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Posts na categoria "filosofia"

Diversitas - USP

24 de março de 2012 0

Saúdo o nascimento do Diversitas - Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ao qual me filio como pesquisador associado. O Núcleo reúne pesquisadores de diferentes áreas das humanidades que se articulam para a docência em nível de Pós-Graduação no Programa Humanidades, Direitos e outras Legitimidades e à pesquisa no projeto Fronteiras em Movimento.
Os trabalhos realizados por seus pesquisadores estão disponíveis para consulta no Portal na Internet.

Breves considerações a propósito do universal, do multicultural e do comum

10 de dezembro de 2011 1

Está on-line meu artigo do mês na revista Voto. Confere aí.



Num mundo marcado por guerras e conflitos alimentados por impasses culturais, a tolerância vem sendo sistematicamente invocada como remédio. A temática é empolgante, mas sua aplicação prática sempre mais complexa do que se imagina. Muito do debate repousa sobre uma fórmula capaz de estimular o diálogo entre as diferentes culturas.

No final do século XX, o multiculturalismo consolidava-se em muitas nações como alternativa redentora, um passo bem além da assimilação eurocêntrica. Mas o modelo, que prosperou e países como os Estados Unidos, a Inglaterra e a Holanda, despertou críticas de todos os matizes.

O teórico Zygmund Bauman, à esquerda, viu no multiculturalismo a ferramenta ideal para uma globalização comprometida apenas com a liberalização econômica, sem freios, na qual a elite estaria livre para consumir as identidades que mais lhe aprouvesse, ao mesmo tempo em que sua consciência dormiria em paz diante da miséria e do atraso material, afinal, tudo se resumiria a questões culturais e seria necessário “respeitar as diferenças intrínsecas”. À direita, o ultraconservador Samuel Huntington percebeu as culturas como em inescapável estado de choque, defendendo que o Ocidente se encerrasse numa cidadela inexpugnável e intolerante. Já a somali Ayaan Hirsi Ali, propugnando a defesa de valores liberais, testemunha o quanto o multiculturalismo intoxicou os serviços sociais dos governos europeus, em especial na Holanda, de forma a não apenas não ajudar no processo de integração dos imigrantes, mas, ainda, de maneira a contribuir para o seu isolamento e sofrimento. Com efeito, depois do assassinato do cineasta Theo Van Gogh em Amsterdã, em 2004, o multiculturalismo entrou em crise. Isto é, toda a política de tolerância dos holandeses para com a diferença não foi capaz de forjar um ambiente de integração e distensão.

O conflito entre culturas, como argumenta Amartya Sen, é em parte sustentado pela ilusão de que as pessoas se definem sobremodo a partir de uma única identidade, como se o mundo não passasse de uma federação de religiões e de um mosaico de culturas estanques, ignorando-se aspectos dinâmicos como gênero, profissão, língua, política, opção sexual… É uma equação vibrada no diapasão das novas identidades compósitas, fluidas e competitivas. Eis o fulcro da inviável tese de Samuel Huntignton sobre o choque de civilizações. Huntington é uma vulgata remasterizada de conservadores como o espanhol José Ortega y Gasset. O filósofo François Jullien, por exemplo, escancara ainda a fragilidade teórica da ideia de bloco civilizacional, baseada num reducionismo caricato de supostas identidades de povo, bem como numa visão estanque de tecidos socioculturais. Por que não considerar o ateísmo uma tradição europeia tão legítima quanto o cristianismo? Como é possível reduzir a diversidade do Islã ao fundamentalismo, desconsiderando correntes moderadas e modernistas?

Apesar de sua precariedade intrínseca, a ideia de Huntington foi capaz de catalisar forças poderosas, como no caso da guerra ao “eixo do mal” de George W. Bush, ou quando informa à distância políticas pretensamente afirmativas e inclusivas. Como mostra Sen a propósito do apoio afunilado de Ex-premiê inglês Tony Blair a certas congregações religiosas não oficiais na Inglaterra, como tentativa de diálogo com as minorias, no pós-ocupação do Iraque: isto é, mesmo governos liberais, trabalhistas e democratas podem promover identidades monistas, condenando na prática minorias à segregação sob a justificativa multicultural e cultural relativista, tendendo a ignorar que a pós-moderna sociedade de massas alimenta válvulas de polissemia intercultural. Algo que nós, brasileiros, já sabíamos desde o Manifesto Antropofágico de 1928, de Oswald e Mario de Andrade, ou desde o “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, publicado originalmente em 1933, eloquentes brados em favor da ideia de mestiçagem biológica e hibridação cultural.

François Jullien, em “O diálogo entre as culturas: do universal ao multiculturalismo”, agrega importante contribuição ao debate ao diferenciar os conceitos de universal, de uniforme e de comum. Para o filósofo, o universal declara-se um conceito da razão, emergindo da tradição europeia, e se reclama como uma necessidade à priori, confundindo-se com a elevação do pensamento e com a própria ciência. Assinala, assim, uma intransigência inegociável. E, gostemos ou não, segundo Jullien, é o universal, por exemplo, que se afirma na Declaração dos Direitos do Homem.

Já o uniforme, é um conceito não da razão, mas da produção, que se projeta não por uma necessidade, mas por uma comodidade. A única racionalidade que pode ser atribuída ao uniforme é a da gestão e a da economia. Enquanto o universal apoia-se na ordem da lógica e do prescritivo, o uniforme repousa sobre a imitação. Assim, se o “universal suscita ostensivamente a rebelião, aquela da singularidade”, o uniforme “se contenta em acalmar as resistências ao seu redor e se funde à paisagem”. Sua potência é cumulativa: quanto mais ele se propaga, mais ele se impõe. O uniforme produz a estandartização e, assim como o universal pode ofender o individual ou o singular, o uniforme choca-se contra a diferença. Uma cadeia de fast food seria o melhor exemplo para o uniforme. Mas, ele também pode se manifestar na política, como no caso, para Jullien, da Comunidade Comum Europeia, que vem respondendo às dificuldades de construção do comum com regulamentações uniformizadoras da economia e da produção.

Já o conceito de comum é eminentemente político. O comum diz respeito àquilo que se compartilha, se participa, se toma parte. O comum não é o parecido. Ele é dado por uma noção de pertencimento, que conforma comunidade, e pode se legitimar em sua progressão, por extensão gradual, como que delineando níveis sucessivos de comunidade aos quais um indivíduo ou grupo pode ser integrado. Trata-se, portanto, de um termo de dupla face, ao mesmo tempo inclusivo e exclusivo, pois ao incluir determinado perfil, ele pode excluir outro, por negação. Para Jullien, entretanto, a tendência histórico-filosófica do comum é mais forte no sentido de se descerrar do que de se fechar. Neste sentido, o comum evolui de um espaço de inclusão e de convergência para um local onde as particularidades se diluem, onde os interesses privados e específicos brandem suas contradições em igualdade de condições, com transparência, efetivamente possibilitando a emergência do diálogo e da política. É o espaço onde se pode dar também a abertura ao Outro. A transparência do comum é justamente a elisão das hierarquias ocultas, estruturais. Jullien acredita que possamos construir para a contemporaneidade uma cidadania múltipla, em círculos superpostos, mais ou menos como aquela que vigeu durante o Império Romano, desde, é claro, que o método para se chegar lá seja o do diálogo transparente e lógico, sob inspiração do que se promovia na antiga ágora da Atenas clássica, 500 anos antes de Cristo.

Bem vinda Casa das Ideias, Porto Alegre!

23 de outubro de 2011 4

Muito legal o projeto que se inicia em Porto Alegre: a Casa das Ideias! Sinto-me honrado em participar do conselho curador! Parabéns pela importante iniciativa! Veja aí o vídeo promocional de inaguração do espaço!

Slavoj Zizek no III Congresso de Jornalismo Cultural

27 de maio de 2011 0

Posto hoje aqui para vocês o vídeo da conferência do filósofo Slavoj Zizek no III Congresso de Jornalismo Cultural, em São Paulo, na semana passada.

Flagrantes da Fliporto - Camille Paglia, Marcia Tiburi, François Jullien, Kathrin Rosenfield...

20 de novembro de 2010 0

Pessoal, bom dia!


Estou devendo a vocês vários post. Quero comentar algo sobre a Fliporto, bem como sobre o ótimo encontro no qual participei em Natal. Mas, vai demorar um pouquinho, pois estou cheio de coisas para escrever e resolver. Para quem tem me perguntado sobre a Fliporto, reproduzo abaixo alguns links que registram alguns flagrantes da Feira.


Fotos da sessão comigo, Marcia Tiburi e Camille Paglia

http://www.jb.com.br/galerias/2010/11/13/camile-paglia-marcia-tiburi-e-gunter-axt-na-fliporto/


Uma entrevista com a Camille Paglia sobre a Fliporto

http://www.youtube.com/user/fliportonet#p/u/24/Gh_mCgBAwTA


Uma entrevista comigo sobre a Fliporto

http://www.youtube.com/user/fliportonet#p/u/25/vLD0CHKLyaE


Fotos da mesa com o François Jullien, comigo e a Kathrin Rosenfield

http://www.flickr.com/photos/exclusivabr/page2/


Mais fotos da mesa com o Jullien

http://www.flickr.com/photos/exclusivabr/page3/


Mais fotos da mesa com a Camille

http://www.flickr.com/photos/exclusivabr/page20/

François Jullien na Fliporto, em Olinda

15 de novembro de 2010 3

Logo mais à tarde, falará na Fliporto o célebre filósofo francês François Jullien, que recentemente esteve em visita também a Porto Alegre e a São Paulo. Eu o conheci em 2007 em Paris e em 2009 ele me recebeu como professor visitante no Instituto do Pensamento Contemporâneo, da Universidade Paris VII. Será um prazer tornar a ouvi-lo. Para quem está acompanhando a Fliporto, reproduzo abaixo um breve resumo biográfico de Jullien, bem como uma entrevista que fiz com ele no ano passado, originalmente publicada na revista Cult, de São Paulo. Eu a reproduzi já neste blog em novembro do ano passado, mas acho que vale a pena repeti-la para o público pernambucano.


François Jullien é um dos filósofos franceses mais em evidência na atualidade. Especializou-se em pensamento chinês e afirmou-se como um importante teórico do diálogo intercultural no contexto do mundo globalizado.


É professor na Universidade Denis Diderot, Paris VII, onde dirige o Instituto do Pensamento Contemporâneo. É membro sênior do Instituto Universitário da França, já presidiu o Colégio Internacional de Filosofia e a Associação Francesa de Estudos Chineses. Ele dirige atualmente a revista Agenda do Pensamento Contemporâneo, editada pela Flammarion. Desempenha também papel de consultor para empresas ocidentais que desejam se instalar na China. Seus livros estão traduzidos em uma vintena de países, inclusive no Brasil.


Tem diversos livros publicados no Brasil, tais como “O diálogo entre as culturas: do universal ao multiculturalismo”; “Tratado da Eficácia”; “Figuras da imanência – para uma leitura filosófica do I-ching”, “Do tempo – elementos para uma filosofia do viver”.



  1. Por que a China, por que fazer da China o sujeito de seu trabalho?


No início, fui helenista. Mas fui interessando-me pela China porque ela se constitui em uma exterioridade particularmente marcante em face da cultura européia. Exterioridade de língua, já que o chinês não pertence à grande tradição indo-européia; de História, já que os contatos da Europa com a China tornaram-se mais freqüentes apenas a partir do século XVI, na esteira das missões de evangelização, ganhando intensidade na segunda metade do século XIX, como desdobramento do processo colonial moderno. Apesar das diferenças, ambas, Europa e China, são comparáveis. Não se trata de buscar o exotismo da China, mas de se evidenciar o quanto ela é um caso particularmente tipificado e com forte exterioridade com relação à cultura européia. Minha abordagem é filosófica. Trabalho sobre um pensamento constituído e explicitado, com o objetivo de re-interrogar o pensamento europeu a partir de fora.



  1. Qual é a diferença entre a exterioridade e a alteridade?


Sim, eu mencionei exterioridade e não alteridade. Por que a exterioridade é algo dado pela geografia, pela língua, pela História – se constata. Por sua vez, a alteridade é uma construção cultural. A China está alhures; mas em que medida ela se constitui em um outro? É o que Foucault chamava literalmente, em “As palavras e as coisas”, de heterotopia da China, distinguida da utopia: as utopias confortam, as heterotopias inquietam.


Mais do que a diferença do pensamento extremo-oriental com relação ao europeu há uma indiferença nutrida tradicionalmente entre estes termos. O primeiro desafio é sair desta indiferença mútua, de maneira a que um possa visualizar o outro, numa mudança de enfoque que suscita o pensar.



  1. Existem modos possíveis de coerência no mundo contemporâneo em paralelo à tradição judaico-cristã e ao racionalismo ocidental?


Contrariamente ao que pretende a história ocidental da filosofia, o Extremo Oriente não ficou em estado pré-filosófico. Ele inventou os seus marcos de abstração, conheceu uma diversidade de escolas e explorou outras fontes de inteligibilidade.


Há um benefício duplo deste percurso intelectual pela China. Além da descoberta de uma outra inteligibilidade, sonda-se até onde pode ir esta deterritorialização do pensamento. Mas este deslocamento implica também num retorno. A partir deste ponto de vista da exterioridade, trata-se de retornar aos pressupostos a partir dos quais se desenvolve a razão européia, pressupostos ocultos, não explicitados, que o pensamento europeu veicula como uma evidência. O objetivo aqui é remontar ao impensado do pensamento, captando a razão européia ao inverso, a partir de sua exterioridade.


Pensar na China é justamente sair deste grande movimento pendular entre Atenas e Jerusalém encarnado pela filosofia européia.




  1. Na sua percepção, os chineses possuem noções do Ser, da Verdade e do Tempo diferentes daquelas consolidadas pela tradição ocidental?


Consideremos a noção de “Ser” a partir da qual, sabe-se, a Europa baseou seu pensamento, desde os gregos (desde Homero). “Ser” ou “Não Ser”, no pensamento europeu, forma a alternativa dramática básica; do mesmo modo que a oposição entre o “Ser” e o “Devir” constitui nele a linha de separação a partir da qual se desenvolveu a Ontologia, o caminho expresso para a Filosofia. Ora, ao mesmo tempo em que não podemos pensar fora dessa dupla oposição do “Ser” (nossa mente se articula nela), estamos conscientes de que o termo “Ser” é empregado com “diversos sentidos”, primeiramente os de “existência” e “qualificação” (ser isto ou aquilo, ou de certo modo). Convergem esses significados para uma só unidade, onde permanecem estranhos um ao outro, dando, por isso, margem a confusões? Mas, tornando precisa a questão, tratar-se-ia exatamente da “raça humana” e, sobretudo, não de algo grego, que “nós” herdamos na Europa? Quanto ao pensamento chinês clássico, diferencia ele entre o “existir” (you) e o “o estar” (wei) ou o “existir-estar”, “existência-subsistência” (on he on),  admitindo também a função da “cópula” (ye), isto é, o verbo que une o sujeito ao nome predicativo do sujeito. Mas entre eles, não se diz (não se pensa) em “Ser” como um absoluto: o “Ser” como um fenômeno do qual todos os outros devem participar para que se diga que “existam”;  e tampouco a idéia do “Ser” como “Ser como Estar” (on he on), à qual devemos desde Aristóteles que a Filosofia se tenha feito Ciência. Ao pensamento chinês, portanto, não se colocou – ou não pôde se colocar – a questão que para nós, contudo, até aqui parece inevitável, a do ti esti, ou seja, “do que se trata”?



Para os gregos, uma relação entre o conhecimento e o “Ser” funda a filosofia, ao passo que na China não há qualquer Ontologia. Não se pretendeu construir uma aparência onde possamos viver, mas busca-se encontrar a diversidade de pontos de vista e sua anulação mútua, o que constitui o “caminho” comum da imanência (o tao).



A China pensou a “adequação” circunstancial, mas porque ela não a pôde apoiar no Ser, não a pôde estabelecer sob um plano de eternidade, não a pôde sustentar por um projeto puro de conhecimento (que tendeu como entre os gregos a assimilar a sabedoria à ciência, a sophia à epistémé), ela não produziu a Verdade, como visão maior da filosofia – não pôde visto aqui não como a expressão de uma falha, mas mais como a abertura para um outro possível. O termo em chinês antigo que melhor podemos traduzir por “verdadeiro” significa antes “autêntico” (zhen: no sentido dos sentimentos ou de uma natureza verdadeiros; o “homem verdadeiro” zhen ren é, notadamente no taoísmo, aquele que ascendeu a uma perfeita disponibilidade interior e não conhece mais os entraves ao desabrochar de sua existência). Os chineses manejaram bem o julgamento disjuntivo, mas eles cedo se desafiaram, desde a formação de suas escolas de pensamento, na antiguidade, sobre a perda fatalmente ocasionada – do ponto de vista da globalidade da sabedoria – do conflito (estéril) de posições. Isto significa que não necessariamente os chineses são incapazes de distinguir o verdadeiro e o falso, mas que não é sobre este ângulo, da pesquisa e da busca da verdade, que eles desenvolveram suas concepções. Enfim, os chineses não produziram uma fixação sobre a Verdade.



Noções que acreditamos serem gerais e invariantes, universais, não necessariamente se repetem na China. Para entrar no pensamento chinês, é preciso acompanhar o desenvolvimento de suas noções e de seus questionamentos internos, sem pressupor que seus modos de coerência concordam de golpe com os dos europeus.



Isto acontece também com a noção de tempo. Os chineses pensaram a temporada, o instante (momento – ocasião – circunstância: shi) e a duração (jiu), mas não a noção de tempo homogêneo e abstrato, destacado do curso dos processos, tal qual os gregos a pensaram a partir de uma física do movimento dos corpos e de seu deslocamento no espaço (Aristóteles), de uma ruptura metafísica com a eternidade do Ser (Platão-Plotino) ou de Deus (Santo Agostinho); e tal que nós a flexionamos de ordinário na conjugação dos diferentes tempos verbais – a língua chinesa não conjuga.



O tempo europeu é divisível em diversos tempos, mas as divisões não existem efetivamente: o presente não é mais do que um ponto de passagem, sem extensão, portanto, sem existência, entre o passado, que não é mais, e o futuro, que ainda não é. Quando os chineses e os japoneses encontraram a noção ocidental de tempo, ao final do século XIX, ao se defrontaram com o pensamento e a ciência ocidentais, a traduziram por “entre-momentos” (shi-jian, em chinês, e ji-kan, em japonês).



Restemos, portanto, vigilantes quando nos depararmos, em uma tradução do chinês clássico para uma língua européia, com termos como Verdade, Ser, tempo, ideal, etc…: uma assimilação já se consumou ali, bem intencionada, até, mas gerando indevidamente a ilusão da universalidade.



  1. Quais são as conseqüências dessa sua compreensão para a percepção da China contemporânea?


Eu proponho a noção de “potencial de situação” para compreender a concepção chinesa de eficácia. Apanho-a aos estrategistas da Antiguidade, como Sun Zi e Sun Bin. Mais do que modelar uma fórmula ideal colocando-a como uma meta, o que implica em forçar a impregnação desta meta na realidade, aquilo que vem a ser eficácia na China se aplica a demarcar, a detectar, os fatores favoráveis existentes no seio da situação abordada. A idéia é fazer evoluir continuamente a situação em função dos fatores que podem ser revelados, de maneira que é da situação mesma que decorre o efeito. Assim, se hoje não é favorável, é preferível esperar, mais do que se destroçar enfrentando uma situação adversa. É por isto que prefiro para a China o termo “eficiência”, mais do que “eficácia”, pois permite compreender a continuidade de um desdobramento, ao mesmo tempo que a arte de captar sua imanência, sem evidenciar a imposição de um projeto.



Donde decorre uma segunda noção: a de “transformação silenciosa”. Ora, diferentemente do herói europeu, que não apenas se estabelece uma meta, como ainda age de maneira a propiciar a forma ideal que traçou, um dos temas mais marcantes do pensamento chinês é o não agir, que não deve de forma alguma ser compreendido no sentido de passividade ou de ausência de engajamento. Se o estratego não age, ele transforma, faz lentamente evoluir a situação no sentido desejado, por influência. Enfim, a transformação se manifesta como o contrário da ação. Enquanto esta é local, momentânea e ligada a um sujeito específico, a outra é global e progressiva. Nós não a vemos, mas ela acontece. Como o envelhecimento de uma pessoa, que percebemos quando a comparamos com uma fotografia sua de vinte anos atrás. O pensamento chinês dissolve a individualidade do evento no processo.



A China, ainda hoje em dia, não me parece estar projetando um plano sobre o devir, perseguindo um fim dado ou divisado, mesmo imperialista; mas sim parece estar explorando da melhor maneira possível, dia após dia, seu potencial de situação. Quer dizer, tirar partido dos fatores favoráveis, seja no domínio econômico, no político, no internacional e em qualquer que seja a ocasião. É apenas agora que começamos, um tanto estupefatos, a constatar os resultados: que em alguns decênios ela se converteu na usina do mundo e nos próximos anos seu potencial crescerá inelutavelmente. E isto, sem um grande evento, ou ruptura. Deng Xiaoping, o “pequeno timoneiro”, foi este grande transformador silencioso da China. Ele empurrou gradualmente a sociedade chinesa, alternando liberalização e repressão, do regime socialista ao hiper-capitalismo, sem jamais ter declarado uma ruptura franca entre os dois.



Vejamos, por exemplo, a imigração chinesa na França. Ela se estende de um bairro a outro, com cada recém-chegado trazendo, um após o outro, todos os seus primos. As celebrações chinesas ganham ano a ano mais importância. Mas esta transição é tão contínua que nós não a percebemos e não a barramos.



São necessárias ferramentas teóricas específicas para compreender a China contemporânea, com este regime hiper-capitalista sob uma redoma comunista apoiada em uma estrutura hierárquico-burocrática. O Partido Comunista Chinês já se transformou muito. A China renovou suas elites, de uma geração à outra, graças às temporadas de estudo e estágios no exterior. Mas ele permanece a estrutura de poder. Uma das minhas grandes admirações é perceber que a China jamais conheceu um outro regime que não a monarquia. Fala-se na China apenas do bom ou do mau príncipe, da ordem ou da desordem. E, mesmo, considera-se que um mau príncipe é melhor do que a anarquia. Há sim momentos em que o poder chinês fracassa, mas eu jamais vi aparecer o ideal de política, no senso das formas-modelo, que vemos sendo debatido por Platão, Aristóteles ou Montesquieu: que constituem regimes distintos, cujas qualidades intrínsecas nós cotejamos.



  1. Como o senhor caracteriza e diferencia os conceitos de universal, de comum e de uniforme?

O universal exprime-se um conceito da razão, emergindo da tradição européia, e se reclama como uma necessidade à priori, confundindo-se com a elevação do pensamento e com a própria ciência. Assinala, assim, uma intransigência inegociável.


O uniforme é um conceito da produção, que se projeta não por necessidade, mas por uma comodidade. A única racionalidade que pode ser atribuída ao uniforme é a da gestão e a da economia. Enquanto o universal apóia-se na ordem da lógica e do prescritivo, o uniforme repousa sobre a imitação. Assim, se o universal suscita ostensivamente a rebelião, aquela da singularidade, o uniforme se contenta em acalmar as resistências ao seu redor e se funde à paisagem. Sua potência é cumulativa: quanto mais ele se propaga, mais ele se impõe. O uniforme produz a estandartização e, assim como o universal, pode ofender o individual ou o singular, chocando-se com a diferença.


O comum é político. Diz respeito àquilo que se compartilha. O comum não é o parecido. Ele é dado por uma noção de pertencenimento, que conforma comunidade, e pode se legitimar em progressão, por extensão gradual, como que delineando níveis sucessivos de comunidade aos quais um indivíduo ou grupo pode ser integrado. Trata-se, portanto, de um termo de dupla face, ao mesmo tempo inclusivo e exclusivo, pois ao incluir determinado perfil, ele pode excluir outro, por negação. A tendência histórico-filosófica do comum é mais forte no sentido de se descerrar do que de se fechar. O comum evolui de um espaço de inclusão e de convergência para um local onde as particularidades se diluem, onde os interesses privados e específicos brandem suas contradições em igualdade de condições, com transparência, possibilitando a emergência do diálogo e da política.



  1. A Declaração dos Direitos do Homem está no plano do universal? Em sua opinião, quais as conseqüências disso?

É o universal que se afirma na Declaração dos Direitos do Homem. O Ocidente tenta impô-la a todos os povos do mundo, independente de sua cultura, como um dever, exigindo subscrição incondicional, padrão que já foi anteriormente forçado goela abaixo dos próprios europeus. A fabricação do “universal” foi excêntrica, nascendo de múltiplos projetos que culminaram na Declaração dos Direitos do Homem de 1789. Objeto de intermináveis negociações e compromissos, o texto final é uma associação de fragmentos, que ignorou os pontos de disputa. Apesar da pressa com que foi feito, alçou-se a um estatuto ideal e necessário, revestindo-se de aura mítica. Mas o fato de ter sido constantemente reescrito, da Constituição francesa de 1793 à Declaração da ONU de 1948, já mostra que a sua suposta universalidade não é um fato consumado. Impostos na época moderna, os Direitos do Homem promovem uma dupla abstração, tipicamente ocidental, que é fonte de contradição: dos “direitos” e do “homem”. Ela isola o sujeito, privilegiando a emancipação, consagrada como fonte da liberdade, e, além disso, isola o Homem de seu contexto vital, estabelecendo as dimensões social e política como dependentes de uma construção posterior que garanta sua existência. A ereção do universal desvincula o humano de seu mundo, estabelecendo uma dramática contradição.


Na Índia, por exemplo, não se concebe uma ordem natural da qual o ser humano não faça parte. A integração é estabelecida até a partir dos animais, que para os indianos são dotados do poder de compreensão e de conhecimento e podem já ter sido homens antes de renascerem como bichos. Ali, o homem é tão pouco excepcional que sua vida e morte carecem de significado, sendo destinadas a se repetirem indefinidamente. Não se evidencia um princípio de autoconstituição política a partir das quais os direitos do homem devam ser declarados. Enquanto para o pensamento europeu a liberdade é a última palavra, para o Extremo-Oriente é a harmonia. E sob esse aspecto, a Índia se comunica efetivamente com a China por meio do budismo. Lá, é o Ocidente que produz uma exceção ao introduzir a ruptura que isola o Homem. E, no Islã, o medo do Juízo Final, elemento primeiro da fé, reduz os direitos humanos à insignificância. Claro que hoje a noção ocidental dos direitos humanos existe em países orientais como “enxerto” estrangeiro. Afinal, quando os jovens chineses da Praça da Paz Celestial mobilizam-se, sabem que tipo de mensagem estão transmitindo para o Ocidente. Mas por que os orientais foram praticamente forçados a aprender esse significado e os ocidentais, por sua vez, não compreendem a visão dos orientais?


  1. A Comunidade Comum Européia está no plano do comum ou do uniforme?

Bruxelas é uma máquina de uniformização. Para começar, qual será a língua que falaremos na Europa? Como a Europa será inovadora se ela não levar em conta que boa parte de sua inventividade se deve à pluralidade das suas línguas e culturas? Foi por não cessar de se reinterpretar, de uma língua à outra, começando pelo grego e pelo latim, que a Europa se fecundou e se renovou. Pois este esforço permitiu não apenas a expansão de conceitos, como ainda a relativização de pressupostos de uma cultura a partir de uma externalidade. Foi assim que a filosofia, por exemplo, ganhou uma natureza translinguística, mas também teve acicatada sua criticidade. Na Europa, pensar é também traduzir. Se os filósofos são gregos, a filosofia nasce em Roma. A dispersão das línguas na Europa possibilitou à filosofia uma capacidade de auto-reflexão.


A uniformização, entre outros simulacros, produziu aqueles da concórdia e da paz. Acreditamos nela, porque ela silencia as divergências. Mas não nos enganemos sobre a sua verdadeira natureza: quando a uniformização não responde a fins de pura rentabilidade, é burocrática, absorvida por medidas anônimas, muito mais do que efetivamente democráticas. Uma Europa feita pela uniformização e pela redução das diferenças será estéril e incapaz de se mobilizar. Como empresa de homogeinização, ela relega à heterogeinização as forças mais pobres, menos fecundas, quais sejam, as dobras identitárias e as recusas teimosas daquilo que já não mais aparece como construção incontestável, como construção comum, como uma lógica da História.


Cada época tem a sua forma de resistência, ostensiva ou discreta. Definamos a nossa: o deslocamento, a diferenciação, é o conceito de uma resistência cultural ao mesmo tempo ética e política.


  1. É possível a construção de um novo universalismo capaz de contemplar a diferença, mas sem se diluir na miragem do relativismo cultural?

Sim, e isto pode se dar pela inter-culturalidade, pelo diálogo efetivo entre as culturas. A chance de escapar à pretensão de universalismo aplastante, de um lado, e, de outro, ao abandono relativista das diversas culturas às suas próprias perspectivas singulares e aos seus destinos únicos, é a grande oportunidade da época em que vivemos. Somos a primeira geração à qual a mundialização permitiu viajar mais livremente entre as culturas, no sentido, justamente – em oposição à uniformização estéril –, de poder circular por inteligibilidades diversas para promover, através delas, uma inteligência comum – coisa que não tem nada a ver, bem entendido, com uma cultura única.


Voltemos, como exemplo, aos direitos humanos. Como conceito, como abstração separada da sua cultura de origem, eles podem ser comunicados aos outros povos. Como abstração, os conceitos podem ser manejáveis, identificáveis e transferíveis, tornando-se um instrumento privilegiado de diálogo. A radicalidade conceitual dos direitos humanos está em se apropriar do humano em seu estágio fundamental, enquanto recém-nascido. Esta concepção é transversal e emerge em outras culturas.


O filósofo chinês Mêncio estabelece a consciência da “piedade” como essencial ao humano. Qual homem assiste indiferente à cena na qual uma fera arranca dos braços da mãe uma criança de colo? Na piedade, um indivíduo identifica-se com o seu semelhante. Aqui, ao invés de intersubjetividade, existe transindividualidade, no sentido de que todos os indivíduos estão ligados a uma essência. Para todo o homem, portanto, existe alguma coisa que ele não faz e que ele não pode suportar que aconteça aos outros.


Conhecer o Outro é humanizar e ampliar a moral, restabelecendo a possibilidade de sua refundação e permitindo buscar uma moral que admite a crítica da suspeita.


Assim, como ferramenta de protesto, como instrumento insurrecional, os direitos humanos alcançam uma utilidade mais ampla, abrindo brechas numa totalidade satisfeita, acendendo ou reacendendo nela uma aspiração, dimensão que pode gozar grande utilidade para todas as culturas. Por esta razão, valeria a pena abrir mão da pretensão universal dada em benefício de uma perspectiva universalizante, que sinaliza para a idéia de que o universal está em curso e pode operar como agente promotor, adaptando-se às especificidades culturais. Assim, se deslocaria a questão do teórico para o prático, da verdade para o recurso.


Enfim, um humano desviado por suas diferenças e estabelecido na auto-reflexão não corre, ao contrário do que se poderia imaginar, riscos de se decompor. Pois se permitira a emergência de um universal liberado dos universalismos instalados aos quais costumamos nos render, destravado das totalidades dadas, desfeito de seus revestimentos ideológicos. Um universal que não cessará de desimpedir renovadamente as condições de possibilidade de um comum sempre ameaçado pelo estreitamento. E, assim, o senso de humano não conhecerá mais limites para crescer e se desenvolver.


  1. Como se processa o diálogo intercultural?

É sobre o plano cultural, mesmo entre os Estados-nação, que se jogam doravante os principais confrontos. A pretensão do Ocidente à universalidade o leva cada vez mais a entrar em conflito com outras civilizações, em particular o Islã e a China. O diálogo emerge aqui como opção e em oposição ao choque. Não se trata, portanto, de afirmar a noção de “identidade cultural” fundada sobre a diferença, e, sobretudo, sobre uma concepção simplista e reducionista que caracteriza as culturas com base em seus traços mais óbvios, o que é inevitável fonte de antagonismos, mas de reconhecer a fecundidade dos distanciamentos e das diferenciações culturais como fonte a ser explorada.


Samuel Huntington, assim, se vale de instrumentos rudimentares de determinismo cultural para alcançar conclusões reacionárias. Por que fundar, por exemplo, a pretensão de uma tradição européia sobre o Cristianismo e não, também, sobre o ateísmo?


Ao contrário, o pensamento contemporâneo está precisamente engajado num dispositivo de auto-reflexão do humano. O humano se reflete – no sentido de se visualizar e de se meditar – quando confrontado ao diverso. Ele se descobre por meio das facetas iluminadas e desdobradas pelas múltiplas culturas, na tradução de sentidos entre uma língua de partida e uma língua de chegada, na des- e na re-categorização de tradições de pensamento.


O diálogo é uma estrutura eficiente e operante que obriga cada uma das partes a re-elaborar suas concepções. Mas em qual língua se daria este diálogo? Digo, sem temer o paradoxo: cada um dialoga na sua língua de origem, mas traduzindo à outra. A tradução obriga a re-elaborar conceitos do Outro no seio de sua própria língua, portanto a reconsiderar seus próprios implícitos, para torná-los disponíveis à eventualidade de um sentido alternativo. Longe de ser uma deficiência, como obstáculo e fonte de opacidade, é a necessidade de traduzir que faz trabalhar as culturas entre elas mesmas. A tradução, a meu ver, é a única ética possível do mundo global que vem aí. É por isso que penso serem os tradutores profissionais-chave no mundo que estamos construindo.


  1. Uma sociedade pode erguer-se a partir da espinha da inter-culturalidade?

Talvez o Brasil seja um país que não apenas faz permanentemente um diálogo intercultural com o exterior, como ainda tenha efetuado um diálogo intercultural interno. Ali as fronteiras entre a cultura popular e a cultura erudita parecem ser tênues. Da mesma forma, o país parece estabelecer pouca resistência às influências culturais exógenas, o que não implica numa descaracterização local ou numa vassalagem. Estímulos internos e externos parecem estar em permanente estado de fusão.


  1. Qual a função do intelectual na sociedade contemporânea?

Na era da mundialização, o engajamento do intelectual não é mais o do posicionamento extremado, em busca de uma radicalidade de princípios, que conduz ao antagonismo de posições. Mas consiste em revelar por quais vias aquilo que parece ruim, ou mau, aquilo que conforma a alteridade, encerra fontes inexploradas ou invisíveis para a descoberta de uma fecundidade possível e cooperativa. E, ainda, num movimento inverso e complementar, em incentivar a diferenciação do pensamento, rearranjando as possibilidades do dissenso de forma a trabalhar ao encontro do consenso, no qual o pensamento, quando não inquirido, está sempre ameaçado de adormecer e de se estiolar.

François Jullien em Porto Alegre - 30 de setembro

13 de setembro de 2010 0

No sétimo módulo da série de conferências Mal-Estar na Cultura, coordenada pela Professora Kathrin Rosenfield, falará o francês François Jullien, um dos mais importantes filósofos europeus da contemporaneidade, quem eu já tive a oportunidade de entrevistar aqui no blog e para a revista Cult, de São Paulo. O título da conferência do Jullien será  As Transformações Silenciosas e o diálogo cultural entre Oriente e Ocidente. Trata-se de uma das temáticas mais palpitantes e atuais – a possibilidade de diálogo entre as culturas e a emergência de uma nova estética mestiça no planeta, analisada da perspectiva da filosofia.


O evento terá lugar no dia 30 de Setembro, quinta-feira, 19h, na Sala II do Salão de Atos da UFRGS.  Como o evento contatará com o sistema de Tradução Simultânea, as inscrições são limitadas. Assim, a organização pede, mesmo para os já inscritos no evento, que confirmem sua presença pelo e-mail difusaocultural@ufrgs.br.



A Organização é da Pró-Reitoria de Extensão

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Fones: 51-3308-3034/3933

www.difusaocultural.ufrgs.br

Mal-estar na cultura

30 de maio de 2010 0

Está muito legal a série de palestras e seminários organizados no âmbito do projeto “Mal-estar da Cultura: visões caleidoscópicas da vida contemporânea”, coordenado pela Professora Kathrin Rosenfield. Um funcional portal na Internet serve de plataforma de interação para os que acompanham a atividade. Veja aí: Mal estar na Cultura Há diferentes módulos em curso. J. M. Coetzee, Psicanálise e Literatura, Filosofia e estética, o mal-estar com a Lei e o Direito, corpo e esportes, o mal-estar nas artes, pós-colonialismo, são alguns dos diferentes módulos trabalhados, os quais podem ser acompanhados de forma virtual ou em aulas e conferências presenciais. Vale a pena conferir.

Graça Medeiros, astróloga: sustentabilidade e transparência são a chave da nova Era

22 de dezembro de 2009 16

Hoje posto para vocês entrevista com a astróloga Graça Medeiros. Ela é gaúcha. Estudou filosofia e jornalismo na UFRGS e foi produtora artística. Foi para a Europa em 1969, onde ficou até 1972. Entre 1974 e 1975 morou no Peru e em 1986 fixou residência nos Estados Unidos, residindo em Nova Iorque até hoje. Viajou ao Oriente em 1985 e em 1987, quando andou pelo interior da China e, por terra, levou três meses para chegar ao Tibet. Graça estuda astrologia desde 1972 e dedica-se com exclusividade ao assunto desde 1981. Ela tem diversos clientes em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Nova Iorque e México DF.


Nesta entrevista, ela fala dos princípios norteadores da astrologia e do ofício de astrólogo. Graça, que tem muitos clientes no mercado financeiro, comenta a percepção da crise internacional pelos astros e arrisca previsões para 2010.


Quais os princípios básicos da astrologia? Como se calcula um mapa-astral?


GM – O estudo da Astrologia é ancestral. Os primeiros documentos escritos conhecidos (escrita cuneiforme) em tabletes de barro estão no British Museum e são datados do século VII AC. É um tablete com anotações sobre o movimento de Vênus, que lá se chama de Ishtar e que nesse tempo tinha uma conotação andrógina, pois Vênus é o único planeta que se vê duas vezes no mesmo dia.


O conhecimento astrológico desenvolveu-se principalmente na Babilônia, mas vem de culturas anteriores como Sumérios e Acádios.


A observação dos corpos celestes e sua relação com a agricultura é a relação do ser humano, que deixa de ser nômade, e o cosmo. O homem parte da natureza. De um ponto fixo observa o céu e registra e estabelece relações.


Primeiro o movimento da Lua, do Sol e de corpos que se movem em relação às estrelas. A mudança de estações (equinócios e solstícios) que sempre foram celebradíssimos e ainda hoje o fazemos pela apropriação da religião que as transforma em festas de páscoa (equinócio) natal {solstício) etc… O aprimoramento do conhecimento foi acontecendo com o progresso dessas civilizações nas áreas da matemática e da geometria. Os conceitos tais como os conhecemos hoje datam do período em que a cultura Babilônica conectou-se com a cultura Grega, Persa e Egípcia, ao redor do século I (o clássico desse período é o Tetrablos, de Ptolomeu).


Os elementos que compõe o sistema astrológico são o espaço onde o Sol e seus planetas transitam no universo que denominamos Zodíaco ; no modelo matemático, o círculo de 360 graus divido em 12 partes, equivalente aos Signos, e o Sol e seus planetas com suas diferentes órbitas que nele se deslocam.


Os planetas têm o nome dos mitos e como observou Jung em The science of mithology, “a mitologia não foi inventada, foi percebida!” O estudo não é lógico. É simbólico e é muito melhor compreendido por quem conhece o conceito de fractal. Tudo se move e no universo não tem linha reta, só curva – o que sobe desce e depois sobe.


O mapa astral é como se fosse um retrato do céu na hora do nascimento de uma pessoa ou evento, visto desde o ponto de vista do horizonte do lugar (cidade) onde ocorre. Este “modelo” é a referencia que revela a estrutura e é a ele que nos referimos para poder relacionar os planetas hoje. A relação entre os planetas em movimento é o mapa natal.


O cálculo do mapa astral foi se aprimorando à medida que o conhecimento avançou, nas áreas da matemática e da geometria. Mas só no século 20 é que a Astrologia se democratizou, pois com a criação do meridiano de Greenwhich a referencia do tempo se padronizou. Só então puderam ser construídas as tabelas com a posição planetária. Isto gerou uma referencia matemática que nos possibilita calcular com muito maior precisão a carta celeste.

Graça Medeiros por Vania Toledo

Como a astrologia pode nos ajudar a nos compreender melhor?


GM – Faça o teste. Mas a coisa mais importante é que através desse conhecimento podemos medir o tempo. E se somos impotentes frente ao movimento cósmico e não podemos mudar nem o ritmo nem a órbita planetária, mas pelo menos sabemos quando tal circunstancia acaba. E se não podemos mudar a órbita dos planetas, quando faz um aspecto, podemos tentar descobrir o que temos que apreender em tal circunstância e qual o antídoto.

Você é uma das astrólogas mais famosas e bem sucedidas do Brasil. Qual é o seu segredo? O estudo da Filosofia, da História e da Psicologia, entre outras disciplinas, também ajuda na sua avaliação dos astros?


GM – O astrólogo é na verdade um tradutor de uma linguagem simbólica para o leigo. É possível que minha formação, que se iniciou na Filosofia e somou o conhecimento na área da comunicação e da psicologia, me ajudou a ter uma visão de mundo mais ampla, de forma a tratar o conhecimento astrológico como uma possibilidade no desenvolvimento da experiência humana, com a compreensão e não o julgamento.


Você acha que a astrologia hoje goza de ampla aceitação ou ainda é grande o preconceito e a resistência contra ela? Como esta resistência se processa?


GM – A resistência é do mundo acadêmico, que é extremamente preconceituoso e colonizado. A resistência começa na proibição da matéria pelo Concilio de Trento e depois pela ignorância, e de séculos em que a racionalidade foi restrita ao conhecimento lógico. Pela Lógica, não se explica Astrologia, uma linguagem analógica e simbólica.



Você tem clientes no Brasil, no México e nos Estados Unidos. Você percebe alguma diferença de perfil entre estes grupos de clientes, algum padrão específico de demandas que são postas com mais freqüência aos astros?

GM – Os interesses variam, mas não é com a nacionalidade, mas com o perfil das pessoas. O que uma pessoa do mercado financeiro busca é um tipo de informação, as informações mais pessoais dos ciclos de vida variam – mas em geral as pessoas que me procuram são as que refletem e buscam uma maneira de viver melhor, evoluindo. Eu posso dizer que a Astrologia é o melhor método que conheço para compreender e aproveitar melhor o processo do desenvolvimento.

Graça Medeiros por Vania Toledo


Como você interpreta, pela astrologia, o momento que o mundo atravessa? A crise mundial econômica pode ser interpretada e explicada pelos astros?


GM – A Astrologia “decodifica” os ciclos (órbitas planetárias são mensuráveis) através da compreensão da linguagem mitológica (planetas) e suas qualidades (signos) portanto tudo pode ser interpretado. Então, observamos o movimento planetário e quando um planeta que tem uma órbita muito grande, quando muda de signo – muda a qualidade e isso pode ser um indicador, filosófico, econômico, artístico. As milhares de possibilidades que existem formam padrões geométricos (distancias angulares entre 2 ou mais corpos celestes). O conhecimento desses aspectos e a freqüência em que ocorrem indicam possibilidades. Quando não temos a possibilidade de ter observado alguns desses aspectos, recorremos ao passado para ver quando ocorreu pela última vez e então podemos ter uma referencia para refletir. O importante é compreender que o conhecimento não é um carimbo que determina algo – mas um indicador para você se orientar, refletir e, além disso, saber que termina. No UNIVERSO TUDO SE MOVE.


A crise econômica que explodiu em 2008 foi uma mudança de valor – da expansão para a realidade. Hoje podemos claramente dizer que foi uma crise gerada pela ganância e falta de controle. Na época escrevi: GET REAL (com duplo sentido mesmo). Fui buscar quando pela última vez Plutão tinha entrado em Capricórnio e descobri que fora entre 1762 e 1777.  Passei então a formular o conceito de up grade do Iluminismo, que ainda postulo. Plutão entrou em Capricórnio em 2008 e ficará até Janeiro de 2024.



Você sugere então que este será um período (2008-2024) de novas formulações filosóficas e conceituais, que serão, como as do Século XVIII, utilizadas por muitos anos? Algo, enfim, que possibilitará um novo despertar do Espírito?



GM – SEM DÚVIDA!  O pensar e repensar e criar novos conceitos capazes de melhorarmos o nosso processo de desenvolvimento e organização social levando em consideração as mudanças tecnológicas e a administração dos problemas contemporâneos. É como reformatar o hard drive  – temos que semear uma nova fórmula  de contrato social sem medo de quebrarmos velhos paradigmas. Da família ao Estado.


Duas palavras são chave para adequar a nova ordem que se cria: SUSTENTABILIDADE e TRANSPARÊNCIA.


Este período da construção de novos paradigmas é mais importante que o século XVII e o XVI porque neste além da reflexão de valores somamos a reflexão de uma NOVA ERA. Cada Era é uma fração de 1/12 de um ciclo de 25.920 anos (ano platônico)


Já saímos da Era de Peixes e entramos na Era de Aquário? Quais são os conceitos-chave para a época que vivemos?


GM – Gosto de explicar que a mudança de Era não é marcada por um dia, mas é um processo longo ao redor de 100 anos, enquanto a transição se processa. A mudança de Peixes para Aquário é de água para ar. Do crer para o saber. As qualidades de Aquário são: saber, liberdade, autonomia, instantaneidade. Enquanto as religiões monoteístas negarem o evolucionismo estaremos atrasando o processo educacional para a evolução. O que tem que se compreender é que o que é pregado numa Era se materializa na era seguinte. Na Era de Peixes o que foi pregado é que somos todos iguais, enquanto isso não se tornar possível estaremos atrasando a evolução. Estamos todos no mesmo barco, o planeta Terra. E fazemos parte de um sistema. O nosso sistema planetário tem 13 bilhões de anos. Quando, em vez da arrogância humana, cultivarmos a simplicidade e a sabedoria, a Era terá desabrochado.


Lembro de você ter previsto que algo muito importante, que mudaria o mundo, aconteceria em setembro de 2001. Como os astros representaram o 11 de setembro como possibilidade?


GM – Eu previ um ano difícil para os USA. Falei em perdas no mercado e uma tendência de queda em Wall Street. Mas não imaginei que seria literal.



Você concorda com a visão hoje dominante que admite que o pior da crise já passou?


GM – A erupção da crise aconteceu em 2008, mas as conseqüências ainda não. Neste ano de 2010 viveremos uma das piores crises de desemprego, equivalente ao que aconteceu em 1932/1933, e a entrada de Urano e Júpiter em Áries pode trazer novas tecnologias, mas também um aumento bélico. Fique atento entre 27 de maio e 6 de junho.



Muitos de teus clientes são importantes investidores no mercado financeiro. Como a astrologia pode ajudar nos negócios?


GM – Esses clientes compreendem muito bem a linguagem cíclica e também usam o recurso como mais um dos fatores que lhes sinalizam altas e baixas. A Astrologia é um excelente instrumento para planejamento. Dependendo da vida de cada um, pode ser mais ou menos afetado, mas certos aspectos nos afetam a todos. Estamos no mesmo barco. E a tendência é de instabilidade e revoltas explosivas.




Há, em 2010, um período mais ou menos propício para investimentos financeiros?



GM – O ano de 2010 em termos financeiros será interessante e bastante positivo no que tange a produtos mais conservadores – principalmente de março a julho. A crise é de moeda e vai nos ocupar muito. Recomendo redobrada atenção aos movimentos do FED, principalmente no final de maio. Sob o ponto de vista econômico a tendência a altos índices de desemprego principalmente entre julho e agosto, o que fará o ultimo trimestre do ano, principalmente no hemisfério norte, o mais fraco.



Quais os conselhos que você daria para as pessoas em 2010?


GM – Astrólogo não é para dar conselho, ele mostra situações possibilidades, mas o “motorista” da vida de cada um é a própria pessoa. A vida é feita de escolhas. O que a Astrologia propicia com muita eficiência é a indicação da tendência. É mais como uma sinalização ao longo da rota (vida). Aquilo pelo que alguém vai passar muitas vezes não permite escolhas – a não ser COMO se vai passar por cada situação, e o que se pode aprender e evoluir como indivíduo em face desta ou daquela situação. Se fizermos sempre a mesma coisa, teremos sempre o mesmo resultado. A FELICIDADE É UMA JORNADA, NÃO UM DESTINO.

Positivismo no México e na Venezuela

28 de novembro de 2009 0

Tenho andado um pouco ausente do blog nos últimos dias. Estou passando estes dias em São Roque, próximo a São Paulo, tomando parte em um colóquio, que se realiza em um hotel da região, sobre os embates entre o positivismo e o liberalismo no México e na Venezuela, no século XIX e princípios do século XX. Os debates e as leituras têm me absorvido de tal maneira que acabei me distanciando um pouco das outras atividades. Além disso, a Internet aqui é lenta.

Estou especialmente animado com a leitura de José Vasconcellos, um ensaísta mexicano de grande erudição e pensamento libertário, que chegou a ser ministro da educação no México. Um de seus livros, “Raça Cósmica”, que eu já havia lido há uns dois anos, é um poderoso transe metafísico. Muito antes de Gilberto Freyre, Oswald e Mário de Andrade, Vasconcellos exalta a mestiçagem biológica e cultural dos latino-americanos, teorizando sobre ela. Muito antes de Stephen Zweig ele afirma ser o Brasil o país do futuro. Vale conferir.