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01 jul17:27

A "última" do Canini

Bianca Zanella

Renato Canini, 74 anos, cara de caricatura. O cartunista radicado em Pelotas está aposentado há mais ou menos uns 15 anos, mas vive repetindo que não pensa em parar de trabalhar porque desenha melhor agora que antes. Eu, que tenho medo de ser reprovada em exame psicotécnico se me pedem para desenhar uma árvore, não acredito que algum dia Canini tenha desenhado mal, mas não discordo, pois ele sempre surpreende.

Canini tem sempre algo para tirar da cartola, quer dizer, da gaveta. É por isso que depois da “última” sempre vem outra melhor. Em outra vez que estive ali, naquela casa cheia de bibelôs caprichosamente alinhados nas estantes, tive o prazer de ver os esboços de ‘Pago pra Ver’, obra que retrata cenas do cotidiano gaúcho em autênticas expressões do cartum regionalista, ainda sem editora. Fico impressionada como um nome como Canini ainda encontra resistência no mercado editorial…

Agora, no cômodo pequeno, meio ateliê meio sala de janta, tive a honra de ver primeiro alguns rascunhos da série “Elefantes” sobre a bagunçada bancada de desenho onde canetinhas e lápis de cor dividiam espaço com a mesa ainda semiposta para o café da tarde.

Fui com o fotógrafo Nauro Júnior visitar Canini para falar sobre seu novo livro, O Cigarro e o Formigo, que acaba de sair da gráfica depois de 20 anos na gaveta do desenhista. Fui folheando a obrinha infantil encantada pela historieta do personagem atrapalhado e curioso que provoca uma baita confusão na floresta por causa de uma bituca acesa. Como quase todo desenhista, Canini prefere se expressar quase sem palavras, e domina a técnica com verdadeira maestria. A formiga, as flores, tudo tem os poucos e genuínos traços da “marca Canini”. Tudo em harmonia com o colorido das páginas dado pela esposa, fã declarada e companheira de artes.

- Somos duas crianças grandes – diverte-se dona Lourdes.

 

Mas nada disso era “a grande novidade”. Começo a perguntar sobre o livro e percebo que o cartunista responde vagamente, insiste em trocar de assunto e fica contrariado, ainda que mantendo a simpatia de sempre, enquanto teimo em retornar à pauta original. Canini diz que nunca fumou, que não acredita que leis anti-fumo sejam a solução para o problema. Talvez aposte mesmo é no humor e na educação, através de mensagens como a do adorável livrinho sobre a mesa.

Quando resolvo finalmente deixá-lo falar, aí sim, fico sabendo da “última do Canini”. A novidade sobre a qual nenhum release foi escrito ainda. O melhor guardado por brio para o final. Os olhos brilharam de expectativa enquanto ele tirava do saquinho plástico a pilha de tirinhas do Tibica, que serão reeditadas.

Xodó

O personagem que faz abrir o sorriso no rosto do desenhista é sua principal criação. Diferente do Zé Carioca, filho adotivo - nascido no ventre Disney e nacionalizado com todo carinho por Canini -, este outro é cria legítima, publicado pela primeira vez lá nos idos de 1978 pela editora Abril. Pergunto se a antiga editora não detém mais os direitos autorais, e o autor diz apenas que não recebe nada pelas histórias do Zé Carioca com desenhos seus que continuam chegando todos os meses nas bancas de gibis, dando o assunto por encerrado.

Personagem chega aos 38 anos com a mesma carinha inocente e sua precoce maturidade

Com olhar de vanguarda, o indiozinho filósofo refletia sobre a questão do meio ambiente quando ainda não era moda falar em ecologia. Tudo com economia de palavras, pelo desenvolvimento sustentável da arte das tirinhas. Canini não tem computador em casa, diz que guarda os olhos para o desenho. Mas não deixo de imaginar que poderia ser um bom twitteiro…

O livro do Tibica, ainda sem data para sair, mas já confirmado pela Formato (mesma editora de O Cigarro e o Formigo), trará tiras inéditas e também envolveu uma grande pesquisa no acervo. Mas, mesmo as que fazem parte da coletânea, estão sendo refeitas. Por isso o personagem chega aos 38 anos com a mesma carinha inocente e sua precoce maturidade.

- Aproveitei somente as ideias, meus desenhos eram muito ruins naquela época. Tô caprichando mais que nos desenhos do Zé Carioca – diz o modesto perfeccionista, confessando sua predileção.

O que ele tenta mudar? Que tantos “erros” pode ver em seus desenhos?

- Eu tento simplificar – resume Canini.

Por

Um Comentário »

  • Cila Bressan disse:

    Olá
    Gostaria de saber da bibliografia desta relíquia humana, Renato Canini, onde nasceu, enfim tentando identificar sua árvore genealógica. Minha avó paterna era Cagnini, Virgínia.
    Obrigada
    Cila

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