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22dez

Graça Medeiros, astróloga: sustentabilidade e transparência são a chave da nova Era

Hoje posto para vocês entrevista com a astróloga Graça Medeiros. Ela é gaúcha. Estudou filosofia e jornalismo na UFRGS e foi produtora artística. Foi para a Europa em 1969, onde ficou até 1972. Entre 1974 e 1975 morou no Peru e em 1986 fixou residência nos Estados Unidos, residindo em Nova Iorque até hoje. Viajou ao Oriente em 1985 e em 1987, quando andou pelo interior da China e, por terra, levou três meses para chegar ao Tibet. Graça estuda astrologia desde 1972 e dedica-se com exclusividade ao assunto desde 1981. Ela tem diversos clientes em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Nova Iorque e México DF.


Nesta entrevista, ela fala dos princípios norteadores da astrologia e do ofício de astrólogo. Graça, que tem muitos clientes no mercado financeiro, comenta a percepção da crise internacional pelos astros e arrisca previsões para 2010.


Quais os princípios básicos da astrologia? Como se calcula um mapa-astral?


GM - O estudo da Astrologia é ancestral. Os primeiros documentos escritos conhecidos (escrita cuneiforme) em tabletes de barro estão no British Museum e são datados do século VII AC. É um tablete com anotações sobre o movimento de Vênus, que lá se chama de Ishtar e que nesse tempo tinha uma conotação andrógina, pois Vênus é o único planeta que se vê duas vezes no mesmo dia.


O conhecimento astrológico desenvolveu-se principalmente na Babilônia, mas vem de culturas anteriores como Sumérios e Acádios.


A observação dos corpos celestes e sua relação com a agricultura é a relação do ser humano, que deixa de ser nômade, e o cosmo. O homem parte da natureza. De um ponto fixo observa o céu e registra e estabelece relações.


Primeiro o movimento da Lua, do Sol e de corpos que se movem em relação às estrelas. A mudança de estações (equinócios e solstícios) que sempre foram celebradíssimos e ainda hoje o fazemos pela apropriação da religião que as transforma em festas de páscoa (equinócio) natal {solstício) etc… O aprimoramento do conhecimento foi acontecendo com o progresso dessas civilizações nas áreas da matemática e da geometria. Os conceitos tais como os conhecemos hoje datam do período em que a cultura Babilônica conectou-se com a cultura Grega, Persa e Egípcia, ao redor do século I (o clássico desse período é o Tetrablos, de Ptolomeu).


Os elementos que compõe o sistema astrológico são o espaço onde o Sol e seus planetas transitam no universo que denominamos Zodíaco ; no modelo matemático, o círculo de 360 graus divido em 12 partes, equivalente aos Signos, e o Sol e seus planetas com suas diferentes órbitas que nele se deslocam.


Os planetas têm o nome dos mitos e como observou Jung em The science of mithology, “a mitologia não foi inventada, foi percebida!” O estudo não é lógico. É simbólico e é muito melhor compreendido por quem conhece o conceito de fractal. Tudo se move e no universo não tem linha reta, só curva - o que sobe desce e depois sobe.


O mapa astral é como se fosse um retrato do céu na hora do nascimento de uma pessoa ou evento, visto desde o ponto de vista do horizonte do lugar (cidade) onde ocorre. Este “modelo” é a referencia que revela a estrutura e é a ele que nos referimos para poder relacionar os planetas hoje. A relação entre os planetas em movimento é o mapa natal.


O cálculo do mapa astral foi se aprimorando à medida que o conhecimento avançou, nas áreas da matemática e da geometria. Mas só no século 20 é que a Astrologia se democratizou, pois com a criação do meridiano de Greenwhich a referencia do tempo se padronizou. Só então puderam ser construídas as tabelas com a posição planetária. Isto gerou uma referencia matemática que nos possibilita calcular com muito maior precisão a carta celeste.

Graça Medeiros por Vania Toledo
Graça Medeiros por Vania Toledo


Como a astrologia pode nos ajudar a nos compreender melhor?


GM - Faça o teste. Mas a coisa mais importante é que através desse conhecimento podemos medir o tempo. E se somos impotentes frente ao movimento cósmico e não podemos mudar nem o ritmo nem a órbita planetária, mas pelo menos sabemos quando tal circunstancia acaba. E se não podemos mudar a órbita dos planetas, quando faz um aspecto, podemos tentar descobrir o que temos que apreender em tal circunstância e qual o antídoto.

Você é uma das astrólogas mais famosas e bem sucedidas do Brasil. Qual é o seu segredo? O estudo da Filosofia, da História e da Psicologia, entre outras disciplinas, também ajuda na sua avaliação dos astros?


GM - O astrólogo é na verdade um tradutor de uma linguagem simbólica para o leigo. É possível que minha formação, que se iniciou na Filosofia e somou o conhecimento na área da comunicação e da psicologia, me ajudou a ter uma visão de mundo mais ampla, de forma a tratar o conhecimento astrológico como uma possibilidade no desenvolvimento da experiência humana, com a compreensão e não o julgamento.


Você acha que a astrologia hoje goza de ampla aceitação ou ainda é grande o preconceito e a resistência contra ela? Como esta resistência se processa?


GM - A resistência é do mundo acadêmico, que é extremamente preconceituoso e colonizado. A resistência começa na proibição da matéria pelo Concilio de Trento e depois pela ignorância, e de séculos em que a racionalidade foi restrita ao conhecimento lógico. Pela Lógica, não se explica Astrologia, uma linguagem analógica e simbólica.



Você tem clientes no Brasil, no México e nos Estados Unidos. Você percebe alguma diferença de perfil entre estes grupos de clientes, algum padrão específico de demandas que são postas com mais freqüência aos astros?

GM - Os interesses variam, mas não é com a nacionalidade, mas com o perfil das pessoas. O que uma pessoa do mercado financeiro busca é um tipo de informação, as informações mais pessoais dos ciclos de vida variam - mas em geral as pessoas que me procuram são as que refletem e buscam uma maneira de viver melhor, evoluindo. Eu posso dizer que a Astrologia é o melhor método que conheço para compreender e aproveitar melhor o processo do desenvolvimento.

Graça Medeiros por Vania Toledo
Graça Medeiros por Vania Toledo


Como você interpreta, pela astrologia, o momento que o mundo atravessa? A crise mundial econômica pode ser interpretada e explicada pelos astros?


GM - A Astrologia “decodifica” os ciclos (órbitas planetárias são mensuráveis) através da compreensão da linguagem mitológica (planetas) e suas qualidades (signos) portanto tudo pode ser interpretado. Então, observamos o movimento planetário e quando um planeta que tem uma órbita muito grande, quando muda de signo - muda a qualidade e isso pode ser um indicador, filosófico, econômico, artístico. As milhares de possibilidades que existem formam padrões geométricos (distancias angulares entre 2 ou mais corpos celestes). O conhecimento desses aspectos e a freqüência em que ocorrem indicam possibilidades. Quando não temos a possibilidade de ter observado alguns desses aspectos, recorremos ao passado para ver quando ocorreu pela última vez e então podemos ter uma referencia para refletir. O importante é compreender que o conhecimento não é um carimbo que determina algo - mas um indicador para você se orientar, refletir e, além disso, saber que termina. No UNIVERSO TUDO SE MOVE.


A crise econômica que explodiu em 2008 foi uma mudança de valor - da expansão para a realidade. Hoje podemos claramente dizer que foi uma crise gerada pela ganância e falta de controle. Na época escrevi: GET REAL (com duplo sentido mesmo). Fui buscar quando pela última vez Plutão tinha entrado em Capricórnio e descobri que fora entre 1762 e 1777.  Passei então a formular o conceito de up grade do Iluminismo, que ainda postulo. Plutão entrou em Capricórnio em 2008 e ficará até Janeiro de 2024.



Você sugere então que este será um período (2008-2024) de novas formulações filosóficas e conceituais, que serão, como as do Século XVIII, utilizadas por muitos anos? Algo, enfim, que possibilitará um novo despertar do Espírito?



GM - SEM DÚVIDA!  O pensar e repensar e criar novos conceitos capazes de melhorarmos o nosso processo de desenvolvimento e organização social levando em consideração as mudanças tecnológicas e a administração dos problemas contemporâneos. É como reformatar o hard drive  - temos que semear uma nova fórmula  de contrato social sem medo de quebrarmos velhos paradigmas. Da família ao Estado.


Duas palavras são chave para adequar a nova ordem que se cria: SUSTENTABILIDADE e TRANSPARÊNCIA.


Este período da construção de novos paradigmas é mais importante que o século XVII e o XVI porque neste além da reflexão de valores somamos a reflexão de uma NOVA ERA. Cada Era é uma fração de 1/12 de um ciclo de 25.920 anos (ano platônico)


Já saímos da Era de Peixes e entramos na Era de Aquário? Quais são os conceitos-chave para a época que vivemos?


GM - Gosto de explicar que a mudança de Era não é marcada por um dia, mas é um processo longo ao redor de 100 anos, enquanto a transição se processa. A mudança de Peixes para Aquário é de água para ar. Do crer para o saber. As qualidades de Aquário são: saber, liberdade, autonomia, instantaneidade. Enquanto as religiões monoteístas negarem o evolucionismo estaremos atrasando o processo educacional para a evolução. O que tem que se compreender é que o que é pregado numa Era se materializa na era seguinte. Na Era de Peixes o que foi pregado é que somos todos iguais, enquanto isso não se tornar possível estaremos atrasando a evolução. Estamos todos no mesmo barco, o planeta Terra. E fazemos parte de um sistema. O nosso sistema planetário tem 13 bilhões de anos. Quando, em vez da arrogância humana, cultivarmos a simplicidade e a sabedoria, a Era terá desabrochado.


Lembro de você ter previsto que algo muito importante, que mudaria o mundo, aconteceria em setembro de 2001. Como os astros representaram o 11 de setembro como possibilidade?


GM - Eu previ um ano difícil para os USA. Falei em perdas no mercado e uma tendência de queda em Wall Street. Mas não imaginei que seria literal.



Você concorda com a visão hoje dominante que admite que o pior da crise já passou?


GM - A erupção da crise aconteceu em 2008, mas as conseqüências ainda não. Neste ano de 2010 viveremos uma das piores crises de desemprego, equivalente ao que aconteceu em 1932/1933, e a entrada de Urano e Júpiter em Áries pode trazer novas tecnologias, mas também um aumento bélico. Fique atento entre 27 de maio e 6 de junho.



Muitos de teus clientes são importantes investidores no mercado financeiro. Como a astrologia pode ajudar nos negócios?


GM - Esses clientes compreendem muito bem a linguagem cíclica e também usam o recurso como mais um dos fatores que lhes sinalizam altas e baixas. A Astrologia é um excelente instrumento para planejamento. Dependendo da vida de cada um, pode ser mais ou menos afetado, mas certos aspectos nos afetam a todos. Estamos no mesmo barco. E a tendência é de instabilidade e revoltas explosivas.




Há, em 2010, um período mais ou menos propício para investimentos financeiros?



GM - O ano de 2010 em termos financeiros será interessante e bastante positivo no que tange a produtos mais conservadores - principalmente de março a julho. A crise é de moeda e vai nos ocupar muito. Recomendo redobrada atenção aos movimentos do FED, principalmente no final de maio. Sob o ponto de vista econômico a tendência a altos índices de desemprego principalmente entre julho e agosto, o que fará o ultimo trimestre do ano, principalmente no hemisfério norte, o mais fraco.



Quais os conselhos que você daria para as pessoas em 2010?


GM - Astrólogo não é para dar conselho, ele mostra situações possibilidades, mas o “motorista” da vida de cada um é a própria pessoa. A vida é feita de escolhas. O que a Astrologia propicia com muita eficiência é a indicação da tendência. É mais como uma sinalização ao longo da rota (vida). Aquilo pelo que alguém vai passar muitas vezes não permite escolhas - a não ser COMO se vai passar por cada situação, e o que se pode aprender e evoluir como indivíduo em face desta ou daquela situação. Se fizermos sempre a mesma coisa, teremos sempre o mesmo resultado. A FELICIDADE É UMA JORNADA, NÃO UM DESTINO.

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28nov

Positivismo no México e na Venezuela

Tenho andado um pouco ausente do blog nos últimos dias. Estou passando estes dias em São Roque, próximo a São Paulo, tomando parte em um colóquio, que se realiza em um hotel da região, sobre os embates entre o positivismo e o liberalismo no México e na Venezuela, no século XIX e princípios do século XX. Os debates e as leituras têm me absorvido de tal maneira que acabei me distanciando um pouco das outras atividades. Além disso, a Internet aqui é lenta.

Estou especialmente animado com a leitura de José Vasconcellos, um ensaísta mexicano de grande erudição e pensamento libertário, que chegou a ser ministro da educação no México. Um de seus livros, “Raça Cósmica”, que eu já havia lido há uns dois anos, é um poderoso transe metafísico. Muito antes de Gilberto Freyre, Oswald e Mário de Andrade, Vasconcellos exalta a mestiçagem biológica e cultural dos latino-americanos, teorizando sobre ela. Muito antes de Stephen Zweig ele afirma ser o Brasil o país do futuro. Vale conferir.

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20nov

Por um novo universalismo baseado na interculturalidade: íntegra da entrevista com o filósofo François Jullien

Reproduzo hoje para vocês a íntegra da entrevista que fiz com o filósofo francês François Jullien, publicada  na edição de novembro da revista Cult.


François Jullien é um dos filósofos franceses mais em evidência na atualidade. Especializou-se em pensamento chinês e afirmou-se como um importante teórico do diálogo intercultural no contexto do mundo globalizado.

É professor na Universidade Denis Diderot, Paris VII, onde dirige o Instituto do Pensamento Contemporâneo. É membro sênior do Instituto Universitário da França, já presidiu o Colégio Internacional de Filosofia e a Associação Francesa de Estudos Chineses. Ele dirige atualmente a revista Agenda do Pensamento Contemporâneo, editada pela Flammarion. Desempenha também papel de consultor para empresas ocidentais que desejam se instalar na China. Seus livros estão traduzidos em uma vintena de países, inclusive no Brasil.

Nesta entrevista, concedida em Paris, François Jullien discute a sua opção por estudar a China, problematiza a diferença entre alteridade e exterioridade, entre universal, uniforme e comum, conceitos que considera fundamentais para compreender a dinâmica do diálogo entre as culturas. Jullien fala ainda sobre o pensamento chinês como um modo de coerência com características próprias e debate a China contemporânea, a Comunidade Comum Européia, o Brasil e o papel do intelectual na atualidade. Repensa, ainda, os limites dos Direitos Humanos e defende a necessidade de construção de um novo universalismo, baseado na diferença, mas refratário ao relativismo cultural.

Por que a China, por que fazer da China o sujeito de seu trabalho?

No início, fui helenista. Mas fui interessando-me pela China porque ela se constitui em uma exterioridade particularmente marcante em face da cultura européia. Exterioridade de língua, já que o chinês não pertence à grande tradição indo-européia; de História, já que os contatos da Europa com a China tornaram-se mais freqüentes apenas a partir do século XVI, na esteira das missões de evangelização, ganhando intensidade na segunda metade do século XIX, como desdobramento do processo colonial moderno. Apesar das diferenças, ambas, Europa e China, são comparáveis. Não se trata de buscar o exotismo da China, mas de se evidenciar o quanto ela é um caso particularmente tipificado e com forte exterioridade com relação à cultura européia. Minha abordagem é filosófica. Trabalho sobre um pensamento constituído e explicitado, com o objetivo de re-interrogar o pensamento europeu a partir de fora.

Qual é a diferença entre a exterioridade e a alteridade?

Sim, eu mencionei exterioridade e não alteridade. Por que a exterioridade é algo dado pela geografia, pela língua, pela História - se constata. Por sua vez, a alteridade é uma construção cultural. A China está alhures; mas em que medida ela se constitui em um outro? É o que Foucault chamava literalmente, em “As palavras e as coisas”, de heterotopia da China, distinguida da utopia: as utopias confortam, as heterotopias inquietam.


Mais do que a diferença do pensamento extremo-oriental com relação ao europeu há uma indiferença nutrida tradicionalmente entre estes termos. O primeiro desafio é sair desta indiferença mútua, de maneira a que um possa visualizar o outro, numa mudança de enfoque que suscita o pensar.

Existem modos possíveis de coerência no mundo contemporâneo em paralelo à tradição judaico-cristã e ao racionalismo ocidental?


Contrariamente ao que pretende a história ocidental da filosofia, o Extremo Oriente não ficou em estado pré-filosófico. Ele inventou os seus marcos de abstração, conheceu uma diversidade de escolas e explorou outras fontes de inteligibilidade.


Há um benefício duplo deste percurso intelectual pela China. Além da descoberta de uma outra inteligibilidade, sonda-se até onde pode ir esta deterritorialização do pensamento. Mas este deslocamento implica também num retorno. A partir deste ponto de vista da exterioridade, trata-se de retornar aos pressupostos a partir dos quais se desenvolve a razão européia, pressupostos ocultos, não explicitados, que o pensamento europeu veicula como uma evidência. O objetivo aqui é remontar ao impensado do pensamento, captando a razão européia ao inverso, a partir de sua exterioridade.


Pensar na China é justamente sair deste grande movimento pendular entre Atenas e Jerusalém encarnado pela filosofia européia.


Na sua percepção, os chineses possuem noções do Ser, da Verdade e do Tempo diferentes daquelas consolidadas pela tradição ocidental?

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