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Posts na categoria "ficção científica"

Notas sobre A Origem

27 de agosto de 2010 2

Continua crescendo a minha listinha de temas a comentar aqui no blog. Mas o tempo para produzir os posts é cada vez mais escasso.


Na semana passada, no giro que dei por Porto Alegre, aproveitei para ir ao cinema. O filme que passava perto de casa e em uma sessão tarde da noite – quando eu tinha disponibilidade – era o aclamado A Origem, de Christopher Nolan e protagonizado por Leonardo DiCaprio. O filme é bom e merece um comentário.


A história do ladrão de sonhos está apoiada sobre um roteiro consistente. Considerando que o público de Hollywood nos dias atuais tem o perfil médio de um adolescente do sexo masculino com 16 anos de idade, capaz de assistir ao Incrível Hulk sem perceber as inconsistências de roteiro, já é um grande mérito em favor dessa Origem. Há algum tempo, aliás, as super produções de Hollywood baseiam-se em histórias em quadrinhos. Sempre gostei dos Marvel, da Mafalda, da Mônica, do Tio Patinhas e de todos os comics que me caíam nas mãos. Mas não deixa de ser uma decadência para uma indústria que até pelo menos os anos 1950/60 consolidou sua projeção sobre excelentes roteiros produzidos a partir de literatura de qualidade. Estrelas como Herman Wouk – ainda vivo!! – que o digam. Então, quando Hollywood se prepara para despejar no mercado mais alguns zilhões de quadrinhos de super-heróis debilóides, para agradar ao seu atual público padrão, não deixa de ser positivo que um block buster invista numa história nova e bem costurada.


Mais do que isto, o roteiro encerra razoável grau de complexidade. Não é incomum que as pessoas saiam do cinema declarando não terem entendido o filme. Mas Nolan cativou a atenção do espectador padrão médio com uma overdose de ação bem apresentada. De fato, para quem é fã do Hulk e do Stalone e só entende a ação, pouco importa a qualidade do roteiro. Mas, justamente pela qualidade do roteiro, Nolan atraiu a atenção daquele público embalado na esteira do fenômeno Lost, que curte enredos intrincados, que beiram o inverossímil, fórmula que o magnífico Twin Peaks do enigmático David Linch condensou e celebrizou.


Agora, grupos de discussões brotam por aí feito cogumelos em tempo úmido, esquadrinhando detalhes do roteiro e nuances insondáveis da história. Bravo! Um genuíno e elaborado fenômeno de massas contemporâneo, capaz de sensibilizar um arco apreciável de público e revestir-se já de saída de uma aura Cult.


A narrativa obedece a uma fórmula estética singular. O filme abraça a linguagem dos vídeo-games. Porém, com muito mais eficácia do que um Tom Rider ou um Resident Evil, consegue reproduzir a sensação de mudanças de fases que o jogador tem ao jogar. Então, assisti-lo, é como estarmos dentro de um vídeo-game, sem termos a consciência disso, porque o roteiro usa a estrutura narrativa dos games, mas não tenta construir uma historinha patética a partir de um game consagrado, como normalmente se faz. Assim, o filme entrou na freqüência da galera.


A forma escolhida para viabilizar esta sintonia está na apropriação da estética pós-moderna, no que ela tem de desconstrução do sujeito e da narrativa. A primeira vez que um filme fez isso de forma magistral foi em O Ano Passado em Marienbad, produção cultuadíssima de Alain Resnais e Alain Robbe-Grillet. A novidade, contudo, está no fato de que esse público médio padrão de block busters, que passa a vida cativo do mainstream, geralmente odeia e repele a estética pós-moderna, tão incensada pelos doutos críticos acadêmicos. Dessa vez, porém, saudou uma narrativa descontínua e um sujeito multifacetado. Mérito dos petardos de ação e adrenalina pura, bem como da linguagem game.


Mas seria injusto dizer que o filme é puramente narrativo e se resume a uma explosão de ação, como alguns críticos vêm insinuando. A natureza da ficção científica de qualidade, justamente, é abordar de maneira ensaística aspectos da nossa realidade presente. Se não o sucesso, pelo menos a perenidade do sucesso de um fic-ci passa também pela capacidade de articular com eficácia esse debate.


Ora, o filme dialoga com um dos dramas que mais despertam a nossa curiosidade na contemporaneidade, o das realidades virtuais, das múltiplas realidades, das verdades fragmentadas, competitivas, paralelas. Depois do fim, no plano da cultura, das meta-narrativas, das utopias e das verdades absolutas, cada vez fala-se mais de indivíduos que vivem dimensões virtuais: jovens que não saem de casa, pessoas que interagem socialmente por meio das redes sociais, enfim, sinalizam para a emergência de uma nova patologia.


Nesse sentido, A Origem reedita o argumento central da Matrix. Mas o faz de forma mais elaborada. O motor da Matrix é a eterna luta do bem contra o mal – os humanos tentam se libertar do jugo e do extermínio de máquinas desprovidas de sentimento. A história toda procura ganhar liga produzindo um pastiche com apropriações de aspectos das tradições do judaísmo: a cidade refúgio chama-se Sião e a libertação será conquistada com a vinda de um messias, que derrotará a Matrix justamente por conhecê-la melhor do que ninguém, instaurando um período de paz e bonança.


Em A Origem, a luta do bem contra o mal não joga nenhum papel. Supera-se essa dicotomia fácil e os indivíduos são dispostos num ambiente em que fazem o que for necessário, com mais ou menos ética, para sobreviver no jogo. Não há transcendência fantasmática para além da interação entre os indivíduos e não se adora nenhuma moral universal. Um ambiente perfeito para o clima de individualismo exacerbado que caracteriza a nossa época e onde a ética tende a ser adaptada às singularidades das situações e dos personagens.


A narrativa, aparentemente tão fragmentária, reveste-se de unidade se prestarmos atenção no intertexto do filme e na sua potência metafórica. A história investe-se de novo sentido quando a percebemos como uma metáfora para uma viagem pelo inconsciente de um paciente de paranóia durante um tratamento psicanalítico. O filme todo é uma grande sessão de psicanálise. A paranóia é uma das doenças mais difíceis de serem tratadas pela psiquiatria, porque o paciente está sempre divisando uma teoria de conspiração para o tratamento ou a argumentação proposta. Assim, o que os personagens fazem no filme é jogar o jogo de um paranóico. Entram na lógica persecutória e conspirativa dele para, a partir dela, tentar sensibilizá-lo para o enfrentamento de suas culpas e seus medos mais profundos. Os personagens são faces de um tratamento que busca a cura.


Essa perspectiva ajudaria a explicar o insólito personagem da “arquiteta” Ariadne. É claro que, para seduzir os espectadores adolescentes, Nolan pode ter se rendido à tentação de enxertar na trama uma adolescente super-poderosa, típica do romantismo clichê das baratas e crepusculares histórias de vampiros que andam por aí destinadas a meninas de 13 anos, algo, aliás, muito próximo dos Hulks e que tais das histórias em quadrinhos. Mas isso estaria em desacordo com a qualidade que o roteiro suporta em todo o resto. Portanto, não parece ilícito supor que a insólita estagiária com super-poderes e que guia o anti-herói Dom Cobb na sua busca interior e no seu processo de auto-descoberta e auto-enfrentamento seria, na verdade, o seu psicanalista. Sim, porque uma mente paranóica inventaria todo o tipo de absurdos para repelir o psicanalista, como, por exemplo, dizer que a psicanálise é uma grande conspiração contra a cristandade. Portanto, o psicanalista apareceria, no plano inconsciente desse hipotético paciente de forma inofensiva, travestido sob o avatar (ops!) de uma estagiária adolescente, quando haveria tudo para que o psicanalista fosse melhor representado pelo sogro de Cobb. Mas, como é o sogro (Michael Caine) quem o convence a associar-se à estagiária inadvertidamente super-poderosa, amplia-se a chance de ela ser um avatar do psicanalista.


São muitas as dicas do filme nesse sentido. Não vou aqui relacionar todas. Mas lembrem que a esposa espectral de Cobb num dado momento pergunta se ele tem certeza de estar vivendo na realidade, pois um mundo no qual estaria sendo permanentemente perseguido pela polícia internacional e por grandes corporações parece um absurdo – quem sabe, um delírio paranóico.


Reforça esta percepção o fato de o totem de Cobb – o pião – funcionar sempre no sonho de outras pessoas, o que, segundo a lógica da história, permitiria ao paranóico onírico manipular a sua própria prova de realidade. A desconstrução dessa prova (tabu?) só se tornou possível depois de Cobb ter enfrentado a sua culpa pela suposta morte da suposta esposa, depois de tê-la supostamente deixado ir e fenecer no seu subconsciente e depois de encarar o seu grande sonho/aspiração como realidade, qual seja, o reencontro com os supostos filhos e o fim de seu suposto desterro – ostracismo que, aqui, poderia até funcionar como metáfora para um estado alterado de consciência ou um coma.


Então, quando finalmente a cena déjá-vu das duas crianças parece se tornar realidade e ele encara os rostinhos que até então lhe eram ocultos, o totem-pião roda sem parar… sugerindo que se trata de um sonho. E, claro, com isso, abre o debate cult entre os fãs em potencial e acena para a continuação da história num próximo filme – fórmula já perfeitamente conhecida…


O filme, assim, seria um retrato da lógica de um tratamento psiquiátrico de um surto paranóico de uma hiperindividualidade contemporânea que se descolou da realidade muito provavelmente por ser incapaz de lidar com a liberdade extrema do sujeito pós-moderno num mundo carente de âncoras significantes.

Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica

27 de junho de 2010 1


Posto hoje aqui para vocês a versão na íntegra do meu artigo publicado na edição de ontem do Caderno de Cultura da Zero Hora: Três filmes sobre o Outro



Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica


Há algo em comum entre três dos filmes que pontificaram na premiação do Oscar desse ano – Avatar, Guerra ao Terror e Distrito 9. Todos tratam do Outro. A repetição da temática da alteridade é sintomática para uma nação em guerra e a braços com uma terrível crise econômica – potência hegemônica que se defronta com um mundo progressivamente multilateral no qual se pergunta pela sua própria identidade.


Avatar, o belo filme de Cameron, elegia para a tecnologia 3D, investe na “westernização” da ficção científica. Remake pós-moderno de Dança com Lobos, reedita a mea-culpa dos norte-americanos para com o massacre dos seus “selvagens”. Ao invés de peles vermelhas, trata-se aqui de peles azuis. Gancho para um libelo save the planet. Num mundo pós-crise global, o clima de repulsa ao financial district tem lá o seu poder catártico.


A tradição avatárica antiga concebe uma divindade que se manifesta entre os homens. No filme de Cameron, a tecnologia fez do homem uma divindade, que então se manifesta pela ciência entre os selvagens. Sendo normalmente o alienígena representado como ameaça à raça humana, aqui o homem é o alien. O filme expande a utopia etnológica ao seu limite. Viver entre o Outro e, mais do que isto, como o Outro, para melhor entendê-lo. Nesse balanço, acaba se dando a fusão com este Outro: confusão com o objeto de estudo etnográfico, implosão das fronteiras simbólicas, que acabam revelando a face negativa do Eu e estabelecendo uma transmutação do Eu em Outro. Assim, o Homem faz-se Divindade, traveste-se de Outro, redescobre-se Homem (mas na sua pior face); fugindo, então, de si próprio, identifica-se e mimetiza-se com o Outro, para finalmente endeusá-lo novamente. Ciclo vicioso que produz a impressão de Eterno Retorno…


Nesse processo de identificação, os Na’vi são infantilizados. As mulheres não têm peito, nem bumbum. Os homens são desprovidos de músculos avantajados. E, apesar dos pernões e brações e de andarem pra lá e prá cá vestindo diminutas tanguinhas de Tarzan, nenhum deles tem órgão sexual. O momento tesão do filme é sublimado numa comunhão divina com as árvores sagradas da memória, numa fórmula que seria aprovada com louvor por Tom Wolfe. Deserotizados, tornam-se selvagens palatáveis, revelando não o Outro, mas como o puritanismo gostaria de aceitar o Outro, isto é, como sua própria face idealizada.


Os Na’vi reeditam o mito do bom selvagem e representam um sujeito pré-Ocidental, anterior à razão e ao monoteísmo que separou o Homem da natureza. Figuram uma religiosidade idealizada e afetiva, mas que é capaz de organizar-se belicamente quando o Homem-Deus-Redescoberto com ela se funde. É quase um sonho criacionista: fé sem o filtro da razão e com mobilização marcial. Não é, decididamente, uma mensagem pacifista, embora muitos tenham tomado como tal a crítica à tecnocracia turbo-capitalista e a ode ao bom-selvagem em estado de comunhão com a natureza.


Em Guerra ao Terror somos informados que o filme se passa em território estrangeiro e selvagem na primeira tomada, quando se revela uma carcaça de carneiro pendurada, à venda: carne crua à mostra na calçada, sem refrigeração, exposta à poeira, à fumaça de óleo diesel, às moscas. Choque para o Ocidente asséptico e urbanizado, onde muitos já nem sabem que batatas não dão em árvores e que a carne que nos chega ao prato, quentinha, processada e saborosa, foi um animal vivo que precisou ser abatido, coureado e destrinchado.


Segue-se um poderoso fluxo narrativo com suspensão de toda transcendência de valores e de consciência. Um jorro niilista que flerta no limite com uma espécie de hedonismo sado-masoquista. O personagem central não reflete sobre o que faz. E admite gostar apenas dessa sedução do perigo, o diálogo com as bombas. Nem a mulher e o filho realmente importam.


Os dois únicos vínculos afetivos que se costuram na estória são fugazes. O soldadinho perde o seu psicanalista e chora. O valentão balança quando encontra morto o menino iraquiano com quem interagia superficialmente. Um cenário de morte do afeto entre as pessoas e de ampliação das fronteiras da anormalidade, do qual emerge uma violência gratuita em rotina nonsense. A guerra como fim em si mesma, em economia própria.


O Outro, aqui, são os iraquianos. E eles estão praticamente mudos. Poucos dizem o seu nome, como o velho professor na casa invadida pelo valentão depois de o menino iraquiano ser morto por terroristas. Apesar da surdez, o diálogo é permanente. E é pelas bombas que o Outro fala… revelando o personagem central da trama: uma metáfora para a morte do sujeito, que, paradoxalmente, se afirma como desdobramento possível da libertação sem precedentes do indivíduo das âncoras sócio-culturais, incluídas aí o próprio Humanismo.


Ao não oferecer saída, o drama cumpre o seu papel de mostrar o fim do túnel. E a mensagem subliminar é que não há nada para além da falência dos valores éticos, os quais, ao fim e ao cabo, só poderiam ser garantidos por âncoras fornecidas, talvez, pela religiosidade e pelo Humanismo. Mais do que pacifismo pregado às avessas, é um ataque às conseqüências da comodização do cotidiano e da introjeção da lógica de mercado pelos indivíduos, que produziu este sujeito sem gravidade, um zumbi pós-moderno.


Distrito 9 não faz curvas para atacar o problema da alteridade. Mas se vale da mesma lógica de ambigüidades: uma ficção-científica favela-movie. Fusão dos opostos que enfatiza o realismo, já que o alien mais próximo de todos nós é o que está na favela, ou, na perspectiva de quem vive nela, aquele que habita o “asfalto”, fora dela, tamanha pode ser a distância social entre esses dois mundos.


E.T, de Steven Spielberg, impactou ao apresentar alienígenas frágeis e fofinhos, quando a Humanidade sempre esperou ataques hostis e invasões de tecnologias superiores, ao estilo H.G Wells. Os aliens de Distrito 9 são ainda mais inusitados. Ao invés de surgirem na superpotência norte-americana, como sempre acontece nas estórias fic-ci, aparecem na África do Sul. Chegam como refugiados e são acomodados em uma favela de Johannesburgo, enquanto os humanos decidem o que fazer com eles. A sua nave simplesmente estacionou. Sua tecnologia entrou em pane. São uns bichos esquisitos, artrópodes, meio gafanhotos, meio lagostas. Dispõem de tecnologia e força física visivelmente superiores aos humanos, mas comportam-se com uma passividade enervante. Alimentam-se de detritos, vivem em meio ao lixo e se viciaram em comida enlatada para gatos. Finalmente, não respeitam claramente as noções de propriedade dos humanos, embora tenham aprendido a se comunicar na sua língua e submetam-se às suas demonstrações de força. O quadro perfeito para despertarem a xenofobia. E é impossível, de fato, para o espectador, deixar de nutrir certa ojeriza por estes insetos nojentos.


À ambigüidade dos alienígenas corresponde a do roteiro. O filme se inscreve na linha Bruxa de Blair: finge documentar uma história real, proposta inaugurada pela radio-novela A Guerra dos Mundos, de Orson Welles, inspirada no livro de H.G. Wells, publicado em 1898. Esta dinâmica amplia o efeito de distanciamento e aproximação com a realidade que, efetivamente, nos cerca.


Muitas das entrevistas exibidas em tom de documentário remetem ao apartheid. Até os veículos militares que patrulham o Distrito 9, com seus cerca de 2 milhões de alienígenas, evocam a militarização das ruas sob o apartheid. Há também uma analogia com os imigrantes ilegais que invadiram a África do Sul nos últimos anos, fugidos, sobretudo, da ditadura de Robert Mugabe, no Zimbábue, de maneira a inchar as favelas e atiçar a violência interétnica. Os únicos a conviverem com os E.Ts. são os nigerianos, membros violentos de gangues que os exploram e, até, os canibalizam, estando, ainda, associados aos cultos africanos animistas e politeístas.


Não há, aqui, nenhuma concessão às religiões mais próximas da natureza, nenhuma idealização do misticismo. O Distrito 9 poderia ser Soweto, ou qualquer campo de refugiados no mundo, assim como seus moradores poderiam estar em qualquer favela e representar qualquer povo não-branco ou qualquer horda de imigrantes ilegais. O fic-ci politizado constrói aqui uma metáfora explícita para a xenofobia. E, assim, torna-se um libelo pró-diálogo e tolerância.


Também os personagens são construídos com ambigüidade. Wikus é um burocrata chato e inepto encarregado de comandar uma operação de desalojamento dos aliens, que seriam levados para uma área distante. É um legítimo anti-herói, medíocre e egoísta. Mas somos levados a torcer por ele depois que se torna um mutante, ao ser exposto a uma misteriosa substância alienígena, e passa a sofrer na pele a discriminação endereçada aos extraterrestres, apelidados de Camarões. É inevitável a comparação com A Mosca, de Cronenberg, ou com a barata de Franz Kafka. Só que a mutação aqui tem efeito positivo sobre a estória.


Wikus acaba se associando a um alien diferenciado, Christopher, inteligente, ético e pacifista, que muda nossa apreciação dos Camarões, pois é mais Humanista do que todos os personagens e depoentes que figuram na trama. Juntos, eles promovem uma rebelião contra a injustiça arbitrária, encarnada na confluência de interesses escusos de uma mega empresa privada e das forças armadas, e a cultura alien termina emergindo. As armas e máquinas, que passaram 20 anos inertes, voltam a funcionar. Descobre-se, então, não terem os aliens vontade individual, apenas de grupo, ativada por uma liderança. Christopher consegue fugir para o espaço e promete retornar para resgatar o seu povo, brutalizado e injustiçado na Terra que deveria servir-lhe de asilo.


A crítica ao materialismo de um capitalismo financeiro desbragado e que se associa ao Exército é mais uma vez evidenciada, assim como em Avatar e, menos explicitamente, em Guerra ao Terror. Distrito 9 aborda a xenofobia e a inexistência de diálogo entre as culturas como causas para uma guerra que provavelmente acontecerá – o mesmo confronto que em Guerra ao Terror já eclodiu. Como em Avatar, em Distrito 9 a solução para a as injustiças passa pela mutação, pela fusão, física e cultural. Os personagens principais nos dois filmes são mutantes, que carregam o gene das duas raças e culturas e, ao produzirem uma síntese, ajudam a resolver o conflito, oferecendo uma saída. Porém, enquanto Avatar aponta no sentido da reconciliação com a natureza por meio de uma fé (puritana, bem entendido) sem o filtro da razão, mas sob mobilização marcial, Distrito 9, menos místico, reclama o restabelecimento do diálogo, isto é, o espaço da política baseado na construção do comum entre os diferentes, por meio do logos, o diálogo racional. Como em Guerra ao Terror a mutação não se realiza, o conflito segue sem solução. Ali, não há esperança e um cotidiano non-sense é protagonizado por sujeitos pós-humanos, convertidos em zumbis, dado o excesso de individualismo e de falta de gravidade. O não-ser da mutação, aqui, conduz à extinção, pela total ausência de transcendência e de diálogo. A humanidade se desumaniza.


Há uma novidade na conotação dada à mutação. Os mutantes em outro filme, X-man, não são produto da associação entre humanos e humanóides, entre deuses e selvagens, entre aliens e terráquios, enfim, entre duas raças, duas culturas. Tornam-se uma raça à parte ao entrarem, meio sem explicação, em mutação. Ganhando superpoderes, dividem-se, então, entre submeter-se aos humanos ou dominá-los. Não há, portanto, solução do conflito, mas instauração do conflito. Ainda mais estéreis e depressivos são os zumbis de filmes como Eu sou a lenda, onde a mutação, provocada por uma experiência genética mal-sucedida, é fonte do horror. Em A Mosca, de Cronenberg, a mutação, mais elaborada, é a deixa para um retrato assustador da desfiguração do humano, revelador de aspectos obscuros do nosso comportamento.


No Ocidente, o mito mais próximo da idéia de mutação é o do vampiro. Um indivíduo metamorfoseia-se quando mordido e contaminado por parasita morto-vivo que se alimenta do sangue das pessoas. Mas aqui não há fusão do Um com o Outro. Apenas absorção, sucção, dominação, assimilação, contaminação. O mito do lobisomem segue a mesma lógica, com menos glamour e sedução, talvez.


Diferente é a idéia-força antropofágica, que está na origem do movimento modernista brasileiro. No célebre Manifesto de 1928, Oswald de Andrade recorreu à metáfora antropofágica, com base nos rituais praticados pelos índios Tubinambás, para sintetizar a metamorfose intercultural, isto é, o mecanismo pelo qual uma dada cultura pode absorver elementos de uma tradição externa, sem perder a sua essência e produzindo uma nova síntese. Isto porque os índios acreditavam que, devorando seus inimigos, assimilariam as suas virtudes. Em pleno fastígio do eurocentrismo, o Manifesto Antropofágico ofereceu uma terceira via para as alternativas da dominação e assimilação, de um lado, e submissão ou resistência, de outro. A antropofagia brasileira festejou o diálogo e a hibridação. Eis, agora, que a mutação de Avatar e Distrito 9 começam por recuperar, precisamente, este sentido positivo que é dado à metamorfose cultural no Brasil. A idéia de síntese entre diferentes ganha força como caminho para a resolução do conflito. Incensam-se as identidades híbridas.


Contatos de quarto grau

16 de abril de 2010 1

Para quem curte thrillers de terror e de ficção científica, ontem assisti ao “Contatos de Quarto Grau” (The forth kind), com a Mila Jovovich no papel principal, representando uma psicóloga, desestabilizada com a misteriosa morte recente do marido, atuando em uma pequena cidade no Alaska. Bem, ela atende a um grupo de pacientes com distúrbios de sono e descobre que entre eles há uma recorrência: todos acordam angustiados às 3hs33min da madrugada e dizem ter visto uma estranha coruja branca. Ela então ataca de hipnotizadora e hipnotiza seus pacientes num passe de mágica: a consciência de nenhum deles oferece qualquer resistência. Neste estado de transe, os pacientes conectam-se a suas verdadeiras memórias e evocam contatos com criaturas horríveis, que falam sumério arcaico e que se afirmam ser Deus. A psicóloga conclui serem alienígenas abduzindo as pessoas, não sem antes viver um embate pessoal entre ciência e ficção.


O mais interessante do filme, além de belas tomadas que exploram a luminosidade misteriosa do Alaska, é que ele segue a linha “Bruxa de Blair”, isto é, finge basear-se numa história real, proposta inaugurada pela radio-novela “A Guerra dos Mundos”, de Orson Welles, inspirada no livro de H.G. Wells, publicado em 1898. O filme incorpora trechos de gravações em vídeo de entrevistas com a suposta verdadeira Dra. Tyler, vivida pela lindíssima Mila Jovovich, gerando o efeito documentário enganoso. Assim, o espectador é confrontado a duas Dras. Tyler: Mila e a outra, vivida por uma atriz não identificada. Este diálogo entre ficção e suposta realidade, ficcionada, também, ao fim e ao cabo, é que produz a tensão do filme.


Em que pese tenha sido recebido com frieza pela crítica, mundo afora, conquistou razoável audiência. Os produtores e a Universal Pictures desenvolveram uma estratégia de marketing que plantou pela Internet informações falsas, dando-lhes roupagem de veracidade. A película retoma assim a fórmula de Orson Welles – quando se potencializa o medo se revestindo a ficção com foros de realidade – e investe neste peculiar traço da cultura de massas contemporânea, especialmente ampliado pelo Watergate: as teorias de conspiração. A diluição do limite entre ficção e realidade torna-se cada vez mais familiar em nosso cotidiano, ao mesmo tempo que se insinua como um dos grandes fantasmas da nossa época.

Discutindo Avatar

16 de abril de 2010 0

Para quem curtiu, ou não, o filme Avatar, reproduzo aí link para o divertido blog do Francisco Quiumento: Uma Panorâmica de Pandora

Avatado

28 de março de 2010 4

Sim, eu sei: estou com a faísca atrasada. Mas, por favor, me dêem um descontinho. É coisa de intelectual, que fica com a cara afundada nos livros e mal sai de casa.


Bem, é o seguinte: fui finalmente assistir o tal Avatar! Claro, não foi no final de semana, pois eu não saberia lidar com o tumulto nos xópis e as filas. E quatro ou cinco coisas me chamaram a atenção.


Juro que eu ainda não tinha assistido um filme 3D. Nossa, foi um encanto! Uma experiência alucinante!


Confesso que, logo de início, me senti meio caipira. Eu já estava pensando em reclamar da falta de foco para o projetista – como a gente fazia em tempos pré-históricos nas velhas sessões do ABC, ou do Bristol – quando me atinei de colocar o tal óculos. Então, junto com o deslumbramento veio um certo alívio por não ter pagado o mico. Mas diante do primeiro treco que voou em minha direção, meu reflexo automático foi dar um pulo na cadeira. Ai, que coisa!… Olhei para os lados, de cantinho, para ver se alguém percebera. Ninguém. Pude continuar, já mais aclimatado, fruindo o êxtase daquela projeção.


Tentando me integrar ao ambiente, comprara pipocas e coca zero, não sem ficar chocado com o preço escorchante! Notei, contudo, que as platéias haviam mudado para muito além da pipoca. Ao meu lado, duas moças não calaram a boca um minuto sequer. Na boa, o que é que leva duas pessoas a tagarelarem sem parar numa sala de cinema (aliás, qual a necessidade de falar tanto?!)? Será uma disfunção cerebral? Trata-se de algum um novo comportamento padrão que desconheço porque sou um velho antiquado?


Aquilo me irritou, admito. Emiti o clássico “pshhhh…!”, mais de uma vez. Até que soltei um palavrão e já me preparava para um discurso, quando elas então se contiveram. Mas já passava bastante da metade do filme! Na saída, achei que aproveitariam a liberdade recém conquistada para explodir em matraquice, mas aí ficaram quietas. Uma delas era uma adolescente esquálida se equilibrando desajeitada sobre um desses pavorosos chinelos plataforma. A outra, mais velha, deveria ser mãe, tia, sei lá. Saíram quietas do xópis. Incrível!


Quanto ao filme, certo, adorei! Ficção científica e fantasia sempre estiveram entre meus gêneros prediletos. E o filme é bem feitinho mesmo.


Mas, tipo, parecia que eu estava vendo uma reedição pós-moderna do “Dança com Lobos” – uma reificação da mea-culpa dos americanos para com o massacre dos seus “selvagens”. Só que agora, ao invés de peles vermelhas, tratava-se de peles azuis. O gancho perfeito para um libelo “save the planet”. E, num mundo pós-crise global, o clima “we hate the financial district” tem lá o seu poder catártico. Mas juro que, entre flechas azuis e mães d’água aladas, eu tinha a nítida sensação de que o Al Gore iria despencar no meu colo a qualquer instante!


Achei o roteiro bem ok. O que, vamos combinar, é bastante difícil para um filme americano que tem no público adolescente parte importante do seu foco. Ora, sabemos que os produtores americanos partem do princípio que os adolescentes são incapazes das sinapses mais elementares. Se estão certos ou não, são outros quinhentos. É por isso, por exemplo, que nestes filmes a todo instante somos bombardeados por absurdos de alto potencial imbecilizante, como no “Hulk”, em que um grupo de super poderosos mariners consegue a façanha de invadir secretamente o Brasil e de subir o Morro da Rocinha, sem ser notado, e o David se transforma na Rocinha e aparece desacordado numa floresta da Guatemala, onde chegou saltitando… E por aí vai…


No Avatar a única incoerência (considerando a própria lógica da história) mais gritante fica por conta dos rinocerontes (azuis) cara-de-martelo. Afinal, se a cada dois passos esses bichos arrancam uma baita árvore, como é que eles ainda conseguem viver numa floresta? Isto é, já não teriam transformado a sua área de circulação numa savana, ou coisa que o valha?


Enfim, mas o que me chamou mesmo a atenção foi a infantilização dos Na’Vi (é assim que se escreve?!). As mulheres não têm peito e a bunda, minúscula, mais parece uma prancha de passar roupa. Os homens não têm bíceps, nem peito avantajado e nada de bunda também. E, apesar dos pernões e brações e de andarem pra lá e prá cá vestindo umas diminutas tanguinhas de Tarzan, nenhum deles tem pingolim. O momento tesão do filme é sublimado numa comunhão quase divina com as árvores sagradas da memória e tal… Uma fórmula, certamente, que seria aprovada com louvor por Tom Wolfe.


Conclusão possível: os selvagens tornam-se palatáveis para o público americano quando totalmente deserotizados. Assim, o tal Avatar seria menos um libelo pela preservação do ambiente ecológico do que uma metáfora implícita da doença puritana da sociedade norte-americana.