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Posts na categoria "Educação"

Livro novo: A Faculdade de Direito de Porto Alegre/UFRGS: memória, ensino e política, desde 1900.

31 de maio de 2014 1

Em 25 de abril passado foi lançado no Salão Nobre da Faculdade de Direito da UFRGS meu novo livro A Faculdade de Direito de Porto Alegre/UFRGS: memória, ensino e política, desde 1900. O livro tem 192 páginas, com papel couchê e formato 27,5 cm X 21,5 cm, com seleção de cores, com fotos da fotógrafa Adriana Donato, design de Maria do Rosário Grossi. A pesquisa foi abrigada pelo Núcleo Diversitas da USP, programa de pós-graduação interdisciplinar. Trabalhamos por quatro anos na edição dessa obra e o resultado geral me deixou bem satisfeito. Não foi nada fácil alcança-lo, pela complexidade do tema, que exigiu considerável esforço de pesquisa, e porque o projeto, realizado sob os auspícios da Lei Rouanet, captou apenas cerca de 40% do valor autorizado, o que nos obrigou a uma série de cortes e ajustes. O livro, selado pela editora Paiol, não será comercializado.

A Faculdade de Direito da UFRGS, fundada entre 17 de fevereiro e 3 de maio de 1900, com a denominação de Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, é uma das mais tradicionais e influentes escolas de Direito do País. Foi a primeira Faculdade de Direito do Rio Grande do Sul, a primeira do Sul do Pais e a sexta instalada no Brasil.
A instalação solene da Faculdade ocorreu a 3 de maio de 1900, com a presença, entre outras autoridades, do Presidente do Estado, Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, e do chefe republicano Júlio Prates de Castilhos. Refletindo o pendor da cultura jurídica gaúcha para o direito público, sua aula inaugural, em 4 de maio, foi proferida pelo professor Plínio Casado, responsável pela disciplina de Direito Público e Constitucional.
Foi seu primeiro diretor o Des. Carlos Thompson Flores, com mandato de quatro anos. Sucedeu-lhe o professor Manoel André da Rocha, que permaneceu no cargo por três décadas até assumir a Reitoria quando da fundação da Universidade de Porto Alegre em 1934. Foram ainda seus diretores Luiz Mello Guimarães, Leonardo Macedônia Franco e Souza, Edgar Luiz Schneider, Elpídio Ferreira Paes, José Salgado Martins, Eloy José da Rocha, Galeno Vellinho de Lacerda, Ruy Cirne Lima, Fernando Jorge Schneider, Clóvis Veríssimo do Couto e Silva, Almiro Régis Mattos do Couto e Silva, José Sperb Sanseverino e Peter Walter Ashton.
Por seus bancos escolares passaram ilustres homens públicos, entre os quais Getúlio Vargas, Joaquim Maurício Cardoso, João Neves da Fontoura, João Goulart, Francisco Brochado da Rocha, Alberto Pasqualini. Contou entre seus professores com algumas das mais altas expressões da cultura jurídica do país. A sua influência sobre a cultura jurídica e sobre a política do País é imensa, sendo ombreada apenas pela Faculdade do Largo de São Francisco, da USP.
Já quando dos debates na Assembleia Constituinte de 1823, a elite política brasileira teve plena consciência da importância do ensino superior, impulsionado pelo Estado, para a construção do Estado nacional. A criação dos cursos jurídicos em 1827, por iniciativa governamental, possibilitou tanto a constituição de uma burocracia qualificada para a gestão do Estado, como a sistematização da nova ideologia político-jurídica, de tal forma que Joaquim Falcão pode dizer que “a criação dos cursos jurídicos confunde-se com a formação do Estado nacional”.
Ao longo de sua história, os cursos jurídicos no Brasil, através da formação de sucessivas gerações de bacharéis, têm alimentado as instituições, em especial as instituições constitucionais. Surgida sob o impulso da modernização da sociedade, a história desta Faculdade de Direito está estreitamente ligada à história republicana do Estado e do país.
Desde cedo revelou sua vocação universalista. Sua criação marcou o início dos cursos humanísticos no Estado. A Escola de Comércio de Porto Alegre, futura Faculdade de Ciências Econômicas, originou-se em 1909 na Faculdade de Direito, desligando-se apenas em 1945. A Faculdade de Educação, Ciências e Letras, futura Faculdade de Filosofia, instituída em 1936, embora funcionando apenas a partir de 1942, instalou-se durante algum tempo em seu prédio. Por ocasião da fundação da Universidade de Porto Alegre, em 1934, a Reitoria localizou-se na Faculdade de Direito.
Funcionando inicialmente no antigo prédio do Liceu (Escola Normal), localizado na esquina das ruas Duque de Caxias e Bragança, hoje Marechal Floriano Peixoto, transferiu-se, em 1910, para a atual construção neoclássica na Avenida João Pessoa, réplica do “Palais du Rhin”, em Estrasburgo, antigo palácio de verão do Kaizer Guilherme II, imperador da Alemanha. O famoso arquiteto Theodore Wiedersphan assumiu a construção do prédio, a cargo da célebre firma porto-alegrense de Rudolph Ahrons. Já em 1913, o prédio recebia o ex-presidente norte-americano Theodor Roosevelt.FAC_DIR_UFRGS_capa_baixa

Adeus ao Monsieur Roche

27 de dezembro de 2011 0

Li com pesar a notícia do falecimento do Monsieur Roche. Ainda hoje guardo na memória os ensinamentos que colhi em suas aulas de história. Recordo em especial de um curso dele sobre história dos Estados Unidos, em francês. Então, assim, aprofundava uma temática que tinha sido pouco trabalhada na minha graduação e incrementava a familiaridade com o francês. As aulas eram expositivas. Ele guiava-se por um caderninho com anotações. Comentava as fontes, discutia autores, explicava o processo, contextualizava os personagens. Ele demonstrava grande desenvoltura para tratar da história do século XX. O ambiente era simples e verdadeiro. As turmas eram pequenas e o convívio com todos muito agradável. Acho que todos os que tiveram a oportunidade de passar por suas aulas guardam as mais carinhosas lembranças. O Monsieur Roche fará falta na paisagem intelectual de Porto Alegre.

O fim do minizoo na Redenção

20 de dezembro de 2011 6

Li hoje na Zero Hora, com pesar, a notícia sobre a remoção dos bichinhos do minizoo da Redenção. Acho que devemos sim discutir os direitos dos animais e não podemos abrir mão de garantias ao bem estar deles. Mas só vai aprender a respeitá-los e amá-los quem tiver sido exposto ao contato com eles e a uma boa dose de educação. Nesse sentido, o minizoo da Redenção desempenhava um papel estratégico. Eu estou entre as crianças que cresceram magnetizadas por aqueles bichinhos. Durante anos, a grande atração para mim e para minha irmã nos passeios pela Redenção eram os macaquinhos, os pássaros, as tartarugas… A presença deles está absolutamente impressa no meu imaginário e nas minhas lembranças mais carinhosas da cidade de Porto Alegre. Achávamos encantador poder contemplar tão de perto aqueles serezinhos fantásticos que víamos apenas nos livros infantis e na televisão. Sim, o passeio ao Jardim Zoológico de Sapucaia era adorado também. Mas esse era um acontecimento extraordinário, porque demandava um deslocamento importante. Os bichinhos da Redenção, ao contrário, estavam ali, pertinho, povoando o nosso cotidiano, com um apelo, ao mesmo tempo, ao fantástico e ao natural. Se estavam mal acomodados, a Prefeitura não poderia ter investido em instalações melhores? Dizem que estavam expostos ao barulho e à poluição urbanos. Bom, como de resto todos nós estamos, assim como todos os passarinhos silvestres que habitam e voam pelos ares da Capital. Qual será o próximo passo? Remover todos os pardais, sabiás, tico-ticos e bem-te-vis? Ora, façam-nos o favor! Estamos flertando com uma espécie de histeria ecológica cuja principal conseqüência está sendo nos desconectar ainda mais da natureza. Duvida? Assista ao filme “O Homem Urso” do Werner Herzog! É um tapa na cara de quem partilha dessa visão new age da natureza, um choque de realidade, um grito de alerta. Tipo assim, acordem! Achei a remoção do minizoo um golpe contra uma importante tradição da cidade e dos freqüentadores do Parque. Foi um erro da Prefeitura! Uma ação impopular e contraproducente.

O desastre do Enem

30 de outubro de 2011 5

Todo ano, desde que esse blog existe, é a mesma coisa. Posto sempre uma crítica ao Enem, notando que, de novo, não dará certo, e registrando, depois de mais um escândalo, a pletora de argumentos que explicam esse fracasso. Vejam, por exemplo, meu post do dia 21 de novembro de 2009, escrito em parceria com o estimado Prof. Fachel, da Universidade Federal de Pelotas, uma das entidades que mais vem sofrendo com a adoção desta prova.

Em 2011, tinha resolvido ficar na minha. Até porque não estou a fim de pousar de ave agourenta e muitas vezes ficava com a impressão de estar, junto com um punhado de gente, pregando no deserto. Além disso, manter o blog atualizado não tem sido tarefa fácil nos últimos tempos, dado o enorme volume de trabalho que me assoberba. Porém, diante do novo cortejo de vexames, é preciso dizer algo.

Começo recomendando os excelentes artigos publicados na Zero Hora de ontem nas colunas da Rosane de Oliveira e do Luís Augusto Fischer. Quem não leu e sente-se de alguma forma interessado pelo futuro do Brasil e dos jovens, leia-os!

Quando o Enem surgiu, como um exame de aferição da qualidade do ensino médio, foi muito criticado por estudantes, que protestaram, boicotaram-no e consideraram-no uma intervenção. A ideia não era má na origem, mas, ironicamente, depois de ter sido estendida e desvirtuada por mentes delirantes do Ministério da Educação, sendo convertida num substituto uniformizado ao vestibular, os estudantes calaram. É incrível, porque o que se cometeu foi um crime.

Não que o Enem não tenha agregado nada! Acho salutar a oportunidade que se abriu para que os estudantes circulem pelo País. Nesse sentido, estimulou-se a integração da juventude brasileira. Mas a que preço?

O vestibular era uma instituição com tradição, com prestígio, respeitada. Absolutamente republicana, privilegiava o mérito e era blindada ao tráfico deletério de favores políticos. Professores dignos, com uma vida inteira dedicada ao ensino, ano após ano, labutavam na confecção esmerada de uma prova elaborada. E, acreditem, era raro ouvir-se falar de fraudes e de erros crassos. Quando uma questão – umazinha só – precisava ser anulada, era um bafafá! Parava uma cidade! Além disso, a lógica da mera prova de cruzinhas, árida e desestimulante, vinha sendo posta em xeque.

Aí o Lula – cujo governo fez coisas muito boas, ninguém o há de negar – resolve, assim, do nada, acabar com uma instituição séria. Sob o argumento mais do que duvidoso de que o vestibular era uma peneira social. Tipo assim, já que o governo não tem competência para melhorar o ensino médio, vamos acabar com o exame de ingresso nas universidades, pois, aí, faz-se uma boa maquiagem e conta-se para o mundo que a educação funciona no Brasil. E jogou-se fora a criança junto com a água do banho!

Peloamordedeus!

O custo desse retrocesso é brutal. Vejam a conta que o Professor Fischer reproduz em seu artigo: 61 milhões de reais desceram pelo ralo neste último fracasso: jogados fora! E para quê? Para ajudar a corroer o ensino, pois o nível da prova é tão baixo que, mesmo funcionando (e nem isso se consegue!) está desestimulando o investimento honesto na qualidade. O exemplo que o Fischer oferece, sobre a literatura, é lapidar. Por que a garotada vai querer ler o magnífico Graciliano Ramos se não cai na prova? Com 61 milhões, poderíamos estar construindo escolas, estradas, hospitais… Até quando vamos deixar de reconhecer que esta monumental verba pública está sendo mal empregada?

Confiscar de uma geração inteira o direito de saber que o seu País produziu um autor do escol de Graciliano Ramos, que se tivesse publicado em francês ou em inglês seria celebrado como um dos gênios da literatura ocidental, é abastardar uma sociedade. É inculcar na cabeça dos jovens o sentimento de inferioridade em relação às outras nações, é promover deliberadamente a imbecilização coletiva e o enfraquecimento do interesse nacional. Quem ganha com isso? Os brasileiros certamente é que não!

O Enem não vai funcionar. Nunca! Simplesmente porque ofende a lógica, desrespeita a cultura, está na contramão da modernidade. É uma proposta uniformizante, simplificadora e centralizadora que se impõe de cima para baixo, num país federado, pleno de saudáveis diferenças regionais, e numa época em que a chave reside na autonomia e na descentralização. Toda a gestão pública inteligente caminha neste sentido, em qualquer nação democrática. Até mesmo na centralizada e unitária França! O que foi que deu na cachola dessa gente da Capital Federal? Será que vivem numa bolha, fora da realidade, e acham que podem colocar o País de joelhos, porque resolveram usar o orçamento público para promover candidaturas políticas de entremez e porque ambicionam fazer de uma nação de quase 200 milhões de habitantes um laboratório para besteiras cognitivas, para teorias educacionais toscas? Digam-me, quem ganha com isso?

Talvez eu esteja mal informado, mas em apoio ao factoide do Enem ouço se levantarem em geral vozes de burocratas, tecnocratas e politiqueiros. Só! Gente sem experiência, com currículos frágeis e sem consistência intelectual. Os resultados estão aí para todos verem, mais do que evidentes, se repetindo ano após ano: catastróficos!

Lamento pelas palavras amargas num domingo, mas, já que a Presidente Dilma Roussef (que aliás vem fazendo, no meu entender, um bom governo) não ouve a nação, está na hora de todos subirmos o tom. Quem sabe assim avoluma-se um movimento de indignação que sensibilizará minimamente a cúpula do poder?

Assisti pela televisão as manifestações dos estudantes em Santa Mara e em Porto Alegre, contra o Enem e a favor do retorno do vestibular, e quero sublinhar a minha total solidariedade. É uma baita sacanagem o que se está fazendo com a nossa juventude! O pessoal se prepara o ano todo para uma prova que é um lixo e que não funciona! Insistir autoritariamente no Enem deixou de ser apenas teimosa estultice: já se deu um passo bem além, pois o assunto virou caso de polícia, dados a vergonhosa sequencia de fraudes e o evidente desperdício de dinheiro público. O Enem já se tornou um problema social! O povo tem toda a razão em ir para as ruas, reivindicando a restauração da ética e do bom senso.

Impressões sobre o Governo Dilma

12 de fevereiro de 2011 0

Sigo me encantando com o Governo Dilma Rousseff. Nesta semana, Dilma deu mais um tranco no vacilante Edson Lobão, o Ministro de Minas Energia empurrado goela abaixo pelos esqueminhas do Sarney, dos quais, infelizmente, o Governo é em grande parte refém, para manter a governabilidade: exigiu explicações para os apagões e fixou data para que elas cheguem.


Em seguida, passou a tesoura e impôs um corte de 50 bilhões no orçamento federal. Depois de um período de gastança desbragada, durante o Governo Lula, a qual, aliás, diga-se passagem, ajudou a eleger a Dilma, era absolutamente necessário uma guinada à realidade, como forma de conter o déficit e a ameaça inflacionária. É claro que se trata de medida impopular, mas é remédio necessário e revela o quanto o Governo está comprometido com a responsabilidade fiscal. Teria sido ruim se o corte no orçamento se fizesse acompanhar de um pacote com aumento de impostos. Mas isso, felizmente, não aconteceu.


Finalmente, Dilma escolheu o momento da volta às aulas para fazer seu primeiro pronunciamento à Nação por rede pública. Foi simbólico ela ter conferido ênfase estratégica à educação. O Brasil, que cresce economicamente, vive e iminência de um apagão humano, uma espécie de escassez inaudita de mão-de-obra qualificada. O destaque dado ao ensino técnico é tanto mais relevante: novamente revela guinada à realidade, com um afastamento da panacéia mirífica do ENEM. É, sem dúvida, na falta de um amplo ensino técnico de qualidade que reside um dos nossos maiores gargalos.


Com tudo isso, periga a oposição ficar sem bandeira, sem assunto. Quem me pareceu meio mordido, contudo, foi o Lula. Vaidoso que é, como todo populista, suas falas na festa de 31 anos do PT, em Brasília, podem até ser interpretadas como manifestações de despeito diante de uma imprensa e de uma opinião pública que estão reconhecendo em Dilma condições de realizar um governo muito melhor do que o dele.

Escola de turno integral e déficit educacional

08 de janeiro de 2011 0

Dentre os destaques dos últimos dias estão as declarações do Ministro da Educação Fernando Haddad em favor da promessa de fortes investimentos no ensino secundário, com a possibilidade, inclusive, de implantação do turno integral para os estudantes. Já não era sem tempo! Em parte, o Governo Lula tentou enfrentar o grande déficit educacional de um país historicamente injusto e que agora cresce a passos largos com investimentos no ensino superior. Mas é tapar o sol com a peneira. A boa formação se constrói pela base.


O ENEM, visivelmente, fez parte dessa política de factóides e paliativos para problemas reais e estruturais. De tão mirífica e insustentável a proposta vem naufragando ano após ano em trapalhadas sem fim. Não foi por falta de aviso. Num país com dimensões continentais e enormes diferenças regionais como o Brasil é quase impossível realizar um vestibular nacional. É uma pena, porque, na prática, uma das conseqüências desse novo ENEM com caráter de seleção, ao invés de apenas avaliação, como inicialmente previsto, tem sido a corrosão da credibilidade de uma instituição que estava a gerações acima de qualquer suspeita: o vestibular. O vestibular brasileiro foi uma conquista da modernidade, um golpe na cordialidade, na histórica indistinção entre espaço público e privado. Era algo no qual a população confiava.


É certo que o conceito do ENEM seletivo traz algumas vantagens que poderiam ser eventualmente aproveitadas, como a circulação de estudantes por diversos pontos do país. Mas a proposta, da forma como está, que pode até funcionar em países pequenos e com profunda tradição de organização civil, como a França, não é viável no Brasil. Além do mais, é contrária ao espírito federativo, ao promover o unitarismo e a uniformização excessivos.


Dia desses, um pessoal andou por aí publicando artigos na imprensa tentando desqualificar as críticas ao ENEM, atribuindo-as a um recalque de classe: as críticas seriam, assim, nessa visão simplista e maniqueísta da realidade, produto de manifestações elitistas e direitistas. Diante da falta de argumentos sólidos, a tentativa de apelar para a luta de classes como forma de desqualificar as críticas revela desespero. Mas basta atentar para os argumentos e para a amplitude dos críticos para constar que esta teoriazinha de conspiração não se sustenta.


Por essas e outras, ninguém apostava na permanência de Fernando Haddad à frente do Ministério da Educação no Governo Dilma Roussef. Seria premiar a incompetência! Mas Haddad conseguiu se segurar no cargo, provavelmente por obra e graça do Ex-Presidente Lula, que projeta para ele algum futuro político. Quem viver verá.


Neste contexto, o foco no ensino secundário pode ajudar a reabilitar a desgastada imagem do Ministro. Mas é revelador, também, do choque de realidade que Dilma Roussef parece estar imprimindo ao seu governo. Resta saber se a idéia generosa do turno integral contará com o necessário respaldo político e econômico – e sabemos que na base de tudo está a garantia de uma remuneração digna aos professores! Quanto ao governo Dilma, há muita água para rolar ainda embaixo dessa ponte, mas os sinais que nos chegam nesses primeiros dias, em todas as áreas, parecem positivos: apontam, sobretudo, para a realidade!

O fiasco do ENEM

11 de novembro de 2010 1

Essa história do ENEM é absurda! Desde o ano passado venho dizendo o óbvio aqui por este blog: é inviável a pretensão de realização de um vestibular nacional e uniformizado num país com as diferenças regionais e dimensões continentais como o do Brasil. Trata-se de uma idéia idiota, arrogante, centralizadora e autoritária. Ninguém em sua sã consciência iria imaginar ser possível blindar um exame desses contra fraudes e mancadas em um território tão extenso e diverso como o do Brasil. O Governo brasileiro fala em multilateralismo na sua política externa, mas internamente promove via Ministério da Educação uma uniformização sem precedentes do País. Coisa de gente que vive numa bolha em Brasília. Está na hora de acabar com o ENEM como exame de seleção, vez que, no máximo, se trata de uma boa idéia se for exame de avaliação, tão somente. Além disso, já está mais do que na hora de mandar passear o Ministro da Educação, responsável por este fiasco, bem como todo o pessoal no seu entorno que concorreu para mais esta patuscada, seja por omissão, arrogância ou incompetência. Só vamos construir um Brasil novo quando as pessoas começarem a ser responsabilizadas por insistirem em seus erros.

Novo livro de Andrés Oppenheimer, por Jorge Castañeda

01 de novembro de 2010 0

Boa a dica de leitura de Jorge Castañeda. Reproduzo-a abaixo para vocês.


Basta de Histórias!


Por Jorge G. Castañeda
Reforma
(28-Oct-2010).-


Hay libros de académicos que si fueran leídos aportarían muchísimo a sus lectores, pero no lo son porque suelen ser difíciles de leer; y hay libros de periodistas redactados con agilidad que se leen en pocas horas, pero cuya superficialidad los vuelve intrascendentes. De vez en cuando aparecen libros de académicos tan bien escritos que impactan -los de Fergusson y Judt vienen a la mente-; o de periodistas con sustancia -como los de Diamond o el nuevo de Riding sobre la cultura parisina bajo el nazismo-, libros a la vez legibles y trascendentes. El nuevo de Andrés Oppenheimer, ¡Basta de historias!, es uno de ésos. Tiene varias virtudes pero sólo reseñaré algunas.


La primera, obviamente, es escoger sólo uno de los desafíos de América Latina en lugar de hablar de todo al mismo tiempo: la educación. Oppenheimer la considera, como muchos, no sólo el talón de Aquiles de la región, sino la clave de su porvenir. Acierta en seleccionar la educación, aunque siempre podrá uno preguntarse si detrás del rezago educativo no hay otros dilemas y obstáculos. Otro acierto es el enfoque comparativo. Dedica el primer y último capítulos a tesis generales, pero los otros 11 a casos específicos: de éxitos educativos (Finlandia, Singapur, la India, China, Israel); o de países latinoamericanos variopintos (Chile, Brasil, Argentina, Uruguay, Perú, México, Venezuela y Colombia). De este modo hay a la vez ejemplos de éxito relativo como Chile y Uruguay; y otros de fracaso, no tan relativo, como Brasil, Venezuela y México. Este enfoque permite mostrar casos concretos del rezago, pero también cómo superarlo.


El autor nos recuerda verdades ya conocidas a propósito de la educación latinoamericana en general, y de la mexicana en particular. Retoma las tesis de Gladwell en Outliers sobre la brevedad del año escolar de nuestros países: 155 días en Uruguay, 180 en Argentina, 190 en Chile, 200 en Brasil y México; vs. 243 días en Japón y 220 en Corea del Sur. Vuelve a mencionar la aberración mexicana de que cada año egresen de la UNAM 188 licenciados en historia, 59 en ciencias de la computación y 49 en ingeniería petrolera. Reafirma que, por extrañas razones, latinoamericanos en general y mexicanos en particular se sienten satisfechos con la educación pública que reciben. Doy un dato increíble, pero hasta donde pudimos comprobarlo cierto: en las pruebas internacionales de PISA, calificadas sobre 800 puntos, en la India anualmente 250 mil estudiantes superan los 650 puntos y en Corea otros 250 mil; en México sólo 4 mil 500. Es decir, en México llegan a los niveles de excelencia de PISA 60 veces menos jóvenes que en la India y que en Corea del Sur, siendo que la India tiene 10 veces más habitantes, y un PIB ligeramente mayor, y Corea del Sur un PIB similar al de México, pero la mitad de sus habitantes.


Oppenheimer propone 12 claves del progreso que no puedo resumir, me quedo con cuatro. Una, evidente pero que no sobra subrayar, es ver lo que hacen otros cuando lo hacen bien. Otra, más original e ingeniosa, es entender que la disyuntiva entre educación pública y privada es falsa, y que se resuelve con grandes coaliciones de la sociedad civil, empresariales, mediáticas, etcétera, que presionen al gobierno para mejorar la educación. Otra más, reducir en términos relativos los presupuestos de educación superior para concentrarlos en preescolar y primaria, pero no castigando a las universidades, sino exigiéndoles que salgan a ganar dinero vendiendo sus productos y servicios. Finalmente, quizás la más importante, darle mayor estatus social a los maestros, que incluye un buen salario pero no sólo. Se trata de cerrar la brecha entre lo que ganen los maestros y los demás y valorar el trabajo único que realizan. Como lo ha dicho Héctor Aguilar Camín en nuestras reuniones con las secciones del SNTE en muchas partes del país, la gente entra al magisterio por vocación. Hay que engrandecer esta vocación y agradecerle a Oppenheimer este espléndido texto.

Histeria eco-urbanóide

11 de setembro de 2010 1

As pessoas perderam a conexão com a natureza, com o campo, com a floresta. Vivem encapsuladas em rotinihas urbanas alienadas, com controles remotos nas mãos, vagando sobre o concreto, e, de repente, pensam que vão salvar o planeta adotando a primeira macega na qual tropeçam. Empilham-se os exemplos dessa histeria eco-urbanóide que medra por aí.


Dia desses, eu quase fui trucidado por alguns vizinhos em Gramado, tudo porque resolvi derrubar 11 árvores. Queixaram-se à Prefeitura, fizeram um auê. Mas deram logo com os burros n’água, porque eu tomara o devido cuidado de solicitar à Prefeitura autorização para o abate, como prevê a lei. Ela me foi prontamente concedida, pois os exemplares visados eram acácias negras com mais de 14 anos, eucaliptos brancos e vermelhos e alguns ciprestes. Todos os exemplares eram exóticos e estavam em zonas lindeiras, oferecendo risco, inclusive, à segurança das pessoas e à integridade material das propriedades vizinhas.


Qualquer mentecapto deveria saber que uma acácia negra precisa ser derrubada depois de 10 anos, se não, pode cair de podre. Já os eucaliptos, ninguém precisa dizer que são árvores de corte, exóticas, que contribuem pouco para a qualidade do nosso ecossistema, a não ser quando plantadas especificamente para o corte. Não há porque os termos em zona urbana. Quanto aos ciprestes, tirei quatro, dos sete que havia no terreno, para, justamente, permitir a entrada de luz solar e substituí-los por espécimes nativas e frutíferas. O biólogo da Prefeitura elogiou minha ação. Mas os vizinhos aratacas surtaram. O mais exaltado era um senhor grisalho, comprovando que, diferentemente do que muitos supõem, a alienação com relação à natureza e à biologia vai muito além da juventude.


Noutro dia, passeava eu pela Vila Assunção, em Porto Alegre, quando vi a coitadinha de uma extremosa, numa praça, tomada de erva de passarinho. As extremosas não são nativas, mas são arvorezinhas encantadoras, que colorem o verão com a sua floração intensa e pintalgam o outono na sua condição caducifólia. Não incomodam ninguém, suas raízes são contidas e suas dimensões limitadas. Por outro lado, sabe-se o quão nociva pode ser a terrível erva de passarinho. Há meses aquela pobre arvorezinha estava assim, sem receber os cuidados necessários da SMAM. Então, resolvi tomar uma atitude e fui arrancar eu mesmo o parasita deletério. Eis que surge, retumbante, de uma casa de fronte uma moradora indignada por que eu estaria depredando a extremosa….! Nem adiantou argumentar: a erva era verde e tudo o que é verde para essa gente sem noção é bom. Simples assim. Ficou lá a extremosa, a ser sugada pelo parasita. E a doidivanas da praça achando que tinha ganho o seu dia na luta para salvar o planeta.


Nunca aconteceu com vocês?


Recentemente reverberaram por prestigiosas colunas críticas à derrubada dos ficos e ligustros na Praça da Alfândega. A derrubada estava aprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e era mais do que justificável, pois estas espécies exóticas possuem copa cerrada, que bloqueia a entrada e luz solar, sufocando as demais, sem mencionar suas raízes agressivas, que prejudicam o encanamento e o calçamento. Além disso, seriam substituídas por encantadores ipês amarelos, árvores nativas muito apreciadas pela fauna e notadamente decorativas. O que mais me impressionou na queixa vazada pela imprensa era que partia de cidadãos cultos, professores universitários, jornalistas experientes… Num indicativo muito claro de que estamos errando fragorosamente no nosso sistema educacional, pois há muito tempo estamos produzindo gerações de pessoas alienadas da natureza. Essas pessoas agora se descobrem paladinos da luta verde e convertem-se em furibundos defensores das macegas que crescem pelos cantos das calçadas. E a quem interessar possa, vale lembrar que as praças e parques são locais de paisagismo urbano – não tem o menor cabimento aceitar ali qualquer macega, pois há um projeto paisagístico que precisa ser preservado. Bom, pelo menos deveria haver, pois isso é civilização e cultura!


Outro dia, postei aqui no blog link para um lúcido artigo da Camille Paglia no qual ela criticava exatamente essa dissociação do ensino universitário com a vida real. Quando professores universitários, alguns até apopsentados, resolvem defender os ligustros e os ficos da Praça da Alfândega, esta tese fica mais do que comprovada!


Aliás, em se tratando da Praça da Alfândega, eu iria ainda mais longe. Eu adoro os guapuruvús: são lindos, altos, esguios, quase uma escultura modernista, com magnífica floração amarela na primavera. O problema é que são árvores que caem, com enorme freqüência, sobretudo depois de uma certa idade. Ora, os guapuruvús da Praça da Alfândega são imensos e já bem antigos. Eu gostaria de ver um laudo da SMAM sobre a segurança que eles oferecem aos freqüentadores da Praça…


E falando em SMAM, na esquina das Avenidas Copacabana e Wenceslau Escobar, na Tristeza, havia uma casinha, que foi demolida para dar lugar a um empreendimento comercial. Até aí, tudo normal. O lance é que o prédio ali erguido foi obrigado a desviar duas velhas árvores. Criou-se uma forma arquitetônica meio esdrúxula. A medida seria mais do que elogiável, não estivessem estas árvores condenadas e definhando a olhos vistos. Uma delas, cuja qualidade agora não me recordo, estava completamente tomada de erva de passarinho e já tinha um de seus lados necrosado; a outra, era uma araucária, que de tão velha, já formara a taça. E se tratava de uma araucária especialmente raquítica, indicando que crescera em solo impróprio e jamais conseguira se desenvolver convenientemente. De fato, o motivo pelo qual as araucárias não se adaptam bem em Porto Alegre é que elas necessitam de solos profundos, o que existe na serra, mas não na Capital. Para piorar a situação, essa árvore fanava a olhos vistos, já tendo vários galhos ressequidos e pelados. Estava morrendo, de velha, de fraca. Nesse caso, o melhor seria abreviar o suplício e cortá-la de uma vez! Mas, não! É verde! E a SMAM, que não dá conta de limpar as ervas de passarinhos das árvores, não deixou derrubar aquelas duas agonizantes, num claro indício de que a histeria eco-urbanóide chegou aos técnicos. Melhor seria ter determinado aos construtores do prédio que as derrubassem e ali plantassem exemplares nativos, em substituição.


É esse tipo de dissociação que está tomando conta da nossa Câmara de Vereadores. Nossos Vereadores podiam estar propondo soluções criativas para a cidade, mas preferem paralisá-la com essa discussão sobre os 60 metros de área de restrição à construções por 60 quilômetros de orla. Se estivessem efetivamente preocupados com o bem estar da população de Porto Alegre e com o ambiente da cidade, teriam, por exemplo, entregue à Governadora e ao Ministério Público uma moção exigindo que os incendiários dos Campos de Cima da Serra fossem severamente multados e, até, enjaulados. Afinal, o fogo que eles produzem contribuiu para o aquecimento global e ajudou a levar as emergências dos hospitais da Capital a um colapso sem precedentes. Imaginem o impacto que uma moção assim não teria junto ao Governo! E coloco aqui o Ministério Público também porque quando todos os agentes Executivos falham, é no ente ministerial que depositamos nossas esperanças. Foi por isso que a sociedade outorgou-lhe o poder que esgrime desde a Constituição de 1988. E é triste constatar que no caso dos incêndios criminosos nos campos, o Ministério Público nada tem feito. Mas, não, os Vereadores preferem perder-se em debates infrutíferos e delirantes.


Mais exemplos? Em Copacabana, no Rio de Janeiro, será instalada uma usina de biodiesel para reciclar o óleo de cozinha dos bares e restaurantes. Esse óleo normalmente é despejado nos esgotos, prejudicando sobremaneira o meio ambiente e ajudando a entupir tubulações. O biodiesel que seria produzido a partir daí, seria utilizado para movimentar os caminhões de lixo da Prefeitura, reduzindo gastos com combustível e a emissão de CO2. O equipamento todo para a usina custa menos de R$ 250 mil reais, o que estabelece retorno garantido para a iniciativa. Ou seja, a Prefeitura ainda terá lucro!


Por quê não propor algo parecido para Porto Alegre? Por quê não ajudar o Executivo a encontrar soluções criativas e eficazes?

Camille Paglia: o ensino superior não pode ser um reino contemplativo

04 de setembro de 2010 0

Está ótimo o artigo novo de Camille Paglia, publicado no The Chronicle. Trata-se de uma lúcida crítica ao ensino superior cada vez mais elitizado e insulado, distante da realildade material e cultural da vida: “a idéia que o College é um reino contemplativo de inquirição humanística, destacada das necvessidades materiais vulgares, é um contrasenso”, diz Camille, em defesa do intelectual público e de um ensino comprometido com as necessidades práticas dos jovens. Vale conferir! Revalorizing the Trades