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Posts na categoria "Literatura"

Flores Raras, filme de Bruno Barreto sobre romance entre urbanista Lota de Macedos Soares e poetisa Elizabeth Bishop

08 de setembro de 2013 4

Não sou especialista em Elizabeth Bishop, tampouco na história de Lota de Macedo Soares, mas fui assistir essa semana ao filme Flores Raras, dirigido por Bruno Barreto, e me chamaram a atenção algumas impressões, que compartilho aqui, de forma meio descosida. Confesso que eu estava com certa má vontade inicial em relação ao filme, porque me enjoa ver no cinema esse dramalhão abotoadinho de novela das seis que virou meio típico dos filmes dos Barreto. O último que eu assistira do pessoal foi uma porcaria constrangedora, A Paixão de Jacobina, dirigido pelo Fábio Barreto, em 2002. Era a estreia, no Festival de Gramado de 2002, salvo engano, e foi muito difícil ficar até o final de sessão. Mas Flores Raras é bem razoável e chega-se ao final com relativo entusiasmo.

Acho que, no geral, o filme recria bem os cenários de época propostos e o figurino é bom. As atrizes – Glória Pires, Miranda Otto e Tracy Middendorf – estão todas muito bem nos papeis, sendo competentemente dirigidas.

É louvável o destaque dado à Lota na concepção e construção do Parque do Flamengo, talvez, uma das maiores contribuições femininas à arte, dado as suas dimensões, seu magnetismo conceitual e sua importância diária na vida de milhões de pessoas. Até há pouco tempo, quando se falava do Parque do Flamengo, ouvia-se em geral por aí apenas os nomes de Burle Marx e Affonso Reidy, o que é injusto. O filme parece acertar também numa boa caracterização psicológica da Elizabeth, figura conectada de forma meio mórbida com os traumas de uma infância solitária e infeliz.

Também creio que o tema do homossexualismo feminino foi tratado com elegância. Há cenas diretas de romance e erotismo, corajosas, abordadas com respeito e beleza, livres de estereótipos banais. Jovens de hoje em dia podem se perguntar como duas mulheres lésbicas podiam transitar com tanta desenvoltura e tranquilidade pelos melhores salões da época. Num país ainda praticamente desprovido de classe média, elas integravam a elite e faziam-no com autonomia financeira. Além disso, eram reservadas, não se expondo aos beijos em público. Nessas condições, membros da elite gozavam no Brasil de razoável margem de manobra em face à moral convencionada. Basta lembrar-se de Dom Pedro I, que só mobilizou de fato a repulsa da sociedade contra a sua relação extraconjugal quando quis impor sua amante, a Marquesa de Santos, goela abaixo de todos em plena Capela Imperial, ou nomeando-a dama de companhia da Imperatriz.

Mas há também licença poética do diretor em relação à história. Mary Morse é descrita como uma medíocre moça de classe média, mas isso talvez possa ser injusto para com ela e para com o real papel desempenhado no triângulo amoroso. Inculta, ela não era. Até onde sei, Lota e Bishop se conheceram por intermédio de Morse, de fato, mas em Nova Iorque, antes dela vir ao Brasil, e não em Petrópolis. Bishop desembarcou no Brasil pelo porto de Santos e não pelo do Rio de Janeiro, cidade que alcançou de trem. O apartamento de Lota era no Leme e não no Posto 6 em Copacabana. O carro de Lotta nessa época era um jaguar vermelho, e não um esportivo branco. Lota, segundo todos os relatos, fascinada por corridas e carros esporte, dirigia agressivamente – a quantidade de multas de trânsito recebidas seria proverbial.

Bishop ficou hospedada no apartamento do Rio de Janeiro, depois na casa das Samambaias. O primeiro contato com as peças de Calder foi nesse apartamento, pois boa parte da mobília de Lota levava a sua assinatura. Foi no Rio de Janeiro, e não na serra, que Bishop teve a alergia decorrente do caju. É verdade que foi por causa das atenções recebidas nesse momento que se apaixonou pelo país, mas Bishop já estava interessada em Lota quando veio para o Rio de Janeiro.

A Casa das Samambaias não é nada daquilo que o filme mostra, pois era rústica, geométrica e inacabada: um galpão, com cobertura singela de telhas de alumínio. O chão era de cimento, marcado por pegadas de cachorro, a iluminação feita com lampiões a querosene. A decoração era despojada, crua. Aquele jardim perfeitamente concluído de Burle Marx não existia. Bishop descreve esse cenário em suas cartas. Mas Barreto preferiu lê-lo com hipérboles hollywoodianas.

Quando da época da construção do Parque do Flamengo, Lota estava grisalha e gordinha, informação que o filme não incorporou. Dá a impressão de que Barreto quis preservar uma fictícia ilusão estética de juventude típica de comédia gosmântica. Lota era muito enfática ao falar, o que lhe valeu alguns bons atritos. Mas o filme a caracteriza de forma excessivamente ponderada em diversas passagens, sobretudo da metade em diante. Também achei que não foi feliz ao representar a tensão e o drama que vertiam entre Lota e Bishop. As duas, segundo vários relatos, eram muito intensas. Nesse sentido, o filme foi contido.

Achei ridícula a passagem que atribui a Bishop um posicionamento político militante, contra Carlos Lacerda e contra o golpe militar de 1964. Bishop gostava muito de Lacerda e apoiava-o apaixonadamente. Ela defendeu a “revolução de 1955” e procurou apoiar Lacerda no exílio nos Estados Unidos, indicando-lhe contatos. As cartas a Robert Lowell revelam tendência ao pensamento liberal conservador, repulsa ao comunismo chinês e soviético, simpatia a movimentos contrarrevolucionários de cunho conservador e acendrado patriotismo norte-americano. Bishop apenas criticou Lacerda quando este se aliou a JK e a Jango, em 1966, justamente porque estaria traindo sua posição ideológica anti-getulista e anti-comunista, nesse sentido acompanhando a opinião de Lota, que a esta altura estava rompendo com o velho amigo. Bishop, mais tarde elevada à condição de ícone do feminismo e do movimento lésbico, não aprovava a revolução sexual dos anos 1960 e não se empolgou com o feminismo. Era, em grande medida, uma dama puritana, embora muito bem integrada à elite modernista brasileira.

O Brasil foi determinante na sua vida e para sua arte. Dominou razoavelmente bem o português, chegando a se dedicar a traduções. Apreciava alguns poetas e escritores brasileiros e portugueses. Mas jamais deixou de ser uma típica anglo-americana e a brasilidade não impregnou a sua escrita de maneira antropofágica e intercultural. Nunca se adaptou completamente à culinária local. Gostava de ser servida pelos “negros” da casa, mas não se conformava com a incapacidade dos criados de preparar ovos mexidos ou cozidos no ponto. Agradecia a Lowell pelo envio de temperos de Nova Iorque, já que não se adaptava bem com os locais. Detestava o carnaval, que considerava “coisa dos negros”, embora reconhecesse que o samba era boa música. Lota e Bishop ficavam apreensivas cada vez que o casal Calder vinha visita-los, porque eles gostavam de festejar e pular o carnaval a noite toda.

A alusão de que ela não lia bem em francês me pareceu ultrajante! Bishop morou em Paris antes de vir ao Brasil. A umbilical relação de Lota com Nova Iorque também é desprezada, o que é uma bobagem, pois Lota ajudou a introduzir no Brasil a paixão por esta cidade – ela, aliás, foi criticada na época por gostar tanto de uma metrópole então considerada vulgar pela elite brasileira. As duas, inclusive, passaram longas temporadas juntas em Nova Iorque, muito antes do trágico suicídio de Lota. E a jovem estudante, que se tornou amante de Bishop nesse entremeio, veio ao Brasil, hospedando-se, contudo, na Casa Mariana, a casa que a poetisa americana adquiriu em Ouro Preto, enquanto Lota ainda era viva. Depois da morte de Lota, Bishop continuou vindo ao Brasil regularmente.

O pai de Lota é retratado como um puritano preconceituoso. Lota não rompeu com ele por desaprovação ao seu lesbianismo, mas por questões familiares bem mais complexas. A família foi duramente impactada pelas perseguições de Getúlio Vargas e o pai de Lota deixou-as sem boa parte da herança. Mas, até onde se sabe, salvo engano, Lota nunca aprovou uma disputa judicial com o pai.

Novas chamadas de artigos para a revista Interfaces, Brasil/Canadá

25 de maio de 2013 0



Caros, reproduzo abaixo novas chamadas para artigos na revista Interfaces, Brasil/Canadá, órgão oficial da Abecan (Associação Brasileira de Estudos Canadenses), uma publicação acadêmica junto a qual atuo como editor.


Interfaces 17/2013 (Relações Canadá/ América Latina)

Editores convidados:

Profa. Dra. Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Prof. Dr. Hugh Hazelton (Concordia University)

Data para envio de textos: 30 de agosto 2013

Edição da revista: 30/12/2013


Relações Canadá/América Latina: economia, política, história, sociedade (sociologia e antropologia), cultura artística e literária (artes plásticas, música, literatura). Gestão pública e movimentos sociais. Políticas de colaboração, transferências tecnológicas e movimento intelectual entre América Latina e Canadá. Diásporas latino-americanas no Canadá. A formação cultural latino-canadense: extraterritorialidade, bilinguismos, poéticas do deslocamento. O sujeito interamericano e a tradução cultural e literária. Relações literárias transamericanas: a literatura latino-canadense.



Interfaces 17/2013 (Relations between Canada and Latin America)


Invited Editors:

Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Hugh Hazelton (Concordia University)


Relations between Canada and Latin America: economics, politics, history, society (sociology and anthropology), artistic and literary culture (fine arts, music, literature). Public administration and social movements. Collaborative programs, technology transfer and intellectual exchange between Latin America and Canada. The Latin American diaspora in Canada. The formation of Latino-Canadian culture: extraterritoriality, bilingualism, the poetics of migration. The Inter-American subject and cultural and literary translation. Trans-American literary relations: Latino-Canadian literature.

Interfaces 17/2013 (Relations entre le Canada et l’Amérique latine)


Éditeurs invites:

Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Hugh Hazelton (Concordia University)


Relations Canada/Amérique latine : économie, politique, histoire, société (sociologie et anthropologie), culture artistique et littéraire (arts plastiques, musique, littérature). Gestion publique et mouvements sociaux. Politiques de collaboration, transferts technologiques et mouvements intelectuels entre l’Amérique latine et le Canada. Diaspora latino-américaine au Canada. La formation culturelle latino-canadienne : extraterritorialité, bilinguisme, poétiques de migration. Le sujet interaméricain et la traduction culturelle et littéraire. Les relations littéraires transaméricaines: la littérature latino-canadienne.


Interfaces 17/2013 (Relaciones Canadá/ America Latina)

Editores invitados:

Profa. Dra. Elena Palmero González (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Prof. Dr. Hugh Hazelton (Concordia University)


Relaciones Canadá/América Latina: economía, política, historia, sociedad (sociología y antropología), cultura artística y literaria (artes plásticas, música, literatura). Gestión pública y movimientos sociales. Políticas de colaboración, transferencias tecnológicas y movimiento intelectual entre América Latina y Canadá. Diásporas latinoamericanas en  Canadá. La formación cultural latinocanadense: extraterritorialidad, bilingüismos, poéticas del desplazamiento. El sujeto interamericano y la traducción cultural y literaria. Relaciones literarias transamericanas: la literatura latinocanadense.



Número 18, Interfaces Brasil-Canadá, jan.-jun. 2014

Editora convidada: Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

Prazo de envio dos artigos: 15 de março de 2014


O papel da Memória Social em territórios multiétnicos e transculturais, como o Brasil e o Canadá. Refletir sobre o papel da memória coletiva e social em contextos de hibridação cultural; discutir o novo papel da memória social em territórios culturais marcados pela diversidade e pelo caráter relacional que se estabelece a partir das passagens inter e transculturais. A partir do pensamento fertilizador de pesquisadores do Quebec como Fernand Dumont, que nos fala do futuro da memória; Jocelyn Létourneau, que propõe uma nova relação com a cultura, “como memória e como horizonte”; ou Gérard Bouchard, que alerta para os “jogos e nós de memória”, verificar nas práticas sociais, na história cultural e na literatura o papel inovador que pode assumir a Memória social, em tempos de globalização.

Numéro 18, Revue Interfaces Brasil-Canadá, jan.-juin 2014

Éditrice invitée : Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

Délai pour la remise des articles : le 15 mars 2014

Le rôle de la Mémoire Sociale dans des territoires multiethniques et transculturels comme le Brésil et le Canada. Réfléchir sur le rôle de la Mémoire sociale et collective dans des contextes d´hybridation culturelle; discussion sur le nouveau rôle de la mémoire sociale dans des territoires marqués par la diversité et par le caractère relationnel qui s´établit à partir des passages inter et transculturels. Ayant pour base les fertiles propositions des chercheurs québécois comme Fernand Dumont, qui nous parle de l´avenir de la mémoire; comme Jocelyn Létourneau, qui propose une nouvelle relation avec la culture « comme mémoire et comme horizon » ; ou Gérard Bouchard qui attire notre attention sur « les jeux et les nœuds de mémoire », vérifier dans les pratiques sociales, dans l´histoire culturelle et la littérature le rôle innovateur qui peut jouer la Mémoire Sociale en temps de mondialisation.


Number 18, Interfaces Brasil-Canadá, jan.-june 2014

Guest editor: Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

Deadline for submissions: March 15, 2014

The role of Social Memory in multiethnic and transcultural territories such as Brazil and Canada. Reflecting on the role of collective and social memory in cultural hybridity contexts; discussing the new role of social memory in cultural territories marked by diversity and by a relational character that establishes itself from inter and transcultural passages. Originating from the fertilizing thoughts of Quebec researchers as Fernand Dumont, who discusses the future of memory; Jocelyn Létourneau, who proposes a relationship with culture, “as memory and as horizon”; or Gérard Bouchard, who warns about the “games and knots of memory”, to verify in social practices, in cultural history and in literature the innovative role that Social Memory can represent in globalizied times.

Uma tarde de sábado com Allain Robbe-Grillet – muitos e muitos tons de cinza mais

07 de outubro de 2012 0

Na madrugada do dia 18 de fevereiro de 2008, a França, o cinema e as letras perderam Alain Robbe-Grillet. Aos 85 anos de idade, Grillet partiu deixando uma importante obra, com cerca de 20 livros e participação em 9 filmes. Conhecido como o pai do nouveau roman, movimento literário que marcou a França nos anos 1950 e 60, Grillet também escreveu roteiros, como o do célebre “O Ano Passado em Marienbad”, de 1961, dirigido por Alain Resnais, que antecipou a ousadia da nouvelle vague de Jean-Luc Godard e outros. Também dirigiu seus próprios filmes, como o “O jogo com o Fogo”, de 1975. Membro da Academia Francesa de Letras desde 2005, a sua morte repercutiu também no Brasil, onde os principais jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre lhe dedicaram artigos. Grillet viria ao Brasil em maio, para conferenciar no Fronteiras do Pensamento. Foi para formalizar este convite que fui visitá-lo em uma tarde de sábado, em dezembro de 2007, em Paris.

Proporcionou-me uma agradável acolhida, em seu amplo apartamento no Boulevard Maillot, em prédio de frente para o Bois de Boulogne, num dos endereços mais elegantes do 16éme. Confesso que não esperava encontrá-lo na Rive-Droit, talvez por seu vínculo ao grupo Rive-Gauche, composto de intelectuais, como Jean Cayrol, Margherite Duras e Agnes Varda – aficionados aos temas da memória e do esquecimento e que abraçavam elaborados processos mentais para suas narrativas.

Explicou-me pacientemente ao telefone como eu deveria fazer para saltar na estação Porte Maillot, atravessar a avenida Charles de Gaulle e seguir pelo Boulevard André Maurois, que se transformaria no Bd. Maillot, passar pelo portão do jardim, pela porta principal do prédio, digitando senhas de acesso. Ao telefone não me pareceu tão complicado, mas claro que me enrolei. Perdido no pátio, liguei do celular. Explicou-me o elaborado itinerário novamente e deve ter me achado um descordenado. Finalmente, recebeu-me a porta, sorridente. Conduziu-me a uma sala de estar, com pilhas de livros pelos cantos e sobre as mesas e aparadores.

Generoso, elogiou o meu francês pedestre. Bem disposto, estava muito mais interessado em bater um papo do que em revisar o extenso contrato que eu levara. Atento, achou logo um erro de francês. Mas tranqüilizou-me em seguida, dizendo que ninguém mais escrevia corretamente o francês e que ele vivia notando erros até nos tradicionais jornais de Paris. Curioso, quis saber sobre o Rio Grande do Sul. Perguntou-me se se tratava de uma zona de imigração. Sim, respondi. Disse ele compreender o alemão, embora não o falasse. Gostava de ler clássicos da filosofia e da literatura alemã no original. Contou-me ter estado algumas vezes na Alemanha, ministrando palestras. E lamentou, divertindo-se um pouco, a má acolhida que seu último livro “Un Roman Sentimental”, tivera naquele País. Lemos juntos uma crítica recente publicada no Frankfurter Algemeine. Arrasadora. Dizia que Grillet enterrava o nouveau roman.

Rimos. Ele contou-me um pouco sobre o início de sua carreira de escritor, quando seus primeiros livros foram recusados pelos editores. Aparentou não se importar muito com o que dizia a crítica. Aproveitei para sacar o livro da bolsa, pedindo-lhe um autógrafo. Claro, na dedicatória ele fez uma referência jocosa ao contrato que eu levara. Ficou surpreso de eu estar lendo o livro. Disse-me que embora gostasse dele, achava que não representava a sua obra. Era uma passagem rápida e não muito importante de seu último livro, “A Retomada”, segundo ele, que resolvera desenvolver e transformar em um novo projeto, quando alguém lhe pedira para escrever algo sobre uma casa no Canadá. Bem, acontece que esta passagem promovia uma bizarra combinação de pedofilia, incesto, prostituição infantil e sadomasoquismo. Era a história envolvendo o personagem de Gigi, que agora virava um livro!

Olhando em volta, na agradável sala onde estávamos, notei outro elemento presente em “A Retomada”. Um pôster com uma fotografia de um château Luis XIV, na Normandia, onde o escritor mantinha sua casa de campo, e cuja descrição mergulha desconcertantemente, em breve parêntesis, numa narrativa que se passa na Berlim pós-guerra. Este é o estilo de Grillet. Explosão de modernidade, desconstrução da narrativa, do espaço, desestruturação do sujeito. Em “A Retomada”, uma rocambolesca história de espiões na Berlim arrasada pela guerra e ocupada pelas forças aliadas, um espaço de caos entre a queda dramática do totalitarismo nazista e a tentativa de reconstrução da nova Europa social-democrata, onde as normas sociais achavam-se em suspenso ou em processo de redefinição e vigorava a justiça militar, Grillet nos apresenta um personagem narrador de múltiplas identidades: com três passaportes, que encontra o seu duplo em um trem, às vezes é o narrador da história, outras vezes é interpretado por um terceiro narrador, externo, às vezes torna-se o seu duplo, isto quando o próprio Grillet não invade a narrativa para descrever a visão de destruição que um tornado provocara, na passagem para o ano 2000, na vegetação vista da janela de seu gabinete, no château na Normandia.

O personagem central do livro, este sujeito múltiplo e desconstruído, emaranhado em incertezas, tenazmente contestado pelo Outro – o narrador duplo –, não deixa também de trazer elementos biográficos do próprio Grillet, como a origem bretã, a infância passada em Brest e o encanto pela Alemanha. Com sua linguagem sofisticada, seu estilo poético, úmido, poderosamente imagético, com longas e detalhadas descrições quebrando o ritmo convencional da narrativa, de maneira a potencializar angustiantemente o suspense do enredo, Grillet desestrutura também o tempo, misturando presente, passado e futuro.

Em “A Retomada”, abraça o tom enigmático, o estilo fotográfico, econômico em ação que já se afirmara com clareza em “O Ciúme”, de 1957. É ainda a recuperação de “Les Gommes”, de 1953, um de seus romances mais célebres. Vários também são os elementos recorrentes entre os filmes que dirigiu nos anos 60 e 70: o enigma cerebral de um homem que se encontra com uma mulher de identidade confusa em Istambul, um ator em crise de identidade, erotismo sadô – jovens amarradas, amordaçadas, flageladas, seqüestradas, aprisionadas; intriga policial, encontros misteriosos em trens, velhos palácios.

Mantendo o leitor num limite entre o real e o imaginário, afogando-o em magníficas descrições imagéticas, quase ausentes de ação, Grillet dilui certezas, verdades. E desenha a contradição como norma, como sistema. Numa única história, múltiplas perspectivas, diversos olhares sobre um mesmo fato, a mesma cena contada várias vezes, de diferentes maneiras. Aceitação intrínseca da fragmentação da uma modernidade exacerbada. E faz do leitor seu refém, conduzindo-o por este labirinto, onde as fronteiras do mundo inteligível se mostram tão esfumaçadas e embaralhadas. Provocativo retrato do mundo pós-guerra.

Não pude deixar de notar que, apesar da corrosão de sentido dessa narrativa desconstruída, o personagem central de “A Retomada” insinuava-se como uma alegoria da reaproximação entre França e Alemanha no pós-guerra. Impossível não lembrar aqui do polêmico “L’ideologie française”, de Bernard-Henri Lévy, com sua denúncia à vertente autoritária do pensamento francês, que encontrou terreno fértil durante a República de Vichy. Em “A Retomada”, o gêmeo secreto, o duplo desconhecido, pode estar sinalizando para a inexorabilidade da união entre os dois países, identitariamente afirmada, mas conscientemente negada. Convergências que se dão em diversas vibrações, do delírio autoritário ao esforço de retomada humanística. A morte do corrupto agente duplo alemão, quem sabe, sinaliza uma chance para a democracia. Otimismo tênue de um crítico figadal da sociedade burguesa moderna? De qualquer forma, a porta aberta para a ressurreição do duplo teima em não sumir de cena ao final e a sua morte, acontecida em meio a mirabolantes teorias de conspiração, nos remete para este perturbador traço da cultura de massas contemporânea: a desconfiança pós Watergate na autoridade do estado.

Mas de fato, o destaque dado às detalhadas cenas SM me pareceram um tanto gratuitos. Eu mal havia começado a ler o “Un roman sentimental”. A vendedora da Fnac da Rue de Rennes não fora simpática quando pedi o livro, que veio embrulhado em plástico, selado por uma tarja vermelha alertando para o conteúdo erótico e polêmico. O pior é que as páginas não estavam separadas. Precisei me valer de uma lixa de unhas de uma senhora que ocupara o meu lugar – estávamos em plena greve geral – num trem da SNEF para descolar as páginas.

E então estávamos ali, numa tarde de sábado, quando sua esposa, Catherine, entrou na sala. Ambos estavam animados com a perspectiva da viagem ao Brasil e Catherine contou-me sobre a viagem que fizeram ao País nos anos 1960, quando visitaram várias capitais, em virtude de uma agenda de conferências de Grillet em universidades. Há poucos dias, uma entrevista sua à televisão francesa provocara furor. Ela começava a admitir a autoria dos livros SM publicados com o pseudônimo Jean de Berg, em 1956 (L’image), e Jeanne de Berg (Cérémonies de Femmes, 1985), entre outros mais recentes. Falou-me com entusiasmo do Rio de Janeiro e, em particular, de uma visita aos bares da Praça Mauá. Lembrei-me de Caio Fernando Abreu.

A atração que a cultura SM exerce na França parece-me um enigma. Foucault provavelmente identificaria nestas práticas a chance de construção de uma nova subjetividade, revolucionária. Apesar de combater os estruturalistas franceses, é mais ou menos o que sugere Camille Paglia em “Vamps & Tramps”, especialmente no saboroso diálogo com a Drag Queen Glenda. Há aqui uma linha direta com crença na condição libertária da contracultura dos anos 1960 e sua revolução sexual e dos costumes. Neste particular, no lado oposto do debate, está Michel Houellebecq, para quem, em “A Plataforma”, a cultura SM é o resultado extremo e extravagante de uma mecanização do ser-humano, do esvaziamento do conteúdo humanístico da sociedade contemporânea, do excesso de individualismo e da ausência progressiva de contatos físicos carinhosos e de intercâmbios afetivos entre as pessoas. Para Houellebecq, o SM é o funeral do amor, uma espécie de degradação para onde nos levou a contracultura, a sociedade do consumo e o individualismo. O autor, com efeito, em “Partículas Elementares”, traça um retrato feroz das conseqüências negativas da contracultura na contemporaneidade. Mas em Robbe-Grillet, nem libertação sexual, nem falência do sentimento, mas, ao que tudo indica, uma falange de fantasmas sexuais a assombrarem sua obra e, talvez, sua vida.

Perdia-me nesses devaneios quando me lembrei de pedir a Robbe-Grillet algumas fotos e direitos de imagens sobre trechos de seus filmes, pois precisaríamos delas para um documentário que faríamos sobre sua participação no Fronteiras do Pensamento. Grillet, então, achou conveniente apresentar-me seu amigo, Olivier Corpet, diretor do IMEC. Apanhou uma agenda de telefones, com puída capa de couro marrom e começou a procurar o número de Olivier. Com alguma dificuldade para ler as letras pequeninas, pediu-me auxílio. Então vi o primeiro nome da lista: Jorge Luís Borges. Por um breve lapso de tempo, parecia possível telefonar para Borges… Por um tempo, pareceu possível recebermos Grillet no Brasil…

Tributo a Moacyr Scliar

25 de agosto de 2012 2

As professoras Zilá Bernd e Maria Eunice Moreira lançam no próximo dia 5 o livro “Tributo a Moacyr Scliar”, pela editora da PUCRS. Vale a pena conferir.

Breve balanço do Seminário Nacional 100 Anos da Guerra do Contestado

05 de agosto de 2012 1

Encerrou-se na sexta-feira, dia 3, o Seminário Nacional 100 Anos da Guerra do Contestado, iniciado no dia 1º e promovido pelo Memorial do Ministério Público e pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, com o apoio de importantes instituições, tais como a USP, o Unilasalle/Canoas, a UNOESC, a UFSC, a Fundação Catarinense de Cultura e os Institutos Históricos e Geográficos Brasileiro, do Paraná e do Rio Grande do Sul, além do Instituto de História e Geografia Militar do Brasil. Nos três dias do evento, que teve a programação de abertura parcialmente prejudicada pelo mau tempo em Florianópolis, que determinou o fechamento do aeroporto local impedindo que alguns palestrantes aterrissassem a tempo na cidade, discutiram-se apaixonadamente múltiplos aspectos do conflito do Contestado, que talou os sertões catarinenses entre 1912 e 1917. Abordaram-se as dimensões jurídicas do Contestado, com o longo processo judicial arbitrado pelo Supremo Tribunal Federal em torno da questão de limites entre os Estados do Paraná e de Santa Catarina. Discutiu-se o conflito na perspectiva das forças militares e à luz da História Social. Dimensionou-se-o no contexto das relações coronelistas de poder da Primeira República brasileira e percebeu-se-o como reação ao imperialismo capitalista norte-americano. Identificou-se conexões com o Partido Federalista sul-rio-grandense, percebendo-se ali um federalismo de feição popular. Esmiuçou-se a vida dos monges que povoaram o universo espiritual dos caboclos, recorrendo-se à Antropologia e à História das Religiões. Mostrou-se a atualidade da crença joanina, isto é, no monge João Maria, que o povo da região ainda espera ver beatificado pela Igreja Católica. Visitou-se a dor dos vencidos e mostrou-se que o Contestado não terminou, vez que a região ainda apresenta o menor IDH de Santa Catarina. Conheceram-se emocionantes esforços de educação patrimonial e de valorização da memória coletiva. Descreveram-se as ossadas que ainda jazem esquecidas em valas comuns e os vestígios dos fornos utilizados para incinerar cadáveres, que se produziam aos milhares, não apenas durante o período mais aceso do conflito, mas também depois dele, quando vaqueanos e coroneletes da região levaram o terror aos sobreviventes, numa verdadeira política de extermínio e genocídio. O Contestado foi uma das maiores insurreições camponesas da História.

A dinâmica do evento mostrou-se profícua ao propor um diálogo entre a História, a Memória e o Patrimônio, instâncias, como se sabe, com naturezas diferentes. Reunidos estavam, assim, acadêmicos cientistas, historiadores, juristas, militares, jornalistas, antropólogos, sociólogos, cineastas, escritores e agentes da memória social. Por três dias, o auditório da Procuradoria-Geral de Justiça de Santa Catarina acolheu nomes de prestígio como Silvio Back, Sergio Rubim, Paulo Pinheiro Machado, Paulo Derengosky, Aureliano de Moura, Margarida Moura, Aluizio Blasi, Miguel do Espírito Santo, Paulo Hapner, Espiridião Amin e Vicente Telles, dentre outros. Comprovou-se a qualidade dos estudos que vêm sendo realizados sobre o tema. Novas pesquisas foram conhecidas, como as de Tania Welter, Rogério Rosa, Marcia Espig, Delmir Valentini e Alexandre Karsburg. Atentos aos detalhes, pesquisadores dos institutos históricos, como Janary Bussmann e Elísio Marques, nos descortinaram aspectos pouco conhecidos.

Os 30 minutos destinados para as comunicações foram insuficientes para a maior parte dos painelistas, que tinham conteúdo e fluência para falar por pelo menos uma hora cada. Talvez o tempo previsto para as falas tenha sido curto, de fato, mas foi a fórmula encontrada pela organização do evento para acomodar o grande número de painelistas convidados. Sacrificou-se um pouco do aprofundamento em benefício de um painel mais diverso. O bom tempo destinado aos debates, sempre animados por muitas perguntas e participações, compensou em parte o desejo aprofundar temáticas.

Foi farta a cobertura da imprensa. O Diário Catarinense dedicou matéria de uma página ao Seminário e ao livro sobre as memórias do General Vieira da Rosa, lançado pelo Memorial do Ministério Público. Jornais do interior repercutiram entrevistas realizadas pela Comunicação Social do MP. Blogs e sites comentaram o evento. Um documentário foi filmado. Mas acerta o jornalista Sergio Rubim, o Canga, quando lamenta o pouco interesse demonstrado pelos canais de televisão de Florianópolis em aproveitar a presença de tão ilustres intelectuais na cidade: faltou talvez a realização de um programa de debates televisivo.

Da livraria convidada para montar um stand esperava-se mais. Apesar de alertados com semanas de antecedência do teor da programação, não cuidaram seus administradores de providenciar a aquisição de livros dos painelistas e tampouco de reunir um bom acervo sobre o Contestado. Foi uma decepção, pois se esperava mais compromisso com a cultura e com os autores catarinenses de parte de uma das mais tradicionais livrarias de Florianópolis.

Ao final, como sublinhou o folclorista Vicente Telles, o importante são o sentimento e a capacidade de seguirmos nos indignando contra as injustiças que mancham nosso passado comum, para que aqueles que têm pela frente mais futuro do que passado, possam viver num mundo mais humano. Que o Seminário possa funcionar como uma brasa a incendiar nossas consciências, pois é grande a dívida que temos para com o passado.

As programações alusivas ao Centenário do Contestado continuam. Em setembro, no Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro abrigará um seminário sobre o evento. No próximo simpósio da ANPUH de São Paulo, Paulo Pinheiro Machado, um dos mais reconhecidos especialistas sobre o tema, oferecerá um minicurso. Nos próximos meses, a Universidade Federal de Pelotas e a Universidade da Fronteira Sul, em Chapecó, também estarão realizando colóquios, dialogando em torno de novas pesquisas. Em outubro, no Irani, uma cerimônia marcará os 100 anos do sangrento combate que detonou o conflito. O Memorial do Ministério Púbico, por sua vez, programa mais um conjunto de edições, a começar pelos anais do Seminário da semana passada, que será publicado sob a forma de um livro coletivo.

Fim do Programa Direito & Literatura

12 de julho de 2012 2

Lamento aqui a notícia da extinção do programa “Direito & Literatura: do fato à ficção”, veiculado até agora na TVE/RS e na TV Justiça e produzido pela equipe do Procurador de Justiça Lenio Streck e do Instituto de Hermenêutica Jurídica do Programa de Pós-graduação em Direito da Unisinos, a partir de um convênio com a Fundação Piratini. Em cinco temporadas, foram gravados mais de 160 programas, em alguns dos quais participei, debatendo com outros intelectuais obras referenciais da literatura sob a perspectiva do Direito e da Justiça. Nesse programa, por exemplo, discutimos o livro As Bruxas de Salém, clássico de Arthur Miller. Uma experiência enriquecedora de diálogo interdisciplinar de feição modelar que deveria estar sendo emulada e replicada ao invés de suprimida unilateralmente pela Fundação Piratini. Já é tão limitada a produção local de conteúdo pela TVE. A supressão desse programa de sucesso empobrece ainda mais a emissora. É uma pena.

Portal Domínio Público - coleção História da África

25 de junho de 2012 0

Eu achei muito bacana esta iniciativa do Ministério da Educação que disponibiliza títulos interessantes gratuitamente pela Internet. A coleção sobre História da África é, por exemplo, uma mão na roda para alunos e professores. Confere aí.

IV Congresso de Jornalismo Cultural - revista Cult - São Paulo, 28 a 30 de maio

28 de abril de 2012 3

Alô, pessoal! Já está on-line a programação para o IV Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, de São Paulo, que este ano acontecerá na última semana de maio, no teatro do Tuca. O evento, para cuja curadoria contribuo, já se tornou uma referência no calendário cultural brasileiro. Este ano teremos as presenças, dentre outros do historiador Robert Darnton, do escritor Gonçalo Tavares, do quadrinista Art Spiegelman e do escritor Gay Talese. A programação, como sempre, está imperdível.

8 de Março - Múltiplas Escolhas. Entrevista com Camille Paglia

08 de março de 2012 3

Bom dia! Posto neste Dia Internacional da Mulher versão expandida do texto publicado no domingo passado, dia 4, no Caderno Donna, da Zero Hora, de Porto Alegre, juntamente com link para a entrevista que fizemos com a historiadora da cultura Camille Paglia. Aproveito também para postar duas perguntas adicionais, com respostas ainda inéditas, que consegui fazer com a Camille – ela está ocupadíssima com a finalização do seu novo livro.


“Uma mulher em público está sempre deslocada”, disse Pitágoras, a cerca de 2.500 anos, condensando uma das mais perenes formas de dominação conhecidas. Homem público: sucesso! Mulher pública: vergonha!

Em 8 de Março de 1857, 129 mulheres em greve por melhores condições de trabalho foram queimadas vivas, pela polícia, dentro de uma fábrica têxtil em Nova Iorque. Em 1975, a ONU fixou a data como o Dia Internacional da Mulher, ensejando a reflexão sobre a mulher no espaço público, em torno da igualdade de direitos e responsabilidades entre os gêneros. De lá para cá, muito vem mudando.

No Brasil, no século XIX, enquanto mulheres da elite eram mantidas em reclusão fundamentalista, com menos privilégios que muitas orientais, homens de prestígio mantinham cortesãs com relativo descaramento, como fez o próprio Dom Pedro I. Em 1878, O primo Basílio – clássico da literatura portuguesa –, de Eça de Queiroz, foi tachado de pornográfico, por tratar da paixão adúltera de uma mulher casada. Nos anos 1950, atrizes famosas eram estigmatizadas como prostitutas. Ainda nos anos 1980, promotores de justiça penavam em certos júris do interior para condenar réus acusados de matar a esposa infiel, pois a comunidade achava que ele acertara ao lavar a honra com sangue.

Hoje, uma mulher está na Presidência da República! E conseguimo-lo antes dos Estados Unidos, onde jamais uma mulher foi sequer nominada candidata pelos maiores partidos.

Mas segue a desproporção na política. Partidos têm dificuldade de preencher a cota de 30% de mulheres nas candidaturas. No Rio Grande do Sul, que já foi governado por uma mulher (algo impensável há 50 anos), apenas em 1951 uma mulher elegeu-se Deputada: e hoje são só 7 dentre 55. Houve enorme transformação na identidade feminina, mas permanece o desequilíbrio. Mudanças e tensões que geraram manifesta ansiedade.

É sobre esta ansiedade que Camille Paglia, uma das mais potentes vozes feministas do planeta, se debruça. Nascida em Endicott, Nova Iorque, em 1947, Camille doutorou-se em Yale e é professora na University of the Arts, da Filadélfia. Desde seu grande livro de estreia, Personas Sexuais, publicado aqui em 1990, é conhecida pela combatividade.

Reconhecendo um papel importante à natureza e ao afetivo em seu sistema teórico, Camille provocou a ira das feministas ao propor que o ser-humano é mais do que trabalho e que nem toda tensão pode ser reduzida ao machismo. As emoções de homens e mulheres, sustenta, diferem, pois os hormônios impactam o cérebro diferentemente. Ela argumenta que as mulheres devam respeitar o relógio biológico e, quando têm esta vocação, priorizar a maternidade enquanto jovens. Camille festejou as Drag Queens no que elas têm de exaltação do feminino. O feminismo de Camille é receptivo às múltiplas escolhas de cada um e não prescreve receitas genéricas. Por outro lado, ela também percebe os homens sob forte pressão social para se adaptar a um novo ambiente, no qual o patriarcalismo está em crise e a agressividade primitiva para enfrentar um entorno hostil é cada vez mais inútil.

Tributária da herança libertária dos anos 60, atribui centralidade ao sexo. Chocou ao emular a pornografia e ao celebrar a moda: enquanto a maioria das feministas condena seu poder de coisificação e subjugação da mulher ao desejo masculino, Camille viu aí chance para a afirmação do indivíduo diante de uma moral aplastante, bem como um canal para o brilho do poder feminino sobre o masculino. A pornografia, crê, ajuda a reconectar o humano à animalidade atávica.

Enquanto muitos se preocupam com banalização o sexo, Camille se inquieta com a supressão da sensualidade numa contemporaneidade esterilizada. A grotesca exposição do corpo por Lady Gaga, por exemplo, longe de sensual, lhe sugere mais o sintoma de uma neurose alienada com relação ao próprio corpo. É a languidez sensual dos movimentos de Daniela Mercury ou a autenticidade da beleza madura de Catherine Deneuve, sem plásticas, que a sensibiliza.

Camille abraçou teses polêmicas: foi a favor da legalização da prostituição, dos direitos civis para homossexuais, da liberalização do aborto e da liberalização das drogas. Para ela, o estado não pode interferir na vida privada, tampouco como as pessoas gerem seu corpo. Irritando ativistas, se opôs ao casamento homossexual, pois assim como não reconhece aos religiosos legitimidade para regular a vida civil, pensa não caber ao estado ditar como cada religião organiza seus sacramentos.

Camille se interessou pela cultura pop e viu elementos positivos na cultura de massas. Ela aprecia o rock e o cinema, se dedicando à trajetória de estrelas de Hollywood. Embora ateia, acredita que a religião tem um papel importante a desempenhar na sociedade.

Camille visitou 7 vezes o Brasil, país que adora. Em 1996, promovendo o lançamento de Vampes e Vadias, foi ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Em 2007, conferenciou em Porto Alegre, e, em 2008, em Salvador. Retornou a Salvador em 2009 para curtir o carnaval e, novamente, pouco depois, visitando amigos. Em 2010, conferenciou em Olinda e, em 2011, em São Paulo.

Suas ideias lhe parecem ser mais facilmente compreendidas pelos brasileiros. Sua gesticulação profusa e a personalidade enérgica, intui, são por aqui aceitas com naturalidade. Ela adora provar os pratos típicos regionais e é fã do nosso chope. Incorporou a farofa e o queijo-minas aos seus hábitos. Tornou-se apreciadora da música brasileira e está estudando português.



Durante a década de 1970, você se envolveu em muitas disputas e incidentes extravagantes em seu primeiro trabalho como professora no Bennington College em Vermont. Em 1979, você largou Bennington e passou por um período de isolamento. Em 1981, terminou de escrever Sexual Personae, trabalho em que expandiu sua tese de doutorado em Yale e que foi supervisionado por Harold Bloom. O manuscrito, rejeitado por sete grandes editoras de Nova York, foi finalmente publicado em 1990 e tornou-se um best-seller. Como foi essa passagem rápida da obscuridade para a fama?

CP: Nunca pensei que veria aquele livro publicado enquanto vivesse! No entanto, encontrei inspiração em Emily Dickinson, que persistiu em escrever poemas ousadamente experimentais embora ninguém fosse publicá-los. Ela nunca foi compreendida por seus contemporâneos e morreu em 1886 na completa obscuridade. Se isso aconteceu com uma grande poeta e gênio, as agruras de uma mera professora universitária foram certamente insignificantes!

Quando Sexual Personae foi lançado, fiquei subitamente no meio de uma tempestade. O feminismo estava travando uma guerra cultural com pornografia, assédio sexual e liberdade de expressão, e a elite acadêmica havia se tornado dominada pelo pós-estruturalismo, que eu detesto. Então, durante vários anos, fiquei envolvida em combates constantes em jornais e revistas e na televisão. Foi uma transição muito estranha e abrupta para a fama, porém eu estava preparada para isso devido à minha longa pesquisa sobre escândalos e controvérsias de Hollywood. Eu venci meus oponentes graças à minha habilidade de falar diretamente ao público através de “sound bites” (expressões de efeito que agora aparecem em muitos dicionários de citações) condensados, epigramáticos e divertidos. Quando revistas que publicariam matérias sobre mim enviavam fotógrafos, eu adotava poses “padrão” para transmitir minhas ideias ao público de uma forma dramática, assim subvertendo qualquer negatividade e parcialidade que pudessem ser encontradas no próprio artigo. Por exemplo, para a revista People, posei como uma lutadora de rua segurando um canivete em um túnel escuro. Era completamente inédito professoras nos seus 40 anos de idade encenando quadros como esses, mas eu estava imitando as táticas travessas do “teatro de rua” de ativistas políticos nos anos 1960, como os Yippies.

Contudo, apesar da minha imagem pública controversa, recebi pouquíssimas “mensagens de ódio”. De fato, nestes 22 anos em que tenho sido uma pessoa pública, duvido que tenha recebido mais de 10 cartas negativas – e a maioria delas era curta e não assinada. É como se as pessoas estivessem com medo de provocar uma guerreira amazona italiana! Ao invés disso, houve uma enxurrada de cartas de fãs, especialmente depois que apareci na televisão. Isso pode parecer lisonjeiro, no entanto muitas vezes me deixou bastante desconfortável. Por exemplo, recebi cartas de 16 páginas de pessoas aprisionadas, ou um homem no Havaí que enviou um envelope todos os dias durante duas semanas. Não achei agradável me tornar o foco de fantasia e obsessão – que estrelas de cinema, é claro, enfrentam em um nível milhares de vezes pior. Como estudiosa da história de Hollywood, achei interessante experimentar esse processo de dentro, porém, após três anos intensos nos olhos do público, eu me retirei dessa grande visibilidade. Valorizo muito minha privacidade. Exceto por me mudar de um apartamento apertado, de dois quartos, em um sótão para uma pequena casa, minha vida é exatamente a mesma agora como era antes de eu me tornar subitamente reconhecida, em 1990. Eu evitei o agito de Nova York e Washington e me concentrei em ensinar e escrever na Filadélfia. Apesar de trabalhar na cidade, vivo no subúrbio porque preciso ver a natureza todo dia!

Pós-estruturalistas acreditam que o gênero é uma construção social refratada através da linguagem. Então o que dizer dos hormônios? Você acha que nascemos como folhas em branco nas quais a sociedade inscreve tudo? Então, nesse caso, poderia a homossexualidade ser uma escolha e, portanto, curável através de terapia ou aconselhamento religioso?

CP: Os hormônios são uma força extremamente poderosa no desenvolvimento humano. A cada ano, a ciência faz mais e mais descobertas sobre a base genética de traços de personalidade. Nenhum dos principais acadêmicos pós-estruturalistas estudou biologia, neurologia ou genética, que estão completamente ausentes de sua visão de mundo estreitamente linguística. Na primeira página de Sexual Personae, digo que a sexualidade é “uma interseção complexa de natureza e cultura”. O ambiente social realmente desempenha um papel importante na forma como definimos e expressamos o sexo. Porém, há certas características duradouras da masculinidade e feminilidade que têm uma base biológica.

A homossexualidade é certamente uma “escolha” na medida em que voluntariamente escolhemos nos envolver em qualquer ato sexual. No entanto, a pessoa pela qual nos apaixonamos pode não ser questão de escolha. É algo profundamente impresso dentro de uma constelação de impressões e influências da primeira infância. Acredito que haja um forte componente psicológico na homossexualidade, mas agora é impossível discutir essa questão porque ativistas gays furiosamente insistem que a homossexualidade é inata. Essa posição ideológica extrema me preocupa, porque pode levar a homossexualidade a algum dia ser definida por fascistas semelhantes a Hitler como uma defeito de nascença que precisa de extermínio em massa. Quanto à terapia ou aconselhamento como “cura”, não vejo nada de errado em alguém tentar mudar a sua própria orientação sexual. Seria detestável forçar uma cura assim em um indivíduo contra sua vontade, porém todos devem possuir liberdade de escolhas na vida, sem pressão de figuras religiosas moralistas ou de ativistas políticos fanáticos.

Revista Carátula

08 de fevereiro de 2012 0

Está on-line a revista Carátula, periódico cultural centro-americano dirigido pelo escritor nicaraguense Sérgio Ramirez. Ele proferiu uma excelente palestra em Porto Alegre, no Fronteiras do Pensamento, em 2007. Há bons artigos. Confiram aí.