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04 mai17:32

Vitor Ramil fala da experiência de viver da arte em Pelotas

O Segundo Caderno de ZH desta quarta-feira (4) veio na forma de uma edição especial pautada e comentada por Luis Fernando Verissimo. Respeitado veterano do jornalismo cultural, ele sugeriu algumas reportagens, entre elas uma sobre “a arte de ficar” — a respeito de artistas que optam por permanecer morando em Porto Alegre, como ele.

O músico pelotense Vitor Ramil é um dos casos citados na matéria. Depois de seis anos morando no Rio de Janeiro, Ramil resolveu voltar a Pelotas. Só que o que para muitos seria o fim da carreira artística, para ele foi uma chance de ganhar espaço no cenário musical.

>> Jornalista Claudia Laitano conta como foi a reunião de pauta de Luis Fernando Veríssimo com a equipe do Segundo Caderno.

Viver fora traz o desejo de voltar
Por Patrícia Lima, Segundo Caderno ZH

Tem gente que usou a experiência de viver fora do Rio Grande do Sul para compreender que seria mais proveitoso voltar. Foi o caso do músico Vitor Ramil, que, depois de seis anos morando no Rio de Janeiro, decidiu retornar à terra natal, Pelotas, em busca de inspiração. Ele explica parte do processo que o levou a tomar essa decisão em seu ensaio Estética do Frio, publicado em 1992 no livro Nós, os Gaúchos, da Editora da UFRGS.

“Estou no meu apartamento em Copacabana, Rio de Janeiro, de calção e chinelos, assistindo ao Jornal Nacional na TV. Assisto a uma matéria sobre uma festa popular na Bahia. As imagens: um trio elétrico sobre um caminhão arrastando milhares de pessoas seminuas, pulando, suando, bebendo e cantando sob um céu furioso. Não consigo me imaginar atrás daquele trio elétrico. (…) Assisto a seguir a uma matéria sobre a chegada do frio no Sul. Vejo o Rio Grande do Sul. Vejo os campos cobertos pela geada na luz branca da manhã, vejo crianças escrevendo com o dedo nos vidros dos carros, vejo homens de pala andando de bicicleta, vejo águas congeladas, vejo gente esfregando as mãos, gente de nariz vermelho, vejo a expectativa de neve na Serra, vejo o chimarrão fumegando. Seminu e com calor reconheço imediatamente aquele universo como meu.”

Ramil comenta que voltar ao Sul, especialmente para Pelotas, onde nasceu, foi uma decisão artística. Segundo ele, somente aqui seria possível mexer com suas obsessões musicais e encontrar uma forma de expressão única para conciliar o legado regional com a música brasileira.

– Percebi que o mercado era fechado, as gravadoras só queriam o rock. No Rio de Janeiro, não havia espaço para o que eu queria fazer – garante.

Passar um tempo fora, no entanto, foi o que mostrou a Vitor a direção certa a tomar. Analisar o próprio processo criativo de uma perspectiva mais distanciada o ajudou a saber exatamente o que queria fazer. Depois disso, a decisão de voltar ficou cada vez mais clara:

– Voltei a viver em Pelotas, no Interior, que é de onde todos os artistas saem. Não conhecia ninguém que tivesse voltado para o Interior para construir uma carreira, para criar. Isso me deixou inseguro, claro.

O bálsamo para os medos do artista veio em seguida, com a transformação da indústria da música e a popularização dos CDs e da internet. A redução do poder das gravadoras deu a Ramil a possibilidade de divulgar seu trabalho mesmo estando no interior gaúcho.

– O que eu fiz não é fórmula de sucesso para outros artistas, mas deu certo para mim. Aqui tenho um ritmo de criação intenso – completa.

Decidir voltar também pode ser um processo familiar. A violência da capital fluminense fez com que o ator Werner Schünemann optasse por voltar a Porto Alegre após nove anos. Segundo ele, a chegada dos dois filhos à adolescência foi o principal argumento para mudar.

– Sabemos que aqui também tem violência, mas não se compara com o Rio de Janeiro. Lá existe um terror institucionalizado, praticado inclusive pelo Estado. Meus filhos não podiam sair de casa sem a escolta de um segurança ou um adulto que os acompanhasse. Eu e minha mulher achamos que eles não precisavam passar por isso e resolvemos voltar – explica.

Além de considerar a violência carioca como fator principal, Werner também se derrete pela cidade onde nasceu.

– Porto Alegre é uma capital cercada de reservas naturais, o que tem muito valor. E é linda e cheira bem. Me apaixono à primeira vista a cada vez que vejo a cidade.

A carreira de ator e cineasta continua a mesma, segundo Werner. Feliz com o desempenho nas novelas da Globo, o ator pretende manter uma conexão assídua com o Rio de Janeiro, onde tem amigos e muitos contatos profissionais. A facilidade de acesso – bastam duas horas de voo – permite que ele esteja presente tanto em reuniões relâmpago como nas extensas gravações de uma novela.

Mas, como tantos outros gaúchos, ao final de cada trabalho ou compromisso, foi aqui que ele escolheu ver o sol se pôr.

>> Confira esta reportagem na íntegra e outras sugeridas por Verissimo na edição impressa do Segundo Caderno de ZH desta quarta-feira (4).

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