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Por que as diretrizes educacionais do Brasil não ensinam os estudantes a pensar?

17 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Por que as diretrizes educacionais do Brasil não ensinam os estudantes a pensar? Por que a educação somente se concebe como aprendizado passivo do que está no cronograma e não como pensamento efetivo, profundo, micro físico, aos moldes dos maiores pensadores políticos e filosóficos?

De Maximiliano Paim, 26 anos, músico e vendedor de Gramado (RS)

Resposta:

A resposta mais imediata é que os professores não foram preparados para isso. Mas existe uma resposta muito mais profunda. Os professores não conseguem ensinar a pensar porque suas concepções epistemológicas (concepções de conhecimento) impedem que o façam. Se os professores pensam que o conhecimento acontece num indivíduo, como o aluno, pela repetição do que é dado pronto, acabado, eles nunca poderão conceber o conhecimento como resultante de processos de formação, desenvolvimento ou construção. Numa aula em que todos pensam, alunos e professores, o conhecimento será visto sempre como algo inacabado; jamais como algo finalizado. Para encarar o conhecimento, qualquer que seja ele, como algo em construção, exige-se nada menos que uma revolução epistemológica. A escola e os professores em particular não estão, salvo raras exceções, preparados para isso.

O tipo de aula comum nas escolas consiste em expor um assunto (conteúdo), arrolado na “grade” curricular; na concepção dos professores, esse assunto deve ser repetido à exaustão e jamais modificado. Na prova (avaliação), o aluno novamente deverá reproduzir o que foi dado. Modificações não são bem vistas ou bem vindas. O aluno é considerado incapaz, por princípio, de introduzir modificações positivas num conteúdo qualquer, sobretudo quando se trata de um conteúdo científico. Pode ser devido a sua concepção epistemológica que um professor não admite que o aluno recrie, encontre novos caminhos para um conteúdo matemático, por exemplo.

Numa palavra, o professor pensa, por formação, que conhecimento verdadeiro é aquele que está pronto. Não se pergunta: Como tal conhecimento foi construído. Que problema tal conhecimento pretendia resolver? O que pretendia Newton ao formular as leis da Mecânica Clássica? O que pretendia Beethoven ao compor as sinfonias? O que buscava Einstein ao elaborar sua célebre fórmula E=MC2? Que mundo desvendava Maxwell com suas equações diferenciais e sua mecânica quântica?

A esmagadora maioria dos professores parece ignorar como a ciência trabalha (metodologia científica) e por isso considera os conhecimentos científicos como definitivos, invioláveis, imutáveis. O professor fantasia que a ciência deve ser repetida como um mantra para não ser deteriorada; e assim ele mesmo a deteriora, pois o conhecimento científico avança por construções, atravessando inumeráveis erros e tentativas de reconstruções, até lograr alguns acertos – acertos que podem revolucionar o panorama humano.

É por isso que eu digo, e volto a alertar: a escola deve transformar-se cada vez mais em laboratório – de física, química, música, matemática, história, geografia, sociologia, mecânica, eletroeletrônica, antropologia, psicologia, neurologia, computação, informática, pedagogia, didática… – e diminuir os auditórios, buscando sempre a interdisciplinaridade. No auditório repete-se, no laboratório inventa-se. No auditório, ouve-se; no laboratório, tenta-se, age-se, testa-se. Repetir é importante; inventar é infinitamente mais importante ainda.

Por que os professores são assim? Obviamente, não porque são maus ou mal intencionados. Mas porque estão presos a uma multisecular tradição de prática escolar. Somente se libertarão dessa tradição por uma crítica epistemológica, muito bem fundamentada, que possibilite que construam uma pedagogia e uma didática da criação, da construção, da invenção. Uma pedagogia que desafie o pensamento e uma didática que exija o laboratório.

Por Fernando Becker, professor de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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