de operários faltosos. Abolidos os regulamentos sobre ofício, o controle da produção passou dos trabalhadores para os capitalistas. Estabeleceu-se uma super-exploração, inclusive do trabalho infantil. A jornada de trabalho era de 12 a 19 horas diárias, brutalidades eram frequentes, assim como a aplicação de multas. A vida urbana era malsã. Aos poucos, se organizou a reação dos trabalhadores. Os sindicatos deixaram de ser ilegais em 1824.

A Revolução Industrial se consolidou com a invenção do coque e da máquina a vapor. A primeira ferrovia foi construída em 1830, ligando Liverpool a Manchester. A partir daí, imantou-se com a mística da velocidade e do progresso. As ferrovias trouxeram profunda desagregação social por onde passavam, mudando formas de comércio e hábitos culturais locais. Foi também por meio delas que os grandes investidores entraram na indústria, o que animou o processo com novos capitais. Em 1856, descobriu-se a fundição do aço, técnica aperfeiçoada em 1877. Na química, os avanços também eram notáveis. Na agricultura, o fertilizante artificial provocou uma revolução. Novos métodos de conservação de alimentos, como os enlatados, ajudaram a deprimir a taxa de mortalidade. A rede de comunicações foi poderosamente ampliada com as ferrovias, navios a vapor e estradas de rodagem. Em 1838 aconteceu a primeira viagem sem escalas entre Liverpool e NY e Morse inventou o telegrafo por esta época. O selo postal foi criado em 1840. Entre 1750 e 1850, a população do mundo passou de 600 milhões para 1,2 bilhão de pessoas. O aumento da produção e da produtividade catapultou a população, alargando o mercado consumidor e de trabalho. Um mundo inteiramente novo surgiu.

Nota sobre o patrimônio histórico industrial

20 de outubro de 2012 0

Como registra Dominique Poulot, a história da transmissão e da proteção do patrimônio social atravessou várias fases. No Direito Romano, o patrimônio era o conjunto de bens familiares, associado à ideia de herança privada, não evocando qualquer noção de tesouro social ou de obra prima. Na época moderna, a sua identificação e a publicidade de acervos estavam ao serviço do fausto dos príncipes. Com as revoluções liberais do século XVIII e XIX, o triunfo do projeto de formar novos cidadãos pela instrução e pelo culto do Estado-Nação ampliou a evocação do patrimônio para o elogio dos grandes vultos, arautos dos valores embalados pela Nação, e para a celebração dos grandes feitos, atrelando-o a uma história balizada pelos eventos e guiada pelos marcos da Administração Pública.

Porém, na virada do século XX para o século XXI, difundiu-se uma nova concepção de patrimônio, pela qual se espera que, deixando de funcionar como ferramenta pedagógica e doutrinária, contribua para revelar a identidade de cada indivíduo ou de cada segmento diverso da sociedade. No lugar da história edificante, afirmou-se a identidade cultural.

Se as primeiras medidas conservadoras, iniciadas pelo papado e por outros estados na Itália renascentista, culminaram no reconhecimento de cânones e mestres e no princípio de um corpus a proteger, atualmente registra-se uma verdadeira explosão de iniciativas patrimoniais, emulando a participação ativa de indivíduos e coletividades distintas no espaço público. Há, presentemente, uma generalização da sensibilidade com relação à herança cultural, e, também, uma crescente ampliação desse conceito, de maneira a converter o patrimônio num grande desafio para o desenvolvimento cultural hodierno. A partir dos anos 1980, firmou-se o entendimento de que qualquer vestígio ou prática podem ser considerados patrimônio. Esta tomada de posição descartou o patrimônio como corpus classicamente definido de maneira normativa e instituiu um caleidoscópio de identidades.

Nesse contexto, a análise dos vestígios do processo industrial passou também a integrar o horizonte das populações urbanas, por conectar-se a história do trabalho, da técnica e da urbanização. Na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, na década de 1950, bens industriais começaram a ser listados e reconhecidos pelo Conselho Nacional de Arqueologia. Em 1963, surgiu o primeiro periódico especializado na área, o Journal of Industrial Archaeology. Vários acadêmicos promoveram levantamentos patrimoniais, sensibilizando a opinião pública para a importância desses vestígios. Em 1973, em Ironbridge, promoveu-se o I Congresso para a Conservação dos Monumentos Industriais. Em 1978, por ocasião da terceira edição do evento, em Estocolmo, fundou-se o The International Committee for the Conservation of Industrial Heritage (TICCIH), organismo cuja finalidade é promover a cooperação internacional no campo da valorização do patrimônio industrial.

No Brasil, funciona desde 2004 um ativo Comitê ligado ao TICCIH. O tombamento, realizado em 1964, da Real Fábrica de Ferro de Ipanema, fundada em 1810, é considerado por muitos a ação pioneira do IPHAN no campo do patrimônio industrial. De lá para cá, muitos foram os tombamentos e aproveitamentos de prédios relacionados ao patrimônio industrial, com ênfase para Estados como São Paulo e o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, por exemplo, a antiga Usina Termelétrica da Volta do Gasômetro, popularmente conhecida como Usina do Gasômetro, importante exemplar da arquitetura industrial em concreto armado, inaugurada em 1928 e desativada na década de 1970, foi tombada e hoje abriga um centro cultural. Há outros exemplos impactantes na Capital gaúcha, tais como o prédio da antiga fábrica de cervejas Brahma, que atualmente abriga um shopping Center, assim como acontece com as instalações da antiga tecelagem A. J. Renner. Todavia, apesar de muitos exemplos importantes, ainda é pouco sedimentada a reflexão teórica e metodológica sobre as especificidades da preservação do patrimônio industrial.

Ensaiando-se um balanço do quadro atual, como propõe Marly Rodrigues, percebe-se que vem crescendo a compreensão do Poder Público sobre a matéria. Porém, como os órgãos de proteção ao patrimônio raramente se antecipam à obsolescência das estruturas fabris, cuja natureza, por conta de sua funcionalidade, encerra um caráter mais transitório, quando começam a ser estudadas, já se encontram descaracterizadas, esvaziadas, por exemplo, do maquinário original. Tal situação tende valorizar as características externas das edificações, em prejuízo dos espaços internos, onde se organizava a produção. As fábricas tombadas dificilmente guardam informações necessárias à recuperação de saberes técnicos e da organização dos trabalhos. Além disso, baseados na qualidade arquitetônica das construções, os tombamentos de bens industriais raramente levam em conta o seu impacto no entorno sócio urbano. O esforço para captar os significados que o patrimônio industrial suscita é, portanto, necessariamente multidisciplinar.

PANORAMA DA PARTICIPAÇÃO DA INICIATIVA PRIVADA NACIONAL NO SETOR ELÉTRICO DO INTERIOR GAÚCHO (1889-1947): CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DO PATRIMÔNIO INDUSTRIAL URBANO.

22 de setembro de 2012 0

Saiu artigo novo meu, na revista Memória em Rede, número 7, da Universidade Federal de Pelotas, intitulado PANORAMA DA PARTICIPAÇÃO DA INICIATIVA PRIVADA NACIONAL NO SETOR ELÉTRICO DO INTERIOR GAÚCHO (1889-1947): CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DO PATRIMÔNIO INDUSTRIAL URBANO. Trata-se de um trecho de minha dissertação de mestrado, defendida em 1995 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que agora revisitei.

Moedas Criativas - Fronteiras do Valor na Economia da Cultura

28 de abril de 2012 0

Achei bacana a programação do evento “Moedas Criativas – Fronteiras do Valor na Economia da Cultura”, que acontece nos dias 29-30 de abril e 1 de maio, no MIS, em São Paulo, no âmbito das atividades agendadas pelo Diversitas da USP. Vale a pena conferir!

JK, algoz do Rio Grande?

01 de março de 2012 0

Em 3 de outubro de 1955, JK, candidato pela coligação PSD-PTB – os dois maiores partidos da época, ambos criados por Getúlio Vargas em 1945, o primeiro reunindo sobretudo o establishment estado-novista e o segundo reunindo majoritariamente sindicalistas –, foi eleito Presidente da República.

JK tomou posse em meio a ameaças frustradas de golpe militar, patrocinadas pela anti-getulista UDN. Promoveu um governo dinâmico e carismático, mas também polêmico.

Implantou uma política de crédito fácil e ofereceu vantagens especiais às firmas estrangeiras. Empreendeu um programa de investimentos que teve por corolário a construção de Brasília. Granjeou apoio dos industriais paulistas. Costurou um modelo de cooperação com o Congresso e os Governadores, pacificando a política, e restabeleceu as relações com os Estados Unidos, abaladas no Governo anterior. Mas o déficit público e a inflação aumentaram.

Um programa de estabilização foi iniciado depois das eleições parlamentares de outubro de 1958. Mesmo contrariando exigências mais ortodoxas do FMI, que propunha um choque para restringir o crédito à indústria, liquidar subsídios diretos ao café e indiretos à importação de gasolina e trigo, bem como suspender o sistema de câmbio diferencial, JK sofreu com os custos políticos do programa. Preferiu, assim, com o FMI em junho de 1959, preservando seu carisma, mas deixando o problema de inflação e do endividamento externo – que explodira como resultado do recurso ao financiamento privado, de curto prazo e de alto custo, para as importações – para o seu sucessor.

Os 5 anos de farra desenvolvimentista concentraram as forças do País no Sudeste, deixando os outros Estados à míngua. O Plano de Metas, que subsidiou o capital privado mediante emissão de moeda e déficit público, impôs recessão às áreas cuja economia assentava-se na agricultura ou na indústria artesanal.

No Rio Grande do Sul, o setor agropecuário respondia por 40% da renda. A indústria ainda era incipiente e dependia, sobretudo, de matérias primas do setor primário. Os principais ramos eram alimentação, têxteis e calçados. Na maior parte, eram unidades familiares e dispersas. Cerca de 60% da produção destinava-se ao mercado externo, 80% dos quais era consumido pelos outros Estados.

O economista Cláudio Accurso mostrou que, na segunda metade dos anos 1950, o setor primário gaúcho apresentou uma taxa de crescimento de -3%, carregando o resto na queda. A economia gaúcha estagnou por cinco anos. No início dos anos 1960, era elevado o êxodo rural e o desemprego. As greves se sucediam e as invasões organizadas de terras começaram. O funcionalismo estava sem reajustes e os salários atrasavam. O endividamento do estado crescia.

A restrição ao crédito da segunda metade do Governo JK aprofundou a crise na agricultura. O artificialismo das múltiplas taxas de câmbio penalizou as importações para a agricultura e para a indústria de bens de consumo, então consideradas não essenciais. O tabelamento de preços contribuiu para a descapitalização da economia regional, pois, dos 17 produtos tabelados, 13 estavam entre os principais da pauta de exportações do Estado. O irrealismo cambial, a falta de apoio às exportações, o excesso de carga tributária, a ausência de acordos comerciais estratégicos e o sistema de contingenciamentos para o comércio externo agravavam o quadro.

O Rio Grande deixava de ser o celeiro do país para se converter num novo nordeste, como dizia Franklin de Oliveira, num livro de 1961. O Rio Grande tornou-se dependente da União para sair da crise. Note-se, que o Governo Ildo Meneghetti (1955-1958), apesar de PSD, estava na oposição a JK. O PSD gaúcho não aceitara a aliança nacional com o PTB. Também o Governo Leonel Brizola (1959-1962), do PTB, pouco conseguiu com JK, substituído finalmente por Jânio Quadros em janeiro de 1961.

Claro que saíamos da frigideira para cair no fogo. Mas isso já é outra história. Enfim, a festa desenvolvimentista de JK nos deu Brasília e a indústria automotiva, mas teve um preço alto para o País, mais alto ainda para o Rio Grande do Sul, que viveu cinco anos de pesadelo econômico.

A. J. Renner – nota sobre uma grande liderança empresarial do Sul do Brasil

31 de janeiro de 2012 0

Está on-line meu artigo do mês na revista Voto.


A. J. Renner nasceu em Feliz, em 7 de maio de 1884, filho de descendentes de alemães. Seus pais tinham uma modesta padaria e seus avós eram agricultores ou militares. A família mudou-se para Montenegro, onde o pai de A. J. associou-se a uma serraria e a uma usina de banha. Jovem, A. J. Renner aprendeu ouriversaria em uma tradicional joalheira de Porto Alegre. Em 1907, converteu-se em sócio da empresa comercial de seu sogro e cunhados, em São Sabastião do Caí, a Christian Jacob Trein & Co, dedicando-se, assim, ao ofício de caixeiro viajante. Foi quando percorreu, no lombo de mulas, as antigas picadas da região colonial. Viajando sob intempéries, sol, chuva e até neve, percebeu que faltava aos caixeiros uma vestimenta adequada. Curioso, foi assim que acabou desenvolvendo o conceito da capa Ideal, que se tornou o maior sucesso da indústria têxtil do Rio Grande do Sul.
Para atender a produção do novo produto, desenvolvido a partir de muita pesquisa, em 2 de janeiro de 1911, sob a razão social de Frederico Engel & Co., entrou em operação uma tecelagem em São Sebastião do Caí. A razão social foi trocada, em 2 de fevereiro de 1912, para A. J. Renner & Cia. . Em 1916, a empresa foi transferida para Porto Alegre, barateando os custos de produção. Em Porto Alegre, Renner construiu uma organização vertical, adotando novas técnicas, revolucionárias para a época. Em breve, tornou-se referência para os industriais e empreendedores gaúchos e seus produtos começaram a ser vendidos em todo o Brasil.
Renner decidiu apostar na relação direta com o consumidor. Foi assim que disseminou pelo Estado uma rede de revendedores exclusivos de seus produtos. Logo em seguida, surgiram as “roupas em prova”, ou seja, ternos e paletós alinhavados, permitindo o ajuste em poucas horas na própria loja conforme especificações do cliente. Para isso, implantou em cada filial uma oficina anexa. Para dinamizar a comercialização, aproximando-a de mais bolsos dos consumidores, instituiu ainda um sistema de vendas a prazo. Tamanho foi o sucesso da loja que em 1932 ganhou uma sede própria. O edifício foi ampliado em 1935 e completamente reformado em 1944. Tornou-se uma das referências arquitetônicas do Centro de Porto Alegre
Aos poucos, as lojas foram comercializando novos produtos desenvolvidos pela fábrica. Dos costumes masculinos passou aos tailleurs para senhoras e daí à malharia de seda e lã. O aproveitamento dos retalhos deu origem à confecção de chinelos e sapatilhas. A insatisfação quanto à qualidade do solado conduziu-o a fundar um curtume, donde em seguida derivou toda uma linha de calçados. A preocupação com a qualidade da lã incentivou a companhia a estabelecer prêmios aos fornecedores. Distinguiam-se assim aqueles que apresentavam lãs mais limpas e regulares. Da mesma forma, o fornecimento de linho exigiu de A. J. longas horas de meditação. Estudou a cultura e o processo de colheita. Verificou onde se faziam necessários ajustes e transformações. Terminou incentivando o início de uma plantação modelo em Farroupilha. Com o propósito de aperfeiçoar a maceração da palha e o tratamento da fibra no próprio local de produção, associou-se aos agricultores.
Sempre muito atento às questões sociais, Renner foi um dos primeiros empresários brasileiros a investir pesadamente em qualificação e bem estar de sua mão-de-obra. Construiu vilas operárias, creches, refeitórios, criou cooperativas de crédito para seus funcionários. Tão amplos e importantes eram os benefícios estabelecidos que os operários de suas companhias negavam-se a aderir às greves gerais que paralisavam Porto Alegre, quando os trabalhadores lutavam por melhores condições de vida. Já com a implantação do sistema de três turnos em 1916, Renner inovou ao estabelecer a jornada de oito horas, o que era uma antiga reivindicação da classe operária. Em seguida, a eletrificação da produção, substituindo o maquinário a vapor, melhorou significativamente a rotina de trabalho, com a abolição de correias e polias. A medida reduziu também os acidentes.
Em 1930, Renner aderiu à Revolução de 3 de Outubro, ajudando, inclusive, a subvencioná-la. Foi graças ao sucesso desse movimento que a Federação das Indústrias do RS pôde ser fundada, em 1931, pois, até então, os velhos governantes do Estado faziam todo o possível para inviabilizar o surgimento de fóruns de organização na sociedade civil. A participação de Renner no movimento e sua proximidade a Getúlio Vargas, na época Governador do Rio Grande do Sul e líder da Aliança Liberal, ajudaram a desfraldar a bandeira da legislação trabalhista. Renner, já como presidente da Federação das Indústrias do RS, viajou a São Paulo para ajudar o Governo Provisório a convencer os empresários paulistas da importância da adoção no Brasil de medidas assistencialistas para os trabalhadores, bem como de uma legislação trabalhista moderna.  
Nos anos 1930, A. J. Renner foi representante classista na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, chegando a galgar o posto de Vice-Presidente. Foi envolvido nas articulações políticas que determinaram no Rio Grande do Sul o fim do célebre modus vivendi, uma tentativa de regime parlamentarista, cujo corolário foi a queda do General Flores da Cunha do Governo.
O termo da Segunda Guerra mundial deu lugar a uma ampla reformulação do maquinário da empresa. Também foram construídos novos pavilhões e reformados os escritórios. Membro do Rotary Club, Renner engajou-se numa campanha mundial movida pela entidade que sugeria o caminho das obras e reformas como forma de ocupar a mão-de-obra e os capitais liberados com o final do conflito.
Durante os anos 1940 e 1950, A. J. Renner abraçou inúmeras causas. Defendeu a utilização de combustíveis alternativos, como o gasogênio e óleos vegetais. Advogou a causa da reforma agrária, insistindo que as cidades deveriam ser cercadas por cinturões verdes de pequenas propriedades rurais, distribuídas subvencionadamente aos trabalhadores sem-terra. Criticou sem trégua a política cambial, orçamentária e tributária de sucessivos governos. Pugnou pela garantia da liberdade de mercado e pelo recuo da intervenção do Estado na economia, que se consubstanciava seja sob a forma de agências reguladoras ou mediante a formação de monopólios estatais no setor de serviços públicos. Todavia, celebrou a criação de agências de fomento e de crédito à produção agrícola e industrial. Insistia na necessidade de racionalização e enxugamento da administração estatal. Propugnava a melhoria das condições infra-estruturais do País e se lançou numa campanha de valorização da atividade industrial, que tinha por metas a mudança de mentalidade, o reforço da imagem empresarial, o reequipamento do parque fabril, o desembaraço da produção mediante desregulamentação estatal e, sobretudo, a expansão do financiamento aos produtores.
Renner criticou o capitalismo liberal e atacou os extremismos políticos de esquerda ou de direita. Execrava o populismo demagógico. Acreditava na possibilidade de convivência da livre iniciativa e do lucro empresarial com a justiça social, em plena vigência de um regime democrático. Acreditava, ainda, na chance de cooperação construtiva entre Estado, trabalho, campo e capital. Pode, por isso, ser considerado como um dos precursores de um modelo próximo à social democracia no Brasil.
A.J. Renner faleceu em 27 de dezembro de 1966, aos 82 anos de idade, em Porto Alegre. Representou para o Rio Grande do Sul um paradigma do empreendedor dinâmico, que se afirmou à margem do amparo governamental e conquistou, por seus méritos, espaço de interlocução política. Foi lembrado por toda uma geração como o “Capitão de Indústrias”, apelido que não se remetia apenas a sua impressionante capacidade empreendedora, mas também, e, sobretudo, à condição de liderança política que empunhou ao longo de sua trajetória pessoal.

A propósito do ócio criativo

17 de janeiro de 2012 0

Em dezembro, a revista Voto fez uma matéria bem interessante sobre o chamado ócio criativo, aproveitando citação de respostas minhas a uma breve entrevista. Resolvi desenvolver um pouco mais o tema aqui no blog.


A ideia de a criatividade fluir com dinamismo num ambiente menos carregado de compromissos e mais pautado pelo ócio não é nova. Está em Platão e em Sócrates. Era assim que os gregos antigos da Atenas clássica percebiam as pré-condições necessárias para a emergência da boa filosofia, da arte e da política, dimensões então apreendidas de uma forma orgânica e inter-relacionada. Naturalmente, nem todos os cidadãos podiam deixar o trabalho nas suas propriedades para passar os dias em palestras, banquetes, colóquios… Então, havia certo tom elitista nesta fórmula. Alguns dispunham de escravos para suportarem as tarefas pesadas e manuais, liberando-se para a política e a filosofia. Finalmente, por suposto, o exercício da cidadania não era extensivo às mulheres, cuja capacidade de pensar, inclusive, muito raramente se reconhecia.

Com a vulgata cristã que se espalhou na Idade Média europeia, o ócio criativo e elitista dos gregos derivou em desabrido preconceito contra as atividades manuais e argentárias. Agricultores, manufatureiros e comerciantes eram considerados como essencialmente inferiores ao clero e à nobreza – em tese, devotados à pregação, à contemplação espiritual e, no caso dos nobres, à guerra. Clero, nobreza e povo formavam então os três estados, convocados em assembleia pelos reis em tempos de aguda crise. Ao povo, certamente cabia mourejar e arcar com os impostos. Em nenhum outro país, como talvez na Espanha, a mais poderosa nação da primeira metade do século XVII, estes preconceitos calaram tão fundo e foram levados tão longe, com sequelas perceptíveis ainda em plena Era moderna.

Seria necessário o advento do protestantismo para que a cristandade lançasse outro olhar sobre a labuta. No século XVI, os puritanos na Inglaterra interpretaram todo o sinal de sucesso pessoal como uma benção divina. Calvinistas e Luteranos fizeram o mesmo. Mais tarde, a burguesia, cuja ascensão conecta-se também à ética protestante, entronizou o respeito ao trabalho, ainda que seu sucesso inicial tenha se dado na esteira da exploração feroz da mão de obra operária.

O enriquecimento das nações predominantemente protestantes e o declínio das católicas consolidou a convicção de que o trabalho era o melhor percurso para o progresso e para a felicidade. Com os horrores da Segunda Grande Guerra, quando se montou uma macabra indústria da morte, submergindo o mundo num pesadelo, alguns começaram a perceber que algo estava errado. Foi o caso do célebre escritor suíço Stefan Zweig, em 1941, quando, desejando escapar de um mundo que se precipitava na autodestruição desenfreada, viu no então aparentemente pacato e tolerante Brasil o “país do futuro”.

No fim do século XX, quando a aceleração da história, a vida on-line e a fartura se instalaram numa Europa desenvolvida no pós-guerra e agora pretensamente unificada, elevaram-se vozes lembrando que era preciso voltar a curtir a vida, relaxar, flanar. O ócio criativo timbrou então como grande novidade num Continente envelhecido e em sociedades ossificadas. Alguns levaram a concepção tão ao pé da letra que a confundiram com uma exacerbada concessão de benefícios supostamente sociais, a serem bancados por estados endividados. Protegidos e mimados, muitos passaram a se aposentar com proventos integrais, incrivelmente jovens e faziam ainda pouco caso do trabalho durante a curta vida ativa. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Grécia e na Itália, onde, aliás, não só a economia criativa parece ter se beneficiado muito pouco de todo esse ócio, como toda a economia naufragou.

Enquanto isso, no Brasil, se continuou trabalhando. E muito! Qualquer brasileirinho, a despeito da fama maldosa que ao nosso respeito se construiu no mundo nas décadas passadas, e na qual muitos de nós até acreditaram, trabalha em média muito mais – e em condições nem sempre tão confortáveis – do que qualquer europeu. Há estatísticas e pesquisas que o provam! Ok, talvez em setores da burocracia não funcione bem assim..: são até folclóricos certos casos de funcionários públicos que nada fazem e nunca são demitidos. Mas cabe realmente perguntar se esta é a regra, mesmo na burocracia.

Paralelamente, desenvolvemos uma espécie de tecnologia de ponta da cultura hedonista, da qual o carnaval e o futebol são sem dúvida expressões eloquentes, o que subitamente se tornou muito apreciado na contemporaneidade pós-moderna.

Mas o país é recheado de contradições. O trabalho intelectual e literário entre nós não goza do mesmo prestígio que em outras sociedades. Nossos mestres, professores, escritores, artistas e intelectuais são em geral mal remunerados e, lentes da nova economia criativa, vivem ainda sufocados por uma burocracia sem fim – como a das leis de incentivo à cultura, por exemplo – ou assoberbados pela exigência de, num mundo hiper-interativo, funcionarem permanentemente como caixeiros-viajantes de sua própria obra.

Sim, a situação já foi muito pior. Há alguns anos, mal se falava em direitos autorais para escritores e os mecanismos de financiamento à cultura, se hoje são precários, então praticamente não existiam. Ainda assim, o investimento brasileiro em cultura, educação e pesquisa é muito aquém do que seria razoável e o país desperdiça diariamente talentos, que precisam se desdobrar em mil para produzirem alguma coisa, para divulgarem seu trabalho e para se sustentarem economicamente. Já nem sonho com o ócio criativo, mas imaginem só se as condições de trabalho dos agentes da economia criativa fossem incrementadas? Considerando o peso que esta cadeia produtiva tem no desenvolvimento contemporâneo, poderíamos estar promovendo uma verdadeira revolução…

Então, penso, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem o delírio autodestrutivo e desumanizado do trabalho sem fim, nem a indolência. E, no Brasil, está na hora de aprimorarmos as políticas de incentivo à cultura e à pesquisa, bem como melhorarmos significativamente a educação. Antes do ócio criativo, precisamos melhorar as condições básicas para o advento definitivo da economia criativa.

Livrarias nas quais pode ser encontrado o Gênese do Estado Moderno no RS

08 de janeiro de 2012 0

O pessoal tem me perguntado pelas livrarias nas quais já é possível encontrar o “Gênese do Estado Moderno no RS (1889-1929)”, a minha tese de doutorado recém-publicada pela Editora Paiol. Então, abaixo relaciono algumas, em Porto Alegre, Pelotas e Caxias do Sul:


BECO DO LIVROS
CAMERON – COUNTRY
CAMERON – BOURBON
LIVRARIA CULTURA
ISASUL DISTRIBUIDORA
MANECO CAXIAS (Caxias do Sul)
MANECO UCS (Caxias do Sul)
MARTINS LIVREIRO
SARAIVA PRAIA DE BELAS

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Gênese do Estado Moderno no Rio Grande do Sul (1889-1929)

17 de julho de 2011 5

Caros amigos. Minha tese de doutorado, defendida em 2001, sob orientação da Profa. Maria de Lourdes Monaco Janotti, na Universidade de São Paulo, finalmente está sendo publicada. A edição está sob responsabilidade da Editora Paiol, de Porto Alegre, e tem apoio dos Supermercados Zaffari, que a viabilizaram. O livro sai com o titulo “Gênese do Estado Moderno no Rio Grande do Sul (1889-1929)”.

A pergunta central a que o livro procura responder é qual foi o sentido histórico dos governos do PRR no RS e a que interesses sociais eles atenderam? Neste sentido, articula uma análise das relações de poder no âmbito do sistema coronelista de mando – fundamentalmente amparada no Arquivo Borges de Medeiros, sob guarda do Instituto Histórico e Geográfico do RS, pouco estudado ainda de forma sistemática – com as principais políticas públicas desenvolvidas pelos governos da época, com ênfase na política portuária e de navegação, na política fiscal, na política ferroviária e na gestão orçamentária do Estado. Este é o período do início da dívida estadual, da encampação do porto e da viação férrea e da criação do Banrisul, temas abordados no trabalho. Outro aspecto analisado é a economia do contrabando de fronteira.

O livro estuda, assim, numa perspectiva de longa duração, os diversos discursos que se constituíram em torno dos processos intervencionistas do estado na economia, levando em conta os diferentes momentos vividos pelos governos do PRR, como, também, as opiniões da oposição federalista/libertadora, tanto em nível regional, quanto em nível nacional. Os anais da Assembleia e do Congresso Nacional, a imprensa, relatórios das secretarias de estado, relatórios de empresas e publicações da época são as principais fontes utilizadas no esforço de compreensão dessa dinâmica.

O alcance das ações do estado e do governo no campo da economia é melhor compreendido quando se cotejam as políticas públicas e os discursos em torno das mesmas com o sistema de relações de poder e com uma análise da conformação das instituições políticas. Neste sentido, o livro pretende avaliar o sentido do funcionamento do Judiciário, da Assembleia e do aparato policial, sempre em relação com a dinâmica coronelista de poder. Compulsando o acervo reunido no Arquivo Borges de Medeiros, o estudo percebe como as relações de poder se processaram, tendo sempre em conta a conexão entre poder local e poder regional central, em alguns municípios, a saber, Santana do Livramento, Bagé, Jaguarão, Rio Grande, Canguçu, Santa Maria, Palmeira das Missões e Lagoa Vermelha.

Trata-se de uma análise da conexão entre economia, discurso político e práticas de poder, cujas conclusões, em muitos aspectos, diferem do que se propunha pela historiografia sobre o RS republicano. O PRR, por exemplo, deixa de ser entendido como um partido político hierarquicamente organizado, monolítico, de conteúdo programático rígido e modernizador. A tese, pelo contrário, capta as tensões e descontinuidades internas do partido no poder, as mudanças de discurso e tende a concluir pelo perfil conservador que conformou a aliança de frações de classe dominante de sustentação ao regime castilhista-borgista. A complementaridade de interesses entre a zona de colonização e os governos do PRR também é relativizada: de curral eleitor do PRR, a zona de colonização europeia passa a ser vista como área de instabilidade. Outro aspecto é a relativização do peso da influência dos positivistas no governo: deixa de apoiar a tese de um governo positivista no Rio Grande do Sul para perceber a presença real da política positivista em períodos e em setores específicos do governo, como a Secretaria de Obras Públicas. Desenha-se, outrossim, a descontinuidade no plano político e ideológico entre Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tendo ainda o Governo Carlos Barbosa Gonçalves merecido atenção.



O Pibão de 7,5%

08 de março de 2011 0

Dentre os assuntos que pontificaram às vésperas do carnaval está o Pibão de 7,5%. É óbvio, que, à primeira vista, trata-se de excelente notícia. Esse crescimento significa, em princípio, mais dinheiro no bolso de todo o mundo, bem como reforça o sentimento de otimismo na população. É um resultado para ser comemorado sob vários ângulos. Revela que o País reage com agilidade impressionante às iniciativas desenvolvimentistas dos governos e que tem gordura para queimar no que se refere à diminuição dos impostos e aumento do crédito em tempos de crise. É quase mágico perceber-se o quanto o País cresceu em um período de instabilidade e estagnação nos motores da economia global. Um resultado assim não acontecia há 24 anos. E a natureza da economia naquela época era substancialmente diferente. Em 1986, o consumo foi impulsionado artificialmente por conta de um pacote que congelou os preços. Agora, o consumo das famílias cresce a 29 trimestres consecutivos, a moeda está estabilizada, existe razoável acúmulo de reservas cambiais e há consenso no País no que diz respeito às reformas macro-econômicas. O crescimento médio da última década (3,6%) também é superior ao da anterior (2,6%).

Todavia, nem tudo são flores. Não há lugar para o ufanismo. Em primeiro lugar, note-se que o bom resultado de 2010 compensou em parte o péssimo resultado de 2009, quando estávamos no auge da crise global. Mas, para além disso, evidenciou-se a falta de planejamento para que um crescimento de tal monta se traduzisse de forma mais sustentável. A precária infraestrutura do País no transporte, energia, etc., vitamina o chamado custo Brasil e pressiona a inflação. Outrossim, o Brasil é, dentre os chamados BRICs, o que menos investe – apenas 16% de seu PIB, em cotejo com a Índia, que investe 32%, e com a China, que investe mais de 40% de seu PIB. Tal aspecto corrói a sustentabilidade de saltos expressivos de crescimento, mais uma vez, pela via da pressão inflacionária.

Então, infelizmente, não podemos nos acostumar à rotina de um País voltando a crescer a taxas chinesas. Somos obrigados a nos contentar com uma projeção de crescimento para 2011 em torno de 4%. É uma pena.