O Estrangeiro, de Albert Camus, no São Pedro
Ontem fui assistir “O Estrangeiro”, no Theatro São Pedro, com direção de Vera Holtz e Guilherme Leme, quem representou, em monólogo, Mersault, o antológico personagem que Albert Camus criou para este romance. Camus, Nobel de Literatura em 1957, nasceu na Argélia francesa em 1913 e faleceu num acidente de automóvel em 1960. Foi um representante da literatura francesa não metropolitana, assim como Le Clézio nos tempos presentes. Sua obra está impregnada pelo clima africano, pela dinâmica constante do choque e diálogo de culturas. De origem humilde e proletária, Camus ligou-se desde cedo aos cÃrculos de esquerda. “O Estrangeiro”, publicado em 1942, foi seu terceiro livro. Saudado por Sartre, tornou-se uma referência para a literatura existencialista.
O livro é um grande fluxo de consciência, disparado quase em tom monocórdio, neutro, no qual se encerra a forte tensão dramática da obra. Mersault é um anúncio do sujeito anômico da pós-modernidade. Niilista, pouca coisa o empolga, a quase tudo ele se adapta, nenhuma convicção ou crença o comove. Sua mãe morre em um asilo, mas durante o velório seus pensamentos são dominados pela sensação de cansaço e de fome: ele fuma um cigarro, bebe um café com leite, dormita e não vê a hora de chegar em casa. Cidadão trabalhador e pacato, deixa-se envolver numa trama sem sentido por um vizinho arruaceiro, agressivo e gigolô, apenas para não contrariá-lo. A total falta de disposição de afirmar a sua própria vontade na relação com o vizinho esvazia sua existência de qualquer conteúdo ético transcendente. Mata um árabe porque estava por acaso com uma arma no bolso, porque ele pareceu atravessar o seu caminho e porque o sol queimava suas têmporas. A emoção que ele não liberou no velório da mãe, explode sem explicação contra um desconhecido.
Como é próprio da perplexidade existencialista, o texto debruça-se sobre a produção do discurso. No caso, o discurso da culpa, que leva à condenação de Mersault pelo Tribunal do Júri. E, mais uma vez, Camus flerta com o absurdo. Nada se fala no julgamento sobre o árabe assassinado. O que interessa é se Mersault está ou não arrependido, se ele demonstrou ou não sensibilidades, se ele crê ou não na salvação divina. E a maneira encontrada para medir tal subjetividade foi o seu comportamento aparentemente insensÃvel no velório e enterro da mãe, em torno do qual se estabelece uma narrativa enfatizada pelo julgamento seguinte ao seu, o de um homem que matou o próprio pai.
O texto expõe com maestria o componente fortemente subjetivo que anima as decisões do Júri, onde o que importa é o discurso da culpa e a consciência coletiva, colocando a técnica do Direito em estado de suspensão. A percepção ansilar que Mersault tem da presença da imprensa na sala do Júri realça esta condição. Numa sociedade afogada em modorrenta rotina provinciana, onde nada de instigante parece acontecer, a imprensa explora o seu caso, assim como o do parricida, à larga.
O jogo de espelhos entre a anatomia da construção do discurso da culpa e a ausência de transcendência do narrador niilista acabam expondo com sutileza, mas forte tensão dramática, o absurdo da sociedade colonial: do morto fica-se sabendo apenas que era árabe e irmão da amante sistematicamente surrada pelo vzinho “amigo” de Mersault. Seu nome, sua vida, sua individualidade permanecem na opacidade. Não passa de um coadjuvante sem voz que, no limite, mereceu a concessão de ser portador de alguns direitos. Afinal, seu matador foi a julgamento. Mas a culpa que justificou a pena capital fundamentou-se na aparente insensibilidade de Mersault face à morte de sua própria mãe…
PS: Ahhh, sim, eu li o texto da Secretária Mônica Leal. Já que fui citado várias vezes, claro, vou responder. Mas vou deixar para fazer isso em seguida, para não azedar meu adorável fim-de-semana. Mantenho vocês informados.







