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Posts na categoria "Moda e Comportamento"

Hotel Bavária é agente de poluição sonora em Gramado

30 de junho de 2012 1

O Hotel Bavária, um dos mais tradicionais da cidade de Gramado, tornou-se um problema para hóspedes e vizinhos. As pessoas vêm para o adorável destino turístico gaúcho em busca dos ares, da natureza e do descanso que o ambiente serrano proporciona. Mas quem se hospeda no Hotel Bavária ou tem o azar de habitar no seu entorno é diariamente importunado por uma desagradável poluição sonora que poderia ser facilmente evitada. Sobretudo aos sábados pela manhã, por volta das 8hs, justamente quando as pessoas que se deslocam para Gramado mais pretendem aproveitar a paz do fim de semana, jardineiros impertinentes ligam suas assopradeiras do inferno!

Trata-se de barulhentas maquininhas que prometem ajudar no serviço de varrição. Talvez sejam efetivamente uma mão na roda para os jardineiros – bem, isto é, até que eles, depois de anos expostos a esta agressão, desenvolvam algum provável problema de surdez –, mas para hóspedes e vizinhos que desejam acordar no sábado calmamente, ouvindo o canto dos passarinhos, é um tormento inominável. Se fosse uns quinze minutos de barulho, tudo bem, seria até suportável. Mas os tais jardineiros mantém suas maquininhas ligadas durante a manhã inteira!

Já se apelou diversas vezes para a gerência do Hotel Bavária por compreensão. Gentilmente, prometem solucionar o problema. De fato, depois de cada reclamação, determina-se a suspensão do barulho. Mas a cada fim de semana, o drama se repete. Depois que alguém é acordado pelo berreiro das assopradeiras, o prejuízo já está feito. É inacreditável que um hotel que vende tranquilidade para seus hóspedes produza tamanho incômodo para clientes e vizinhos. É evidente que a Prefeitura precisa coibir esta ação que ofende o perfil identitário da cidade e agride moradores.

8 de Março - Múltiplas Escolhas. Entrevista com Camille Paglia

08 de março de 2012 3

Bom dia! Posto neste Dia Internacional da Mulher versão expandida do texto publicado no domingo passado, dia 4, no Caderno Donna, da Zero Hora, de Porto Alegre, juntamente com link para a entrevista que fizemos com a historiadora da cultura Camille Paglia. Aproveito também para postar duas perguntas adicionais, com respostas ainda inéditas, que consegui fazer com a Camille – ela está ocupadíssima com a finalização do seu novo livro.


“Uma mulher em público está sempre deslocada”, disse Pitágoras, a cerca de 2.500 anos, condensando uma das mais perenes formas de dominação conhecidas. Homem público: sucesso! Mulher pública: vergonha!

Em 8 de Março de 1857, 129 mulheres em greve por melhores condições de trabalho foram queimadas vivas, pela polícia, dentro de uma fábrica têxtil em Nova Iorque. Em 1975, a ONU fixou a data como o Dia Internacional da Mulher, ensejando a reflexão sobre a mulher no espaço público, em torno da igualdade de direitos e responsabilidades entre os gêneros. De lá para cá, muito vem mudando.

No Brasil, no século XIX, enquanto mulheres da elite eram mantidas em reclusão fundamentalista, com menos privilégios que muitas orientais, homens de prestígio mantinham cortesãs com relativo descaramento, como fez o próprio Dom Pedro I. Em 1878, O primo Basílio – clássico da literatura portuguesa –, de Eça de Queiroz, foi tachado de pornográfico, por tratar da paixão adúltera de uma mulher casada. Nos anos 1950, atrizes famosas eram estigmatizadas como prostitutas. Ainda nos anos 1980, promotores de justiça penavam em certos júris do interior para condenar réus acusados de matar a esposa infiel, pois a comunidade achava que ele acertara ao lavar a honra com sangue.

Hoje, uma mulher está na Presidência da República! E conseguimo-lo antes dos Estados Unidos, onde jamais uma mulher foi sequer nominada candidata pelos maiores partidos.

Mas segue a desproporção na política. Partidos têm dificuldade de preencher a cota de 30% de mulheres nas candidaturas. No Rio Grande do Sul, que já foi governado por uma mulher (algo impensável há 50 anos), apenas em 1951 uma mulher elegeu-se Deputada: e hoje são só 7 dentre 55. Houve enorme transformação na identidade feminina, mas permanece o desequilíbrio. Mudanças e tensões que geraram manifesta ansiedade.

É sobre esta ansiedade que Camille Paglia, uma das mais potentes vozes feministas do planeta, se debruça. Nascida em Endicott, Nova Iorque, em 1947, Camille doutorou-se em Yale e é professora na University of the Arts, da Filadélfia. Desde seu grande livro de estreia, Personas Sexuais, publicado aqui em 1990, é conhecida pela combatividade.

Reconhecendo um papel importante à natureza e ao afetivo em seu sistema teórico, Camille provocou a ira das feministas ao propor que o ser-humano é mais do que trabalho e que nem toda tensão pode ser reduzida ao machismo. As emoções de homens e mulheres, sustenta, diferem, pois os hormônios impactam o cérebro diferentemente. Ela argumenta que as mulheres devam respeitar o relógio biológico e, quando têm esta vocação, priorizar a maternidade enquanto jovens. Camille festejou as Drag Queens no que elas têm de exaltação do feminino. O feminismo de Camille é receptivo às múltiplas escolhas de cada um e não prescreve receitas genéricas. Por outro lado, ela também percebe os homens sob forte pressão social para se adaptar a um novo ambiente, no qual o patriarcalismo está em crise e a agressividade primitiva para enfrentar um entorno hostil é cada vez mais inútil.

Tributária da herança libertária dos anos 60, atribui centralidade ao sexo. Chocou ao emular a pornografia e ao celebrar a moda: enquanto a maioria das feministas condena seu poder de coisificação e subjugação da mulher ao desejo masculino, Camille viu aí chance para a afirmação do indivíduo diante de uma moral aplastante, bem como um canal para o brilho do poder feminino sobre o masculino. A pornografia, crê, ajuda a reconectar o humano à animalidade atávica.

Enquanto muitos se preocupam com banalização o sexo, Camille se inquieta com a supressão da sensualidade numa contemporaneidade esterilizada. A grotesca exposição do corpo por Lady Gaga, por exemplo, longe de sensual, lhe sugere mais o sintoma de uma neurose alienada com relação ao próprio corpo. É a languidez sensual dos movimentos de Daniela Mercury ou a autenticidade da beleza madura de Catherine Deneuve, sem plásticas, que a sensibiliza.

Camille abraçou teses polêmicas: foi a favor da legalização da prostituição, dos direitos civis para homossexuais, da liberalização do aborto e da liberalização das drogas. Para ela, o estado não pode interferir na vida privada, tampouco como as pessoas gerem seu corpo. Irritando ativistas, se opôs ao casamento homossexual, pois assim como não reconhece aos religiosos legitimidade para regular a vida civil, pensa não caber ao estado ditar como cada religião organiza seus sacramentos.

Camille se interessou pela cultura pop e viu elementos positivos na cultura de massas. Ela aprecia o rock e o cinema, se dedicando à trajetória de estrelas de Hollywood. Embora ateia, acredita que a religião tem um papel importante a desempenhar na sociedade.

Camille visitou 7 vezes o Brasil, país que adora. Em 1996, promovendo o lançamento de Vampes e Vadias, foi ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Em 2007, conferenciou em Porto Alegre, e, em 2008, em Salvador. Retornou a Salvador em 2009 para curtir o carnaval e, novamente, pouco depois, visitando amigos. Em 2010, conferenciou em Olinda e, em 2011, em São Paulo.

Suas ideias lhe parecem ser mais facilmente compreendidas pelos brasileiros. Sua gesticulação profusa e a personalidade enérgica, intui, são por aqui aceitas com naturalidade. Ela adora provar os pratos típicos regionais e é fã do nosso chope. Incorporou a farofa e o queijo-minas aos seus hábitos. Tornou-se apreciadora da música brasileira e está estudando português.



Durante a década de 1970, você se envolveu em muitas disputas e incidentes extravagantes em seu primeiro trabalho como professora no Bennington College em Vermont. Em 1979, você largou Bennington e passou por um período de isolamento. Em 1981, terminou de escrever Sexual Personae, trabalho em que expandiu sua tese de doutorado em Yale e que foi supervisionado por Harold Bloom. O manuscrito, rejeitado por sete grandes editoras de Nova York, foi finalmente publicado em 1990 e tornou-se um best-seller. Como foi essa passagem rápida da obscuridade para a fama?

CP: Nunca pensei que veria aquele livro publicado enquanto vivesse! No entanto, encontrei inspiração em Emily Dickinson, que persistiu em escrever poemas ousadamente experimentais embora ninguém fosse publicá-los. Ela nunca foi compreendida por seus contemporâneos e morreu em 1886 na completa obscuridade. Se isso aconteceu com uma grande poeta e gênio, as agruras de uma mera professora universitária foram certamente insignificantes!

Quando Sexual Personae foi lançado, fiquei subitamente no meio de uma tempestade. O feminismo estava travando uma guerra cultural com pornografia, assédio sexual e liberdade de expressão, e a elite acadêmica havia se tornado dominada pelo pós-estruturalismo, que eu detesto. Então, durante vários anos, fiquei envolvida em combates constantes em jornais e revistas e na televisão. Foi uma transição muito estranha e abrupta para a fama, porém eu estava preparada para isso devido à minha longa pesquisa sobre escândalos e controvérsias de Hollywood. Eu venci meus oponentes graças à minha habilidade de falar diretamente ao público através de “sound bites” (expressões de efeito que agora aparecem em muitos dicionários de citações) condensados, epigramáticos e divertidos. Quando revistas que publicariam matérias sobre mim enviavam fotógrafos, eu adotava poses “padrão” para transmitir minhas ideias ao público de uma forma dramática, assim subvertendo qualquer negatividade e parcialidade que pudessem ser encontradas no próprio artigo. Por exemplo, para a revista People, posei como uma lutadora de rua segurando um canivete em um túnel escuro. Era completamente inédito professoras nos seus 40 anos de idade encenando quadros como esses, mas eu estava imitando as táticas travessas do “teatro de rua” de ativistas políticos nos anos 1960, como os Yippies.

Contudo, apesar da minha imagem pública controversa, recebi pouquíssimas “mensagens de ódio”. De fato, nestes 22 anos em que tenho sido uma pessoa pública, duvido que tenha recebido mais de 10 cartas negativas – e a maioria delas era curta e não assinada. É como se as pessoas estivessem com medo de provocar uma guerreira amazona italiana! Ao invés disso, houve uma enxurrada de cartas de fãs, especialmente depois que apareci na televisão. Isso pode parecer lisonjeiro, no entanto muitas vezes me deixou bastante desconfortável. Por exemplo, recebi cartas de 16 páginas de pessoas aprisionadas, ou um homem no Havaí que enviou um envelope todos os dias durante duas semanas. Não achei agradável me tornar o foco de fantasia e obsessão – que estrelas de cinema, é claro, enfrentam em um nível milhares de vezes pior. Como estudiosa da história de Hollywood, achei interessante experimentar esse processo de dentro, porém, após três anos intensos nos olhos do público, eu me retirei dessa grande visibilidade. Valorizo muito minha privacidade. Exceto por me mudar de um apartamento apertado, de dois quartos, em um sótão para uma pequena casa, minha vida é exatamente a mesma agora como era antes de eu me tornar subitamente reconhecida, em 1990. Eu evitei o agito de Nova York e Washington e me concentrei em ensinar e escrever na Filadélfia. Apesar de trabalhar na cidade, vivo no subúrbio porque preciso ver a natureza todo dia!

Pós-estruturalistas acreditam que o gênero é uma construção social refratada através da linguagem. Então o que dizer dos hormônios? Você acha que nascemos como folhas em branco nas quais a sociedade inscreve tudo? Então, nesse caso, poderia a homossexualidade ser uma escolha e, portanto, curável através de terapia ou aconselhamento religioso?

CP: Os hormônios são uma força extremamente poderosa no desenvolvimento humano. A cada ano, a ciência faz mais e mais descobertas sobre a base genética de traços de personalidade. Nenhum dos principais acadêmicos pós-estruturalistas estudou biologia, neurologia ou genética, que estão completamente ausentes de sua visão de mundo estreitamente linguística. Na primeira página de Sexual Personae, digo que a sexualidade é “uma interseção complexa de natureza e cultura”. O ambiente social realmente desempenha um papel importante na forma como definimos e expressamos o sexo. Porém, há certas características duradouras da masculinidade e feminilidade que têm uma base biológica.

A homossexualidade é certamente uma “escolha” na medida em que voluntariamente escolhemos nos envolver em qualquer ato sexual. No entanto, a pessoa pela qual nos apaixonamos pode não ser questão de escolha. É algo profundamente impresso dentro de uma constelação de impressões e influências da primeira infância. Acredito que haja um forte componente psicológico na homossexualidade, mas agora é impossível discutir essa questão porque ativistas gays furiosamente insistem que a homossexualidade é inata. Essa posição ideológica extrema me preocupa, porque pode levar a homossexualidade a algum dia ser definida por fascistas semelhantes a Hitler como uma defeito de nascença que precisa de extermínio em massa. Quanto à terapia ou aconselhamento como “cura”, não vejo nada de errado em alguém tentar mudar a sua própria orientação sexual. Seria detestável forçar uma cura assim em um indivíduo contra sua vontade, porém todos devem possuir liberdade de escolhas na vida, sem pressão de figuras religiosas moralistas ou de ativistas políticos fanáticos.

À mesa com Camille Paglia e Marcia Tiburi - Fliporto 2010, Olinda

01 de março de 2011 0

Oi pessoal, a sessão na qual eu e Marcia Tiburi entrevistamos Camille Paglia, na Fliporto, em novembro, em Olinda, foi postada pela organização do evento no Youtube. Confira aí: À mesa com Camille Paglia.

Visual atroz de Lady Gaga em Paris

22 de dezembro de 2010 1

Patética a forma como Lady Gaga se expôs em Paris – praticamente pelada, foi fazer compras, com temperaturas abaixo de zero. É doentio e non sense – no pior sentido. Não tem cabimento uma major star se expor gratuitamente dessa maneira. Mais chocante ainda é ela ser aclamada pelo público. Seu sucesso reforça os argumentos de caras como Andrew Keen, para quem a era digital está criando bases para uma tirania das massas. Gaga, a primeira diva da era digital, é um trash sem noção. Como se trata de uma major star da dance music, sequer consegue ser grotesca – o grotesco ainda lhe daria o poder de revelar pela confrontação verdades submersas. Mas nem isso. Ela mostra a bunda dessa maneira porque a tem feia como um raio e porque sem essa produção exagerada não lhe resta mais nada, física e culturalmente falando. É lamentável que algo assim mobilize tantos admiradores.

Veja o Link:


http://www.dailymail.co.uk/tvshowbiz/article-1340591/Lady-Gaga-bares-flesh-coloured-pants.html

De lupa

08 de dezembro de 2010 1

Gostei da iniciativa do Vereador de Porto Alegre Carlos Todeschini, de obrigar a instalação de lupas em carrinhos de compras e em gôndolas nos supermercados, a fim de que os consumidores possam ler aquelas famigeradas letrinhas pequenas impressas nas embalagens. Eu, por exemplo, sofro com esta dificuldade. Não posso ingerir açúcar e é sempre um problema ler a composição dos alimentos. Para quem não sabe, boa parte das coisas supostamente salgadas, como molhos, massas, pães, bolachas, torradas, etc… leva açúcar! Se eu esqueço os óculos, já não consigo ler.


Pior, entretanto, acontece nos restaurantes – talvez o mais esdrúxulo e radical caso de esquizofrenia comunicativa do qual se tenha notícia. A constrangedora e esmagadora maioria desses estabelecimentos entrega aos seus clientes cardápios impressos com letrinhas miúdas, capazes de serem lidas apenas por pessoas de 20 anos. Acontece que essas pessoas dificilmente frequentam restaurantes e, quando o fazem, raramente pagam a conta, pois costumam então estar em companhia de um adulto que o faz. Então, os restaurantes são instalados para pessoas com mais de 30 anos, mas a sua estratégia de comunicação foca-se nos jovens e adolescentes, únicos capazs de ler sem sofrimento letrinhas miúdas! Esquizofrenia igual não existe!


Eu costumo frequentar restaurantes munido de lanterninhas e de óculos. Pois não bastassem as letrinhas diminutas, a iluminação difusa e serena praticamente inviabiliza a leitura dos cardápios. Lembro-me de ter ido a um restaurante em Washington no qual o menu era equipado com uma lanterninha acoplada no alto. Achei a ideia genial. Enfim, será necessária uma lei municipal para combater a esquizofrenia comunicativa dos nossos restaurantes, algo que deveria ser naturalmente percebido por agências de publicidade, relações públicas e etc.

Momento noiva

21 de novembro de 2010 1

Bom, sexta-feira ao cair da noite, estávamos eu e Camille Paglia taca-taca e taca-taca no lobby do hotel Atlante, em Recife, quando ela interrompe o animado qué-qué-qué e diz: “uma noiva!” Óbvio que minha primeira reação foi achar que o scotch com soda que tomávamos (e que eu aprendera naquele momento ser excelente receita para despertar uma mente cansada) estava causando alucinações. Mas não! Tinha mesmo uma noiva descendo as escadas do mezanino. Sorriso radiante, felicidade contagiante, num branco ofuscante. Tudo! O kit completo! Eu bem que tinha sentido, enquanto conversávamos, tipo assim, com o canto dos olhos, que flashes espocavam sem parar. De fato, um fotógrafo registrava agora a noiva em estado de graça junto ao buquê de antúrios sobre o balcão do bar, apoiada no piano de cauda – sim, claro, tinha que ter um piano de cauda no lobby –, obrigando até o pianista a parar de tocar; depois, enroscada no corrimão da escada, com a inusitada cascatinha ao fundo… Muitas poses! Muitos flashes. Ela estava bonita, a moça. Enquanto o a-cada-passo-um-flash virava rotina, logo ali, ao lado, retomávamos fio da conversa. Então, foi-se a noiva. Tudo parecia ter voltado ao normal, o momento emoção passara e até o pianista voltara a tocar, quando, subitamente, pou!, outra noiva! E foi assim: mais outra, mais outra… Parecia linha de montagem, em série. Especulávamos se seria algum desfile, mas a rotina do lobby continuava como se aquela cena mais do que inusitada não estivesse acontecendo. Gente tomando seu drink, hóspedes chegando e saindo, o apressado corre-corre dos funcionários. Se fosse um desfile, não havia plateia, pois todos faziam cara de paisagem para as felicíssimas noivas. Não resisti e perguntei ao barman, o que era aquilo, afinal? Ahhh…, diz ele, com muita naturalidade, todo o fim de semana se hospedam aqui de 20 a 30 noivas. Elas se arrumam no hotel, se internam no spa (onde, descobri mais tarde, haver até um pacote chamado “dia de noiva”), fazem esse ensaio fotográfico, vão para a igreja, voltam com os noivos para a lua de mel e retornam para suas rotinas no domingo à tarde. Toma!  Uma depois da outra! Tem alguém aí achando ainda que a felicidade não é contagiante e transbordante nesse país, onde nunca antes tantas noivas se reuniram no mesmo hotel? Bom, enfim, na sociedade de massas que emerge, até a mais individual das festas torna-se um fenômeno coletivo. Não preciso dizer que adoramos estar bem no meio daquele vai-e-vem de véus, buquês, caudas e sorrisos.

Natal: guinchadeiras, fumantes, arquitetura e Pau Brasil

20 de novembro de 2010 0

Gosto de Natal, no Rio Grande do Norte. Já disse isso várias vezes e já dei inúmeros motivos para tanto. Mas hoje noto, bem rapidamente, três enigmas em Natal que instigam a minha curiosidade. Talvez alguém aí possa me ajudar a compreendê-los.


Em primeiro lugar Natal é decididamente uma cidade sem guinchadeiras. Lembrando, guinchadeiras são essas mulheres alucinadas que berram ao celular, que guincham feito porcos às portas do matadouro, em mesas de bares, deblaterando uma explosão de hormônios em ebulição carente e em furor garganteo. Porto Alegre, por exemplo, é uma cidade assolada pela praga das guinchadeiras. Na Capital gaúcha, elas se tornaram um problema sanitário, uma emergência de saúde pública. É tanto berreiro, tanto guincho, que ninguém mais consegue fazer as compras em paz no supermercado, caminhar por uma calçada, assistir a um filme no cinema, cores e amores contados em conversas telefônicas ou em mesas de bar invadem constantemente o espaço dos outros, produzindo uma avalanche de poluição sonora. Há como que um desejo desesperado de escancarar a sua própria privacidade, de arreganhar-se, de impor aos outros o tom mais alto possível. Os bares e restaurantes da cidade, então, tornaram-se impraticáveis. Guinchadeiras no mais completo delírio reúnem-se em mesas em torno das quais competem para ver quem berra mais alto, trincando janelas e inviabilizando conversas nas mesas ao lado. Pois, em Natal, nada disso acontece. Lá todo mundo comunica-se num tom de voz civilizado. Por que será isso?


Outro fenômeno peculiar que me chamou a atenção em Natal é a baixíssima quantidade de fumantes. Em Natal, raramente a gente vê alguém fumando. E, quando vê, tenha quase certeza de se tratar de um estrangeiro. Aliás, é até difícil de encontrar locais que comercializam cigarros por lá. É outro mistério. Uma conhecida disse-me atribuir o fato ao calor. Sendo o clima mais quente, supõe ela, as pessoas tenderiam a fumar menos. Não tem nada a ver. Se assim fosse, as pessoas fumariam pouco nas Filipinas e na Tailândia. E a gente sabe que lá a turma fuma feito morcegos. Alguém aí tem um palpite para isso? Existem pesquisas sobre o consumo de tabaco no Rio Grande do Norte?


O aspecto negativo, mas não menos intrigante, fica por conta da arquitetura. Natal é uma cidade de clima perfeito. A temperatura fica quase o ano inteiro em 28° C. Há uma permanente brisa fresca que sopra do oceano, como se fosse um ventilador natural sempre ligado. Chove pouco. Assim, se você está numa varanda, protegida do sol, usando roupas leves, não sentirá calor. É muito agradável. O pessoal de lá vive reclamando do calor. Mas não tem ideia do que é calor. Canícula de verdade tem em Porto Alegre, onde no verão pode passar de 40° C, sem brisa fresca. Um bafo alegre, um forno alegre!


Então, tendo em vista este éden, seria de se esperar que as construções fossem todas muito ventiladas, com amplas aberturas, telheiros de barro… Mas não! Medra em Natal uma arquitetura brutalista, feita de caixotinhos de concreto, com janelas que não abrem e ares condicionados ligados o dia inteiro no máximo! Não dá para entender! As pessoas preferem se lacrar em salas de concreto com o ar condicionado ligado ao invés de aproveitar a brisa fresca sempre generosa e presente. Tudo bem que haja ar condicionado no lobby de um grande hotel, num shopping center, num grande supermercado. Mas por que, por exemplo, as salas de aula da Universidade foram construídas de forma a não serem habitadas senão com ar condicionado? Por que há hotéis cujos quartos são quase lacrados. Bom, e por aí vai…


Outra coisa que eu adoro em Natal é o paisagismo urbano. Eu acho tão extraordinário que a cidade esteja toda coberta por mudinhas de Pau Brasil! É uma árvore tão linda e com tanta personalidade! Sim, é como se houvesse uma relação esquizofrênica entre o notável paisagismo e a arquitetura desconectada do ambiente.

Madonna de namorado novo?

18 de outubro de 2010 0

Matérias do Daily Mail e no New York Post desse fim de semana fofocam sobre o novo possível affair da Madonna, que foi vista circulando por clubes noturnos de NY com o coreógrafo Brahim Rachiki, 33. Eu já estava me acostumando a ver a Madonna em companhia do Jesus Luz. Não sei se ele tem ou não talento como DJ – nunca assisti a uma performance dele. Mas acabou me parecendo um garoto do bem. Sim, naturalmente, preocupado com a sua imagem e atento às oportunidades que a vida oferece (e, sobretudo nesse meio, quem não é?), mas com um jeito tranqüilo e sem transmitir, de modo algum, oportunismos descarados. Aliás, no que respeita ao relacionamento dos dois, ele tem se portado com discrição, sem declarações e comentários públicos.


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Histeria eco-urbanóide

11 de setembro de 2010 1

As pessoas perderam a conexão com a natureza, com o campo, com a floresta. Vivem encapsuladas em rotinihas urbanas alienadas, com controles remotos nas mãos, vagando sobre o concreto, e, de repente, pensam que vão salvar o planeta adotando a primeira macega na qual tropeçam. Empilham-se os exemplos dessa histeria eco-urbanóide que medra por aí.


Dia desses, eu quase fui trucidado por alguns vizinhos em Gramado, tudo porque resolvi derrubar 11 árvores. Queixaram-se à Prefeitura, fizeram um auê. Mas deram logo com os burros n’água, porque eu tomara o devido cuidado de solicitar à Prefeitura autorização para o abate, como prevê a lei. Ela me foi prontamente concedida, pois os exemplares visados eram acácias negras com mais de 14 anos, eucaliptos brancos e vermelhos e alguns ciprestes. Todos os exemplares eram exóticos e estavam em zonas lindeiras, oferecendo risco, inclusive, à segurança das pessoas e à integridade material das propriedades vizinhas.


Qualquer mentecapto deveria saber que uma acácia negra precisa ser derrubada depois de 10 anos, se não, pode cair de podre. Já os eucaliptos, ninguém precisa dizer que são árvores de corte, exóticas, que contribuem pouco para a qualidade do nosso ecossistema, a não ser quando plantadas especificamente para o corte. Não há porque os termos em zona urbana. Quanto aos ciprestes, tirei quatro, dos sete que havia no terreno, para, justamente, permitir a entrada de luz solar e substituí-los por espécimes nativas e frutíferas. O biólogo da Prefeitura elogiou minha ação. Mas os vizinhos aratacas surtaram. O mais exaltado era um senhor grisalho, comprovando que, diferentemente do que muitos supõem, a alienação com relação à natureza e à biologia vai muito além da juventude.


Noutro dia, passeava eu pela Vila Assunção, em Porto Alegre, quando vi a coitadinha de uma extremosa, numa praça, tomada de erva de passarinho. As extremosas não são nativas, mas são arvorezinhas encantadoras, que colorem o verão com a sua floração intensa e pintalgam o outono na sua condição caducifólia. Não incomodam ninguém, suas raízes são contidas e suas dimensões limitadas. Por outro lado, sabe-se o quão nociva pode ser a terrível erva de passarinho. Há meses aquela pobre arvorezinha estava assim, sem receber os cuidados necessários da SMAM. Então, resolvi tomar uma atitude e fui arrancar eu mesmo o parasita deletério. Eis que surge, retumbante, de uma casa de fronte uma moradora indignada por que eu estaria depredando a extremosa….! Nem adiantou argumentar: a erva era verde e tudo o que é verde para essa gente sem noção é bom. Simples assim. Ficou lá a extremosa, a ser sugada pelo parasita. E a doidivanas da praça achando que tinha ganho o seu dia na luta para salvar o planeta.


Nunca aconteceu com vocês?


Recentemente reverberaram por prestigiosas colunas críticas à derrubada dos ficos e ligustros na Praça da Alfândega. A derrubada estava aprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e era mais do que justificável, pois estas espécies exóticas possuem copa cerrada, que bloqueia a entrada e luz solar, sufocando as demais, sem mencionar suas raízes agressivas, que prejudicam o encanamento e o calçamento. Além disso, seriam substituídas por encantadores ipês amarelos, árvores nativas muito apreciadas pela fauna e notadamente decorativas. O que mais me impressionou na queixa vazada pela imprensa era que partia de cidadãos cultos, professores universitários, jornalistas experientes… Num indicativo muito claro de que estamos errando fragorosamente no nosso sistema educacional, pois há muito tempo estamos produzindo gerações de pessoas alienadas da natureza. Essas pessoas agora se descobrem paladinos da luta verde e convertem-se em furibundos defensores das macegas que crescem pelos cantos das calçadas. E a quem interessar possa, vale lembrar que as praças e parques são locais de paisagismo urbano – não tem o menor cabimento aceitar ali qualquer macega, pois há um projeto paisagístico que precisa ser preservado. Bom, pelo menos deveria haver, pois isso é civilização e cultura!


Outro dia, postei aqui no blog link para um lúcido artigo da Camille Paglia no qual ela criticava exatamente essa dissociação do ensino universitário com a vida real. Quando professores universitários, alguns até apopsentados, resolvem defender os ligustros e os ficos da Praça da Alfândega, esta tese fica mais do que comprovada!


Aliás, em se tratando da Praça da Alfândega, eu iria ainda mais longe. Eu adoro os guapuruvús: são lindos, altos, esguios, quase uma escultura modernista, com magnífica floração amarela na primavera. O problema é que são árvores que caem, com enorme freqüência, sobretudo depois de uma certa idade. Ora, os guapuruvús da Praça da Alfândega são imensos e já bem antigos. Eu gostaria de ver um laudo da SMAM sobre a segurança que eles oferecem aos freqüentadores da Praça…


E falando em SMAM, na esquina das Avenidas Copacabana e Wenceslau Escobar, na Tristeza, havia uma casinha, que foi demolida para dar lugar a um empreendimento comercial. Até aí, tudo normal. O lance é que o prédio ali erguido foi obrigado a desviar duas velhas árvores. Criou-se uma forma arquitetônica meio esdrúxula. A medida seria mais do que elogiável, não estivessem estas árvores condenadas e definhando a olhos vistos. Uma delas, cuja qualidade agora não me recordo, estava completamente tomada de erva de passarinho e já tinha um de seus lados necrosado; a outra, era uma araucária, que de tão velha, já formara a taça. E se tratava de uma araucária especialmente raquítica, indicando que crescera em solo impróprio e jamais conseguira se desenvolver convenientemente. De fato, o motivo pelo qual as araucárias não se adaptam bem em Porto Alegre é que elas necessitam de solos profundos, o que existe na serra, mas não na Capital. Para piorar a situação, essa árvore fanava a olhos vistos, já tendo vários galhos ressequidos e pelados. Estava morrendo, de velha, de fraca. Nesse caso, o melhor seria abreviar o suplício e cortá-la de uma vez! Mas, não! É verde! E a SMAM, que não dá conta de limpar as ervas de passarinhos das árvores, não deixou derrubar aquelas duas agonizantes, num claro indício de que a histeria eco-urbanóide chegou aos técnicos. Melhor seria ter determinado aos construtores do prédio que as derrubassem e ali plantassem exemplares nativos, em substituição.


É esse tipo de dissociação que está tomando conta da nossa Câmara de Vereadores. Nossos Vereadores podiam estar propondo soluções criativas para a cidade, mas preferem paralisá-la com essa discussão sobre os 60 metros de área de restrição à construções por 60 quilômetros de orla. Se estivessem efetivamente preocupados com o bem estar da população de Porto Alegre e com o ambiente da cidade, teriam, por exemplo, entregue à Governadora e ao Ministério Público uma moção exigindo que os incendiários dos Campos de Cima da Serra fossem severamente multados e, até, enjaulados. Afinal, o fogo que eles produzem contribuiu para o aquecimento global e ajudou a levar as emergências dos hospitais da Capital a um colapso sem precedentes. Imaginem o impacto que uma moção assim não teria junto ao Governo! E coloco aqui o Ministério Público também porque quando todos os agentes Executivos falham, é no ente ministerial que depositamos nossas esperanças. Foi por isso que a sociedade outorgou-lhe o poder que esgrime desde a Constituição de 1988. E é triste constatar que no caso dos incêndios criminosos nos campos, o Ministério Público nada tem feito. Mas, não, os Vereadores preferem perder-se em debates infrutíferos e delirantes.


Mais exemplos? Em Copacabana, no Rio de Janeiro, será instalada uma usina de biodiesel para reciclar o óleo de cozinha dos bares e restaurantes. Esse óleo normalmente é despejado nos esgotos, prejudicando sobremaneira o meio ambiente e ajudando a entupir tubulações. O biodiesel que seria produzido a partir daí, seria utilizado para movimentar os caminhões de lixo da Prefeitura, reduzindo gastos com combustível e a emissão de CO2. O equipamento todo para a usina custa menos de R$ 250 mil reais, o que estabelece retorno garantido para a iniciativa. Ou seja, a Prefeitura ainda terá lucro!


Por quê não propor algo parecido para Porto Alegre? Por quê não ajudar o Executivo a encontrar soluções criativas e eficazes?

O inferno das senhas e do auto-atendimento

09 de julho de 2010 2

Quando as caixas automáticas surgiram, em tempos pré-históricos, um único serviço – o Banco 24 Horas – condensava todos os bancos. Basicamente, o que se podia fazer, então, com um cartão magnético era sacar dinheiro de uma conta corrente. A novidade, claro, foi acolhida como um grande conforto: de repente, podíamos sacar dinheiro a qualquer hora do dia, ou da noite, sem depender mais do horário comercial dos bancos.

Mas os problemas não tardaram. Não precisou muito para descobrirmos que os bandidos também achavam ótima a idéia dos cidadãos trabalhadores irem sacar os seus troquinhos no meio da noite. Foi o que bastou para que uma onda de assaltos sepultasse os quiosques do 24 Horas que estavam espalhados pelas cidades.

Tudo bem, porque, afinal, não passava de um conforto, um luxo extra para o cliente. Podíamos perfeitamente voltar a fazer, como sempre, os nossos saques na boca do caixa.

Mas o conceito era tentador para instituições bancárias sempre ávidas pela redução de custos e maximização dos (próprios) lucros. Todos os bancos acabaram instalando as suas caixas automáticas, suas agências eletrônicas. Sempre, claro, com a nobre justificativa de que o auto-atendimento ganhava em agilidade…

Aos poucos, as tais caixas automáticas começaram a oferecer múltiplos serviços: saques, estratos, saldos, depósitos, transferências, pagamentos… E tarefas que antes eram executadas pelos funcionários dos bancos, agora são feitas por nós mesmos. Como a emissão de talões de cheques. Quando antes os talões podiam ser retirados no caixa ou eram enviados pelo correio, hoje investimos nosso próprio tempo para imprimi-los, destacar as folhinhas, grampear o maço. E lá se vão uns bons 10 minutos. Tudo somado, penso em quantos postos de trabalho não puderam ser reduzidos nos bancos. Sempre, claro, com a nobre justificativa de que somos nós, os clientes, quem ganhamos com o auto-atendimento.

Paralelamente a diversificação dos serviços/encargos, as operações foram ficando cada vez mais complexas. Instaurou-se uma verdadeira arrogância da tecnologia. Filas se formam. E as pessoas ficam ansiosas com o tempo que alguns consomem em suas operações. Conheço uma senhora que ficou traumatizada com estas caixas automáticas, desde o dia em que uma delas engoliu o seu cartão. E quando o código de barras daquela conta que precisamos pagar simplesmente não funciona? Precisamos então digitar aqueles números intermináveis. O pior é sempre a terrível seqüência de vários zeros. Eu nunca consigo contar quantos zeros são. E, como simplesmente não há a opção para corrigir, não raro precisamos anular a operação e começar a digitar tudo novamente, o que transforma o simples ato de pagar uma conta num verdadeiro suplício.

E então vem a praga das senhas. Antigamente, bastavam 4 dígitos. Hoje são 6. A eles associaram-se, ainda, três letrinhas. Eis que agora alguns bancos substituíram nossas 3 letrinhas por três conjuntos de duas letrinhas – 6 ao todo, portanto! E haja ginko-biloba para guardar na memória já saturada de tanta informação. Dane-se o sujeito que padecer do infortúnio de necessitar de mais de uma conta bancária: 6 dígitos e 6 letrinhas para cada uma delas! Isso, é claro, sem contar a senha do e-mail, do antivírus, das comunidades sociais na Internet, da Base Lattes, o código da assinatura do jornal, da TV a cabo…

Mas não pára por aí. Outro dia, fui à agência de um Banco na Tristeza, em Porto Alegre, e as máquinas simplesmente não informavam na tela as letrinhas que eu precisava digitar. Refiz a operação várias vezes. Tentei os cartões de outra conta bancária, de outra agência. Troquei de terminal. Nada! As letrinhas que o próprio sistema me havia imposto não apareciam na tela da máquina, de forma que eu não conseguia completar nenhuma operação. Chamei a estagiária – moça muito simpática, mas ocupada atendendo outros clientes. Esperei. Quando finalmente chegou minha vez, ela não acreditou. Precisei mostrar o que acontecia na tela… Ela foi falar com o gerente e voltou dizendo que eu deveria repetir a operação até conseguir, pois aquela anomalia era simplesmente impossível de estar acontecendo. Diante da mensagem absurda, pedi a ela que chamasse o gerente – afinal, os terminais de auto-atendimento ficam separados do resto da agência pela desagradável porta giratória, pela qual não conseguimos passar com celulares, chaves, isqueiros, cintos ou casacos metalizados, bolsas… O gerente não veio. Ataquei um outro gerente que apareceu para auxiliar uma senhora, que também enfrentava alguma dificuldade anômala. Descrevi a situação a ele repetidas vezes. Ele acreditou apenas quando testamos novamente os cartões nos terminais, não sem antes esperarmos a nossa vez nas filas. Disse-me então que eu deveria retirar uma senha – sempre ela! – e esperar a minha vez de ser atendido por um dos gerentes. Fiz isso, não sem protestar, pois, afinal, eu estava sendo punido com uma enorme perda de tempo por uma falha do sistema operacional do banco. Chegou minha vez de ser atendido. Expliquei o que se passava novamente, para a terceira pessoa, que também não acreditou em mim. Fomos, mais uma vez, fazer um teste. Precisei mostrar a este funcionário o recibo que a maldita máquina havia impresso há uns dias atrás com minha nova senha para que ele se convencesse de que eu não tinha esquecido as 6 letrinhas que me cabiam.

Ele se limitou a dizer que aquilo era impossível. Mas, finalmente, deu-me novas letrinhas. Depois de mais de 40 minutos na agência bancária, consegui sacar uns caraminguás. Ao meu lado, uma moça reclamava que a máquina não estava imprimindo recibos de operações que ela havia feito…

O episódio, contudo, permanece sem explicação. Foi uma falha do sistema do Banco que atingiu também outros correntistas? Foi o sistema do Banco vítima do ataque de rakers? A segurança do meu cadastro foi violada? Como se explica, afinal, esta anomalia, e como confiar no sistema de segurança se nem mesmo as senhas que nos informa são perenes? E, em meio a tudo isso, chocou-me a presunção de que a tecnologia não poderia estar errando – eu é que deveria estar fazendo algum procedimento equivocado.

Quem foi que disse, de resto, somos obrigados a engolir as senhas que vomitam sobre a gente? Quem foi que disse que precisamos ocupar nossa memória com informações que deveriam ser geridas pelos bancos? Quem foi que disse que temos de trabalhar para os bancos, quando são eles que nos prestam um serviço pelo qual já pagamos?

Pode ser que eu esteja ficando velho e ranzinza – mas não posso deixar de notar que, pelo menos nesse aspecto, a vida parecia bem mais feliz quando não tínhamos de memorizar tantas senhas, quando não precisávamos fazer o trabalho dos outros, quando éramos recebidos nos bancos por pessoas, e pessoas que admitiam ser o “sistema” falível.