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Kikogate - Kiko e a política da celebridade

20 de abril de 2013 0

Oi gente, saiu uma entrevista comigo no Caderno de Cultura da ZH de hoje sobre essa polêmica do Kiko indicado como “embaixador” de Porto Alegre para a Copa do Mundo e a relação entre política e cultura de celebridades.

A Revolução de 1848 na Prússia e na Áustria

20 de abril de 2013 2

O Congresso de Viena, entre 1814 e 1815, fixara a divisão das Alemanhas em 39 reinos, ducados e cidades livres, que tinham em comum apenas o idioma alemão. As fronteiras dessa Confederação Germânica mais ou menos correspondiam às do antigo Sacro-Império Romano-Germânico, mas a quantidade de membros diminuiu. Todos mantinham a autonomia, mas se comprometiam com mútua defesa.

A Prússia e a Áustria, que dominava a Dieta, espécie de congresso, localizada em Frankfurt, eram as principais potências da região. A estrutura econômica era basicamente feudal, a exceção da Prússia, mais industrializada, que desde 1834 capitaneava a Zollverein, uma união aduaneira paralela à Confederação, mas que não incluía a Áustria, Hamburgo, Bremen e Holstein. Grande parte do território da Áustria e também parte da Prússia não integrava esta liga, o que lhes permitia atuar como países autônomos.

A dinâmica dos votos na Dieta era complexa. Os votos não representavam cidadãos, ou eleitores, mas monarcas e países: 23 membros menores compartilhavam cinco votos; seis outros Estados contavam um voto cada – os reis da Baviera, Saxônia, Vürttemberg, o príncipe-eleitor de Hesse e os grão-duques de Baden e do Hesse; as cinco cidades livres de Lübeck, Frankfurt, Bremen e Hamburgo compartilhavam um voto; três estados eram governados por soberanos estrangeiros – os reis da Dinamarca, dos  Países-Baixos e do Reino-Unido (até 1837) eram membros da Confederação Germânica como, respectivamente, duque de Holstein, grão-duque de Luxemburgo (sem raízes germânicas) e rei de Hanôver, com um voto cada. A Confederação seria extinta apenas em 1866.

A partir da revolução de 1848 na França, marcada pela abdicação de Luís Felipe I, sublevações eclodiram em Viena, Berlim e em outras cidades, cerzindo uma aliança entre operários e burgueses em torno de almejadas reformas liberais e autonomistas, no movimento conhecido como a Primavera dos Povos. A Hungria, a Boêmia, a Polônia e a Lombardia exigiram independência da Áustria.

Em março, o todo-poderoso ministro das relações exteriores austríaco Metternich fugiu para a Inglaterra e o Imperador Francisco I precisou outorgar uma Constituição. Um novo levante, em maio, obrigou-o a convocar uma Assembleia Nacional, eleita pelo sufrágio universal masculino – a primeira da história da autocrática Áustria.

Mas burguesia, temerosa diante do que identificava por radicalismos, voltou atrás, optando por sujeitar-se a um governo centralizado. O exército sufocou a revolta e em outubro o novo primeiro-ministro Schwarzenberg dissolveu a Constituinte. Fernando I abdicou em favor de seu sobrinho Francisco José, que restaurou o absolutismo da tradicional casa dos Habsburgo.

Enquanto isso, em Berlim barricadas e confrontos com tropas obrigaram o Rei Frederico Guilherme IV a convocar uma Assembleia, em maio. O nacionalismo alemão era uma força de coesão, ao passo que no multiétnico Império Austríaco funcionava como fator desagregador. Mas os debates se arrastaram. Até que uma revolta da população de Schleswig e Holstein contra Frederico VII da Dinamarca precipitou decisão da Assembleia, pois a Prússia foi comissionada para intervir militarmente em defesa dos alemães daqueles reinos, numa fórmula mais patriótica do que parlamentar.

A solução para o impasse foi assim um Reich Federal, com parlamento nacional presidido pelos Hohenzollern, reis da Prússia. O projeto de Constituição acolheu no capítulo dos direitos fundamentais o que havia então de melhor nas liberdades gerais, inclusive o voto universal. Mas Guilherme IV recusou a coroa da nova Alemanha, porque oferecida por uma Assembleia popular, e não pelo direito divino e dinástico, repelindo a Constituição.

Foi grande a frustração dos liberais. O processo de unificação estagnou e a revolução foi enfraquecida. Em protesto, uma minoria radical se reuniu em Stuttgart, mas as sessões eriçadas foram interrompidas pelos soldados de Würtemberg, em junho de 1849.

Assim, fracassou a via parlamentar para a unificação alemã e o arrogante Guilherme IV, sabotando a Constituição, perdeu a chance de conduzir o processo. Diante do vácuo de poder, Schwarzenberg, em Viena, decidiu reconstituir a débil Dieta. Precipitando-se choques entre as chancelarias Berlinense e Vienense, o czar Nicolas I da Rússia apoiou Áustria. Para não se expor a uma guerra, Guilherme IV recuou. Assim, a projetada União Prussiana foi dissolvida e a Dieta da Confederação Alemã se reestabeleceu. Foi um revés humilhante para a diplomacia Hohenzollern.

A Europa central terminou o ano de 1849 com a restauração dos princípios arbitrários. O único avanço foi o Landtag prussiano, um parlamento controlado pela burguesia que podia aprovar novas leis, mas não elegia ministros. Seria preciso a Prússia de Otto von Bismarck nos anos 1860 para a unificação alemã avançar, mas dessa vez sobre bases militaristas e autoritárias. Já o velho império do Danúbio permaneceria como um anacronismo, até ser abatido pela força dos novos acontecimentos.

Seminário Brasil Portugal, no IHGB

25 de março de 2013 0

Bem legal a programação do Seminário Brasil/Portugal que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro preparou para os primeiros dias de abril. Confere aí. Folder Brasil Portugal FINAL

A Revolução de 1848

17 de março de 2013 0

Em 1848, uma onda de revoluções varreu a Europa. As péssimas colheitas de 1845, em função da quebra da safra de trigo e de uma praga que se abateu sobre a cultura da batata, haviam elevado o custo de vida e detonado uma série de insurreições camponesas em 1846. A Irlanda, um dos países mais atingidos, viu sua população recuar em 50% nos 30 anos seguintes, em decorrência da fome e das migrações em massa (sua população havia quadruplicado nos últimos 100 anos antes da crise).

Houve aumento generalizado de pobreza, fechamento de fábricas e queda do valor dos salários. Levantes operários, como os ocorridos na cidade francesa de Lyon, foram duramente reprimidos. As classes médias, por sua vez, continuavam demandando pela ampliação dos espaços de representação política. Setores da burguesia e da nobreza também estavam insatisfeitos e cobravam reformas liberais, tanto nos países mais democráticos, como a França, como nas autocracias da Europa Central, como a Prússia e a Áustria. Nos vastos impérios multiétnicos, como a Áustria, que se estendia da Itália aos Balcãs, fermentava o nacionalismo das minorias.

Mas foi na França onde tudo, mais uma vez, começou. Luís Felipe I, fazendo um reinado ultraconservador, apoiado por banqueiros, julgava-se solidamente instalado no poder. No entanto, a crise trouxera o fantasma de uma grande massa de desempregados, enquanto trabalhadores, socialistas e até alguns burgueses pressionavam pela adoção do sufrágio universal em substituição ao voto censitário, então em voga. Manifestações desordenadas espocaram em fevereiro de 1848 em frente à casa do impopular ministro François Guizot. Um tiro foi disparado e as tropas responderam, com um saldo inesperado de 500 mortos. Os cadáveres foram então desfilados pelas ruas de Paris em carros iluminados com tochas, gerando um impacto dramático. 50 mil manifestantes tomaram as ruas. Houve novas mortes e 15 mil prisões. A Guarda Nacional terminou por se unir aos populares e, 24 horas depois, Luís Felipe renunciou, assim como acontecera com seu antecessor. Dessa vez, contudo, a Câmara, ao invés de manter a monarquia, proclamou a República, que ficou conhecida como a Segunda República, tendo se estendido até 1852.

No dia 24 de fevereiro, constituiu-se um governo provisório, de coalização, unindo burgueses, ansiosos por restabelecer a ordem, republicanos e socialistas, os quais pugnavam pela melhoria das condições dos trabalhadores e pelo sufrágio universal. O Governo reuniu personagens como o poeta Lamartine, o operário Albert e o historiador Auguste Blanqui. Apesar do grande apoio popular, a tensão entre moderados e socialistas radicais, representados pelo irrequieto Louis Blanc, de pronto se estabeleceu.

Reformas e concessões sobrevieram. Reduziu-se a jornada de trabalho de 12 para 10 horas e criaram-se as célebres oficinas nacionais, fábricas de capital público que se constituíram em uma das primeiras experiências de estatização, mas que não funcionaram. O filósofo Pierre-Joseph Proudhon, um dos fundadores do anarquismo, sugeriu um banco de crédito popular, contudo, a proposta não avançou. Pelas páginas de seu jornal, bradava: “propriedade é roubo”, alarmando a burguesia. Instalou-se a chamada Comissão de Luxemburgo, um órgão que se responsabilizou por arbitrar os conflitos de trabalho e desenvolver uma legislação social. Na prática, porém, o governo resistiu a apoiar direitos do trabalho.

Em Paris, a situação estava calma. Os socialistas ainda confiavam no governo. Esse breve período ficou conhecido como a República Social. Mas a maior parte dos políticos do governo ignorava a situação das províncias, onde as estradas de ferro foram destruídas pelos tumultos, castelos saqueados e agiotas espancados. Faltava mercado para os produtos, impostos subiam, o marasmo econômico se instalara e as agitações políticas grassavam. Aos olhos de quem estava no Interior, o governo hesitava. O mundo dos negócios percebia o pesadelo se avolumando diante da instabilidade.

Assim, monarquistas e moderados conquistaram maioria nas eleições de 23 de abril, estampando a reação conservadora. Esta Assembleia Constituinte foi o primeiro órgão legislativo francês eleito pelo sufrágio universal. O Governo Provisório cessou suas atividades e deu lugar a uma executiva de 5 membros, integrada por Lamartine, dentre outros. A Comissão de Luxemburgo foi dissolvida e as deficitárias Oficinas Nacionais, fechadas: 110 mil trabalhadores foram instantaneamente demitidos. Em maio, protestos comunistas foram reprimidos com veemência. Com os agitadores socialistas se negando a aceitar o resultado, o proletariado parisiense se lançou a uma nova insurreição, entre 23 e 26 de julho, conhecida como as Barricadas de Paris.

A burguesia, aterrada diante das palavras de ordem “pão ou chumbo!”, nomeou por aclamação Louis Cavaignac ditador provisório, com ordens de submeter o povo. Decretou-se o estado de sítio. Em 4 dias de combates, com nobres, burgueses, padres e camponeses marchando lado a lado para ajudar o General, morreram 1.500 pessoas, 12 mil foram presas e 4 mil deportadas para a Argélia. A censura e a proibição de reuniões foram estabelecidas. Era o fim do sonho dourado de reconciliação entre as classes.

Em 12 de novembro de 1848, uma nova Constituição afirmou o presidencialismo, o legislativo unicameral e o sufrágio universal masculino. Nas eleições de dezembro, o aventureiro Luís Napoleão Bonaparte (sobrinho de Napoleão), deputado pelo Partido da Ordem, de extrato conservador, se elegeu com cerca de 5,5 milhões de votos, vencendo o detestado Cavaignac, que recebeu 1,5 milhão de votos. Bonaparte recebeu em massa os votos dos camponeses, que, desse modo, homenageavam o tio que lhes garantira a posse de terras quando nobreza e clero ameaçavam retomá-las depois da Revolução Francesa. Mas também contou com a simpatia de operários, que odiavam Cavaignac, além, é claro, dos conservadores amedrontados com o clima de instabilidade. Príncipe, filho de Luís I da Holanda, Luiz Napoleão participara de duas tentativas de amotinamento contra o rei Luís Felipe – em 1836, na guarnição de Estrasburgo, e em 1840, a Conspiração de Bolonha. Fora condenado à prisão perpétua em Ham, da qual fugiu para Londres, usando identidade falsa, onde escreveu um livro sobre o combate à pobreza que granjeou apoio do proletariado.

No entanto, em pouco tempo, Napoleão mostrava ao que viera. Em 1850, o descontentamento popular já era presente e o sufrágio universal, constrangido. Nova crise econômica, em 1851, acirrou os ânimos, servindo de pretexto para controlar a imprensa e intervir no ensino clerical nas escolas. Como a Constituição não permitia a reeleição, Luís Bonaparte desfechou um golpe em 2 de dezembro, reinstalando a ditadura. Teve início aí o Segundo Império, e Bonaparte se autoproclamou Napoleão III, conclamando plebiscitos para ratificar o golpe e o Império. A democracia direta foi, assim, utilizada para legitimar a ditadura.

A Revolução na França provocou uma onda de protestos em toda a Europa, em uma reação às diretrizes restauradoras e autocráticas firmadas pelo Tratado de Viena, que procurara reordenar o Continente após a queda de Napoleão Bonaparte, em 1814. Na Áustria, o poderoso artífice da restauração, o chanceler Metternich, se viu forçado a renunciar. Houve levantes em Berlim, Viena, Londres, Praga, Polônia, Budapeste, Nápoles… Porém, a feição deles era mais nacionalista do que liberal. Ainda assim, como sublinha o historiador Eric Hobsbawm, 1848 fixou-se como um paradigma de revolução global. Na prática, alguns avanços liberais foram garantidos, em especial na França, mas o desfecho mostrou que a democracia liberal também poderia se prestar ao controle social. A burguesia, inicialmente aliada aos protestos, recuou e se separou dos proletários.

A Revolução Francesa de 1830

25 de fevereiro de 2013 0

O Rei da França, Luís XVIII, irmão do decapitado Luís XVI, foi entronado pelas potências europeias reunidas no Congresso de Viena, em 1814/15, após o fim das Guerras Napoleônicas: depois da Revolução Francesa e de Napoleão Bonaparte, a França voltava aos braços dos Bourbons. Ele estava conseguindo alcançar em seu país o difícil equilíbrio entre forças liberais e conservadoras, mas morreu em 1824. Sucedeu-o seu irmão mais moço, o intransigente Carlos X, que em cinco anos fez tudo o que não devia: pretendeu recompensar a velha nobreza em detrimento da burguesia já relativamente consolidada, prestigiou o clero e desprezou necessidades do povo. Pelas Ordenanças de 25 de julho de 1830, impôs censura total à imprensa, tentou um golpe de Estado e dissolveu a Câmara, de maioria liberal, recém-eleita. Foi a gota d’água.

O contexto era delicado. Havia uma crise de subprodução agrícola, importando na alta dos gêneros alimentícios, e entorpecimento da atividade industrial. O comércio sofrera com o bloqueio marítimo durante o período napoleônico e só começara a se recuperar depois de 1825. A indústria, por seu turno, amargara um duro golpe depois da queda de Napoleão Bonaparte, perdendo mercados cativados com a expansão da influência política e militar sobre a Europa. Agravava o quadro certa timidez intrínseca ao capital francês, tradicionalmente mais voltado para mercados locais, bem como a falta de visão dos estadistas – na Bélgica, por exemplo, o governo alavancava o desenvolvimento, criando ferrovias estatais. Com o dobro da superfície e da população da Inglaterra, a França patinava, não igualando nem de perto a indústria britânica. Falências de estabelecimentos fabris se precipitavam, o desemprego urbano crescia e, junto com ele, o descontentamento popular. Em paralelo, as ideias liberais varriam o continente, apesar do refluxo imposto pelo Congresso de Viena, de modo que o reacionarismo de Carlos X era percebido como extemporâneo. Nem mesmo a bem-sucedida campanha militar na Argélia, que deu início à longa ocupação colonial francesa no país africano, melhorou a popularidade do rei com fumaças absolutistas.

Assim, o povo, mais uma vez, se sublevou em Paris. Os protestos foram iniciados pela burguesia. Banqueiros e agiotas suspenderam operações; industriais fecharam as fábricas, precipitando os trabalhadores com medo do desemprego às ruas. Jornalistas liberais inflamaram as multidões. Barricadas foram armadas pela cidade, e enfrentamentos aconteceram durante os chamados Três Dias Gloriosos, de 26 a 28 de julho.

A Guarda Nacional, lançada contra a massa, como já o fizera durante a Revolução Francesa, acabou negando-se a prosseguir com a repressão. Carlos X foi, desse modo, derrubado em 2 de agosto. Morreu seis anos depois, no exílio. Substituiu-o seu filho, Luís Antônio, que também abdicou 20 minutos depois em favor do sobrinho do decaído, Henrique, último rei da dinastia Bourbon, o qual permaneceu apenas sete dias no trono. Liberais lograram coroar Felipe de Orleans. A indicação não apenas era uma garantia às pretensões absolutistas dos antecessores, como ainda colocava um freio nos excessos da massa amotinada: a lembrança de 1789 ainda estava viva na memória.

O clima revolucionário daqueles dias está retratado no célebre romance de Vitor Hugo Os Miseráveis. Um famoso quadro do pintor Delacroix, A Liberdade guiando o Povo, também remete às lutas de 1830. No centro da Praça da Bastilha, em Paris, ergue-se a Coluna de Julho, monumento de 47 metros, inaugurado em 1840. Ornado em bronze e encimado por uma alegoria colossal do Espírito da Liberdade, em sua base repousam os restos mortais das 615 vítimas da Revolução de Julho.

Os eventos de julho de 1830 representaram menos uma revolução do que a confirmação da Constituição de 1814, ameaçada por Carlos X. A Carta foi liberada de ambiguidades, explicitando-se a constitucionalidade da monarquia, representativa e responsável. O direito ao voto se estendeu de 100 mil para 250 mil eleitores, todos proprietários, conformando 1% da população. As garantias liberais, portanto, ficaram relativamente restritas. Luiz Felipe, por sua vez, tornou-se o célebre Rei Burguês. Mas seu compromisso com a burguesia também encontrava limites, pois seu governo privilegiou a aliança com banqueiros, cujos interesses nem sempre coincidiam com os dos industriais e comerciantes de vários estratos.

Como de outras vezes, a erupção de ânimos na França detonou uma onda de reação em cadeia pela Europa, sendo o componente nacionalista combinado com o liberal. Levantes se registraram na Bélgica, em regiões da Itália ainda não unificada, em diversos estados alemães e na Polônia. Todos esperaram em vão o apoio francês, que nunca chegou.

As mudanças mais importantes aconteceram na Bélgica, que deixara de ser um domínio do Império Austríaco e estava associada à Holanda no Reino dos Países Baixos, por decisão do Congresso de Viena, desde 1814. Agora, conquistava independência, coroando o Rei Leopoldo. Foi decisivo o apoio dissuasório da frota inglesa, senhora dos mares. A partir daí, a Bélgica abraçou a posição diplomática de neutralidade perpétua.

Portugal também conseguiu registrar sucessos. Dom Pedro I renunciou à coroa no Brasil, onde crescia sua impopularidade, em favor do filho, Dom Pedro II. Tornou-se Dom Pedro IV em Portugal e liderou uma bem-sucedida revolução contra o domínio retrógrado do irmão Dom Miguel. Em 1834, o país ganhou uma Constituição de matizes liberais. Também na Espanha, as pretensões reacionárias de Carlos de Borbón foram frustradas pela guerra civil de 1833 a 1840. Na Suíça, ainda, o liberalismo se afirmou.

De modo geral, entretanto, forças reacionárias prevaleceram na Europa Oriental. A França constitucional seguiu a Inglaterra e se apartou da cega rigidez do programa da Restauração. Ambas as nações eram economicamente progressistas, haviam rompido com o feudalismo e simpatizavam com vizinhos menos avançados que buscavam emancipação política. A Europa daqueles anos se dividiria entre países com governos representativos, de um lado, e países com despotismo monárquico, de outro, liderados pela Áustria, pela Prússia e pela Rússia.

Cultura de alto a baixo - entrevista com Camille Paglia em O Globo

12 de fevereiro de 2013 0

Caros, continuo desaparecido daqui do blog e acho que isso ainda vai um bom tempo, tendo em vista a montanha de coisas que estou escrevendo no momento. Mas faço uma pausinha na minha concentração aqui para postar essa breve mensagem, até porque vários amigos têm me escrito, perguntando a respeito.

Saiu uma ótima entrevista com a Camille Paglia no jornal O Globo, do Rio de Janeiro, nesse sábado. Confere aí! Eu estou de acordo com a percepção dela de que a arte contemporânea,  embora possa apresentar bons testemunhos, está cada vez mais difícil de apresentar algo com uma carga dramática e densidade semiológica de amplo impacto. O exemplo oferecido de David Bowie é muito feliz. Ele passou por pelo menos duas décadas revolucionando o rock, articulando poesia e música de qualidade, com mímica, teatro, figurinos extraordinários, cinema, fotografia, iluminação. Antecipou tendências estéticas e revolucionou costumes. E o que há hoje? Lady Gaga, uma figura medíocre em todos os sentidos, adorada por uma combinação melancólica de falta de educação com excesso de mercado. Ahh..Camille faz referência a um livro que ajudarei ela a produzir, sobre o carnaval de Salvador. Verdade! Nós conversamos sobre e isso desde 2009. Mas a Camille nunca disse que sou baiano. Isso foi enxertado na fala dela pelo pessoal do jornal, na hora de produzir a versão. Mas tudo bem, tomei como um baita elogio.

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A Era da Restauração

13 de janeiro de 2013 1

O ano de 1815 é considerado por muitos historiadores como o umbral lógico do século XIX para a Europa. A Revolução Francesa e as Guerras Napoleônicas haviam agitado as rígidas instituições do Antigo Regime. Agora, com a queda de Napoleão Bonaparte, as nações vitoriosas estavam ansiosas por reparar as estruturas ressentidas das monarquias não constitucionais e antiliberais. Depois de 25 anos de revoluções e guerras ininterruptas, estadistas reacionários reuniram-se, entre 2 de maio de 1814 e 9 de junho de 1815, em Viena, capital do antigo Império Austríaco, objetivando restabelecer a paz. Os debates foram protagonizados pela Áustria, Prússia, Rússia e Reino Unido, mas com participação da derrotada França e de nações menores, como Portugal, Espanha e Suécia.

Os termos foram desenhados no Tratado de Paris, firmado em 30 de maio, pelo qual se impunha o pagamento de indenizações pela turbulenta França. Mesmo diante do regresso fugaz do Imperador Napoleão, em março de 1815, para o chamado Governo dos 100 Dias, prosseguiram as discussões. As conclusões do Congresso de Viena foram fixadas nove dias antes da derrota final de Napoleão na célebre batalha de Waterloo, em 18 de junho, em território belga.

Nortearam os trabalhos os princípios da legitimidade, da restauração e do equilíbrio, pelos quais se procurou reinstalar no trono os monarcas afastados por Napoleão. Consideraram-se legítimas as fronteiras vigentes antes de 1806, mas admitiu-se certo redesenho com base numa noção fabricada de equilíbrio entre as nações. Decidiu-se ali que os valores contrarrevolucionários e a imobilidade dinástica seriam mais estáveis. O propósito não era reviver o cortejo de injustiças do Antigo Regime, mas alcançar a segurança.

Além da afirmação política da Áustria, Rússia, Prússia e Inglaterra sobre uma França eclipsada, o período ali inaugurado seria marcado pelo avanço maciço do processo de mecanização da indústria e pela incontestável supremacia naval da Inglaterra, cuja frota não seria ameaçada em qualquer parte do globo terrestre.

A Áustria, depois de quatro vezes derrotada pelas aplastantes campanhas napoleônicas, mostrou um surpreendente poder de recuperação. Viena foi eleita a sede do Congresso da Paz, graças ao espírito empreendedor de Klemens von Metternich, Ministro das Relações Exteriores. O Império do Danúbio, reino dos Habsburgo, havia se convertido num anacronismo na era dos estados nacionais, com uma sociedade feudal e aristocrática, formada e segmentos múltiplos (minorias alemãs, húngaras, polacas, checas, croatas, italianas…), mas tinha tradição e orgulho dinástico. O colapso da França fez da Áustria o centro das forças conservadoras. Os Habsburgo perderam alguns territórios, como a Bélgica, mas conservavam Veneza e Lombardia. O Sacro Império Romano-Germânico, ficção arcaica encabeçada pelo Imperador austríaco e desbaratada em 1806, não renasceu, mas reencarnou na nova Confederação Alemã, uma liga de 38 estados que se reuniam em Frankfurt numa assembleia chamada Dieta, que representava os soberanos, mas não o povo. Grande parte do Reino da Prússia e do Império Austríaco não foi incluída, contudo, na Confederação, enquanto reinos como Holstein, Luxemburgo e Hanôver eram representados por soberanos estrangeiros.

A Prússia também recuperou o antigo prestígio: ganhou parte da Saxônia, a Pomerânea Sueca e confirmou possessões dos Hohenzollern, seus soberanos, mas convalesceu uma década até se recuperar do esforço de guerra contra a França. A Rússia foi representada em Viena pelo próprio Czar Alexandre I, paradoxal autocrata com veleidades liberais sucedido pelo irmão Nicolas I em 1825, o qual sufocou de vez os brilhos liberais na região. A Rússia ganhou maior parte da Polônia (partilhada pela quarta vez entre as potências) e manteve a Finlândia, conquistada em 1809, e a Bessarábia (1812): saiu das guerras revolucionárias com conquistas mais extensas do que qualquer outro Estado.

A Dinamarca perdeu a Noruega (um milhão de habitantes) para a Suécia, porque esta abandonou a causa francesa em 1812. A Saxônia, elevada a dignidade de reino por Napoleão, perdeu como punição 2/5 do território para a Prússia. O Reino Unido dos Países Baixos foi criado como estado tampão ao norte da França, com 3 milhões de belgas e 1 milhão de holandeses, súditos de Guilherme I de Orange. A independência da Suíça foi garantida. A casa de Savóia foi restaurada no Piemonte-Sardenha. Em Nápoles, um pretendente Bourbon foi coroado rei das Duas Sicílias. Os estados papais voltaram a estar sujeitos a Roma. Portugal e Espanha retomaram sua autonomia.

Luís XVIII se apresentou como herdeiro o trono francês e seu embaixador Talleyrand convenceu as 4 potências que se deveria devolver uma França intacta aos Burbons. Três anos mais tarde os exércitos de ocupação se retiraram, mas permaneceu um povo com sentimento de derrota governado por uma monarquia impopular.

A ideia de um governo europeu viabilizado mediante conferências ruiu em seguida, quando a Rússia, a Áustria e a Prússia defenderam intervenção na Espanha, repelida pela Inglaterra. Em 1822, a Inglaterra se afastava da política europeia e o governo inglês, odiado internamente pelos liberais, se tornou a esperança dos liberais no exterior. O domínio naval inglês ajudou a garantir independência de estados latino-americanos, vez que pretensões de Fernando VII da Espanha estavam sendo reconhecidas pela Rússia – senhora dos mares e dona de uma potente indústria, a Inglaterra tinha a lucrar com essas novas nações por meio do comércio. Já o princípio de imobilismo entrou em cheque em 1829, com a guerra de independência dos gregos contra o Império Turco. O chanceler austríaco Metternich chegou a se opor às pretensões dos gregos, mas a Inglaterra, a Rússia e a França acabaram ajudando-os. Mas em linhas gerais, a fórmula alcançada pelo Congresso de Viena durou 100 anos e por 40 anos as grandes potências evitaram recorrer às armas – foi o maior período isento de guerras da Europa desde a paz romana.

A revolução industrial e a sociedade da técnica

15 de dezembro de 2012 0

Revolução Industrial é um conceito estabelecido pela tradição para explicar os acontecimentos na Inglaterra a partir do século XVIII, tendo sido inventado no século XIX por socialistas franceses, por analogia à Revolução Francesa. Karl Marx (O Capital, 1867), Arnold Toynbee (1884) e Paul Mantoux (1906) estão entre os que, a seguir, consolidaram a expressão, que destaca menos a noção de ruptura e mais a rapidez e extensão das transformações, bem como a profundidade das suas consequências: a decisiva transição de um esquema pré-capitalista incompleto para o capitalismo, cujas características centrais residem no progresso técnico continuado, capitais mobilizados para o lucro, formação da classe burguesa, de um corpo técnico encarregado de gerir o capital e do proletariado urbano e, ainda, a marca da convergência entre técnica e ciência. Tudo começou quando o escocês James Watt aperfeiçoou a máquina a vapor e Arkwright aperfeiçoou o tear hidráulico, em 1769. As mudanças tornaram-se visíveis na década de 1780.

O Mundo Antigo conhecera importantes avanços técnicos, mas grandes obras recrutavam abundância de mão de obra, uma massa de dominados, servos e escravos, não havendo necessidade de formas alternativas de energia. O trabalhador pré-histórico, por exemplo, utilizava como arado uma haste de veado para abrir sulcos na terra. Daí evoluiu-se para ramos de madeira com ponta endurecida com fogo. Os romanos inseriram uma longa prancha inclinada atrás dessa ponta e os gauleses colocaram a roda.  Já a foice era conhecida desde o século XIV, mas seu uso se difundiu apenas no século XVIII, quando a necessidade de ir mais depressa permitiu desperdício de grãos. Portanto, as inovações se davam com lentidão.

A Idade Média viveu lenta adoção de novas técnicas e aprimoramento de forças. Os moinhos de vento vieram na esteira dos melhoramentos da navegação, no século XV. A China conhecia desde o século V a.C a fundição do ferro, que se difundiu na Europa penas no século XIX. Também foram inventados na China o aquecimento pelo carvão, o tear de laços, o papel, a imprensa e a bússola. Mas esse desenvolvimento estagnou no séc XIII, pois faltou a aliança da técnica com a ciência e o capital.

O contato com os árabes, nas Cruzadas, a expansão comercial e urbana e mortandade causada pelas pestes e guerras contribuíram para a difusão e consolidação de novas técnicas na Europa. O arrendamento de terras surgiu como uma forma de trabalho mais rentável para compensar desorganização da produção. Em função disso, a partir do século XV liberaram-se progressivamente os servos para vender excedentes nas cidades, o que os estimulou a incrementar técnicas agrícolas e concorreu para a dissolução do sistema feudal. Para a nobreza rural, ficou cada vez mais difícil disponibilizar de mão de obra. Paralelamente, cresceu o seu endividamento com as guerras. Foi, assim, se desfazendo de terras. Enquanto o poder da nobreza enfraquecia, as cidades conseguiam ampliar seus privilégios.

Havia resistência às novas técnicas. Em 1579, por exemplo, em Dantzig, tecelões e autoridades, temendo o desemprego em decorrência da invenção do tear de fitas (aperfeiçoado no Ocidente a partir de uma técnica oriental), proibiram a ferramenta e estrangularam o inventor. Muitos inventores foram perseguidos e mortos.

As antigas guildas eram associações de trabalhadores especializados num ofício, numa arte. As firmas organizavam-nos de forma hierárquica, do aprendiz ao mestre, e todos viviam na mesma casa. As normas eram severas e conservadoras. As guildas sistematizavam técnicas, mas impediam a inovação e o aumento da produção. A propaganda era proibida. O objetivo era mais o próprio produto e não a sua comercialização. Havia pouca concorrência entre as unidades de produção, não havendo porque melhorar técnicas.

As Grandes Navegações ampliaram o comércio. Novas mercadorias surgiram e o mercado consumidor se estendeu. O mercador ganhou importância. Nesse ponto surgiu a manufatura, reunindo camponeses em grandes oficinas, combinando-os com estratégias novas de gestão e operação.

Nasceu um novo empresário, que perseguia aumento de produtividade. Não foram poucos os conflitos estabelecidos entre guildas e manufaturas. O povo temia as péssimas condições de trabalho das manufaturas e os mestres de ofício temiam perder seu status. A manufatura só conseguiu se impor de forma absoluta no séc XVIII.

Em paralelo, o Iluminismo foi colocando o Homem e não mais Deus no centro do mundo. A partir do séc XVI, cresceu a prática da observação metódica da natureza e do trabalho e impôs-se o método experimental. Surgiram academias e especializações.

As grandes navegações trouxeram grandes negócios, o que exigia bancos regulares, novas operações financeiras, o desenvolvimento da escrituração mercantil. Aos poucos, a burguesia começou a tomar postos da aristocracia, a competição e o lucro se difundem. Finalmente, a unificação política e a emergência do Estado Nacional (Península Ibérica, França e Inglaterra) padronizou moedas, impostos, leis e normas, trazendo ainda a pacificação das guerras feudais. Nasceram os monopólios estatais, ao mesmo tempo em que o indivíduo se libertava paulatinamente das regras corporativas.

A França dispunha de superioridade técnica na Europa, mas desde a Revolução Gloriosa (1688) o lucro privado havia sido culturalmente aceito na Inglaterra, onde, ainda, o protestantismo se consolidou e o parlamentarismo foi instalado. Em 1700, uma política protecionista para a manufatura da lã, proibindo importação de algodão da Índia, acabou favorecendo a manufatura algodoeira na Inglaterra, pois foi preciso aprimorar a produção interna. Enquanto isso, as cidades se expandiam, abastecidas com a população expulsa do campo pelo movimento dos cercamentos e pelo fim dos cultivos comunais. O comércio marítimo multiplicara capitais, que agora eram investidos em terras. Os chamados yeomen, pequenos proprietários rurais, desapareceram. Introduziram-se melhorias no cultivo, adubação das terras e a rotação de culturas. Os animais passaram a se alimentar melhor. Este processo trouxe o enriquecimento dos grandes proprietários, mas o empobrecimento dos camponeses, que encheram os bolsões de miséria nas cidades e proveram a mão der obra necessária para a nascente indústria, onde era férrea a disciplina. As Leis do Senhor e Empregado, por exemplo, permitiam até prisão de operários faltosos. Abolidos os regulamentos sobre ofício, o controle da produção passou dos trabalhadores para os capitalistas. Estabeleceu-se uma super-exploração, inclusive do trabalho infantil. A jornada de trabalho era de 12 a 19 horas diárias, brutalidades eram frequentes, assim como a aplicação de multas. A vida urbana era malsã. Aos poucos, se organizou a reação dos trabalhadores. Os sindicatos deixaram de ser ilegais em 1824.

A Revolução Industrial se consolidou com a invenção do coque e da máquina a vapor. A primeira ferrovia foi construída em 1830, ligando Liverpool a Manchester. A partir daí, imantou-se com a mística da velocidade e do progresso. As ferrovias trouxeram profunda desagregação social por onde passavam, mudando formas de comércio e hábitos culturais locais. Foi também por meio delas que os grandes investidores entraram na indústria, o que animou o processo com novos capitais. Em 1856, descobriu-se a fundição do aço, técnica aperfeiçoada em 1877. Na química, os avanços também eram notáveis. Na agricultura, o fertilizante artificial provocou uma revolução. Novos métodos de conservação de alimentos, como os enlatados, ajudaram a deprimir a taxa de mortalidade. A rede de comunicações foi poderosamente ampliada com as ferrovias, navios a vapor e estradas de rodagem. Em 1838 aconteceu a primeira viagem sem escalas entre Liverpool e NY e Morse inventou o telegrafo por esta época. O selo postal foi criado em 1840. Entre 1750 e 1850, a população do mundo passou de 600 milhões para 1,2 bilhão de pessoas. O aumento da produção e da produtividade catapultou a população, alargando o mercado consumidor e de trabalho. Um mundo inteiramente novo surgiu.

Camille Paglia: Taylor Swift, Katy Perry e Hollywood estão arruinando as mulheres

07 de dezembro de 2012 1

Lançamento do livro Mal-estar na Cultura: visões caleidoscópicas do mundo contemporâneo

13 de novembro de 2012 0

A obra editada pela Paiol é organizada pel0s Profs Kathrin Rosenfield, Eneias Tavares e Sinara Robin, com lançamento hoje, na Reitoria da Ufrgs.