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"Começamos a entender que não seria mais da indústria que iríamos viver", diz presidente do SCMC

04 de dezembro de 2017 0

Amélia Malheiros coordena atualmente o movimento  (Foto: Daniel Zimmermann, Divulgação)

Doze anos atrás um grupo de empresas têxteis catarinenses, preocupadas com os rumos do setor, decidiu unir forças e criar uma plataforma colaborativa. Nascia em 2005 o Santa Catarina Moda Contemporânea – que mais tarde viria a ser rebatizado como Santa Catarina Moda e Cultura –, um movimento que estimula o compartilhamento de informações entre companhias do ramo, visando um crescimento mútuo, além de proporcionar a integração com universidades e instituições de ensino, todos unidos para contribuir com a qualificação do setor e torná-lo um produtor de moda – não apenas de confecção.

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O encerramento do 12º ano ocorreu com um evento em Blumenau na reta final de novembro. Dentre mais de 100 estudantes inscritos, 30 foram selecionados para criar soluções para problemas e desafios reais das 15 indústrias que atualmente compõem o movimento – Altenburg, Audaces, Chantelle, Hering, Círculo, Copa&Cia, Coratex, Cores e Tons, Fakini, HI Etiquetas, Karsten, LOA Underwear, Marisol, Tecnoblu e Villa Têxtil.

Presidente do SCMC, Amélia Malheiros, executiva da Hering, fala nesta entrevista dos resultados já obtidos pelo movimento.

O SCMC nasceu de uma necessidade da indústria têxtil ou de uma oportunidade?

As duas coisas, mas mais de uma necessidade. Em 2005, a Sonia Hess de Souza, então presidente da Dudalina, já enxergava que a gente iria viver um apagão de talentos. A meninada estava saindo dos bancos das universidades e do ensino técnico e não sabia o que era a realidade das empresas, estavam vindo muito mal preparados e não queriam ocupar algumas carreiras que estavam sendo menos projetadas. Era preciso fazer alguma coisa pela educação. A segunda e terceira gerações de empresários que estavam assumindo as empresas, ou mesmo os fundadores das empresas mais jovens, estavam absolutamente inconformados em perder mercado para a China. Foi, num primeiro momento, uma ameaça que a gente reagiu, mas alguns já enxergavam uma oportunidade. Acabou sendo um misto de coisas, de também defender uma bandeira de um Estado mais inovador, mais criativo e pujante. Dentro do conceito de economia criativa, começamos a entender que não seria mais da indústria que iríamos viver. Então, ou a gente inovava e trazia esse olhar de criação, desenvolvendo marcas desejadas pelo consumidor, ou em 10 anos Santa Catarina fecharia as portas e compraria tudo da China.

Esse foco do SCMC em tornar o Estado um produtor de moda, não só de confecção, virou um diferencial em relação a outros mercados, como a China, ou é puramente uma questão de sobrevivência do setor?

Também as duas coisas. Primeiro era uma questão de sobrevivência, para depois se criar um diferencial. Entendemos que essa cultura não se formaria do dia para a noite. Lá pelo segundo e terceiro anos do SCMC, quando estávamos ansiosos por resultados, o Vicente Donini, que naquela época estava na presidência da Marisol, dizia que o concorrente está lá do outro lado do planeta. Porque aqui o concorrente corre junto, no mesmo mercado. Era preciso dar as mãos. E o Giuliano Donini (filho de Vicente) dizia que essa cultura de tornar o Estado mais criativo e a pegada industrial ser um suporte, não o fim em si, demoraria mais de 10 anos. Agora estamos fazendo 12 anos e já começamos a colher resultados. Faculdades de moda foram incentivadas e provocadas pelo SCMC. Professores e alunos foram amplamente despertados para que entendessem esse universo da moda sobre outro olhar. Nossas empresas entenderam que todo mundo precisa entender o comportamento do consumidor, não importa se o negócio é próprio ou não. Estamos falando sobre o que o consumidor quer, trazendo informações para alimentar o sistema de criação e produção. E isso demora.

Quais são os resultados práticos mais visíveis ao longo desses 12 anos?

Somos, depois de São Paulo, o segundo mercado em número de empregos gerados no setor têxtil. Termos mantido esse lugar para mim já é fruto de muito esforço, porque se nada fosse feito teríamos perdido e sucumbido para outros estados e países. Somos hoje um Estado que desponta nas estatísticas de manutenção e criação de empregos. Também começamos a ver talentos formados no SCMC se destacando. Descobrimos uma aluna do primeiro ano, formada pela Furb, que hoje mora em Portugal e é gerente de design de uma das marcas de moda mais importantes de lá. Muitas marcas próprias começaram a aparecer também. A gente foi plantando essas sementes. Algumas vieram para dentro da indústria tradicional, outras foram para carreira solo e outros foram incorporar esse cluster.

Foi difícil quebrar esse tabu de compartilhar informações entre empresas que atuam no mesmo ramo?

Ninguém está ali para abrir preço de venda, margem de contribuição. Esse não é o objetivo, isso é dado estratégico que diz respeito ao posicionamento da empresa. Quando a Dudalina começou a fazer o seu projeto de lojas, onde ela iria aprender a falar de varejo se não fosse na Hering, que já tinha mais de 700 lojas? Óbvio que era lá dentro. Foram várias visitas de gerentes de produto, diretores e áreas da Dudalina para conversar com a Hering. Há questões, por exemplo, de análise de inteligência de mercado. O fato de você aprender uma ferramenta não quer dizer que você está entrando na estratégia do outro. Ela seria utilizada por cada empresa dentro da sua necessidade. Então eu diria que não foi muito difícil. Acho que se quebrou um grande paradigma quando Karsten e Buettner se visitaram, no segundo ano de SCMC. As duas empresas eram centenárias e nunca tinham se visitado. Quando aconteceu o encontro, foi algo emblemático. Para os mais jovens falar em compartilhamento é chover no molhado em tempos de internet e redes sociais. Antigamente, o domínio da informação era tudo. Ali se quebrou um paradigma e mostrou a que veio o SCMC.

Hoje são 15 empresas associadas. O que elas têm de diferente que as fazem buscar esse tipo de iniciativa?

Elas entendem que não estão fazendo só por si ou só por Santa Catarina. Elas estão fazendo por algo maior, que é a moda brasileira. É dar significado à sua marca, criar propósito para a sua companhia. É uma entrega genuína para os estudantes e para a sociedade como um todo, porque a maior parte dos nossos eventos é aberta. Essas empresas têm esse altruísmo por uma sociedade melhor, por uma moda mais ética, mais sustentável e consistente. Esse é um ponto comum que as une. E há também o olhar da inovação e da abertura. Uma empresa muito fechada que acha que o que tem dentro de casa é um segredo industrial não vai entrar no SCMC. Ali falamos de coisas que afetam o mercado como um todo, obviamente resguardada sempre questões estratégicas. Um dos temas que estamos debatendo agora é a indústria 4.0, que é uma questão que aflige a todos nós. Quando essa empresa fechada entender o que isso significa, ela já terá sido engolida por essa temática sem perceber. Então eu diria que são empresas que enxergam o futuro.

Quais são os próximos passos?

A gente renovará a diretoria no ano que vem e vamos buscar uma aproximação ainda maior com as entidades. Temos a facilidade hoje de ter o José Altino, presidente do Sintex, que é um dos grandes entusiastas do SCMC. O fortalecimento com entidades como Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) e Fiesc (Federação das Indústrias de SC) para trazer um número maior de empresas é um ponto. Também haverá mais aproximação com o ecossistema das startups e vamos dar continuidade ao desafio que os alunos estão trazendo para as empresas, fazendo com que eles realmente sejam aplicados dentro do setor têxtil. Há uma massa crítica de informações muito grande sem que a gente torne isso um processo evolutivo dentro das companhias. No ano que vem a gente tem como propósito que essas ideias todas sejam efetivamente testadas, pelo menos minimamente aplicadas.

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