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Posts na categoria "Religião"

Carta do Irani

23 de outubro de 2012 0

Nós, professores, estudantes e pesquisadores da área de História e demais Ciências Humanas, participando de três sessões (na UFSC, entre 29 de maio e 1 de junho; na UFPEL, entre 29 e 31 de agosto e na UFFS, entre 18 e 22 de outubro) do Simpósio sobre o Centenário do Movimento do Contestado, reunidos ao longo deste ano de 2012, preocupados com o estado e situação de acervos documentais, locais de memória, patrimônio histórico e da população remanescente do conflito do Contestado, alertamos a sociedade civil e conclamamos as autoridades públicas (órgãos de Patrimônio e Memória, Poder Executivo, Ministério Público e Poder Judiciário, das esferas municipais, Estaduais e Federal) para:

a). A premência da implementação de políticas públicas de saúde, educação e terras para a população remanescente do conflito, como forma de atendimento a cidadãos que, por gerações, estiveram marginalizados dos benefícios da sociedade brasileira. Considerando que os núcleos de remanescentes do conflito – e de população tradicional do planalto meridional em geral – apresentam atualmente os mais baixos índices de desenvolvimento humano do sul do Brasil (IDH, conforme avaliação oficial);

b). A urgência da defesa dos locais de memória e convivência das populações tradicionais remanescentes do conflito em Santa Catarina, e em maior âmbito, dos locais frequentados pelos devotos da tradição de São João Maria em todo o sul do Brasil. Atualmente muitas fontes de “águas santas”, grutas, ermidas, cruzeiros, antigos redutos, guardas e cemitérios precisam de defesa institucional e recuperação e conservação, como locais de visitação, culto, convivência e pesquisa científica;

c). A necessidade da localização, preservação, guarda e colocação à disposição de pesquisa de acervos documentais, de origem pública ou privada, compreendendo todo um repertório (de documentos, imagens, prosa, poesia, orações, pinturas, esculturas, objetos museológicos, depoimentos orais e peças audiovisuais) que tenham relação com a Guerra do Contestado e, num âmbito mais amplo, sobre a vida a sociedade e a cultura do planalto meridional brasileiro;

Acreditamos que é nossa obrigação, como professores, pesquisadores e estudantes, apontar as questões acima para que nos próximos 100 anos não tenhamos que lamentar a continuidade de situações de subalterização e marginalização de nossa pobre população que tanto trabalhou e trabalha para a edificação da nação.

Irani, 22 de outubro de 2012.

Assinam: Os participantes do Simpósio do Centenário do Movimento do Contestado: História, Memória, Sociedade e Cultura no Brasil Meridional, 1912 – 2012. Carta aprovada por aclamação na mesa final da sessão de Chapecó – UFFS.

SEMINÁRIO CONTESTADO, LEITURAS E SIGNIFICADOS

15 de setembro de 2012 0

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro está promovendo um seminário sobre o Conflito do Contestado, no qual terei também a honra de falar. Posto abaixo a programação para vocês, notando apenas que não sou vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina, como indicado no folder, mas ao Unilasalle/Canoas, no Rio Grande do Sul.

Folder contestado IHGB

Em torno da gênese da Europa

13 de setembro de 2012 0

Não fosse pela crise da Grécia, para quem vê a Europa hoje sua unidade política pode parecer algo dado. Mas não é assim. Em novembro de 1989, ninguém imaginava que o muro de Berlim cairia ou que as Alemanhas se reunificariam.

Em 1945, o tema era tabu na França recém liberta, pois a ocupação nazista impusera a tese de uma Europa unificada sob tacão totalitário. O historiador Lucien Febvre, enfrentando-o, contudo, invocou Marc Bloch: a Europa surgiu como civilização quando o Império romano desmoronou. Não há Europa por natureza, não apenas por causa de sua diversidade geográfica e cultural, mas porque suas fronteiras foram móveis.

Para os gregos antigos, o mundo era uma esfera plana. Como esta abstração lógica previa necessidade de repartição simétrica das terras, a massa oriental foi denominada Ásia (terra do sol nascente) e a ocidental Europa (terra em que a noite cai). A ideia de continente é tardia – aparece em 520 a.C.: Hecateu de Mileto acreditava serem a Ásia e a Líbia (África) juntas do mesmo tamanho da Europa. Heródoto, nascido em 484 a.C, mais crítico, disse ignorar de onde esses nomes vinham, quais os limites dos continentes e se eram mesmo cercados por água. Estrabão, geógrafo, por volta de 20 d.C.  em Roma, já dizia que a Europa e a Líbia juntas não se igualariam à Ásia – sente-se a presença de Alexandre o Grande entre eles. Os continentes são concepções ocidentais, que satisfazem necessidades de generalização e classificação.

O filósofo espanhol José Ortega y Gasset, no início do século XX, considerou a Europa mestiça, mas não incluiu muçulmanos, judeus, africanos, americanos… Mais recentemente, o Ministro da Educação da França, Luc Ferry, disse acreditar numa identidade europeia, baseada no helenismo, no cristianismo e no judaísmo, que, ainda, dialogaria com os EUA. São ainda fórmulas questionáveis.

A Grécia inventou a Europa, mas o mundo grego era mediterrânico. No século XVIII, franceses e prussianos quiseram-se herdeiros de uma Grécia idealizada – diante do perigo persa, a Grécia de fato descobrira a sua identidade, até então fragmentária: se Homero ainda não usava um coletivo para os gregos, Heródoto confrontara a liberdade ao despotismo asiático. O conceito de grego se construiu em oposição ao de bárbaro.

Mas a liberdade dos gregos convivia com a escravidão, marginalização do camponês e subordinação das mulheres. A democracia ateniense era privilégio de 1/10 da Ática. Esse limitado programa democrático perdeu vigência no século IV a. C: a tirania macedônica realizou o sonho de derrota do Império Persa, mas as cidades gregas renunciaram à autonomia.

O milagre grego, segundo o historiador Joseph Fontana, precisa ser desmistificado – de povo criador, para cultura hibridizada. A cultura, contrariamente ao que se acredita, era lá sobretudo oral. Grandes bibliotecas (400 mil rolos em Alexandria) eram instrumentos de controle manipulados por minorias. A escrita apareceu em 3.200 a.C. na Mesopotâmia e foi aprimorada na Fenícia, onde o sistema sumério foi adaptado à fala semítica, com cada signo representando um som consonântico, formas lineares e desenho sobre papiro. Por volta de 800 a.C., os gregos adotaram o prático alfabeto fenício e o enriqueceram com as vogais.

Fala-se nos gregos, mas pouco se sabe dos Etruscos (1200 a 200 a.C), primeira  organização urbana em terras hoje europeias e que tanto legou aos romanos. Já em Cartago, a alfabetização era mais estendida do que entre os gregos, porém Roma apagou sua memória.

Roma não foi um império uniforme. Povos e culturas díspares, submetidos militarmente, se mantinham unidos graças à comunidade de interesses entre elites. Estado patrimonial e oligárquico, tinha ordem social mantida pelo evergetismo, o chamado pão e circo, possibilitando uma cidadania mais expandida. Mas cidades articulavam-se pouco com a área rural, onde funções públicas foram progressivamente privatizadas, com magnatas ampliando clientelas. Quando as cidades caíram diante das invasões bárbaras, sobrou a vida rural.

O cristianismo, por sua vez, sofreu mutações. No início, era essencialmente camponês, em oposição à cidade e à hierarquia do templo, tendo estabelecido relação direta do Homem com Deus. Depois se espalhou pelas cidades gregas orientais, com os grupos de Paulo, no interior do quais mulheres tinham inclusive algum destaque. Finalmente, o Imperador Constantino fundou uma Igreja com autoridade centralizada, verdades admitidas, doutrina unificada. Foi o fim do caráter plural e comunitário e o início da única religião sujeita ao controle de um clero hierarquizado. Não é à toa que Hobbes disse ser o “papado o fantasma do defunto Império romano, que se senta coroado em sua tumba”. O cristianismo oriental foi considerado herético, reavivando o preconceito grego contra os asiáticos. E cristianização foi lenta, com o paganismo subsistindo no campo por séculos e se misturando com a cultura germana e celta. A consciência simbólica do medievo não nasce do Cristianismo, mas é uma variedade da consciência arcaica primitiva.

Entre Roma e a Idade Média há mais adaptação do que ruptura. Os reinos bárbaros tentaram conservar o máximo possível de um Império no qual baseavam sua legitimidade política. Carlos Magno tentou reestabelecer o Império em 800, mas o projeto era regressivo e condenado ao fracasso diante da nova diversidade dos povos.

De qualquer forma, mais importante na Idade Média não é o que ela conserva, e sim o que cria. Não foi uma época de imobilidade: a população duplicou, cultivos se estenderam e cidades estabeleceram vínculos com zonas rurais. Os muçulmanos foram fundamentais, pois trouxeram novos cultivos, formas eficazes de irrigação, o papel (inventado na China), conhecimentos técnicos e científicos, como o sistema numérico indiano. Surgiu uma nova cultura – nem grega, nem romana, mas, agora, europeia.

As Cruzadas deformaram nossa visão dos muçulmanos e da cristandade oriental. A Igreja nestoriana se estendia no século XIII do Egito à China. O Império Bizantino nunca existiu, pois eram romanos e cristãos. A 4ª Cruzada saqueou Constantinopla em 1204, sob a justificativa de que bizantinos não acreditavam na infalibilidade do Papa. O preço foi viver com medo dos turcos por 250 anos.

A Inquisição fixou violenta repressão, sufocando a cultura popular. A Igreja interferiu na sociedade camponesa, combatendo sobrevivências do paganismo. A sexualidade foi demonizada e a cristandade culpabilizada. Os séculos XVI e XVII foram de reconquista interior, com homegeinização e afirmação da supremacia dos grupos dominantes. Minorias foram segregadas.

Heresia era o que a hierarquia eclesiástica considerava inaceitável, conforme o contexto. Os Humiliatti da Lombardia, por exemplo, foram anatematizados pelo Papa Alexandre III, mas reabilitados por Inocêncio III. Revoltas populares, como a dos cátaros, propuseram cristianismo sem compromisso com senhores feudais, sendo duramente reprimidas. 200 mil pessoas (80% das quais mulheres) foram mortas por bruxaria. Na Espanha se aplicou uma solução final aos mouros, aniquilados. Estabeleceu-se perseguição aos judeus, que viveram integrados até o século XI, pois Igreja não queria mais admitir uma cultura escapando ao seu controle.

O racionalismo é outro mito europeu. Os gregos articulavam o exercício do logos com a fé. Não separavam filosofia de cultura e religião. Já renascentistas combinavam ciências exatas com o pensamento mágico: Isaac Newton esteve interessado em alquimia e em profecias.

Seminário Nacional do Contestado por Moacir Pereira, Cacau Menezes e Milena Fischer

24 de agosto de 2012 0

Os últimos dias andaram bastante agitados, de forma que não consegui manter a atualização do blog como desejaria. Mas aproveito para ainda reproduzir aspectos da repercussão do seminário nacional sobre a guerra do Contestado na imprensa. A prestigiada coluna do Moacir Pereira, no dia 5 de agosto, tratou do assunto, no Diário Catarinense. A Milena Fischer, da Zero Hora, também me distinguiu com uma nota muito simpática, na sua novíssima e dinâmica coluna social. Não tenho link para a nota que o Cacau Menezes publicou na sua coluna do dia 5 de agosto, mas fica aqui o registro e o agradecimento a ele.  Noto ainda que, para quem se interessa pelo assunto, os debates prosseguem, com inúmeras atividades, dentre as quais um seminário na Universidade de Pelotas, cuja programação já postei aqui, e um outro encontro, em setembro, no Rio de Janeiro, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

O Contestado, restos mortais, de Sylvio Back

09 de agosto de 2012 1

O filme “O Contestado – Restos Mortais”, do diretor Sylvio Back, terá pré-estreia nacional em Florianópolis no dia 15 de outubropróximo. Agende-se.


O CONTESTADO – RESTOS MORTAIS

Filme de Sylvio Back

(Digital, Cor/PB, 118 min.)

Sinopse

Com o testemunho de trinta médiuns em transe, articulado ao memorial sobrevivente e à polêmica com especialistas, “O Contestado – Restos Mortais”, é o resgate mítico da chamada Guerra do Contestado (1912-1916). Envolvendo milhares de civis e militares, o sangrento episódio conflagrou Paraná e Santa Catarina por questões de fronteira e disputa de terras, mesclado à eclosão de um surto mes­siânico de grandes proporções.

Ficha técnica

Equipe
Fotografia e câmara Antonio Luiz Mendes
Diretor assistente Zeca Pires
Som-direto Juarez Dagoberto
Montagem/edição Sylvio Back/PH Souza
Abertura/efeitos visuais Fernando Pimenta
Produção PH Souza
Produção executiva Margit Richter

Produção Usina de Kyno/Anjo Azul Filmes

Pesquisas, roteiro e direção Sylvio Back


O Diretor

Sylvio Back é cineasta, poeta, roteirista e escritor. Filho de imigrantes hún­garo e alemã, é natural de Blumenau (SC). Ex-jornalista e crí­tico de cinema, au­todidata, inicia-se na direção cinematográfica em 1962, tendo escrito, dirigido e produzido até hoje trinta e sete filmes – entre curtas, médias e onze longas-metragens, esses, a saber: “Lance Maior” (1968), “A Guerra dos Pe­lados” (1971), “Ale­luia, Gretchen” (1976), “Revo­lução de 30” (1980), “Repú­blica Gua­rani” (1982), “Guerra do Bra­sil” (1987), “Rádio Auriverde” (1991), “Yndio do Brasil” (1995), “Cruz e Sousa – O Poeta do Des­terro” (1999), “Lost Zweig” (2003), e “O Contestado – Restos Mortais” (2010).

Tem editados vinte e um livros – entre poesia, ensaios, contos e os argu­men­tos/roteiros dos filmes, “Lance Maior”, “Aleluia, Gret­chen”, “Re­pública Guarani”, “Sete Quedas”, “Vida e Sangue de Po­laço”, “O Auto-Retrato de Bakun”, “Guerra do Brasil”, “Rá­dio Auriverde”, “Yndio do Brasil”, “Zweig: A Morte em Cena”, “Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro” (tetralíngüe), “Lost Zweig” (bilíngüe) e “A Guerra dos Pelados”.

Obra poética: “O ca­derno eró­tico de Sylvio Back” (Tipografia do Fundo de Ouro Preto, Minas Gerais, 1986); “Moedas de Luz” (Max Limo­nad, São Paulo, 1988); “A Vinha do De­sejo” (Geração Editorial, SP, 1994); “Yndio do Brasil” (Poemas de Filme) (No­nada, MG, 1995); “bou­doir” (7Le­tras, Rio de Janeiro, 1999); “Eurus” (7Letras, RJ, 2004); “Traduzir é poetar às avessas” (Langston Hughes traduzido) (Memorial da América Latina, SP, 2005), “Eurus” bilíngüe (português-inglês) (Ibis Libris, RJ, 2006); “kinopoems” (@-book) (Cronópios Pocket Books, SP, 2006); e “As mulheres gozam pelo ouvido” (Editora Demônio Negro, SP, 2007).

Com 74 láureas nacionais e internacionais, Sylvio Back é um dos mais premiados cineastas do Brasil. Em 2011, recebe a insígnia de Oficial da Ordem do Rio Branco, concedida pelo Ministério das Relações Exteriores, pelo conjunto de sua obra cinematográfica e de roteirista.


Seminário sobre o Contestado na Universidade Federal de Pelotas, de 29 a 31 de agosto

09 de agosto de 2012 0

A Universidade Federal de Pelotas estará sediando um seminário sobre a Guerra do Contestado entre os dias 29 e 31 de agosto próximos. Confere aí a programação.

folder pelotas final

José Murilo de Carvalho, sobre o Contestado

09 de agosto de 2012 0

O historiador José Murilo de Carvalho, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Ciências, falou sobre o Contestado ao portal do Ministério Público de Santa Catarina.

Breve balanço do Seminário Nacional 100 Anos da Guerra do Contestado

05 de agosto de 2012 1

Encerrou-se na sexta-feira, dia 3, o Seminário Nacional 100 Anos da Guerra do Contestado, iniciado no dia 1º e promovido pelo Memorial do Ministério Público e pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, com o apoio de importantes instituições, tais como a USP, o Unilasalle/Canoas, a UNOESC, a UFSC, a Fundação Catarinense de Cultura e os Institutos Históricos e Geográficos Brasileiro, do Paraná e do Rio Grande do Sul, além do Instituto de História e Geografia Militar do Brasil. Nos três dias do evento, que teve a programação de abertura parcialmente prejudicada pelo mau tempo em Florianópolis, que determinou o fechamento do aeroporto local impedindo que alguns palestrantes aterrissassem a tempo na cidade, discutiram-se apaixonadamente múltiplos aspectos do conflito do Contestado, que talou os sertões catarinenses entre 1912 e 1917. Abordaram-se as dimensões jurídicas do Contestado, com o longo processo judicial arbitrado pelo Supremo Tribunal Federal em torno da questão de limites entre os Estados do Paraná e de Santa Catarina. Discutiu-se o conflito na perspectiva das forças militares e à luz da História Social. Dimensionou-se-o no contexto das relações coronelistas de poder da Primeira República brasileira e percebeu-se-o como reação ao imperialismo capitalista norte-americano. Identificou-se conexões com o Partido Federalista sul-rio-grandense, percebendo-se ali um federalismo de feição popular. Esmiuçou-se a vida dos monges que povoaram o universo espiritual dos caboclos, recorrendo-se à Antropologia e à História das Religiões. Mostrou-se a atualidade da crença joanina, isto é, no monge João Maria, que o povo da região ainda espera ver beatificado pela Igreja Católica. Visitou-se a dor dos vencidos e mostrou-se que o Contestado não terminou, vez que a região ainda apresenta o menor IDH de Santa Catarina. Conheceram-se emocionantes esforços de educação patrimonial e de valorização da memória coletiva. Descreveram-se as ossadas que ainda jazem esquecidas em valas comuns e os vestígios dos fornos utilizados para incinerar cadáveres, que se produziam aos milhares, não apenas durante o período mais aceso do conflito, mas também depois dele, quando vaqueanos e coroneletes da região levaram o terror aos sobreviventes, numa verdadeira política de extermínio e genocídio. O Contestado foi uma das maiores insurreições camponesas da História.

A dinâmica do evento mostrou-se profícua ao propor um diálogo entre a História, a Memória e o Patrimônio, instâncias, como se sabe, com naturezas diferentes. Reunidos estavam, assim, acadêmicos cientistas, historiadores, juristas, militares, jornalistas, antropólogos, sociólogos, cineastas, escritores e agentes da memória social. Por três dias, o auditório da Procuradoria-Geral de Justiça de Santa Catarina acolheu nomes de prestígio como Silvio Back, Sergio Rubim, Paulo Pinheiro Machado, Paulo Derengosky, Aureliano de Moura, Margarida Moura, Aluizio Blasi, Miguel do Espírito Santo, Paulo Hapner, Espiridião Amin e Vicente Telles, dentre outros. Comprovou-se a qualidade dos estudos que vêm sendo realizados sobre o tema. Novas pesquisas foram conhecidas, como as de Tania Welter, Rogério Rosa, Marcia Espig, Delmir Valentini e Alexandre Karsburg. Atentos aos detalhes, pesquisadores dos institutos históricos, como Janary Bussmann e Elísio Marques, nos descortinaram aspectos pouco conhecidos.

Os 30 minutos destinados para as comunicações foram insuficientes para a maior parte dos painelistas, que tinham conteúdo e fluência para falar por pelo menos uma hora cada. Talvez o tempo previsto para as falas tenha sido curto, de fato, mas foi a fórmula encontrada pela organização do evento para acomodar o grande número de painelistas convidados. Sacrificou-se um pouco do aprofundamento em benefício de um painel mais diverso. O bom tempo destinado aos debates, sempre animados por muitas perguntas e participações, compensou em parte o desejo aprofundar temáticas.

Foi farta a cobertura da imprensa. O Diário Catarinense dedicou matéria de uma página ao Seminário e ao livro sobre as memórias do General Vieira da Rosa, lançado pelo Memorial do Ministério Público. Jornais do interior repercutiram entrevistas realizadas pela Comunicação Social do MP. Blogs e sites comentaram o evento. Um documentário foi filmado. Mas acerta o jornalista Sergio Rubim, o Canga, quando lamenta o pouco interesse demonstrado pelos canais de televisão de Florianópolis em aproveitar a presença de tão ilustres intelectuais na cidade: faltou talvez a realização de um programa de debates televisivo.

Da livraria convidada para montar um stand esperava-se mais. Apesar de alertados com semanas de antecedência do teor da programação, não cuidaram seus administradores de providenciar a aquisição de livros dos painelistas e tampouco de reunir um bom acervo sobre o Contestado. Foi uma decepção, pois se esperava mais compromisso com a cultura e com os autores catarinenses de parte de uma das mais tradicionais livrarias de Florianópolis.

Ao final, como sublinhou o folclorista Vicente Telles, o importante são o sentimento e a capacidade de seguirmos nos indignando contra as injustiças que mancham nosso passado comum, para que aqueles que têm pela frente mais futuro do que passado, possam viver num mundo mais humano. Que o Seminário possa funcionar como uma brasa a incendiar nossas consciências, pois é grande a dívida que temos para com o passado.

As programações alusivas ao Centenário do Contestado continuam. Em setembro, no Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro abrigará um seminário sobre o evento. No próximo simpósio da ANPUH de São Paulo, Paulo Pinheiro Machado, um dos mais reconhecidos especialistas sobre o tema, oferecerá um minicurso. Nos próximos meses, a Universidade Federal de Pelotas e a Universidade da Fronteira Sul, em Chapecó, também estarão realizando colóquios, dialogando em torno de novas pesquisas. Em outubro, no Irani, uma cerimônia marcará os 100 anos do sangrento combate que detonou o conflito. O Memorial do Ministério Púbico, por sua vez, programa mais um conjunto de edições, a começar pelos anais do Seminário da semana passada, que será publicado sob a forma de um livro coletivo.

Dois rápidos encontros com Christopher Hitchens no Brasil

03 de janeiro de 2012 5

No último dia 16 de dezembro, os jornais noticiaram a morte do célebre crítico literário e polemista britânico radicado nos Estados Unidos, Christopher Hitchens. Vitimou-o uma pneumonia decorrente de um feroz câncer no esôfago, contra o qual lutava há 18 meses. Foi, indubitavelmente, um desses sujeitos que deixava o mundo mais interessante, mesmo quando se batia por teses insustentáveis.

Não sou especialista na sua obra. Li dele a ótima coletânea Amor, Pobreza e Guerra, o comentadíssimo Deus não é Grande, ainda na edição americana, alguns artigos esparsos publicados na Nation e na Vanity Fair… e estava justamente me deliciando com seu Hitch 22, livro de memórias lançado em 2010.  Dono de um texto elegante e provocativo, este irrequieto intelectual público é quase sempre instigante.

Encontrei-o pessoalmente em duas oportunidades. A primeira vez foi em 2006, na Flip, em Paraty, no Rio de Janeiro. Havia grande expectativa em torno de sua aparição, afinal, tratava-se de um dos mais badalados polemistas da segunda metade do século XX, que pretendia seguir a tradição de um George Orwell, sobre quem, aliás, escreveu um livro. Ele participaria de uma sessão com Fernando Gabeira, discutindo, dentre outras coisas, a chamada guerra ao terror. A composição não era de todo improvável, pois ambos tinham em comum a origem na esquerda, de cuja versão mais doutrinária vinham se distanciando progressivamente desde os anos 1980.

Para Hitchens, o ponto de inflexão mais evidente fora a timidez da esquerda europeia diante da condenação, pelo regime iraniano, do escritor Salman Rushdie, então ameaçado de morte. Gabeira, por sua vez, divergiu de uma visão romântica da luta armada durante a ditadura militar e reconheceu que a resistência radical carregou também o componente de ajudar o regime a justificar a sua permanência. Ambos concordavam que, depois da queda do Muro de Berlim, a sobrevivência das bandeiras de esquerda no Ocidente passava por uma atualização das pautas, sendo inescapável o compromisso com a radicalidade democrática e a liberdade. Gabeira lançou-se na pugna pelos direitos das minorias e abraçou a causa ecológica. Hitchens cada vez mais chamou a atenção investindo contra celebridades, como a Madre Teresa de Calcutá, Lady Di, Bill Clinton e, finalmente,… Deus.

O encontro não foi dos mais felizes. Gabeira considerou a guerra do Iraque aberrante. Já Hitchens – o mesmo que investira na denúncia do esquecido genocídio dos armênios, perpetrado pelos Jovens Turcos durante a Primeira Guerra Mundial, ou, ainda, que militara contra a Guerra do Vietnã – surpreendera a todos assumindo em 2003 uma posição declaradamente favorável à invasão americana no Iraque. Para os neo-cons de Bush, não poderia haver melhor garoto propaganda do que o verborrágico polemista, cuja verve vinha fulminando o legado da política externa de Henry Kissinger, a quem insistia em declarar criminoso de guerra. Desde o 11 de setembro, Hitchens tornara-se obcecado pela ideia de um islamofascismo a ameaçar os valores do Ocidente, parecendo absorver a frágil, mas mobilizadora, lógica do conceito de choque das civilizações, cunhado por Samuel Huntington.

Em Paraty, assim, assisti-o garantir que as provas da existência das armas de destruição em massa, que serviram de pretexto para justificar a invasão norte-americana, ainda seriam encontradas. Não apenas nunca apareceram, como, depois de dez anos, mais de 100 mil mortos e trilhões de dólares jogados pelo ralo, torna-se cada vez mais improvável reconhecer a pertinência daquela surtida.

Curiosamente, não era a primeira vez que Hitchens engajava-se na defesa de uma intervenção militar. Em 1982, rompera com a Internacional Socialista ao apoiar a Inglaterra no conflito com a Argentina em torno das Ilhas Malvinas. Aparentemente, acreditava que os ingleses ajudariam a depor o ditador General Leopoldo Galtieri, quando tudo o que de fato pretendiam era preservar a sua posição estratégica no Atlântico Sul. Dez anos mais tarde, Hitchens debruçou-se sobre a questão bósnia, fustigando o sanguinário Milosevic, enquanto a esquerda ainda flertava com o suposto herdeiro de Tito. Pelo menos um ano antes do horror de Sebreninca, Hitchens alertava para a iminência de um genocídio. Clamou por uma intervenção militar das forças internacionais na Ex-Iugoslávia, que acabou chegando, mas não antes que 200 mil pessoas morressem.

Outro badalante polemista, o francês Bernard-Henri Levy, também se mobilizara em favor de uma intervenção militar na Iugoslávia, encampando os mesmos argumentos. Todavia, mais cauteloso, BHL, embora entusiasta da cultura norte-americana na França, jamais festejou a guerra de Bush. Considerou-a inconveniente por não contar com a legitimidade da ONU e a adesão da França e da Alemanha.

Vagamente informado sobre o envolvimento de Gabeira no sequestro do Embaixador Norte-Americano, em 1969, Hitchens alfinetou seu colega de mesa, com agressiva ironia: alertou-o manterem os americanos salas especiais para os terroristas nos aeroportos do País. Um frêmito constrangido percorreu a lotada e atenta plateia. Para um homem conhecido por suas explosões de ira na pugna por uma ideia, não era atitude de se estranhar. Mas em seguida, seu semblante traduziu certa insegurança diante da reação da assistência, que repudiou a grosseria. Afinal, Gabeira é dos políticos brasileiros mais respeitados, justamente por seu compromisso com a ética, com a liberdade e com a democracia. Seu envolvimento em ações chamadas terroristas no passado explicava-se em um contexto do qual o próprio Gabeira, já distanciado dos fatos, fazia a crítica.

Percebendo o erro, ao retornar aos Estados Unidos, Hitchens escreveu uma crônica se retratando. Disse – não, talvez, sem certa ironia – que apreciava dois ex-terroristas: um deles era o Gabeira. Mas do episódio ficou-me a impressão de Hitchens ser capaz de sustentar posições com veemência, mesmo sem o necessário conhecimento do contexto e dos fatos.

No ano seguinte, recebi-o em Porto Alegre, aonde viera conferenciar no âmbito do seminário Fronteiras do Pensamento, cuja curadoria então eu integrava. Lembro-me de ter sido aquela uma semana atípica, pois em função de alguma dificuldade de datas e agendas – cujos detalhes hoje já me escapam – dois dias depois da conferência de Hitchens, outra grande intelectual pública norte-americana, Camille Paglia, proferiria também sua fala. Normalmente, o Fronteiras do Pensamento recebia no máximo um convidado por semana. Mas, naquela oportunidade, Hitchens e Paglia estariam ao mesmo tempo em Porto Alegre. Sabedor dos diversos temas que os opunham, a começar pela Guerra do Iraque, contra a qual Camille havia sido das primeiras vozes intelectuais e se levantar nos Estados Unidos, vi-me numa verdadeira saia justa para evitar a todo custo um encontro dos dois.

Pessoalmente, Hitchens mostrou-se um sujeito afável e envolvente, de conversa agradável e inteligente. Olhos azuis penetrantes faiscando num rosto bonito, embora algo inchado. E continuava fazendo jus a sua fama, consumindo quantidades industriais de bebida alcoólica. Foi agradabilíssimo com todos em um jantar de boas vindas oferecido pela organização do seminário do restaurante Don Peppo. Surpreendeu-se ao ouvir contar da importância que o Brasil tivera no Iraque nos anos 1970, até a Guerra do Golfo, trocando, por petróleo, frangos, carros, material bélico e obras de engenharia. O desenvolvimento da indústria petrolífera dos dois países estava umbilicalmente conectado. Por que ninguém sabe disso, quis saber? Porque se sabe muito pouco sobre o Brasil, alguém respondeu com percuciência. Encantou-se com a conversa de convivas eu conheceram bem Bagdá antes da guerra. Elogiou os vinhos chilenos que foram servidos. E, finalmente, confirmou-me que se arrependera da indelicadeza precipitada contra Gabeira no ano anterior.

No dia seguinte, não gostou muito de ficar aguardando no camarim e na sala de recepção o momento de subir ao palco do salão de atos da Ufrgs. Pediu para dar uma rápida caminhada no Parque da Redenção, enquanto aguardava. Queria respirar o ar da noite que caía e, aparentemente, descarregar a adrenalina contida antes do início da conferência. Tinha uma energia física impressionante.

A intimidade com o palco era completa. Em segundos, preencheu todo o ambiente e engolfou a todos com movimentos lânguidos e uma voz aveludada, timbrada em inconfundível sotaque britânico. Hitchens era um virtuose da palavra escrita, mas também da oratória. Pausava e acentuava com elegância, conferindo ritmo a sua exposição e magnetizando a audiência. Suas primeiras palavras trataram de conquistar o público, agradecendo a oportunidade de estar em uma cidade tão encantadora, na qual ele pôde caminhar sob a copa florida dos jacarandás… – estávamos em princípios de novembro.

Em seguida, enfrentou seu foco com determinação, expondo o argumento central do livro recém-lançado Deus não é Grande. Por cerca de 60 minutos, destrinchou a encruzilhada entre fé e razão – instâncias para ele irreconciliáveis – como a questão mais importante da contemporaneidade. Para Hitchens, a religião não só não teria função prática apreciável que não pudesse ser substituída, como a sua presença no mundo a tudo envenenaria. Propôs um ateísmo radical como forma de combater o domínio da ilusão e contribuir para a emancipação do ser-humano, professando sua adesão inequívoca ao evolucionismo e à ciência, bem como se afirmando como uma espécie de paladino de um Iluminismo renovado. Depois de empenhar-se em escandalizar a esquerda doutrinária desde o fim dos anos 1980, agora, por meio desse libelo ateísta, Hitchens estava se reconciliando com parte de sua origem trotskista, reproduzindo a máxima materialista que percebia a religião como ópio do povo. No espaço destinado às perguntas do público, descartou ainda a utilidade do compromisso do catolicismo latino-americano com os direitos humanos e desprezou as conquistas estadeadas pela Teologia da Libertação, resumida a mais uma estratégia de mistificação.

A íntegra da conferência está publicada no livro que organizei juntamente com Fernando Schüler e Juremir Machado, editado pela Editora da Unisinos.

Terminada a sessão, tive a oportunidade de trocar algumas impressões com o conferencista, dando sequencia a conversa iniciada já na véspera. Perguntei-lhe se não estava partindo de uma premissa frágil e, de certa forma, também algo sectária, ao repelir a possibilidade da uma razão lúdica, tal qual a imaginada por São Tomás de Aquino, cuja retomada, mais recentemente, vem desenvolvida em autores diversos como Heidegger e Michel Maffesoli. Hitchens considerou Aquino um místico, crente em fábulas como a astrologia. A religião, argumentou, surgiu como explicação de mundo antes do advento da ciência, depois da qual se tornou uma narrativa ilógica, descartável e inconveniente. Infelizmente, acreditava, o mundo contemporâneo estava retroagindo ao abraçar um retorno ao irracionalismo místico no momento em que a era da razão deveria se consolidar. Objetei-lhe que talvez esse retorno ao lúdico estivesse se dando em decorrência de um estresse coletivo causado pelo excesso de materialismo e racionalismo, lembrando precisamente o que Stephen Zweig escrevera no prefácio de seu Brasil, um país do futuro; e, ainda, que Zygmunt Bauman interpretara o Holocausto como um drama de toda Humanidade, e não apenas do povo judeu, justamente por ter sido um desdobramento em escala industrial do padrão racional modernista. Hitchens fitou-me com um misto de curiosidade e ceticismo – não indicava ter lido o livro de Zweig, o Brasil parecia figura improvável no seu esquema mental ancorado numa dinâmica de cânones ocidentais e, por fim, o nazismo lhe parecia um fenômeno totalitário muito mais potencializado pelo irracionalismo do que pelo excesso de racionalismo. O impulso para o religioso, insistira, estava na origem do totalitarismo, cuja versão mais acabada seria a indistinção absoluta entre espaço público e privado por conta da afirmação de um panóptico sistema de autoridade e vigilância.

Mas o Iluminismo não necessariamente vivia em estado de choque sistêmico com o religioso, podendo em muitos casos emergir da própria ambiência espiritual, insisti, invocando a generosidade precursora do jesuíta Padre Antônio Vieira para com índios e judeus no Brasil do século XVII. Para quem se acostumou a perceber o Iluminismo como apanágio do século XVIII francês e anglo-saxão, creio ter meu argumento lhe parecido insólito. Disposto a enquadrar logo aquele debate com uma questão de efeito, Hitchens desafiou-me a citar pelo menos uma religião que não se valera do divino para justificar um esquema de dominação do masculino sobre o feminino e que não promovera a diluição do indivíduo e da liberdade em face de um arcabouço moral aplastante.

Pensei em enveredar por considerações sobre a centralidade da mulher na cultura judaica (HItchens era filho de mãe judia, embora tenha sido informado dessa condição apenas depois da morte de sua progenitora), mas antevi a pletora de argumentos ensarilhados de antemão para contrapô-las. Desloquei assim a questão do monoteísmo para o sincretismo, registrando serem parte expressiva dos sacerdotes nas religiões afro-brasileiras mulheres ou gays. Associando tais manifestações do sagrado à Santeria cubana, Hitchens foi logo argumentando que não podia ser bem assim, pois em Cuba o comando dos terreiros era hegemonizado por homens e ele não percebia nada de libertário nesses sistemas. Seu tom parecia indicar que os considerava no mesmo plano das superstições banidas da Europa com o extermínio das bruxas durante a Idade Média. Bizarro, pensei, pois tal conceito não estaria a indicar uma vitória definitiva, sobre mentes pretensamente ilustradas, da Inquisição, talvez a mais totalitária – para estar em sintonia com o pensamento de Hitchens – das manifestações monoteístas?

Com calma, procurei explicar-lhe que o sincretismo afro-brasileiro guardava, na melhor das hipóteses, parentesco distante da Santeria cubana, pois reconfigurara elementos de diversas tradições africanas, combinando-se historicamente com o catolicismo popular, a pajelança indígena, o espiritismo kardecista e até o budismo, tornando-se, portanto, algo bem diferente daquilo que ele eventualmente conhecera em Cuba e ainda mais distante do vodoo praticado em New Orleans, tradição, esta, muito pouco conhecida no Brasil. Tratava-se de uma crença dinâmica e diversificada, com razoável grau de penetração e visibilidade na sociedade. Ademais, se era o totalitarismo de uma moral generalizante que tanto o incomodava nos monoteísmos, porque considerar como primitivos estes sistemas de crenças que eram exatamente incapazes de estabelecer universalismos morais, nos quais a noção de pecado é fluída, quase inexistente, o paraíso e o inferno se realizam no aqui e agora, na vida real – religiões, enfim, que aceitam o mundo como ele é e as pessoas como elas são, propugnando a satisfação dos desejos individuais no presente? De resto, para quem encampava a lógica dos cânones ocidentais, reconhecendo nos gregos antigos a origem de nossa cultura, como ignorar que os criadores da filosofia crítica achassem perfeitamente natural combinar o exercício da lógica com oferendas, inclusive sacrificiais, às suas divindades, como, aliás, o próprio Sócrates recomendou a um discípulo seu?

Hitchens ouviu-me, talvez mais por cordialidade do que por interesse. Nossa conversa infelizmente não pôde prosseguir, pois o tempo do qual dispúnhamos se esvaía. Disse-me, amável, que adoraria voltar ao tema em outra oportunidade. Pareceu-me sincero. Mas não pude afastar a impressão de que, para alguém que se propunha a discutir o divino, ele dominava com superficialidade constrangedora a história comparada das religiões. Senti impulsos de recomendar-lhe leituras básicas, como o romance infanto-juvenil A viagem de Théo, de Catherine Clément. Isso provavelmente o teria irritado. Mas a evidência científica de argumentos sociológicos e antropológicos, buscados à realidade cultural brasileira, desmontavam a tese deblaterada em seu libelo ateísta.

Hitchens poderia ter-se limitado a combater os males do fatalismo religioso, com seus fundamentalismos, intolerâncias e constrangimentos de toda ordem à liberdade, à ciência e ao indivíduo, no que estaríamos de pleno acordo. Mas pretendeu ampliar sua crítica para um universalismo simplificador da realidade, tão aplastante quanto qualquer fatalismo moralista. E fê-lo apoiando-se em conceitos rasos fixados em terreno argiloso. Em especial, por desconsiderar as especificidades contextualizantes da História e perceber o sistema de crenças humano como uma engrenagem estruturalista. A confusão dos fundamentalismos com a totalidade das religiões nos manifestos de Hitchens, bem como de Sam Harris e Richard Dawkins, foi, em seguida, precisamente apontada pela historiadora britânica Karen Armstrong, em artigo de 2009.

Normalmente, confesso, não tenho muita paciência em digerir esses manifestos. Li, por exemplo, Luc Ferry, que, basicamente, diz as mesmas coisas que Hitchens, mas em francês, num estilo menos figadal e revestido de pretensa legitimidade filosófica. Penso que estas são expressões intelectuais de uma Europa culturalmente cansada, cada vez mais tíbia em desenhar algo novo. Ademais, entre o ateísmo reducionista de Hitchens e o fatalismo de criacionistas ou fundamentalistas há um universo inteiro a ser explorado.

Registre-se a obra do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, ou dos poetas modernistas Mario e Oswald de Andrade, cuja ode à hibridação cultural brasileira testemunha a desimportância entre nós dessa cisão quase genética entre fé e ciência que tanto abala os europeus e norte-americanos. Outra coisa não o mostram as pesquisas recentes que indicam que cerca de 90% dos brasileiros acreditam em Deus, sem, contudo, necessariamente precipitarem-se em um fatalismo desabalado e atávico. Embora, por exemplo, o debate sobre o uso científico de células tronco tenha alcançado o STF, envolto em forte emocionalização, o criacionismo não tem hoje força suficiente para arrancar posições ao estado laico instaurado desde a Proclamação da República em 1889. Da mesma forma, se o reconhecimento dos direitos dos homossexuais é cassado no Congresso Nacional, por pressão de bancadas evangelizadas, o está sendo paulatinamente garantido na Justiça.

Vale também invocar o peculiar testemunho do filósofo paulista Vicente Ferreira da Silva, morto prematuramente em 1963, que combinou com originalidade a problemática existencialista heideggeriana com a tradição espiritualista portuguesa, propondo uma razão lúdica, uma ciência irredutível a utopias, combinada com o poético, um humanismo indissociável do afeto e da natureza. No extremo oposto, por suposto, desse Iluminismo afunilado ventilado por Hitchens.

Pode-se referir, ainda, o ateísmo ilustrado de Camille Paglia, cuja tese de doutorado, sua obra seminal, muito a propósito, deslinda uma abordagem cultural a partir da história comparada das religiões. Camille, ateia assumida, acredita que as religiões carregam um sistema ético e de valores capaz de contrabalançar com certa eficácia a exacerbação hedonista e consumista do indivíduo contemporâneo. Desconcertando muitos libertários de esquerda em cujo front ela também se aduna, Camille ainda sustenta a pertinência do ensino religioso nas escolas. Mas o esgrime numa perspectiva culturalista, pois, segundo ela, a história comparada das religiões permitiria aos jovens a percepção de diferentes visões e interpretações de mundo, já que, ao fim e ao cabo, é isso o que cada sistema de crenças promove, donde se descobririam muito mais transversalidades e semelhanças do que oposições irreconciliáveis, favorecendo-se, assim, a emergência da tolerância.

De qualquer forma, o mundo tornou-se menos interessante depois da morte de Hitchens. Meu contato com ele foi efêmero e eu não li senão uma pequena fração de sua obra. Não tenho, portanto, condições de avaliar o quanto sua projeção pública apoiava-se com solidez sobre um conjunto de fôlego, escrito para permanência no futuro, ou sobre libelos apaixonados catalisadores das atenções no presente imediato. Em sites e revistas, sobretudo nos Estados Unidos, já começaram a sair artigos e dossiês sobre Hitchens, como este no Salon.com. Então, o tempo dirá. Mas Hitchens era sem dúvida um sujeito de conversa muito agradável, sedutor, dono de uma oratória brilhante e articulada e que exercia um importante papel – mesmo estrando errado, ou mal escorado em seus argumentos –, ao suscitar questões polêmicas, de instigar permanentemente o debate de ideias.

Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica

27 de junho de 2010 1


Posto hoje aqui para vocês a versão na íntegra do meu artigo publicado na edição de ontem do Caderno de Cultura da Zero Hora: Três filmes sobre o Outro



Avatar, Distrito, Terror – ensaios de alteridade e mutação antropofágica


Há algo em comum entre três dos filmes que pontificaram na premiação do Oscar desse ano – Avatar, Guerra ao Terror e Distrito 9. Todos tratam do Outro. A repetição da temática da alteridade é sintomática para uma nação em guerra e a braços com uma terrível crise econômica – potência hegemônica que se defronta com um mundo progressivamente multilateral no qual se pergunta pela sua própria identidade.


Avatar, o belo filme de Cameron, elegia para a tecnologia 3D, investe na “westernização” da ficção científica. Remake pós-moderno de Dança com Lobos, reedita a mea-culpa dos norte-americanos para com o massacre dos seus “selvagens”. Ao invés de peles vermelhas, trata-se aqui de peles azuis. Gancho para um libelo save the planet. Num mundo pós-crise global, o clima de repulsa ao financial district tem lá o seu poder catártico.


A tradição avatárica antiga concebe uma divindade que se manifesta entre os homens. No filme de Cameron, a tecnologia fez do homem uma divindade, que então se manifesta pela ciência entre os selvagens. Sendo normalmente o alienígena representado como ameaça à raça humana, aqui o homem é o alien. O filme expande a utopia etnológica ao seu limite. Viver entre o Outro e, mais do que isto, como o Outro, para melhor entendê-lo. Nesse balanço, acaba se dando a fusão com este Outro: confusão com o objeto de estudo etnográfico, implosão das fronteiras simbólicas, que acabam revelando a face negativa do Eu e estabelecendo uma transmutação do Eu em Outro. Assim, o Homem faz-se Divindade, traveste-se de Outro, redescobre-se Homem (mas na sua pior face); fugindo, então, de si próprio, identifica-se e mimetiza-se com o Outro, para finalmente endeusá-lo novamente. Ciclo vicioso que produz a impressão de Eterno Retorno…


Nesse processo de identificação, os Na’vi são infantilizados. As mulheres não têm peito, nem bumbum. Os homens são desprovidos de músculos avantajados. E, apesar dos pernões e brações e de andarem pra lá e prá cá vestindo diminutas tanguinhas de Tarzan, nenhum deles tem órgão sexual. O momento tesão do filme é sublimado numa comunhão divina com as árvores sagradas da memória, numa fórmula que seria aprovada com louvor por Tom Wolfe. Deserotizados, tornam-se selvagens palatáveis, revelando não o Outro, mas como o puritanismo gostaria de aceitar o Outro, isto é, como sua própria face idealizada.


Os Na’vi reeditam o mito do bom selvagem e representam um sujeito pré-Ocidental, anterior à razão e ao monoteísmo que separou o Homem da natureza. Figuram uma religiosidade idealizada e afetiva, mas que é capaz de organizar-se belicamente quando o Homem-Deus-Redescoberto com ela se funde. É quase um sonho criacionista: fé sem o filtro da razão e com mobilização marcial. Não é, decididamente, uma mensagem pacifista, embora muitos tenham tomado como tal a crítica à tecnocracia turbo-capitalista e a ode ao bom-selvagem em estado de comunhão com a natureza.


Em Guerra ao Terror somos informados que o filme se passa em território estrangeiro e selvagem na primeira tomada, quando se revela uma carcaça de carneiro pendurada, à venda: carne crua à mostra na calçada, sem refrigeração, exposta à poeira, à fumaça de óleo diesel, às moscas. Choque para o Ocidente asséptico e urbanizado, onde muitos já nem sabem que batatas não dão em árvores e que a carne que nos chega ao prato, quentinha, processada e saborosa, foi um animal vivo que precisou ser abatido, coureado e destrinchado.


Segue-se um poderoso fluxo narrativo com suspensão de toda transcendência de valores e de consciência. Um jorro niilista que flerta no limite com uma espécie de hedonismo sado-masoquista. O personagem central não reflete sobre o que faz. E admite gostar apenas dessa sedução do perigo, o diálogo com as bombas. Nem a mulher e o filho realmente importam.


Os dois únicos vínculos afetivos que se costuram na estória são fugazes. O soldadinho perde o seu psicanalista e chora. O valentão balança quando encontra morto o menino iraquiano com quem interagia superficialmente. Um cenário de morte do afeto entre as pessoas e de ampliação das fronteiras da anormalidade, do qual emerge uma violência gratuita em rotina nonsense. A guerra como fim em si mesma, em economia própria.


O Outro, aqui, são os iraquianos. E eles estão praticamente mudos. Poucos dizem o seu nome, como o velho professor na casa invadida pelo valentão depois de o menino iraquiano ser morto por terroristas. Apesar da surdez, o diálogo é permanente. E é pelas bombas que o Outro fala… revelando o personagem central da trama: uma metáfora para a morte do sujeito, que, paradoxalmente, se afirma como desdobramento possível da libertação sem precedentes do indivíduo das âncoras sócio-culturais, incluídas aí o próprio Humanismo.


Ao não oferecer saída, o drama cumpre o seu papel de mostrar o fim do túnel. E a mensagem subliminar é que não há nada para além da falência dos valores éticos, os quais, ao fim e ao cabo, só poderiam ser garantidos por âncoras fornecidas, talvez, pela religiosidade e pelo Humanismo. Mais do que pacifismo pregado às avessas, é um ataque às conseqüências da comodização do cotidiano e da introjeção da lógica de mercado pelos indivíduos, que produziu este sujeito sem gravidade, um zumbi pós-moderno.


Distrito 9 não faz curvas para atacar o problema da alteridade. Mas se vale da mesma lógica de ambigüidades: uma ficção-científica favela-movie. Fusão dos opostos que enfatiza o realismo, já que o alien mais próximo de todos nós é o que está na favela, ou, na perspectiva de quem vive nela, aquele que habita o “asfalto”, fora dela, tamanha pode ser a distância social entre esses dois mundos.


E.T, de Steven Spielberg, impactou ao apresentar alienígenas frágeis e fofinhos, quando a Humanidade sempre esperou ataques hostis e invasões de tecnologias superiores, ao estilo H.G Wells. Os aliens de Distrito 9 são ainda mais inusitados. Ao invés de surgirem na superpotência norte-americana, como sempre acontece nas estórias fic-ci, aparecem na África do Sul. Chegam como refugiados e são acomodados em uma favela de Johannesburgo, enquanto os humanos decidem o que fazer com eles. A sua nave simplesmente estacionou. Sua tecnologia entrou em pane. São uns bichos esquisitos, artrópodes, meio gafanhotos, meio lagostas. Dispõem de tecnologia e força física visivelmente superiores aos humanos, mas comportam-se com uma passividade enervante. Alimentam-se de detritos, vivem em meio ao lixo e se viciaram em comida enlatada para gatos. Finalmente, não respeitam claramente as noções de propriedade dos humanos, embora tenham aprendido a se comunicar na sua língua e submetam-se às suas demonstrações de força. O quadro perfeito para despertarem a xenofobia. E é impossível, de fato, para o espectador, deixar de nutrir certa ojeriza por estes insetos nojentos.


À ambigüidade dos alienígenas corresponde a do roteiro. O filme se inscreve na linha Bruxa de Blair: finge documentar uma história real, proposta inaugurada pela radio-novela A Guerra dos Mundos, de Orson Welles, inspirada no livro de H.G. Wells, publicado em 1898. Esta dinâmica amplia o efeito de distanciamento e aproximação com a realidade que, efetivamente, nos cerca.


Muitas das entrevistas exibidas em tom de documentário remetem ao apartheid. Até os veículos militares que patrulham o Distrito 9, com seus cerca de 2 milhões de alienígenas, evocam a militarização das ruas sob o apartheid. Há também uma analogia com os imigrantes ilegais que invadiram a África do Sul nos últimos anos, fugidos, sobretudo, da ditadura de Robert Mugabe, no Zimbábue, de maneira a inchar as favelas e atiçar a violência interétnica. Os únicos a conviverem com os E.Ts. são os nigerianos, membros violentos de gangues que os exploram e, até, os canibalizam, estando, ainda, associados aos cultos africanos animistas e politeístas.


Não há, aqui, nenhuma concessão às religiões mais próximas da natureza, nenhuma idealização do misticismo. O Distrito 9 poderia ser Soweto, ou qualquer campo de refugiados no mundo, assim como seus moradores poderiam estar em qualquer favela e representar qualquer povo não-branco ou qualquer horda de imigrantes ilegais. O fic-ci politizado constrói aqui uma metáfora explícita para a xenofobia. E, assim, torna-se um libelo pró-diálogo e tolerância.


Também os personagens são construídos com ambigüidade. Wikus é um burocrata chato e inepto encarregado de comandar uma operação de desalojamento dos aliens, que seriam levados para uma área distante. É um legítimo anti-herói, medíocre e egoísta. Mas somos levados a torcer por ele depois que se torna um mutante, ao ser exposto a uma misteriosa substância alienígena, e passa a sofrer na pele a discriminação endereçada aos extraterrestres, apelidados de Camarões. É inevitável a comparação com A Mosca, de Cronenberg, ou com a barata de Franz Kafka. Só que a mutação aqui tem efeito positivo sobre a estória.


Wikus acaba se associando a um alien diferenciado, Christopher, inteligente, ético e pacifista, que muda nossa apreciação dos Camarões, pois é mais Humanista do que todos os personagens e depoentes que figuram na trama. Juntos, eles promovem uma rebelião contra a injustiça arbitrária, encarnada na confluência de interesses escusos de uma mega empresa privada e das forças armadas, e a cultura alien termina emergindo. As armas e máquinas, que passaram 20 anos inertes, voltam a funcionar. Descobre-se, então, não terem os aliens vontade individual, apenas de grupo, ativada por uma liderança. Christopher consegue fugir para o espaço e promete retornar para resgatar o seu povo, brutalizado e injustiçado na Terra que deveria servir-lhe de asilo.


A crítica ao materialismo de um capitalismo financeiro desbragado e que se associa ao Exército é mais uma vez evidenciada, assim como em Avatar e, menos explicitamente, em Guerra ao Terror. Distrito 9 aborda a xenofobia e a inexistência de diálogo entre as culturas como causas para uma guerra que provavelmente acontecerá – o mesmo confronto que em Guerra ao Terror já eclodiu. Como em Avatar, em Distrito 9 a solução para a as injustiças passa pela mutação, pela fusão, física e cultural. Os personagens principais nos dois filmes são mutantes, que carregam o gene das duas raças e culturas e, ao produzirem uma síntese, ajudam a resolver o conflito, oferecendo uma saída. Porém, enquanto Avatar aponta no sentido da reconciliação com a natureza por meio de uma fé (puritana, bem entendido) sem o filtro da razão, mas sob mobilização marcial, Distrito 9, menos místico, reclama o restabelecimento do diálogo, isto é, o espaço da política baseado na construção do comum entre os diferentes, por meio do logos, o diálogo racional. Como em Guerra ao Terror a mutação não se realiza, o conflito segue sem solução. Ali, não há esperança e um cotidiano non-sense é protagonizado por sujeitos pós-humanos, convertidos em zumbis, dado o excesso de individualismo e de falta de gravidade. O não-ser da mutação, aqui, conduz à extinção, pela total ausência de transcendência e de diálogo. A humanidade se desumaniza.


Há uma novidade na conotação dada à mutação. Os mutantes em outro filme, X-man, não são produto da associação entre humanos e humanóides, entre deuses e selvagens, entre aliens e terráquios, enfim, entre duas raças, duas culturas. Tornam-se uma raça à parte ao entrarem, meio sem explicação, em mutação. Ganhando superpoderes, dividem-se, então, entre submeter-se aos humanos ou dominá-los. Não há, portanto, solução do conflito, mas instauração do conflito. Ainda mais estéreis e depressivos são os zumbis de filmes como Eu sou a lenda, onde a mutação, provocada por uma experiência genética mal-sucedida, é fonte do horror. Em A Mosca, de Cronenberg, a mutação, mais elaborada, é a deixa para um retrato assustador da desfiguração do humano, revelador de aspectos obscuros do nosso comportamento.


No Ocidente, o mito mais próximo da idéia de mutação é o do vampiro. Um indivíduo metamorfoseia-se quando mordido e contaminado por parasita morto-vivo que se alimenta do sangue das pessoas. Mas aqui não há fusão do Um com o Outro. Apenas absorção, sucção, dominação, assimilação, contaminação. O mito do lobisomem segue a mesma lógica, com menos glamour e sedução, talvez.


Diferente é a idéia-força antropofágica, que está na origem do movimento modernista brasileiro. No célebre Manifesto de 1928, Oswald de Andrade recorreu à metáfora antropofágica, com base nos rituais praticados pelos índios Tubinambás, para sintetizar a metamorfose intercultural, isto é, o mecanismo pelo qual uma dada cultura pode absorver elementos de uma tradição externa, sem perder a sua essência e produzindo uma nova síntese. Isto porque os índios acreditavam que, devorando seus inimigos, assimilariam as suas virtudes. Em pleno fastígio do eurocentrismo, o Manifesto Antropofágico ofereceu uma terceira via para as alternativas da dominação e assimilação, de um lado, e submissão ou resistência, de outro. A antropofagia brasileira festejou o diálogo e a hibridação. Eis, agora, que a mutação de Avatar e Distrito 9 começam por recuperar, precisamente, este sentido positivo que é dado à metamorfose cultural no Brasil. A idéia de síntese entre diferentes ganha força como caminho para a resolução do conflito. Incensam-se as identidades híbridas.