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Capitães da Areia é um livro adequado para alunos do Ensino Fundamental?

19 de setembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Sou professora de Português da rede municipal de Sapucaia do Sul. Todos os anos, entre setembro e outubro, faço um “intensivão” para os formandos do Ensino Fundamental que pretendem fazer a prova de seleção para a Fundação Liberato, de Novo Hamburgo. Elaboro aulas para prepará-los para tais provas. Esse ano não é diferente, mas, pela primeira vez, estou me sentindo perdida.

Para a minha surpresa, esse conceituado colégio exigiu como leitura Capitães da Areia de Jorge Amado. Sou fã do Jorge Amado e de suas obras, mas  Capitães da Areia é, na minha opinião, a obra mais forte e chocante desse autor. Admiro esse livro, mas a primeira vez que li tinha 18 anos. Não considero leitura adequada para adolescentes entre 13 e 16 anos.

Ensino Jorge Amado para o terceiro ano do Ensino Médio que tem alunos na faixa etária de 16 anos. Capitães da Areia para adolescentes entre 13 e 16 anos? Não questiono o valor literário dessa obra, mas sim se esse é um conteúdo para jovens dessa faixa etária. Qual é a opinião de especialistas?

De Miriam Ribeiro – professora de Língua Portuguesa, Literatura e Produção Textual de Sapucaia do Sul (RS)


Resposta:

Não vejo problema na indicação de Capitães de Areia. Em primeiro lugar, Jorge Amado tem uma capacidade excepcional de narrar histórias. No presente romance, temos quadros que apresentam um grupo de meninos de rua, liderados por Pedro Bala, lutando pela sobrevivência. A professora, no entanto, não questiona o valor da obra, mas a adequação da obra para o final do Ensino Fundamental. Assim, cabe discutir esse ponto.

Revendo a obra, creio que seja perfeitamente adequada para a faixa etária dos 13 aos 16 anos. Em primeiro lugar, a qualidade narrativa do romance contribui para que o leitor se envolva com a história e valorize a leitura do livro. Em segundo lugar, a infância e a adolescência são representadas em sua complexidade. Em terceiro, temos uma perspectiva humanizadora dos meninos de rua, que permite ao leitor um novo olhar para a realidade.

Quanto ao impacto da obra, o suposto choque, cabe abrir um espaço para conversar com os alunos sobre o tema, pois violência e sexualidade são problemas contemporâneos. É válido acrescentar ainda que o trabalho narrativo de Jorge Amado não banaliza o tema, mas o insere dentro da formação dos jovens.

Por Antônio Sanseverino, professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

A preocupação da professora Miriam põe uma questão pedagógica que merece atenção especial. Uma questão que não se resolve no plano pedagógico, mas no psicológico e epistemológico; melhor dito, um problema de epistemologia genética. Refiro-me à capacidade cognitiva ou intelectual do leitor. O adolescente, de 13 a 16 anos, está preparado para ler a obra X, Y ou Z? Não estou me referindo, aqui, ao impacto emocional da obra, mas ao impacto cognitivo, intelectual. Esta, parece-me, deve ser a preocupação principal.

Um texto que foi escrito em linguagem cotidiana, direta, sem o uso de metáforas sofisticadas, pode ser lido por crianças de 8 a 11 anos. Um texto que faz uso de metáforas sofisticadas só poderá ser lido por sujeitos plenamente operatório-formais; crianças não o entenderão. Refiro, como exemplo, a outra exigência escolar frequentemente feita a alunos de ensino médio: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Como a maioria dos adolescentes não progrediu o quanto se poderia esperar deles, em capacidade de raciocínio formal, devido aos problemas que conhecemos da educação brasileira, não conseguem interpretar uma leitura dessas, nem com a ajuda do professor.

São necessárias operações formais para duas demandas de uma obra literária:

a) configurar os personagens que dela fazem parte respeitando a importância que eles têm na trama;

b) armar a trama de relações entre esses personagens. Sem competência formal, a leitura não dará conta da riqueza da obra.

E quanto ao impacto? Bem, há pessoas de 40 anos que não suportam um enredo que crianças de 13 anos tiram de letra. É aqui que entra o trabalho docente. Tenho certeza de que a Professora Miriam, passada a surpresa, fará um importante trabalho na direção da compreensão da obra de Jorge Amado – aliás, uma trama que, a seu modo, repete-se atualmente em muitas capitais brasileiras.

por Fernando Becker, professor de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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