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Posts na categoria "História"

Livro novo - 100 do Contestado: memória, história e patrimônio

13 de junho de 2014 0

 

O jornalista Paulo Clóvis Schmitz, do Jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, produziu essa matéria bem legal sobre o livro 100 Anos do Contestado: memória, história e patrimônio, do qual sou um dos organizadores e que foi lançado na segunda-feira dia 9 em um bonito evento promovido pelo Ministério Público de Santa Catarina no Palácio Cruz e Souza, em Florianópolis. Materia ND Contestadorevisitado

No site do MPSC saiu essa matéria: 100 anos do contestado.

 

 

 

 

 

 

Livro novo: A Faculdade de Direito de Porto Alegre/UFRGS: memória, ensino e política, desde 1900.

31 de maio de 2014 1

Em 25 de abril passado foi lançado no Salão Nobre da Faculdade de Direito da UFRGS meu novo livro A Faculdade de Direito de Porto Alegre/UFRGS: memória, ensino e política, desde 1900. O livro tem 192 páginas, com papel couchê e formato 27,5 cm X 21,5 cm, com seleção de cores, com fotos da fotógrafa Adriana Donato, design de Maria do Rosário Grossi. A pesquisa foi abrigada pelo Núcleo Diversitas da USP, programa de pós-graduação interdisciplinar. Trabalhamos por quatro anos na edição dessa obra e o resultado geral me deixou bem satisfeito. Não foi nada fácil alcança-lo, pela complexidade do tema, que exigiu considerável esforço de pesquisa, e porque o projeto, realizado sob os auspícios da Lei Rouanet, captou apenas cerca de 40% do valor autorizado, o que nos obrigou a uma série de cortes e ajustes. O livro, selado pela editora Paiol, não será comercializado.

A Faculdade de Direito da UFRGS, fundada entre 17 de fevereiro e 3 de maio de 1900, com a denominação de Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, é uma das mais tradicionais e influentes escolas de Direito do País. Foi a primeira Faculdade de Direito do Rio Grande do Sul, a primeira do Sul do Pais e a sexta instalada no Brasil.
A instalação solene da Faculdade ocorreu a 3 de maio de 1900, com a presença, entre outras autoridades, do Presidente do Estado, Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, e do chefe republicano Júlio Prates de Castilhos. Refletindo o pendor da cultura jurídica gaúcha para o direito público, sua aula inaugural, em 4 de maio, foi proferida pelo professor Plínio Casado, responsável pela disciplina de Direito Público e Constitucional.
Foi seu primeiro diretor o Des. Carlos Thompson Flores, com mandato de quatro anos. Sucedeu-lhe o professor Manoel André da Rocha, que permaneceu no cargo por três décadas até assumir a Reitoria quando da fundação da Universidade de Porto Alegre em 1934. Foram ainda seus diretores Luiz Mello Guimarães, Leonardo Macedônia Franco e Souza, Edgar Luiz Schneider, Elpídio Ferreira Paes, José Salgado Martins, Eloy José da Rocha, Galeno Vellinho de Lacerda, Ruy Cirne Lima, Fernando Jorge Schneider, Clóvis Veríssimo do Couto e Silva, Almiro Régis Mattos do Couto e Silva, José Sperb Sanseverino e Peter Walter Ashton.
Por seus bancos escolares passaram ilustres homens públicos, entre os quais Getúlio Vargas, Joaquim Maurício Cardoso, João Neves da Fontoura, João Goulart, Francisco Brochado da Rocha, Alberto Pasqualini. Contou entre seus professores com algumas das mais altas expressões da cultura jurídica do país. A sua influência sobre a cultura jurídica e sobre a política do País é imensa, sendo ombreada apenas pela Faculdade do Largo de São Francisco, da USP.
Já quando dos debates na Assembleia Constituinte de 1823, a elite política brasileira teve plena consciência da importância do ensino superior, impulsionado pelo Estado, para a construção do Estado nacional. A criação dos cursos jurídicos em 1827, por iniciativa governamental, possibilitou tanto a constituição de uma burocracia qualificada para a gestão do Estado, como a sistematização da nova ideologia político-jurídica, de tal forma que Joaquim Falcão pode dizer que “a criação dos cursos jurídicos confunde-se com a formação do Estado nacional”.
Ao longo de sua história, os cursos jurídicos no Brasil, através da formação de sucessivas gerações de bacharéis, têm alimentado as instituições, em especial as instituições constitucionais. Surgida sob o impulso da modernização da sociedade, a história desta Faculdade de Direito está estreitamente ligada à história republicana do Estado e do país.
Desde cedo revelou sua vocação universalista. Sua criação marcou o início dos cursos humanísticos no Estado. A Escola de Comércio de Porto Alegre, futura Faculdade de Ciências Econômicas, originou-se em 1909 na Faculdade de Direito, desligando-se apenas em 1945. A Faculdade de Educação, Ciências e Letras, futura Faculdade de Filosofia, instituída em 1936, embora funcionando apenas a partir de 1942, instalou-se durante algum tempo em seu prédio. Por ocasião da fundação da Universidade de Porto Alegre, em 1934, a Reitoria localizou-se na Faculdade de Direito.
Funcionando inicialmente no antigo prédio do Liceu (Escola Normal), localizado na esquina das ruas Duque de Caxias e Bragança, hoje Marechal Floriano Peixoto, transferiu-se, em 1910, para a atual construção neoclássica na Avenida João Pessoa, réplica do “Palais du Rhin”, em Estrasburgo, antigo palácio de verão do Kaizer Guilherme II, imperador da Alemanha. O famoso arquiteto Theodore Wiedersphan assumiu a construção do prédio, a cargo da célebre firma porto-alegrense de Rudolph Ahrons. Já em 1913, o prédio recebia o ex-presidente norte-americano Theodor Roosevelt.FAC_DIR_UFRGS_capa_baixa

Decifra-me ou te devoro: o enigma de Vargas

31 de maio de 2014 0

 

Saiu na Zero Hora do dia 18 de maio um artigo meu no novo Caderno PrOA a propósito do novo filme sobre o Getúlio Vargas. Copio aí abaixo o link em html.

 

Decifra-me ou te devoro: o enigma de Vargas

Flores Raras, filme de Bruno Barreto sobre romance entre urbanista Lota de Macedos Soares e poetisa Elizabeth Bishop

08 de setembro de 2013 4

Não sou especialista em Elizabeth Bishop, tampouco na história de Lota de Macedo Soares, mas fui assistir essa semana ao filme Flores Raras, dirigido por Bruno Barreto, e me chamaram a atenção algumas impressões, que compartilho aqui, de forma meio descosida. Confesso que eu estava com certa má vontade inicial em relação ao filme, porque me enjoa ver no cinema esse dramalhão abotoadinho de novela das seis que virou meio típico dos filmes dos Barreto. O último que eu assistira do pessoal foi uma porcaria constrangedora, A Paixão de Jacobina, dirigido pelo Fábio Barreto, em 2002. Era a estreia, no Festival de Gramado de 2002, salvo engano, e foi muito difícil ficar até o final de sessão. Mas Flores Raras é bem razoável e chega-se ao final com relativo entusiasmo.

Acho que, no geral, o filme recria bem os cenários de época propostos e o figurino é bom. As atrizes – Glória Pires, Miranda Otto e Tracy Middendorf – estão todas muito bem nos papeis, sendo competentemente dirigidas.

É louvável o destaque dado à Lota na concepção e construção do Parque do Flamengo, talvez, uma das maiores contribuições femininas à arte, dado as suas dimensões, seu magnetismo conceitual e sua importância diária na vida de milhões de pessoas. Até há pouco tempo, quando se falava do Parque do Flamengo, ouvia-se em geral por aí apenas os nomes de Burle Marx e Affonso Reidy, o que é injusto. O filme parece acertar também numa boa caracterização psicológica da Elizabeth, figura conectada de forma meio mórbida com os traumas de uma infância solitária e infeliz.

Também creio que o tema do homossexualismo feminino foi tratado com elegância. Há cenas diretas de romance e erotismo, corajosas, abordadas com respeito e beleza, livres de estereótipos banais. Jovens de hoje em dia podem se perguntar como duas mulheres lésbicas podiam transitar com tanta desenvoltura e tranquilidade pelos melhores salões da época. Num país ainda praticamente desprovido de classe média, elas integravam a elite e faziam-no com autonomia financeira. Além disso, eram reservadas, não se expondo aos beijos em público. Nessas condições, membros da elite gozavam no Brasil de razoável margem de manobra em face à moral convencionada. Basta lembrar-se de Dom Pedro I, que só mobilizou de fato a repulsa da sociedade contra a sua relação extraconjugal quando quis impor sua amante, a Marquesa de Santos, goela abaixo de todos em plena Capela Imperial, ou nomeando-a dama de companhia da Imperatriz.

Mas há também licença poética do diretor em relação à história. Mary Morse é descrita como uma medíocre moça de classe média, mas isso talvez possa ser injusto para com ela e para com o real papel desempenhado no triângulo amoroso. Inculta, ela não era. Até onde sei, Lota e Bishop se conheceram por intermédio de Morse, de fato, mas em Nova Iorque, antes dela vir ao Brasil, e não em Petrópolis. Bishop desembarcou no Brasil pelo porto de Santos e não pelo do Rio de Janeiro, cidade que alcançou de trem. O apartamento de Lota era no Leme e não no Posto 6 em Copacabana. O carro de Lotta nessa época era um jaguar vermelho, e não um esportivo branco. Lota, segundo todos os relatos, fascinada por corridas e carros esporte, dirigia agressivamente – a quantidade de multas de trânsito recebidas seria proverbial.

Bishop ficou hospedada no apartamento do Rio de Janeiro, depois na casa das Samambaias. O primeiro contato com as peças de Calder foi nesse apartamento, pois boa parte da mobília de Lota levava a sua assinatura. Foi no Rio de Janeiro, e não na serra, que Bishop teve a alergia decorrente do caju. É verdade que foi por causa das atenções recebidas nesse momento que se apaixonou pelo país, mas Bishop já estava interessada em Lota quando veio para o Rio de Janeiro.

A Casa das Samambaias não é nada daquilo que o filme mostra, pois era rústica, geométrica e inacabada: um galpão, com cobertura singela de telhas de alumínio. O chão era de cimento, marcado por pegadas de cachorro, a iluminação feita com lampiões a querosene. A decoração era despojada, crua. Aquele jardim perfeitamente concluído de Burle Marx não existia. Bishop descreve esse cenário em suas cartas. Mas Barreto preferiu lê-lo com hipérboles hollywoodianas.

Quando da época da construção do Parque do Flamengo, Lota estava grisalha e gordinha, informação que o filme não incorporou. Dá a impressão de que Barreto quis preservar uma fictícia ilusão estética de juventude típica de comédia gosmântica. Lota era muito enfática ao falar, o que lhe valeu alguns bons atritos. Mas o filme a caracteriza de forma excessivamente ponderada em diversas passagens, sobretudo da metade em diante. Também achei que não foi feliz ao representar a tensão e o drama que vertiam entre Lota e Bishop. As duas, segundo vários relatos, eram muito intensas. Nesse sentido, o filme foi contido.

Achei ridícula a passagem que atribui a Bishop um posicionamento político militante, contra Carlos Lacerda e contra o golpe militar de 1964. Bishop gostava muito de Lacerda e apoiava-o apaixonadamente. Ela defendeu a “revolução de 1955” e procurou apoiar Lacerda no exílio nos Estados Unidos, indicando-lhe contatos. As cartas a Robert Lowell revelam tendência ao pensamento liberal conservador, repulsa ao comunismo chinês e soviético, simpatia a movimentos contrarrevolucionários de cunho conservador e acendrado patriotismo norte-americano. Bishop apenas criticou Lacerda quando este se aliou a JK e a Jango, em 1966, justamente porque estaria traindo sua posição ideológica anti-getulista e anti-comunista, nesse sentido acompanhando a opinião de Lota, que a esta altura estava rompendo com o velho amigo. Bishop, mais tarde elevada à condição de ícone do feminismo e do movimento lésbico, não aprovava a revolução sexual dos anos 1960 e não se empolgou com o feminismo. Era, em grande medida, uma dama puritana, embora muito bem integrada à elite modernista brasileira.

O Brasil foi determinante na sua vida e para sua arte. Dominou razoavelmente bem o português, chegando a se dedicar a traduções. Apreciava alguns poetas e escritores brasileiros e portugueses. Mas jamais deixou de ser uma típica anglo-americana e a brasilidade não impregnou a sua escrita de maneira antropofágica e intercultural. Nunca se adaptou completamente à culinária local. Gostava de ser servida pelos “negros” da casa, mas não se conformava com a incapacidade dos criados de preparar ovos mexidos ou cozidos no ponto. Agradecia a Lowell pelo envio de temperos de Nova Iorque, já que não se adaptava bem com os locais. Detestava o carnaval, que considerava “coisa dos negros”, embora reconhecesse que o samba era boa música. Lota e Bishop ficavam apreensivas cada vez que o casal Calder vinha visita-los, porque eles gostavam de festejar e pular o carnaval a noite toda.

A alusão de que ela não lia bem em francês me pareceu ultrajante! Bishop morou em Paris antes de vir ao Brasil. A umbilical relação de Lota com Nova Iorque também é desprezada, o que é uma bobagem, pois Lota ajudou a introduzir no Brasil a paixão por esta cidade – ela, aliás, foi criticada na época por gostar tanto de uma metrópole então considerada vulgar pela elite brasileira. As duas, inclusive, passaram longas temporadas juntas em Nova Iorque, muito antes do trágico suicídio de Lota. E a jovem estudante, que se tornou amante de Bishop nesse entremeio, veio ao Brasil, hospedando-se, contudo, na Casa Mariana, a casa que a poetisa americana adquiriu em Ouro Preto, enquanto Lota ainda era viva. Depois da morte de Lota, Bishop continuou vindo ao Brasil regularmente.

O pai de Lota é retratado como um puritano preconceituoso. Lota não rompeu com ele por desaprovação ao seu lesbianismo, mas por questões familiares bem mais complexas. A família foi duramente impactada pelas perseguições de Getúlio Vargas e o pai de Lota deixou-as sem boa parte da herança. Mas, até onde se sabe, salvo engano, Lota nunca aprovou uma disputa judicial com o pai.

Lançado livro AJ Renner (1884-1966), capitão de indústrias

14 de agosto de 2013 0

Nessa segunda-feira foi o lançamento do meu último livro A. J. Renner (1884-1966), capitão de indústrias, realizado em parceria com os irmãos Eduardo (Peninha) e Fernando Bueno. O livro, que conta a trajetória do empresário gaúcho AJ Renner, fundador do conglomerado de empresas Renner e cuja vida profissional iniciou-se no lombo de uma mula como caixeiro viajante na região serrana, tem design bem cuidado do Sandro Fetter e produção de Adriana Donatto. Há anos me interesso por esse personagem, que seguiu um modelo fordista de produção e antecipou para seus funcionários muitas das garantias trabalhistas que apenas mais recentemente se difundiram, como a participação dos trabalhadores no lucro das empresas. Nos anos 1990, publiquei um livro em parceria com a Luiza Kliemann sobre as Tintas Renner. Alguns anos mais tarde, pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, organizei uma coletânea de discursos e artigos de A.J. Esse livro, agora, publicado pela Editora Paiol, é a coroação dessa pesquisa. E foi ótimo trabalhar em parceria com os irmãos Bueno e com toda a equipe que auxiliou na confecção do livro. A coluna da Milena Fischer na Zero Hora de hoje reproduz algumas fotos bem bacanas do lançamento no Memorial da Livraria do Globo, no centro de Porto Alegre.

AJ Renner CAPA

Novas chamadas de artigos para a revista Interfaces, Brasil/Canadá

25 de maio de 2013 0



Caros, reproduzo abaixo novas chamadas para artigos na revista Interfaces, Brasil/Canadá, órgão oficial da Abecan (Associação Brasileira de Estudos Canadenses), uma publicação acadêmica junto a qual atuo como editor.


Interfaces 17/2013 (Relações Canadá/ América Latina)

Editores convidados:

Profa. Dra. Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Prof. Dr. Hugh Hazelton (Concordia University)

Data para envio de textos: 30 de agosto 2013

Edição da revista: 30/12/2013


Relações Canadá/América Latina: economia, política, história, sociedade (sociologia e antropologia), cultura artística e literária (artes plásticas, música, literatura). Gestão pública e movimentos sociais. Políticas de colaboração, transferências tecnológicas e movimento intelectual entre América Latina e Canadá. Diásporas latino-americanas no Canadá. A formação cultural latino-canadense: extraterritorialidade, bilinguismos, poéticas do deslocamento. O sujeito interamericano e a tradução cultural e literária. Relações literárias transamericanas: a literatura latino-canadense.



Interfaces 17/2013 (Relations between Canada and Latin America)


Invited Editors:

Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Hugh Hazelton (Concordia University)


Relations between Canada and Latin America: economics, politics, history, society (sociology and anthropology), artistic and literary culture (fine arts, music, literature). Public administration and social movements. Collaborative programs, technology transfer and intellectual exchange between Latin America and Canada. The Latin American diaspora in Canada. The formation of Latino-Canadian culture: extraterritoriality, bilingualism, the poetics of migration. The Inter-American subject and cultural and literary translation. Trans-American literary relations: Latino-Canadian literature.

Interfaces 17/2013 (Relations entre le Canada et l’Amérique latine)


Éditeurs invites:

Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Hugh Hazelton (Concordia University)


Relations Canada/Amérique latine : économie, politique, histoire, société (sociologie et anthropologie), culture artistique et littéraire (arts plastiques, musique, littérature). Gestion publique et mouvements sociaux. Politiques de collaboration, transferts technologiques et mouvements intelectuels entre l’Amérique latine et le Canada. Diaspora latino-américaine au Canada. La formation culturelle latino-canadienne : extraterritorialité, bilinguisme, poétiques de migration. Le sujet interaméricain et la traduction culturelle et littéraire. Les relations littéraires transaméricaines: la littérature latino-canadienne.


Interfaces 17/2013 (Relaciones Canadá/ America Latina)

Editores invitados:

Profa. Dra. Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Prof. Dr. Hugh Hazelton (Concordia University)


Relaciones Canadá/América Latina: economía, política, historia, sociedad (sociología y antropología), cultura artística y literaria (artes plásticas, música, literatura). Gestión pública y movimientos sociales. Políticas de colaboración, transferencias tecnológicas y movimiento intelectual entre América Latina y Canadá. Diásporas latinoamericanas en  Canadá. La formación cultural latinocanadense: extraterritorialidad, bilingüismos, poéticas del desplazamiento. El sujeto interamericano y la traducción cultural y literaria. Relaciones literarias transamericanas: la literatura latinocanadense.



Número 18, Interfaces Brasil-Canadá, jan.-jun. 2014

Editora convidada: Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

Prazo de envio dos artigos: 15 de março de 2014


O papel da Memória Social em territórios multiétnicos e transculturais, como o Brasil e o Canadá. Refletir sobre o papel da memória coletiva e social em contextos de hibridação cultural; discutir o novo papel da memória social em territórios culturais marcados pela diversidade e pelo caráter relacional que se estabelece a partir das passagens inter e transculturais. A partir do pensamento fertilizador de pesquisadores do Quebec como Fernand Dumont, que nos fala do futuro da memória; Jocelyn Létourneau, que propõe uma nova relação com a cultura, “como memória e como horizonte”; ou Gérard Bouchard, que alerta para os “jogos e nós de memória”, verificar nas práticas sociais, na história cultural e na literatura o papel inovador que pode assumir a Memória social, em tempos de globalização.

Numéro 18, Revue Interfaces Brasil-Canadá, jan.-juin 2014

Éditrice invitée : Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

Délai pour la remise des articles : le 15 mars 2014

Le rôle de la Mémoire Sociale dans des territoires multiethniques et transculturels comme le Brésil et le Canada. Réfléchir sur le rôle de la Mémoire sociale et collective dans des contextes d´hybridation culturelle; discussion sur le nouveau rôle de la mémoire sociale dans des territoires marqués par la diversité et par le caractère relationnel qui s´établit à partir des passages inter et transculturels. Ayant pour base les fertiles propositions des chercheurs québécois comme Fernand Dumont, qui nous parle de l´avenir de la mémoire; comme Jocelyn Létourneau, qui propose une nouvelle relation avec la culture « comme mémoire et comme horizon » ; ou Gérard Bouchard qui attire notre attention sur « les jeux et les nœuds de mémoire », vérifier dans les pratiques sociales, dans l´histoire culturelle et la littérature le rôle innovateur qui peut jouer la Mémoire Sociale en temps de mondialisation.


Number 18, Interfaces Brasil-Canadá, jan.-june 2014

Guest editor: Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

Deadline for submissions: March 15, 2014

The role of Social Memory in multiethnic and transcultural territories such as Brazil and Canada. Reflecting on the role of collective and social memory in cultural hybridity contexts; discussing the new role of social memory in cultural territories marked by diversity and by a relational character that establishes itself from inter and transcultural passages. Originating from the fertilizing thoughts of Quebec researchers as Fernand Dumont, who discusses the future of memory; Jocelyn Létourneau, who proposes a relationship with culture, “as memory and as horizon”; or Gérard Bouchard, who warns about the “games and knots of memory”, to verify in social practices, in cultural history and in literature the innovative role that Social Memory can represent in globalizied times.

A lenta unificação italiana

25 de maio de 2013 0

O desaparecimento do Império Romano provocou uma involução política na península italiana, pela fragmentação: cada região tornou-se um paese. Esse espírito localista ficou conhecido como “mentalidade de campanário”. O território, dividido entre 60 cidades que se intrigavam constantemente, era convite à invasão estrangeira, sendo disputado pela França, Espanha e Áustria. Os italianos mostraram-se incapazes de se unir, cada qual tentando tirar algum proveito da ocupação estrangeira para usá-la contra os rivais locais: Milão X Veneza X Gênova; Florença X Pisa, e assim por diante. Além disso, o Sacro Império Romano-germano (fundado por Otão em 962) fraturava-se entre gibelinos e o papado (guelfos), cada qual tentando hegemonizar o controle político, polarizando entre si ao longo da Idade Média.

A situação desesperava intelectuais. Dante, em 1310, escreveu um ensaio propondo um acordo entre o papado e o Sacro Império. Petrarca, em 1347, celebrou a grandeza romana passada nos poemas África e Canção da Itália. Maquiavel sonhou com um príncipe capaz de liderar unificação em 1513. Mas o Renascimento do Humanismo e da Ciência, entre os séculos XV e XVI, não conseguiu chegar à política. A Itália permanecia desunida.

Com a Revolução Francesa, a região reviveu o sentimento de voltar a formar uma pátria: Napoleão Bonaparte era de família da Córsega e incendiou a imaginação italiana. Em 1797 fundou a República Cisalpina (que englobava a Lombardia e parte dos estados pontifícios, estabelecidos em 756), mais tarde a rebatizando de República Italiana. Este foi o futuro embrião do estado nacional italiano. Mas durou apenas até 1804.

No Norte, na Lombardia e no Vêneto, o nacionalismo se fortificou, como reação à ocupação austríaca, mesmo após a derrota de Napoleão, em 1815. O Sacro Império, encabeçado pelo imperador austríaco, havia assegurado seus direitos sobre esta região pelo Tratado de Rastatt em 1714, não pretendendo dela abrir mão. Mas Napoleão ajudou a disseminar um mito romântico do estado étnico, sedimentando o nacionalismo semeado pela Revolução Francesa.

Dentre os desdobramentos da Revolução de 1848, na França, conhecida como a “primavera dos povos”, estalou uma sublevação contra o domínio austríaco. Mas, apesar de Giuseppe Garibaldi, hábil e corajoso, foi frustrada por inépcia militar e falta de unidade interna. Muitos ainda preferiam suportar o despotismo a aceitar ideias socialistas advogadas por outro líder, Giuseppe Mazzini: defendiam a igualdade política na teoria, mas igualitarismo econômico poucos queriam. Assim, o republicanismo caiu em descrédito.

Entrementes, grupos dominantes por toda a Europa reabilitam a Igreja católica, abalada com o Iluminismo e a Revolução Francesa, pois viram nela uma forma de guardar o populacho contra as “heresias sociais”. O Papado fez novos acordos com Espanha, França, Áustria.

Em 1852, fracassou um levante em Mântua. No ano seguinte, uma sublevação em Milão foi desbaratada. Em julho de 1857, 300 seguidores de Mazzini foram trucidados por camponeses em Sanza, que os tomaram por bandidos. A centelha política do socialismo romântico se apagava.

Depois desses sucessivos fracassos, republicanos e democratas se colocaram a reboque da política de Conde Camilo de Cavour, que passou a liderar a unificação. O Primeiro Ministro do Piemonte, depois de 1848, defendeu o constitucionalismo, investiu em irrigação e modernização da agricultura, renovou a indústria, ativou o comércio (mediante tratados com França, Bélgica e Países Baixos), renovou o sistema fiscal e fortaleceu os bancos. Garibaldi, engenho militar do movimento, aderiu à causa. Mas manteve-se fiel aos princípios republicanos. Quando finalmente foi eleito ao parlamento nacional, criado em seguida à vitória do Reino do Piemonte na 2ª Guerra da Independência (1859), renunciou por se negar a prestar juramento a um monarca.

As principais unidades políticas na Itália, então, eram o Reino do Pimonte (capital Turim), da Lombardia (Milão), a República de Veneza, o Reino das duas Sicílias (Nápoles), os Estados Pontifícios (Roma), o Ducado de Parma e o Ducado de Módena. Cavour cerziu uma complicada engenharia militar-diplomática. A entrada do Piemonte-Sardenha na malfadada Guerra da Criméia (1853-56) lhe deu voz internacional. Mas as esperanças de Cavour não se concretizaram no Congresso de Paris, que discutiu a paz, e a questão italiana não entrou na pauta das grandes potências.

Em janeiro de 1857, Cavour estabeleceu um tratado secreto com Napoleão III contra a Áustria, pelo qual a França prometia defender a Sardenha em caso de ataque. Napoleão não desejava enfraquecer o Papa, mas estava de olho nas sobras de eventual esfacelamento de possessões austríacas na região. Cavour, assim, provocou Viena, que abriu hostilidades em abril de 1959. Em 4 de junho desferiu-se a grande batalha de Magenta, com derrota austríaca. Em seguida, no dia 24, o embate sanguinário de Solferino. Napoleão ficou deprimido com a matança e temeroso de que Prússia se aliasse à Áustria, precipitando o concerto da paz com Francisco José, Imperador austríaco, sem consultar seus aliados sardos. Cavour quis que a Sardenha prosseguisse sozinha na luta e renunciou ao cargo quando o pragmático rei do Piemonte, Vitor Emmanuel, aceitou a decepcionante paz. A Sardenha ganhou a Lombardia, mas Veneza permaneceu em poder austríaco.

Plebiscitos, então, foram desferidos em Parma, Modena, Romania e Toscana, que decidiram se unir à Sardenha. Partidários da União se lançaram contra Roma e Nápoles. Garibaldi desembarcou com os famosos Mil na Sicília e se apoderou da ilha. Semanas depois, foi recebido em Nápoles como libertador. Estava a ponto de avançar sobre Roma, quando Cavour, reposto no cargo, frustrou a investida, temendo que as potências católicas acudissem o Papa Pio IX e o processo de unificação refluísse. Em 17 de março de 1861, foi proclamado novo Reino da Itália, tendo Victor Emanuel por rei e o Statuto piemontês de 1848 por Constituição.

Cavour morreu em 6 de junho de 1861, esgotado pelos esforços. A Itália unificada era já uma realidade, mas o processo não terminara. Em 1866, na chamada IIIª Guerra da Independência, italianos liderados pelo intrépido Garibaldi lutaram contra os austríacos para libertar Veneza, logrando êxito. Mas um tratado foi assinado antes de conseguirem capturar Trento, que só aderiu à Itália na Primeira Guerra Mundial. Roma, por sua vez, continuava sob domínio papal. Em 1870, a guarnição francesa que protegia o Papa se retirou da cidade, invadida então pelas tropas de Vitor Emmanuel, que encerraram o Papa no Vaticano. Seria preciso esperar pelo século XX para que um acordo entre a Itália e o papado se firmasse.

A Revolução de 1848 na Prússia e na Áustria

20 de abril de 2013 2

O Congresso de Viena, entre 1814 e 1815, fixara a divisão das Alemanhas em 39 reinos, ducados e cidades livres, que tinham em comum apenas o idioma alemão. As fronteiras dessa Confederação Germânica mais ou menos correspondiam às do antigo Sacro-Império Romano-Germânico, mas a quantidade de membros diminuiu. Todos mantinham a autonomia, mas se comprometiam com mútua defesa.

A Prússia e a Áustria, que dominava a Dieta, espécie de congresso, localizada em Frankfurt, eram as principais potências da região. A estrutura econômica era basicamente feudal, a exceção da Prússia, mais industrializada, que desde 1834 capitaneava a Zollverein, uma união aduaneira paralela à Confederação, mas que não incluía a Áustria, Hamburgo, Bremen e Holstein. Grande parte do território da Áustria e também parte da Prússia não integrava esta liga, o que lhes permitia atuar como países autônomos.

A dinâmica dos votos na Dieta era complexa. Os votos não representavam cidadãos, ou eleitores, mas monarcas e países: 23 membros menores compartilhavam cinco votos; seis outros Estados contavam um voto cada – os reis da Baviera, Saxônia, Vürttemberg, o príncipe-eleitor de Hesse e os grão-duques de Baden e do Hesse; as cinco cidades livres de Lübeck, Frankfurt, Bremen e Hamburgo compartilhavam um voto; três estados eram governados por soberanos estrangeiros – os reis da Dinamarca, dos  Países-Baixos e do Reino-Unido (até 1837) eram membros da Confederação Germânica como, respectivamente, duque de Holstein, grão-duque de Luxemburgo (sem raízes germânicas) e rei de Hanôver, com um voto cada. A Confederação seria extinta apenas em 1866.

A partir da revolução de 1848 na França, marcada pela abdicação de Luís Felipe I, sublevações eclodiram em Viena, Berlim e em outras cidades, cerzindo uma aliança entre operários e burgueses em torno de almejadas reformas liberais e autonomistas, no movimento conhecido como a Primavera dos Povos. A Hungria, a Boêmia, a Polônia e a Lombardia exigiram independência da Áustria.

Em março, o todo-poderoso ministro das relações exteriores austríaco Metternich fugiu para a Inglaterra e o Imperador Francisco I precisou outorgar uma Constituição. Um novo levante, em maio, obrigou-o a convocar uma Assembleia Nacional, eleita pelo sufrágio universal masculino – a primeira da história da autocrática Áustria.

Mas burguesia, temerosa diante do que identificava por radicalismos, voltou atrás, optando por sujeitar-se a um governo centralizado. O exército sufocou a revolta e em outubro o novo primeiro-ministro Schwarzenberg dissolveu a Constituinte. Fernando I abdicou em favor de seu sobrinho Francisco José, que restaurou o absolutismo da tradicional casa dos Habsburgo.

Enquanto isso, em Berlim barricadas e confrontos com tropas obrigaram o Rei Frederico Guilherme IV a convocar uma Assembleia, em maio. O nacionalismo alemão era uma força de coesão, ao passo que no multiétnico Império Austríaco funcionava como fator desagregador. Mas os debates se arrastaram. Até que uma revolta da população de Schleswig e Holstein contra Frederico VII da Dinamarca precipitou decisão da Assembleia, pois a Prússia foi comissionada para intervir militarmente em defesa dos alemães daqueles reinos, numa fórmula mais patriótica do que parlamentar.

A solução para o impasse foi assim um Reich Federal, com parlamento nacional presidido pelos Hohenzollern, reis da Prússia. O projeto de Constituição acolheu no capítulo dos direitos fundamentais o que havia então de melhor nas liberdades gerais, inclusive o voto universal. Mas Guilherme IV recusou a coroa da nova Alemanha, porque oferecida por uma Assembleia popular, e não pelo direito divino e dinástico, repelindo a Constituição.

Foi grande a frustração dos liberais. O processo de unificação estagnou e a revolução foi enfraquecida. Em protesto, uma minoria radical se reuniu em Stuttgart, mas as sessões eriçadas foram interrompidas pelos soldados de Würtemberg, em junho de 1849.

Assim, fracassou a via parlamentar para a unificação alemã e o arrogante Guilherme IV, sabotando a Constituição, perdeu a chance de conduzir o processo. Diante do vácuo de poder, Schwarzenberg, em Viena, decidiu reconstituir a débil Dieta. Precipitando-se choques entre as chancelarias Berlinense e Vienense, o czar Nicolas I da Rússia apoiou Áustria. Para não se expor a uma guerra, Guilherme IV recuou. Assim, a projetada União Prussiana foi dissolvida e a Dieta da Confederação Alemã se reestabeleceu. Foi um revés humilhante para a diplomacia Hohenzollern.

A Europa central terminou o ano de 1849 com a restauração dos princípios arbitrários. O único avanço foi o Landtag prussiano, um parlamento controlado pela burguesia que podia aprovar novas leis, mas não elegia ministros. Seria preciso a Prússia de Otto von Bismarck nos anos 1860 para a unificação alemã avançar, mas dessa vez sobre bases militaristas e autoritárias. Já o velho império do Danúbio permaneceria como um anacronismo, até ser abatido pela força dos novos acontecimentos.

Seminário Brasil Portugal, no IHGB

25 de março de 2013 0

Bem legal a programação do Seminário Brasil/Portugal que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro preparou para os primeiros dias de abril. Confere aí. Folder Brasil Portugal FINAL

A Revolução de 1848

17 de março de 2013 0

Em 1848, uma onda de revoluções varreu a Europa. As péssimas colheitas de 1845, em função da quebra da safra de trigo e de uma praga que se abateu sobre a cultura da batata, haviam elevado o custo de vida e detonado uma série de insurreições camponesas em 1846. A Irlanda, um dos países mais atingidos, viu sua população recuar em 50% nos 30 anos seguintes, em decorrência da fome e das migrações em massa (sua população havia quadruplicado nos últimos 100 anos antes da crise).

Houve aumento generalizado de pobreza, fechamento de fábricas e queda do valor dos salários. Levantes operários, como os ocorridos na cidade francesa de Lyon, foram duramente reprimidos. As classes médias, por sua vez, continuavam demandando pela ampliação dos espaços de representação política. Setores da burguesia e da nobreza também estavam insatisfeitos e cobravam reformas liberais, tanto nos países mais democráticos, como a França, como nas autocracias da Europa Central, como a Prússia e a Áustria. Nos vastos impérios multiétnicos, como a Áustria, que se estendia da Itália aos Balcãs, fermentava o nacionalismo das minorias.

Mas foi na França onde tudo, mais uma vez, começou. Luís Felipe I, fazendo um reinado ultraconservador, apoiado por banqueiros, julgava-se solidamente instalado no poder. No entanto, a crise trouxera o fantasma de uma grande massa de desempregados, enquanto trabalhadores, socialistas e até alguns burgueses pressionavam pela adoção do sufrágio universal em substituição ao voto censitário, então em voga. Manifestações desordenadas espocaram em fevereiro de 1848 em frente à casa do impopular ministro François Guizot. Um tiro foi disparado e as tropas responderam, com um saldo inesperado de 500 mortos. Os cadáveres foram então desfilados pelas ruas de Paris em carros iluminados com tochas, gerando um impacto dramático. 50 mil manifestantes tomaram as ruas. Houve novas mortes e 15 mil prisões. A Guarda Nacional terminou por se unir aos populares e, 24 horas depois, Luís Felipe renunciou, assim como acontecera com seu antecessor. Dessa vez, contudo, a Câmara, ao invés de manter a monarquia, proclamou a República, que ficou conhecida como a Segunda República, tendo se estendido até 1852.

No dia 24 de fevereiro, constituiu-se um governo provisório, de coalização, unindo burgueses, ansiosos por restabelecer a ordem, republicanos e socialistas, os quais pugnavam pela melhoria das condições dos trabalhadores e pelo sufrágio universal. O Governo reuniu personagens como o poeta Lamartine, o operário Albert e o historiador Auguste Blanqui. Apesar do grande apoio popular, a tensão entre moderados e socialistas radicais, representados pelo irrequieto Louis Blanc, de pronto se estabeleceu.

Reformas e concessões sobrevieram. Reduziu-se a jornada de trabalho de 12 para 10 horas e criaram-se as célebres oficinas nacionais, fábricas de capital público que se constituíram em uma das primeiras experiências de estatização, mas que não funcionaram. O filósofo Pierre-Joseph Proudhon, um dos fundadores do anarquismo, sugeriu um banco de crédito popular, contudo, a proposta não avançou. Pelas páginas de seu jornal, bradava: “propriedade é roubo”, alarmando a burguesia. Instalou-se a chamada Comissão de Luxemburgo, um órgão que se responsabilizou por arbitrar os conflitos de trabalho e desenvolver uma legislação social. Na prática, porém, o governo resistiu a apoiar direitos do trabalho.

Em Paris, a situação estava calma. Os socialistas ainda confiavam no governo. Esse breve período ficou conhecido como a República Social. Mas a maior parte dos políticos do governo ignorava a situação das províncias, onde as estradas de ferro foram destruídas pelos tumultos, castelos saqueados e agiotas espancados. Faltava mercado para os produtos, impostos subiam, o marasmo econômico se instalara e as agitações políticas grassavam. Aos olhos de quem estava no Interior, o governo hesitava. O mundo dos negócios percebia o pesadelo se avolumando diante da instabilidade.

Assim, monarquistas e moderados conquistaram maioria nas eleições de 23 de abril, estampando a reação conservadora. Esta Assembleia Constituinte foi o primeiro órgão legislativo francês eleito pelo sufrágio universal. O Governo Provisório cessou suas atividades e deu lugar a uma executiva de 5 membros, integrada por Lamartine, dentre outros. A Comissão de Luxemburgo foi dissolvida e as deficitárias Oficinas Nacionais, fechadas: 110 mil trabalhadores foram instantaneamente demitidos. Em maio, protestos comunistas foram reprimidos com veemência. Com os agitadores socialistas se negando a aceitar o resultado, o proletariado parisiense se lançou a uma nova insurreição, entre 23 e 26 de julho, conhecida como as Barricadas de Paris.

A burguesia, aterrada diante das palavras de ordem “pão ou chumbo!”, nomeou por aclamação Louis Cavaignac ditador provisório, com ordens de submeter o povo. Decretou-se o estado de sítio. Em 4 dias de combates, com nobres, burgueses, padres e camponeses marchando lado a lado para ajudar o General, morreram 1.500 pessoas, 12 mil foram presas e 4 mil deportadas para a Argélia. A censura e a proibição de reuniões foram estabelecidas. Era o fim do sonho dourado de reconciliação entre as classes.

Em 12 de novembro de 1848, uma nova Constituição afirmou o presidencialismo, o legislativo unicameral e o sufrágio universal masculino. Nas eleições de dezembro, o aventureiro Luís Napoleão Bonaparte (sobrinho de Napoleão), deputado pelo Partido da Ordem, de extrato conservador, se elegeu com cerca de 5,5 milhões de votos, vencendo o detestado Cavaignac, que recebeu 1,5 milhão de votos. Bonaparte recebeu em massa os votos dos camponeses, que, desse modo, homenageavam o tio que lhes garantira a posse de terras quando nobreza e clero ameaçavam retomá-las depois da Revolução Francesa. Mas também contou com a simpatia de operários, que odiavam Cavaignac, além, é claro, dos conservadores amedrontados com o clima de instabilidade. Príncipe, filho de Luís I da Holanda, Luiz Napoleão participara de duas tentativas de amotinamento contra o rei Luís Felipe – em 1836, na guarnição de Estrasburgo, e em 1840, a Conspiração de Bolonha. Fora condenado à prisão perpétua em Ham, da qual fugiu para Londres, usando identidade falsa, onde escreveu um livro sobre o combate à pobreza que granjeou apoio do proletariado.

No entanto, em pouco tempo, Napoleão mostrava ao que viera. Em 1850, o descontentamento popular já era presente e o sufrágio universal, constrangido. Nova crise econômica, em 1851, acirrou os ânimos, servindo de pretexto para controlar a imprensa e intervir no ensino clerical nas escolas. Como a Constituição não permitia a reeleição, Luís Bonaparte desfechou um golpe em 2 de dezembro, reinstalando a ditadura. Teve início aí o Segundo Império, e Bonaparte se autoproclamou Napoleão III, conclamando plebiscitos para ratificar o golpe e o Império. A democracia direta foi, assim, utilizada para legitimar a ditadura.

A Revolução na França provocou uma onda de protestos em toda a Europa, em uma reação às diretrizes restauradoras e autocráticas firmadas pelo Tratado de Viena, que procurara reordenar o Continente após a queda de Napoleão Bonaparte, em 1814. Na Áustria, o poderoso artífice da restauração, o chanceler Metternich, se viu forçado a renunciar. Houve levantes em Berlim, Viena, Londres, Praga, Polônia, Budapeste, Nápoles… Porém, a feição deles era mais nacionalista do que liberal. Ainda assim, como sublinha o historiador Eric Hobsbawm, 1848 fixou-se como um paradigma de revolução global. Na prática, alguns avanços liberais foram garantidos, em especial na França, mas o desfecho mostrou que a democracia liberal também poderia se prestar ao controle social. A burguesia, inicialmente aliada aos protestos, recuou e se separou dos proletários.