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Como os professores poderiam ensinar Matemática de um modo atual?

03 de outubro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Sou professora de Matemática e atualmente estou na supervisão de uma escola municipal de Eldorado do Sul (RS). Muitos professores de  Matemática do Ensino Fundamental continuam desenvolvendo os mesmos conteúdos, com a mesma metodologia do passado, desconsiderando os PCNs. Minha pergunta: o que poderia ser feito para alterar essa realidade? A Secretaria de Educação não poderia intervir nesse processo? Caso afirmativo por que não o fazem?

De Heloísa Sachs, 56 anos, professora de Biologia, Ciências e Matemática de Eldorado do Sul (RS)


Resposta:

Uma editora publicou, no início deste ano, meu livro intitulado Epistemologia do professor de Matemática. A constatação que faço nessa pesquisa coincide com o que percebe a professora Heloísa. O ensino da Matemática continua desencontrado, em larga escala muito mal feito. As belas orientações dos Parâmetros Curriculares Nacionais são ignoradas.

A criança começa a perceber o mundo como composto de objetos sugáveis, agarráveis, olháveis; depois, encaixáveis, seriáveis, etc. Por volta dos dois anos, ao entrar no mundo simbólico, em especial, na linguagem, traduz simbolicamente seu mundo de objetos e inicia um trajeto, que durará toda a vida, de compreensão da cultura humana – cultura popular, erudita, científica…

Só depois dos cinco anos de idade, para a maioria das crianças muito mais tarde, ela constrói a noção de número. É então que começa a quantificar o mundo; até então, ela operava só qualitativamente (mesmo as quantidades ela designava qualitativamente: um pouco, muito, um montão). Para ela, ainda não faz sentido dizer cinco laranjas, 11 colegas, 14 vacas, 38 automóveis. Ela levará anos para construir competências para operar com números; muito mais tempo, com operações algébricas. A maioria das crianças/adolescentes só conseguirá operar formalmente – com números ou com simbologia algébrica -, depois dos 15 anos de idade.

A escola e os professores não sabem disso e insistem em ensinar Matemática como se a criança já possuísse, tivesse construído uma capacidade operatório-formal, que a maioria dos adultos têm fracamente desenvolvida. Resultado: a criança não aprende. O que faz então o professor: manda repetir operações (soma, subtração, multiplicação, divisão, regra de três, etc) até memorizar. Quando o professor muda os dados do cálculo, o aluno mostra que não aprendeu. O professor despreparado continua se iludindo pela metodologia: “Repete, repete que um dia tu aprende”, como disse uma professora do ensino fundamental.

O professor precisa saber trabalhar organizando ações com as quais a criança, depois adolescente, vai operar com objetos, quantificando-os de múltiplas formas e operando com essas quantificações. As generalizações quantitativas, aparentemente simples, são, na realidade, complexas. Para uma criança é um enigma que um elefante é UM tal como uma formiga é UMA. Matematicamente, UM=UM(A). A rigor, isso só fará sentido quando ela atingir as operações formais – em média, onze a doze anos em diante.

O grande problema do qual fala a professora Heloísa é que os professores não estão preparados para compreender isso. Para ser um bom professor não basta saber o conteúdo que vai ensinar, é preciso saber como o destinatário do meu ensino (a criança ou o adolescente) aprende. Acontece que grande número de professores das primeiras séries do ensino fundamental não sabem a matemática que ensinam. Não são poucas as professoras que se formaram em Magistério ou Pedagogia porque não queriam um curso com Matemática. Muitas delas não gostam de ensinar Matemática. Como a criança é inteligente, percebe rapidamente esse mal estar da professora e pode acabar percebendo a Matemática como algo desagradável.

O que uma Secretaria de Educação poderia fazer? Promover cursos e oficinas para as professoras, sobretudo das séries iniciais. Conta-se que em Singapura e na Coréia do Sul contratam-se professores doutores em Matemática para ensinar essa ciência às crianças das primeiras séries. Por quê? Porque eles passarão a elas a paixão, o entusiasmo, o amor por esse conhecimento. As crianças entrarão no mundo da matemática como se entra num mundo fascinante, bonito, desafiador no melhor sentido. Isso seria um bom começo, mas enquanto isso não acontece, temos que prover instâncias de formação docente – conhecimento do conteúdo matemático e conhecimento de como aprende o destinatário do nosso ensino. Acredito que não há outro caminho para que o aluno consiga construir para si esse maravilhoso conhecimento – a Matemática – que tanto poderá contribuir para que ele viva com intensidade sua cidadania.

Por Fernando Becker, professor de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação (Faced) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do livro Epistemologia do professor de Matemática


Livro: Epistemologia do professor de Matemática

Autor: Fernando Becker

Editora: Vozes

Número de páginas: 496

Valor: R$ 98,00

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