Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Como a Prefeitura de Carlos Barbosa lida com alunos especiais e com os índices de repetência?

28 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Minha sogra é professora e ela disse que para rodar um aluno é preciso dar explicação para a diretora da escola. Se forem dois alunos, a Secretária de Educação do município te chama e, de qualquer forma, é proibido rodar mais de dois. Há o perigo de ser exonerado! O que eles têm a dizer sobre isso?

A mesma coisa acontece em relação à inclusão de crianças deficientes. Elas não atingem o nível dos outros, então os alunos que estão ali só para aprontar dizem: “se vocês vão passar eles têm que me passar de ano também”. E aí, como fica?

De Mateus Schneider, 25 anos, auxiliar de engenharia de Carlos Barbosa (RS)


Resposta:

Em relação às colocações sobre reprovações, salientamos que a Secretaria de Educação em nenhum momento proibiu esta ação, a informação de que há proibição e que reverteria em exoneração não procede.

No entanto, como é de compromisso de qualquer secretaria, realizamos um trabalho de supervisão e orientação aos professores visando que sejam esgotadas todas as possibilidades de recuperação deste aluno. Quem trabalha todo o dia com a criança conhece o universo de conhecimentos e avanços que o aluno apresentou, portanto cabe a ele avaliar e decidir pela aprovação ou reprovação.

A reprovação é baseada numa sistemática de pontos de partidas e chegadas iguais, desconsiderando,  por vezes, processos individuais de desenvolvimento de aprendizagem. Porém, sabemos que os alunos chegam à escola com vivencias e pontos de partida muito diferenciados, cabendo à escola acolher as diferenças e atribuir significado a estas aprendizagens.

Esta é a mesma premissa que ampara a inclusão de crianças com necessidades especiais. Nossa sociedade não é composta de iguais, e sim de diferentes e a escola deve estar comprometida com todos os alunos e não somente parte deles. A avaliação dos alunos deve sempre prever as individualidades, ou seja, cada aluno deve ser avaliado por ele mesmo e não em relação a outros colegas.

Por Odila Bondam Carlotto, coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Carlos Barbosa

Que influência na qualidade de ensino os alunos do Programa Bolsa Família representam?

27 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Um dos critérios para a família receber os valores pagos pelo Governo Federal referente ao benefício da Bolsa Família é manter as crianças e adolescentes na escola. Sabe-se do desinteresse de alguns alunos pelos estudos e de suas afirmativas de irem à escola devido ao valor que recebem. Qual o risco que isso pode causar ao país devido à busca por melhores índices quantitativos e não qualitativos?

De Adriano Gelain Machado, 29 anos, contador de São José do Ouro (RS)

Resposta:

A sua preocupação é a de todas as pessoas que prezam os valores da justiça republicana e do regime democrático. Não é justo que qualquer criança frequente a escola por outro interesse que não o de assumir a sua condição de legítima herdeira do conhecimento acumulado pela humanidade, transmitido e transformado de geração em geração pelas práticas educativas das escolas.

Essa é uma tese pedagógica antiga que vem desde os primeiros pedagogos europeus do século XVI. Nesse sentido, a nossa educação básica envergonha a consciência de qualquer pessoa humana. Em pleno século XXI, ainda se pode ver crianças frequentando a escola pelo mísero desejo de se alimentar ou ajudar sua família a receber até os R$ 140 de renda per capita mensal do Programa Bolsa Família.

Agora, permita que um educador entre na sua seara e faça uma analogia entre o Programa Bolsa Família, a escola e o Livro Caixa com o qual o Sr., como contador, trabalha diariamente. O Sr. sabe melhor do que eu, que a saúde econômica de uma empresa aparece quando o livro caixa registra entradas maiores que saídas produzindo um saldo positivo. Na educação, o saldo positivo aparece quando o número de entrada de crianças é igual ao de saída, ou seja, quando a escola ensina e seus alunos aprendem de modo que não haja nem reprovação, muito menos evasão.

Como contador, o Sr. também sabe que um investimento bem feito começa como despesa e termina como lucro após um certo tempo. A educação é um investimento público que tem um retorno econômico extraordinário em médio prazo. Um estudo de 2011 do IPEA mostra que o investimento de R$1,00 na educação pública, após um ano, representa um ganho no PIB de R$ 1,85. Veja este estudo aqui. Será que existe um retorno desse porte em algum investimento disponível no mercado?

Agora respondo sua pergunta: Crianças que vão à escola para receber o Bolsa Família representam, de fato, risco para o aprendizado. Acho, no entanto, que risco ainda maior ocorre quando as crianças das famílias mais pobres do país permanecem fora da escola. Veja o absurdo que estou afirmando: há menos risco numa criança que não aprende dentro da escola, do que uma criança que não aprende fora da escola! É triste, mas acho que é verdade. Um artigo acadêmico recente afirma que no Programa Bolsa Família o “maior potencial para influenciar a mudança de hábitos de pensamento e criação de competências aplicam-se aos filhos das famílias beneficiárias (a frequência escolar continuada)”, mas para isso é necessário esperar “um ciclo escolar completo”.

Por Evaldo Luis Pauly, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unilasalle e especialista em políticas educacionais

Consentir que o aluno escreva as palavras de forma incorreta no período da alfabetização está certo?

26 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Meus filhos foram alfabetizados pelo método do som fonético. Eles aprenderam a escrever errado, mas o som estava correto. A professora dava certo para a palavra, mas depois no 2º ano dava errado porque eles escreveram incorretamente a mesma palavra. Quer dizer, não está errado que o aluno escreva e guarde na memória de um modo, mas depois esse modo não é mais o correto? Meus filhos hoje têm 15 e 17 anos e apresentam dificuldade em leitura e escrita, algo que não aconteceu comigo que aprendi pela repetição de sílabas e a juntá-las para criar palavras. Por que os estudiosos não conseguem ver que esse método de ensino é falho?

De Adriano Goudinho, 42 anos, técnico em eletrônica de Porto Alegre (RS)

Resposta:

Com certeza, mudar a referência do alvo desejado de escrita não é adequado. Mesmo que as crianças se orientem inicialmente pelo som e sua relação com as letras que o representam, as convenções ortográficas devem ser a meta a alcançar. Isto quer dizer que, desde cedo, o educador deve orientar a criança para esse alvo. Quanto mais escrever e ler da forma convencional, melhor.

Entretanto, é preciso considerar as tentativas de escrita das crianças em busca desse alvo, permitindo, de modo natural e processual, que ela faça as relações possíveis a partir do que vem se apropriando no contato com todos os materiais e recursos que contribuem para o domínio da escrita convencional.

Se o educador oferecer à criança oportunidades de reflexão, inclusive quanto às diferenças entre o que ela escreve e o que deve escrever, e diversas propostas de produção escrita e de leitura, mais ela escreverá e mais rápido chegará à escrita convencional. É importante lembrar também que o educador precisa ter o conhecimento necessário para lidar com as diferentes relações que seus alunos são capazes de fazer entre os sons, diferenças entre eles e suas representações gráficas.

Enfim, a criança, desde cedo, deve ter acesso ao registro convencional das palavras da língua, mas, ao mesmo tempo, suas escritas diferentes desse registro precisam ser compreendidas pelo educador para que possam ser trabalhadas rumo ao domínio da modalidade escrita da língua, uma vez que, nesta fase, a competência oral da criança, de um modo geral, está bem desenvolvida.

Por Cátia Fronza, professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Unisinos

Por que o aluno é sobrecarregado com tantas disciplinas?

24 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Por que o aluno é sobrecarregado com tantas disciplinas que muitas vezes nem se quer são usadas em sua vida prática ou profissional?

De Marcos, 39 anos, autônomo – de Sapucaia do Sul (RS)


Resposta:

Prezado Marcos, sua observação é coerente. Realmente o atual currículo do Ensino Médio está sobrecarregado de informações e, muitas delas, parecem não ter aplicabilidade. No entanto, este modelo de currículo atende a demanda das universidades no modelo atual de ingresso: o concurso vestibular. Contemplar o rol de conteúdos necessários para uma formação geral do aluno e prepará-lo para a universidade tem sido o foco do Ensino Médio, propiciando o contato com todas as disciplinas curriculares, não apenas para sua formação geral, como também para subsidiá-lo para que faça uma escolha profissional adequada.

A nova proposta para o Ensino Médio prevê a junção destas disciplinas em áreas do conhecimento, organizando o processo de ensino-aprendizagem de forma a viabilizar o acesso a conhecimentos de forma articulada e significativa. O foco não está mais em acúmulo de informações e quantidade de conteúdos, mas na compreensão e no uso social desses conhecimentos, oportunizando a construção de uma visão de mundo ampla, com compreensão e respeito pela riqueza da diversidade sociocultural.

O aluno deixa de ter o papel de espectador e passa a ser protagonista de sua história, de forma reflexiva, proativa e estabelecendo inter-relações. Dessa forma, passa a ter uma visão dos elementos específicos de cada área sem perder a visão do todo. Cada vez mais precisamos de pessoas que tenham capacidade de crítica, de análise e síntese, de articulação e entendimento do ponto de vista do outro. Tudo isso precisa estar alinhado à proposta pedagógica da instituição de ensino para que, professores e alunos, construam novos saberes e, dessa forma, dêem sentido à prática a que você se refere.

Por Vânia Bittencourt, gerente pedagógica do Sistema de Ensino Dom Bosco/Pearson

As creches e as pré-escolas devem permanecer abertas durante o período de férias?

21 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Gostaria de saber se tem como ser feita uma reportagem com a opinião de especialistas sobre esse projeto de lei em que as creches e pré-escolas permanecerão abertas nas férias. Achei pouca coisa sobre isso na Internet, apenas algumas reportagens falando que o projeto passou no Senado.

De Karen Ramires, professora de Canoas (RS)


Muito se fala de regime de plantão de férias na Educação Infantil devido ao fato de muitos pais não tirarem férias nos meses de janeiro e fevereiro (concordo). Muitas vezes os pais estão em casa por motivo de doença, auxilio maternidade, desemprego, etc. e preferem mandar o filho pra escola (faça chuva ou faça sol) ao invés de ensinar o seu filho a caminhar, comer, falar, entre tantas outras coisas que devemos ensinar aos nossos filhos.

Alguns pais por falta de paciência deixam os filhos com as “tias” porque não compreendem a carência emocional de seu próprio filho. Se realmente houver regime de plantão teremos as mesmas crianças que só faltam a “aula” quando estão doentes, isto porque, a escola não fica com crianças doentes. Então estas crianças não conhecerão nunca suas famílias e serão filhos do Estado para sempre. Neste sentido a minha pergunta é: Quando as crianças da Educação Infantil terão a oportunidade de conviver com seus pais?

De Helena, 37 anos, professora de Canoas (RS)

Resposta:

O trabalhador tem somente um mês de férias por ano, nem sempre esse período coincide com o recesso das creches e das pré-escolas, então é importante que elas permaneçam abertas o ano todo. Ainda assim é preciso ressaltar que essa medida não deve servir de desculpa para que a criança fique o ano inteiro longe do convívio mais próximo dos pais. No período em que os pais estiverem em férias o contato com os filhos deve ser aproveitado e intensificado – esse é um direito da criança.

É claro que os funcionários das creches e das escolas infantis também têm direitos a férias. Para um projeto como esse funcionar corretamente será preciso que as instituições se organizem no intuito de garantir férias a todos eles e ainda assim se manter as creches e pré-escolas em funcionamento. A dificuldade será planejar com a comunidade escolar a alternância do mês de férias dos pais para que a instituição possa se organizar e saber em que período haverá mais ou menos crianças e organizar as férias de seus funcionários.

Durante esse período tradicional de férias em que normalmente as creches e escolas infantis ficam com um número menor de crianças e de funcionários – que irão alternar seus períodos de férias -, seria preciso pensar em projetos diferenciados de trabalho, de caráter mais recreativo e que atendam crianças de diferentes faixas etárias num mesmo grupo. Nesse sentido, é preciso reorganizar os espaços e os recursos, para propor atividades de recreação diversificadas que garantam a qualidade do atendimento educativo.

Por Ana Cristina Souza Rangel, coordenadora do curso de Pedagogia da UniRitter

Por que o ensino público não pode ser privatizado?

20 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Com a privatização do ensino público e derrubando as barreiras para abertura de novas escolas, espera-se que a concorrência entre escolas derrube o valor das mensalidades,o que tornará o impacto financeiro do ensino muito baixo. Além disso, o valor que o governo deixará de gastar poderia ser, simplesmente, convertido em bolsas parciais para filhos de famílias carentes. Por que não privatizar o ensino público?

De Pedro, 28 anos, bancário,de Passo Fundo (RS)

Resposta:

Para responder sua pergunta, iremos analisar a organização do ensino na ótica do Direito Educacional, que vem a ser um ramo da ciência jurídica especializado na área educacional. Não é possível privatizar o ensino público, uma vez que, segundo o art. 205 da Constituição Federal de 1988, a educação é um dever do Estado, devendo ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade:

“Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

A gratuidade do ensino público, bem como a coexistência de instituições públicas e privadas de ensino são princípios constitucionais, previstos nos inciso III e IV do art. 206 da CF/88:

“Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;

IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais

Além disso, o art. 208 da CF/88 estabelece o dever do Estado com a educação básica obrigatória, a universalização do ensino médio gratuito, a educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade, bem como a oferta de ensino noturno regular. E, para acrescentar, expressa que o não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente.

“Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

I – educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria;

II – progressiva universalização do ensino médio gratuito;

IV - educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade;

VI – oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando”;

§ 2º – O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente.

Por fim, a CF/88, em seu art. 211, estabelece que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino. Neste escopo, estas entidades deverão assegurar a universalização do ensino obrigatório. Veja abaixo:

“Art. 211. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino.

§ 1º A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios;

§ 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil.

§ 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio.

§ 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório.”

Por Leonardo José de Pádua Rivas, coordenador do Curso de Capacitação em Direito Educacional da SATeducacional

Pergunta:

Por que o Estado não privatiza a educação já que não tem condições de manter o serviço e não passa de promovedor para fiscalizador do referido serviço?

De Diego, 22 anos,universitário, de Montenegro (RS)

Resposta:

Por determinação constitucional, a educação é dever do Estado e não pode ser privatizada. O art. 211 da CF/88 estabelece a organização do ensino no tocante à União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. No tocante à fiscalização do ensino privado, o Estado já cumpre o seu papel em relação às instituições particulares em funcionamento a partir da avaliação periódica da qualidade do ensino ofertado.

Por Leonardo José de Pádua Rivas, coordenador do Curso de Capacitação em Direito Educacional da SATeducacional

Por que as escolas de Venâncio Aires mantêm o sistema de classes multisseriadas?

19 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Como o Governo Municipal quer melhorar a educação se ainda mantém escolas com classes multisseriadas, com duas, três ou mais turmas juntas no mesmo turno sendo atendidas por apenas uma professora?

Questiono o por quê disso ainda acontecer, já que se fala tanto em investimentos na educação, qualidade no ensino e efetiva aprendizagem dos alunos dos Anos Iniciais?

De Adiane Gorete Vargas, 40 anos, professora de Venâncio Aires

Resposta:

A filosofia da Secretaria Municipal de Educação de Venâncio Aires é de que as crianças devem ter o direito de estudar no seu local de convívio. O interior do Estado está se esvaziando naturalmente, então a nossa política é fechar apenas as escolas que se extinguem sozinhas por falta de alunos. É por isso que, para manter em funcionamento as escolas pequenas, a Secretaria de Educação adota o modelo de classe multisseriada.

Nossos professores são formados, estão capacitados e têm larga experiência em sala de aula multisseriada. Estudos comprovam que muitas vezes os alunos aprendem melhor entre si do que com o professor. Esse convívio entre crianças de diferentes idades é muito saudável. Acreditamos no trabalho que estamos desenvolvendo.

Por Alice Theif, coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Venâncio Aires (RS)

Não há pontos que precisam ser revistos no Estatuto da Criança e do Adolescente?

18 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Não deveria ser revisto este Estatuto da Criança e do Adolescente a partir do momento que ele tirou todo poder de pais e professores de disciplinar alunos mal educados que prejudicam a turma e o ambiente escolar?

No meu tempo havia suspensão e expulsão por mau comportamento na escola. Hoje os diretores nada podem fazer com os alunos. Por que insistir naquele aluno que briga, mata aula, repete ano após ano, comprometendo o ambiente escolar e contaminando negativamente seus colegas e sua escola?

Se o aluno não tem uma atitude positiva e seus pais também não colaboram para tal, por que deixá-lo contaminando o ambiente? Não quer estudar não estuda, vai trabalhar, fazer outra coisa… Se ele virar um marginal ou ladrão não é culpa da escola, e sim culpa dos pais que não o educaram e o ensinaram a respeitar regras e limites. Então que eles sejam responsabilizados por tal caráter. Não podemos delegar esta função à escola, este estatuto tem muita coisa boa, mas neste quesito deixa muito a desejar.

De Daniel, 42 anos, petroquímico de Porto Alegre (RS)


Resposta:

Concordo com o Sr. em três pontos e discordo em outros três:

1. O ECA, de fato, tirou poder de pais e professores. A expulsão da escola por decisão do diretor é um ato arbitrário e o ECA proíbe! Surra de relho é crime de lesão corporal. O Estatuto se inspira nos Direitos Humanos, declaração aprovada em 1948. O artigo XI da Declaração Universal dos Direitos Humanos assegura o direito a julgamento justo para o cidadão que cometer crime De fato, foi esse o “novo direito” que o ECA trouxe para as crianças e adolescentes.

2. Se aprovada a redução da idade penal, os adolescentes de 16 a 18 anos serão julgados pelo Código Penal. Pelos dados de 2006 considerando-se a proporção entre crimes praticados, população prisional adulta e juvenil, é provável que o Código Penal diminua em 60% o número de adolescentes que o ECA, hoje, priva da liberdade. Na Justiça da Infância e Juventude o tempo de privação de liberdade é menor, mas a capacidade de punir é maior que a do Código Penal. A impunidade é menor no ECA do que é no Código Penal, por incrível que pareça.

3. Precisamos rever o ECA para que as direções das escolas e as secretarias de educação o adotem de fato. As escolas devem aplicar com mais rigor as medidas protetivas previstas nos artigos 99 a 101 do ECA. Se um aluno quebra uma vidraça da escola, deve-se encaminhar o caso, com as devidas comprovações e cuidado pedagógico, para a “autoridade competente” com a sugestão de que determine a “obrigação de reparar o dano” (Art. 112, inciso II). Nós precisamos conhecer o ECA.  Há excelentes orientações sobre o Estatuto no Ministério Público do RS. É preciso estudar o Parecer nº 820/2009 do Conselho Estadual de Educação do RS sobre a criação e aplicação de “normas de convivência nos Regimentos Escolares”

Prezado Sr. Daniel, até aqui concordei com o Sr. Agora, permita-me, discordar.

1. O Sr. escreve que “os diretores nada podem fazer com os alunos”. Como mostrei acima, podem e devem! Talvez não saibam ou não queiram fazer do modo democrático como o ECA estabelece. A eleição direta para diretores nas escolas é uma boa oportunidade para pais e sociedade civil organizada apoiarem diretores e diretoras que zelam pelo aprendizado e pela boa convivência na escola. A direção e o corpo docente das escolas são trabalhadores do povo! Infelizmente, boa parte da cidadania ainda não olha pela escola e por seus docentes, é mais cômodo reclamar do ECA e culpar políticos.

2. Para o Sr. não adianta “insistir naquele aluno que briga”. Pelo contrário, nesse se deve investir os melhores recursos disponíveis. É mais fácil conter a violência no início. Imagine um garoto de 15 anos que gosta de bater nos colegas. Caso ninguém o corrija de forma inteligente, pode tornar-se um adulto violento. A ciência pedagógica desenvolveu muitas metodologias de estímulo ao aprendizado e à redução da agressividade. É raro encontrar os melhores profissionais do mercado no corpo docente da Educação Básica! Se Cuba, muito mais pobre do que nós, conseguiu boa educação em boas escolas, porque nós não conseguimos? Assista aos vídeos de Martin Carnoy, autor do livro “A Vantagem Acadêmica de Cuba”, publicado pela Fundação Lemann.

3. Em sua opinião quem “não quer estudar não estuda, vai trabalhar”. Hoje, sem estudo, ninguém trabalha! Os empresários não conseguem contratar porque os desempregados não têm estudo! A indisciplina é um círculo vicioso que se quebra com o círculo virtuoso da boa educação, especialmente em quem não gosta de estudar, é indisciplinado e violento. As ciências pedagógicas desenvolveram modelos didáticos e práticas escolares que superam a indisciplina do mesmo modo que as ciências médicas buscam a cura do câncer: pesquisando e experimentando! Pesquisa é um investimento público pesado. Por isso a ciência da educação precisa de mais apoio da opinião pública. A Educação Precisa de Respostas é uma campanha que está ajudando na construção desse apoio.

Por Evaldo Luis Pauly, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unilasalle e especialista em políticas educacionais

Como todas as crianças de até oito anos serão alfabetizadas?

17 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Gostaria de saber como todas as crianças até os oito anos serão alfabetizadas, se o meu filho de seis anos que está na pré escola e ainda não sabe ler nem escrever nada? Quando eu perguntei para a professora ela disse que não é obrigatório eles aprenderem nem no pré e nem no primeiro ano! Como pode isso? Eu na primeira série já sabia ler e escrever.

De Alessandra Rolim, 39 anos, artesã de Santa Maria (RS)

Resposta:

O Pacto Nacional pela Alfabetização se propõe ao desafio de alfabetizar as crianças do 1º ao 3º ano do Ensino Fundamental, isto é, crianças de seis a oito anos de idade. Evidentemente, mesmo colocando-se esse desafio, existirão crianças que apresentarão ritmos, tempos e diferenças em seu processo de desenvolvimento, e consequentemente em sua alfabetização, que é um processo individual e também social.

Na Educação Infantil, dos zero aos cinco anos de idade, os estudos pedagógicos mostram que a criança constrói suas bases cognitivas por meio do lúdico, através de diferentes jogos e brincadeiras. O ler e escrever, nessa idade não se considera um ato formal, decorre do envolvimento na resolução de atividades práticas e na sua interação com o meio natural e social.

É através da construção de diferentes relações que esta criança desenvolverá sua autonomia e autoestima, apropriando-se dessa forma da leitura e da escrita. Os casos de educandos que não alfabetizam até os oito anos, serão investigados e trabalhados respeitando a especificidade de cada um.

Por Secretaria Estadual de Educação do Rio Grande do Sul

Por que as diretrizes educacionais do Brasil não ensinam os estudantes a pensar?

17 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Por que as diretrizes educacionais do Brasil não ensinam os estudantes a pensar? Por que a educação somente se concebe como aprendizado passivo do que está no cronograma e não como pensamento efetivo, profundo, micro físico, aos moldes dos maiores pensadores políticos e filosóficos?

De Maximiliano Paim, 26 anos, músico e vendedor de Gramado (RS)

Resposta:

A resposta mais imediata é que os professores não foram preparados para isso. Mas existe uma resposta muito mais profunda. Os professores não conseguem ensinar a pensar porque suas concepções epistemológicas (concepções de conhecimento) impedem que o façam. Se os professores pensam que o conhecimento acontece num indivíduo, como o aluno, pela repetição do que é dado pronto, acabado, eles nunca poderão conceber o conhecimento como resultante de processos de formação, desenvolvimento ou construção. Numa aula em que todos pensam, alunos e professores, o conhecimento será visto sempre como algo inacabado; jamais como algo finalizado. Para encarar o conhecimento, qualquer que seja ele, como algo em construção, exige-se nada menos que uma revolução epistemológica. A escola e os professores em particular não estão, salvo raras exceções, preparados para isso.

O tipo de aula comum nas escolas consiste em expor um assunto (conteúdo), arrolado na “grade” curricular; na concepção dos professores, esse assunto deve ser repetido à exaustão e jamais modificado. Na prova (avaliação), o aluno novamente deverá reproduzir o que foi dado. Modificações não são bem vistas ou bem vindas. O aluno é considerado incapaz, por princípio, de introduzir modificações positivas num conteúdo qualquer, sobretudo quando se trata de um conteúdo científico. Pode ser devido a sua concepção epistemológica que um professor não admite que o aluno recrie, encontre novos caminhos para um conteúdo matemático, por exemplo.

Numa palavra, o professor pensa, por formação, que conhecimento verdadeiro é aquele que está pronto. Não se pergunta: Como tal conhecimento foi construído. Que problema tal conhecimento pretendia resolver? O que pretendia Newton ao formular as leis da Mecânica Clássica? O que pretendia Beethoven ao compor as sinfonias? O que buscava Einstein ao elaborar sua célebre fórmula E=MC2? Que mundo desvendava Maxwell com suas equações diferenciais e sua mecânica quântica?

A esmagadora maioria dos professores parece ignorar como a ciência trabalha (metodologia científica) e por isso considera os conhecimentos científicos como definitivos, invioláveis, imutáveis. O professor fantasia que a ciência deve ser repetida como um mantra para não ser deteriorada; e assim ele mesmo a deteriora, pois o conhecimento científico avança por construções, atravessando inumeráveis erros e tentativas de reconstruções, até lograr alguns acertos – acertos que podem revolucionar o panorama humano.

É por isso que eu digo, e volto a alertar: a escola deve transformar-se cada vez mais em laboratório – de física, química, música, matemática, história, geografia, sociologia, mecânica, eletroeletrônica, antropologia, psicologia, neurologia, computação, informática, pedagogia, didática… – e diminuir os auditórios, buscando sempre a interdisciplinaridade. No auditório repete-se, no laboratório inventa-se. No auditório, ouve-se; no laboratório, tenta-se, age-se, testa-se. Repetir é importante; inventar é infinitamente mais importante ainda.

Por que os professores são assim? Obviamente, não porque são maus ou mal intencionados. Mas porque estão presos a uma multisecular tradição de prática escolar. Somente se libertarão dessa tradição por uma crítica epistemológica, muito bem fundamentada, que possibilite que construam uma pedagogia e uma didática da criação, da construção, da invenção. Uma pedagogia que desafie o pensamento e uma didática que exija o laboratório.

Por Fernando Becker, professor de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)