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(Im)previsibilidade

18 de maio de 2017 0

Empresários em geral costumam condicionar boa parte do sucesso de seus negócios à previsibilidade. Isso nem sempre é dito abertamente, mas é assim que funciona na prática. A clareza nas regras do jogo e a capacidade de antever movimentos da política e da economia são fatores determinantes no planejamento estratégico das organizações, das pequenas às grandes companhias. Deflagrada em março de 2014, a Lava-Jato passou a representar uma ameaça a essa premissa. A operação virou tema constante do debate, das rodas de conversas entre executivos à pauta de fóruns, congressos e eventos corporativos. Que político será preso desta vez? Qual empresário será flagrado atentando contra os interesses da República em benefício próprio? Como decidir o que fazer amanhã se o amanhã é uma incógnita?

O discurso centrado nas incertezas dos rumos do país ganhou força e teve contribuição decisiva no impeachment de Dilma Rousseff. Então Michel Temer, discussões de sua legitimidade à parte, assumiu com a proposta de um governo de “salvação nacional”. Impopular, com citações em denúncias de corrupção que envolviam não somente ele, mas também ministros e seus principais homens de confiança, o vice promovido a chefe do Executivo vinha sustentando o governo no pilar das reformas estruturantes, aclamadas pela classe empresarial. Alguns sinais de reação começaram a aparecer: queda da inflação, dos juros, previsões otimistas de crescimento do PIB, retomada da geração de empregos formais em abril. No Brasil, se a economia vai bem, todo o resto fica quase que em segundo plano. Historicamente somos assim – foi a crise, e não as pedaladas fiscais, que derrubaram Dilma. E essa era a aposta de Temer.

As informações divulgadas pelo jornal O Globo de que o presidente teria dado aval para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha na cadeia colocam tudo isso por água abaixo. A esta altura, Temer já é um zumbi político. Seu governo acabou e levou as reformas trabalhista e da Previdência para o buraco. É claro que isso tem impactos significativos na economia. Os mercados já reagem. Ações na Bolsa de Valores despencam. O dólar dispara. A confiança vai para o ralo. A imprevisibilidade volta a reinar. Tudo isso afeta o humor das empresas, e isso certamente se refletirá em novo contingenciamento de investimentos, arrastando ainda mais a retomada da estabilidade.

A preocupação com os estragos na economia é justa, válida, pertinente. Por outro lado, este não é o maior dos nossos problemas agora. Se um escândalo político dessa magnitude tem seu preço financeiro, por outro lado representa uma nova chance muito mais valiosa de passar o Brasil a limpo, política, social e moralmente. Já perdemos oportunidades. Que não desperdicemos mais esta.

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