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“O produto básico não vai mais nos sustentar”, diz José Altino Comper, novo presidente do Sintex

07 de agosto de 2017 2

Novo presidente do Sintex, José Altino Comper atualmente é presidente da Círculo (Foto: Lucas Correia)

Natural de Rio do Sul, o empresário José Altino Comper, 65 anos, assume oficialmente na noite de hoje o comando do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário de Blumenau (Sintex), em solenidade marcada para as 19h no Centro Empresarial de Blumenau. Presidente da gasparense Círculo, ele substitui Ulrich Kuhn, um dos ícones e grandes referências do segmento em SC e no Brasil, que deixa o cargo após 33 anos.

Nesta entrevista, concedida à coluna na sexta-feira, Comper diz que uma das primeiras metas de sua gestão é desenvolver um planejamento de médio prazo para a entidade. Ele também reforça que as empresas têxteis precisam se adaptar às transformações ligadas à automação de processos trazidas com a chamada indústria 4.0 e defende que o fortalecimento do setor passa pela elaboração de produtos de maior valor agregado.

O senhor vai substituir Ulrich Kuhn, uma das principais referências do setor, no comando do Sintex. Qual o desafio?
Participo do sindicato há bastante tempo e conheço a trajetória do Ulrich. O Sintex extrapola a sua base. Ele é reconhecido pela qualidade do trabalho em SC e no Brasil. Então realmente é um desafio muito grande que eu aceitei porque, quando você participa de uma entidade, chegando a sua vez, você deve assumir. O Ulrich vai continuar por perto. Junto com a diretoria e os conselhos, a gente espera manter esse trabalho, essa importância que o Sintex tem hoje.

Como foi o convite?
Há três anos ele (Ulrich) me convidou para ser o primeiro vice-presidente. E eu acabei aceitando, achando que lá na frente ou ele continuaria ou alguém se colocaria à disposição (risos). Mas ele sempre dizia: “te prepara que daqui a três anos vai chegar a tua vez”. Agora o dia está chegando.

O senhor fala em dar continuidade ao trabalho, mas qual será a marca pessoal?
Ainda falta a confirmação dos associados, mas no dia 22 queremos iniciar um planejamento estratégico, onde vamos definir as ações dos próximos três anos. A primeira coisa é dizer o que já se faz hoje. Isso tudo é suficiente ou temos outras ideias? Esse planejamento vai ser o nosso rumo. O Sintex é muito organizado, tem as suas ações do dia a dia, mas não tem um planejamento de médio e longo prazo. É isso que a gente vai implantar com a colaboração de todos os associados.

O que o planejamento vai contemplar?
O mundo está vivendo uma nova fase de desenvolvimento com a quarta geração industrial, a chamada indústria 4.0. As transformações estão cada vez mais rápidas. A indústria têxtil está inserida neste contexto e precisamos saber se os associados estão preparados para esse mundo novo de fios e roupas inteligentes. Capacitar o industrial, o empresário e os colaboradores para os novos tempos não é um desafio de futuro, é um desafio do presente. Esse talvez seja o grande desafio junto com a diretoria e os associados.

O setor têxtil passou por grandes transformações na história recente, da abertura do mercado nos anos 1990, passando por mudanças nas formas de produção e chegando ao modelo de negócios sustentado no varejo. Com a chegada da indústria 4.0, qual será a próxima transformação?
A primeira pergunta que cada industrial tem que fazer é: eu tenho uma fábrica ou um negócio? Talvez o negócio de mercado seja mais importante que a fábrica. Você precisa ficar conectado, buscar saber onde está, aonde vai, o que está acontecendo no setor, como vou ser afetado. Eu posso ficar só pensando em produzir? Ou eu tenho que ir ao mercado? Ou não devo ir? Todas são perguntas que cada um precisa conhecer do seu setor para poder ter vida longa.

Há muitas indústrias familiares na região, que muitas vezes não têm gestão profissionalizada. Isso pode ser um empecilho para a adoção dessas novas práticas?
Com certeza. Há 10, 20 anos havia grandes empresas em Blumenau que hoje mudaram por completo. A grande maioria das centenárias sofreu muito com as mudanças, com a abertura do mercado, nunca imaginaram que enfrentariam dificuldades. Essa é uma reflexão grande. O setor têxtil mudou.

Várias grandes empresas do setor fecharam fábricas no Vale nos últimos anos. Como o senhor enxerga essa movimentação?
Isso é triste para a região, mas elas têm que buscar competitividade. Algumas fecharam aqui, mas cresceram em outros lugares do país. Santa Catarina é um ótimo estado, com boa mão de obra, mas não é um grande consumidor. E os incentivos fiscais têm migrado a produção para o lugar de menor custo. Uma política tributária mais justa em todos os estados com certeza aguentaria essas empresas onde elas nasceram, porque investir e acabar fechando para ir para outro lugar é complicado.

Falta competitividade do Estado para reter essas empresas?
Eu considero que SC já oferece bons benefícios, mas outros estados fazem a leitura do benefício atual e dão alguma coisa maior. Então é guerra fiscal. Às vezes, também, logisticamente outro estado está melhor situado do que SC.

Qual o tamanho do impacto do custo-Brasil para a indústria têxtil?
Tem que reduzir muito, mas muito a burocracia. Ela nos mata. Precisamos de menos governo na nossa vida. Há muitas regras. As empresas têm uma estrutura danada para cuidar das áreas fiscal e de recursos humanos. É muito mais gente do que precisa.

SC aos poucos deixa de ser só um polo de confecção para também ser um polo produtor de moda, algo que o Santa Catarina Moda e Cultural (SCMC) defende e se propõe a estimular. Esse é realmente o caminho para a indústria têxtil?
A gente vai tentar aproximar o Sintex do SCMC, para ele não ficar só na parte legalista e para que traga aos associados essa questão de moda e produto mais elaborado. Eu também tenho essa visão. Nós temos que ir para esse lado de qualquer jeito. O básico não vai nos sustentar porque o Brasil não tem custo de básico. Então precisamos focar em produto elaborado. E a moda faz parte disso. O SCMC tem feito um trabalho diferenciado neste sentido. Temos no setor têxtil da região muita gente competente para fazer o segmento crescer bastante.

O caminho, então, é investir em qualidade e inovação?
Em qualidade, inovação e desenvolvimento humano. O SCMC traz uma visão de integração entre academia e empresa, porque ainda existe uma certa distância. É preciso fundir isso para que se tenha mais resultados, e resultados mais rápidos.

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Comentários (2)

  • bernd meyer diz: 7 de agosto de 2017

    Que venha em boa hora o novo presidente. Tudo que eh continuo por muito tempo se acomoda. Sangue novo para novas ideias conjunturais.

  • Nelson Marinho Teixeira diz: 11 de agosto de 2017

    Parabéns ao novo presidente.
    Se me permite, ao iniciar uma nova fase sob sua gestão, sugiro em seus discursos falar mais profundamente nas necessidades e anseios do nosso consumidor final. É sabido que temos uma cultura industrial em nossa região e ao meu ver, foi exatamente esta visão que acabou matando muita de nossas grandes empresas. Os nossos empresários só enxergam o chão de fábrica, as suas máquinas e os seus parques fabris. Poucos são os que fazem pesquisas e estudam profundamente os seus mercados. Ao ouvir estes empresários falando, deixam claro que não estão nem aí para os seus consumidores. São empresa que nem possuem setor de marketing ou mesmo estratégias mercadológicas ousadas no mesmo nível das suas plantas fabris. Podemos e devemos ser um polo de moda referência no Brasil e no mundo, mas para isso, precisamos conhecer profundamente quem consume nossos produtos. Nenhuma fábrica ou negócio pode existir sem o consumidor!! Muito obrigado pela oportunidade de contribuir.

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