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Posts na categoria "Inovação"

Por que as diretrizes educacionais do Brasil não ensinam os estudantes a pensar?

17 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Por que as diretrizes educacionais do Brasil não ensinam os estudantes a pensar? Por que a educação somente se concebe como aprendizado passivo do que está no cronograma e não como pensamento efetivo, profundo, micro físico, aos moldes dos maiores pensadores políticos e filosóficos?

De Maximiliano Paim, 26 anos, músico e vendedor de Gramado (RS)

Resposta:

A resposta mais imediata é que os professores não foram preparados para isso. Mas existe uma resposta muito mais profunda. Os professores não conseguem ensinar a pensar porque suas concepções epistemológicas (concepções de conhecimento) impedem que o façam. Se os professores pensam que o conhecimento acontece num indivíduo, como o aluno, pela repetição do que é dado pronto, acabado, eles nunca poderão conceber o conhecimento como resultante de processos de formação, desenvolvimento ou construção. Numa aula em que todos pensam, alunos e professores, o conhecimento será visto sempre como algo inacabado; jamais como algo finalizado. Para encarar o conhecimento, qualquer que seja ele, como algo em construção, exige-se nada menos que uma revolução epistemológica. A escola e os professores em particular não estão, salvo raras exceções, preparados para isso.

O tipo de aula comum nas escolas consiste em expor um assunto (conteúdo), arrolado na “grade” curricular; na concepção dos professores, esse assunto deve ser repetido à exaustão e jamais modificado. Na prova (avaliação), o aluno novamente deverá reproduzir o que foi dado. Modificações não são bem vistas ou bem vindas. O aluno é considerado incapaz, por princípio, de introduzir modificações positivas num conteúdo qualquer, sobretudo quando se trata de um conteúdo científico. Pode ser devido a sua concepção epistemológica que um professor não admite que o aluno recrie, encontre novos caminhos para um conteúdo matemático, por exemplo.

Numa palavra, o professor pensa, por formação, que conhecimento verdadeiro é aquele que está pronto. Não se pergunta: Como tal conhecimento foi construído. Que problema tal conhecimento pretendia resolver? O que pretendia Newton ao formular as leis da Mecânica Clássica? O que pretendia Beethoven ao compor as sinfonias? O que buscava Einstein ao elaborar sua célebre fórmula E=MC2? Que mundo desvendava Maxwell com suas equações diferenciais e sua mecânica quântica?

A esmagadora maioria dos professores parece ignorar como a ciência trabalha (metodologia científica) e por isso considera os conhecimentos científicos como definitivos, invioláveis, imutáveis. O professor fantasia que a ciência deve ser repetida como um mantra para não ser deteriorada; e assim ele mesmo a deteriora, pois o conhecimento científico avança por construções, atravessando inumeráveis erros e tentativas de reconstruções, até lograr alguns acertos – acertos que podem revolucionar o panorama humano.

É por isso que eu digo, e volto a alertar: a escola deve transformar-se cada vez mais em laboratório – de física, química, música, matemática, história, geografia, sociologia, mecânica, eletroeletrônica, antropologia, psicologia, neurologia, computação, informática, pedagogia, didática… – e diminuir os auditórios, buscando sempre a interdisciplinaridade. No auditório repete-se, no laboratório inventa-se. No auditório, ouve-se; no laboratório, tenta-se, age-se, testa-se. Repetir é importante; inventar é infinitamente mais importante ainda.

Por que os professores são assim? Obviamente, não porque são maus ou mal intencionados. Mas porque estão presos a uma multisecular tradição de prática escolar. Somente se libertarão dessa tradição por uma crítica epistemológica, muito bem fundamentada, que possibilite que construam uma pedagogia e uma didática da criação, da construção, da invenção. Uma pedagogia que desafie o pensamento e uma didática que exija o laboratório.

Por Fernando Becker, professor de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Como posso trabalhar com crianças de a 1 a 7 anos em aulas de Informática?

14 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Gostaria de trocar ideias sobre aulas de informática. Como trabalhar com alunos de 1 a 7 anos na informática? Tenho internet na escola, é bem lenta, mas dá para pesquisar. Que sites são bons? O que dar de aula para os alunos? Minhas ideias já estão gastas. Peço ajuda.

De Vera Lucia Moschetta, 48 anos, professora de Canoas (RS)

Resposta:

O computador possui ferramentas muito ricas  para o  trabalho  pedagógico,  inclusive  sem a utilização da internet. Nesses casos,  é  preciso fazer o planejamento  de uso dos programas  geralmente já instalados na máquina. O sistema Windows possui ferramentas como o Power Point (Office), que pode ser trabalhado de diferentes formas.

- Linguagem oral e escrita: os alunos fazem um desenho (no computador ou na folha),  e o professor coloca-os à disposição dos alunos em um slide. Cada criança montará a sua história de acordo com suas ideias, podendo usar todas as figuras, escolher algumas e deletar outras. Depois,  a imagem é salva,  e cada aluno apresenta  sua composição aos seus colegas. A atividade poderá variar de acordo com a faixa etária e objetivos do professor.  Variações de uso desse programa se aplicam na “Hora do conto”: o professor pode escanear   um livro  para colocá-lo  no  Power  Point  – o que facilita o acompanhamento da leitura por todos os alunos – ou ainda propor a montagem de livros  com desenhos dos alunos, ajudando-os a escrever  a história correspondente.

- Conhecimento de Mundo: o Power  Point possui uma ferramenta chamada hiperlink . O professor pode produzir jogos de memória ou outros similiares , dando diferentes alternativas de resposta. O aluno clica numa dessas  respostas  e aparece, como retorno, uma  mensagem  ou dica do professor.  Trata-se de mais uma possibilidade de fazer um trabalho customizado, que respeita os diferentes ritmos do aluno, ao mesmo tempo que o orienta a avançar nas suas hipóteses. O trabalho do professor será produzir slides  com a matriz inicial e com as possíveis “respostas”,  as quais são inseridas através de hiperlinks.

Outro programa bastante usado como ferramenta pedagógica é o Paintbrush (Acessório do Windows). Com ele é possível analisar a topografia das letras e dos números  e trabalhar seus diferentes traçados. O programa também é eficiente para que se trabalhe a relação numeral X quantidade. O professor coloca  na tela os numerais  a serem representados, e os alunos desenham o número de elementos correspondentes.  A operação inversa também deve ser feita: dado um número de desenhos, os alunos deverão representar a quantidade através da escrita do numeral correspondente.

Num contexto de conexão de internet limitada, ou seja, em que não rodem sites com flash e shockwave, plug ins multimidia, a criatividade é a chave. Muitas atividades de texto colaborativo, construção de blogs e até mesmo sites podem ser feitas, visto que toda a produção é realizada “offline” e, posteriormente, o conteúdo pode ser disponibilizado na internet. Também é possível aplicar os conceitos de intranet para uso local e pedagógico. A plataforma MOODLE (software livre), tradicionalmente usada para Ensino a Distância, pode ser executada em uma rede interna, reforçando a ideia de construção colaborativa do conhecimento.

Já com internet banda larga, estável, com 10 MBits ou mais, as possibilidades são quase ilimitadas. É possível colocar algum projeto que esteja sendo trabalhado pelas crianças em um Site de Video Logs, com apresentações de trabalhos gravados em vídeo (como esquetes, por exemplo), mostrando as hipóteses e os resultados de alguma experiência feita em sala de aula. As aplicações são inúmeras. Basta haver clareza dos objetivos pedagógicos. As estratégias didático-pedagógicas que são possíveis com o uso da internet (consulta a sites, uso de aplicativos, etc) tem como limite apenas a criatividade!

Por Mônica Timm de Carvalho, diretora; Ana Margarida Chiavaro, coordenadora da Educação Infantil; e Luis Carlos Motta (supervisor de informática) equipe do Colégio Israelita Brasileiro

Como deveria funcionar a educação inclusiva? Ela está tendo eficácia no Brasil?

04 de dezembro de 2012 Comentários desativados

Perguntas:

Será que a educação inclusiva no Brasil realmente inclui? Está de fato tendo eficácia?

De Vanessa Tissot, 34 anos, agente comunitária de saúde de Charqueadas (RS)


É comum ouvir comentários dos políticos que educação é de fato prioridade, mas em Sapiranga o que precisa de resposta é inclusão social. Por que é falado só nas campanhas políticas?

De Antônio Vieira da Silva, 44 anos, auxiliar administrativo de Sapiranga (RS)

Resposta:

Desde 2008, no Brasil, a Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva se tornou uma política pública forte, com ações de financiamento e diretrizes claras. Tivemos um salto quantitativo e qualitativo bastante significativo na matrícula dos alunos com deficiência no ensino regular. Foram criadas as Salas de Recursos Multifuncionais que realizam o Atendimento Educacional Especializado e inúmeras ações de formação de professores. Então podemos dizer que a inclusão hoje é uma realidade no nosso país.

Por Selene Penaforte, especialista em educação inclusiva e professora do curso de Pedagogia da Faculdade 7 de setembro de Fortaleza (CE)

Pergunta:

Os alunos de inclusão estão sendo atendidos, em todos os itens que constam na lei? Será que a acessibilidade, os recursos humanos, pedagógicos e materiais existem nas escolas municipais? As respostas e as mudanças que nós professores esperamos estão nas mudanças metodológicas, nas formações continuadas, na educação inclusiva e no horário integral e/ou na forma como os governantes investem na educação? (Eu amo ser professora e os meus alunos).

De Márcia Amâncio, 48 anos, professora de Porto Alegre (RS)

Resposta:

Todos os alunos hoje no Brasil têm direito constitucional garantido por lei à escolarização independentemente de sua condição funcional. Se algum aluno público alvo da Educação Especial se encontra ainda fora a escola, a família deve procurar imediatamente efetuar a matrícula na escola mais próxima de sua casa. Caso tenha algum problema, deve procurar o ministério público ou o Conselho de Educação de sua cidade para fazer valer o seu direito. O Ministério da Educação, em parceria com os municípios, tem proporcionado formação de professores e equipado as escolas com o Atendimento Educacional Especializado para que os alunos possam ser atendidos nas suas especificidades.  Mesmo assim, a escola e a família devem estar atentos para cobrar do poder público constituído, as melhores condições possíveis para o atendimento ao aluno com deficiência na escola regular.

Por Selene Penaforte, especialista em educação inclusiva e professora do curso de Pedagogia da Faculdade 7 de setembro de Fortaleza (CE)

Pergunta:

A inclusão para alunos especiais é muito difícil. Ainda se faz necessário uma classe específica para trabalhar corretamente com essas crianças, porque o tempo de aprendizagem deles é outro. Isso não os excluí da sociedade nem tem qualquer ligação com a inteligência de cada um, porque todo ser humano tem aptidão para alguma atividade, mas no caso desses alunos, necessitam de um tempo diversificado que a escola de um  modo geral não oferece.

Geralmente o que temos visto, são essas crianças numa sala de aula que todos dizem ser “normal”, mas que está longe de ser, pois abrange 30, 40 alunos, ambiente em que fica quase impossível e até desumano dar uma atenção a qualquer aluno que apresente dificuldades, e olha que existem muitos nessa situação.

Como fica a aprendizagem desses alunos se os professores já não buscam qualificação para realizar esse trabalho? Como será o desenvolvimento desses alunos no contexto geral de uma sala de aula dita “normal”? O que é ser normal? Será que podemos fazer essa avaliação? A inclusão está sendo bem trabalhada e desenvolvida pela escola?  O que os governantes têm a dizer sobre isso? Qual o compromisso deles com a inclusão? É bem entendida ou só uma palavra bonita para impressionar?

De Ana Lucia Viegas, 46 anos, técnica de enfermagem de Montenegro (RS)

Resposta:

Cara professora,

Ao defendermos a inclusão dos alunos com deficiência juntos na mesma sala de aula, temos por base o princípio de que o aluno aprende melhor quanto mais heterogêneo for o ambiente, como bem defende Vygotsky em seus postulados sobre aprendizagem e desenvolvimento. O problema não está na deficiência, e sim na qualidade (ou não) das intervenções vividas pelos alunos com deficiência.

O conceito de deficiência não pode ser visto apenas como uma limitação funcional, e sim como o resultado dessa limitação com as interações sociais, com o ambiente. É fundamental as práticas pedagógicas que vêem na diferença um valor pedagógico e não um problema na sala de aula. O aspecto fundamental é a qualidade das experiências vividas por esses alunos na escola.

Então quando o aluno apresenta concretamente uma limitação decorrente de uma deficiência, o ambiente, ou seja, a escola poderá fazer desaparecer ou minimizar ao máximo essa condição, desde que o ambiente não apresente “deficiências” e responda às necessidades do aluno. Nosso papel é perseguir exaustivamente a qualidade da escola.

Por Selene Penaforte, especialista em educação inclusiva e professora do curso de Pedagogia da Faculdade 7 de setembro de Fortaleza (CE)

As pesquisas online acabarão com a utilidade do livro impresso?

20 de novembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Sempre soube que a leitura é muito importante para as crianças. Sempre ouvi: ensine seu filho a ler e a escrever. Hoje meu filho traz quase todo o material de pesquisa para a internet! Por que os professores não exigem que procurem em livros e não no computador? Com essa facilidade que dizem que teremos no futuro com tudo informatizado o que será dos nossos livros?

De Rosimare Fabre, 48 anos, executiva de vendas de Criciúma (SC)

Resposta:

A leitura sempre foi importante, tanto para crianças quanto para nós adultos, e com certeza continuará sendo. O momento no qual vivemos hoje é de mudanças no comportamento da sociedade. Atividades que fazíamos anos atrás, hoje são feitas com o auxílio das tecnologias, e com a leitura não seria diferente.

A pesquisa na internet é mais dinâmica, ágil e atualizada diariamente. Por outro lado, é necessário nos certificar sobre a idoneidade das fontes de informação na internet, aspecto que com o livro impresso não é necessário. As pesquisas na internet são rápidas, mas acredito que os livros não serão substituídos pelo computador, muito pelo contrário, a internet pode auxiliar nas pesquisas e disponibilizar materiais multimídia (gráficos, vídeos, simulações, animações e jogos) que podem até incentivar as crianças a buscarem a leitura das obras como um todo.

Por isso, acredito que os livros impressos permanecerão e que a pesquisa na internet não eliminará o livro na forma como o conhecemos, nem tampouco a leitura. O que está acontecendo no dia a dia das escolas é uma mudança na forma de buscar e disponibilizar a informação.

Por Cristiane Koehler, doutoranda em Informática na Educação (PGIE/UFRGS)

Por que não há projetos para alunos da EJA mostrar suas habilidades?

16 de novembro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Por que não há projetos para alunos da EJA mostrar suas habilidades?

De Silvania Elaine da Silveira, 33 anos, professora de Novo Hamburgo (RS)

Resposta:

Há mais de dez anos instauramos o Fórum Estadual de EJA do Rio Grande do Sul – Fórum EJA RS – que pretende garantir a construção de espaços coletivos de reflexão e debate sobre as políticas públicas de EJA, chamar os diferentes segmentos que atuam com a EJA, tendo em vista, a articulação, a socialização e o diálogo entre diferentes experiências; fortalecer a política pública de EJA no Estado, através dos contextos e das práticas municipais, estadual e nacional; contribuir para a implantação dos Fóruns Regionais de EJA e assessorar os mesmos quando for necessário.

Diversos segmentos congregam a atual coordenação. Entre eles há: aposentados, Atempa, Cpers, Educador da Rede Estadual, Mova Brasil, PUCRS, Seduc/RS, Sindicato dos Professores de Gravataí, SME Caoas, Smed Vacaria, Uergs, Ufrgs e Unipampa.

Cabe lembrar que a elaboração e implementação de projetos são uma prerrogativa dos estabelecimentos de ensino onde a EJA é ofertada. Ainda lutamos para que a EJA seja alvo de políticas públicas efetivas e já garantimos o acesso aos programas de transporte, merenda e livro didático. Ainda precisamos de ações governamentais que incentivem universidades a definir em seus componentes curriculares algo que trate da formação de professores para esta modalidade. Podemos usar como exemplo as experiências da EJA nos municipios de Canoas (http://reestruturaeja-canoas.blogspot.com.br/)  e Erechim (http://ejaerechim.blogspot.com.br/) que socializam todo movimento da EJA em seus blogs.

Por Everton Ferrer de Oliveira, Professor Assistente da Área de Fundamentos da Educação – Universidade Federal do Pampa/Campus Jaguarão

Por que é tão difícil pôr em prática novas ideias?

09 de outubro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Atualmente sou supervisora de uma escola no meu município e encontro muita resistência por parte da gestão para implantar na escola novas metodologias de ensino para os professores. Por que a Secretaria de Educação não consegue mudar esta situação? Por que é tão difícil o novo dentro das escolas? Por que pessoas com ideias novas são muitas vezes afastadas das escolas? A direção não apoia estas mudanças por trazer muito trabalho, por que irá trazer resistência por parte de alguns professores?

Acredito que as pessoas que realmente querem e possuem capacidade para tal estão sozinhas e não conseguem realizar estas mudanças. Não acredito e nunca acreditei que um professor que ama sua profissão não queira mudar para melhor e trazer resultados que mudem o futuro do Brasil.

De Heloísa Sachs, 56, professora de Biologia, Ciências e Matemática de Eldorado do Sul (RS)

Resposta:

Profa. Heloísa,

Albert Einstein certa vez teria dito ser mais fácil quebrar partículas subatômicas do que mudar um preconceito ou realizar mudanças que alteram hábitos cristalizados. Assim, mesmo não conhecendo a situação específica ou sobre ela emitindo opinião específica, é verdade ser bastante comum enfrentarmos grandes dificuldades ao tentarmos mudar metodologias ou ousarmos adotar novas tecnologias.

A maioria das escolas infelizmente não sabe o que é inovação. Pensam que é modernizar comprando equipamentos. Inovação hoje é o motor que gera conhecimento, que ajuda a moldar os programas de pesquisa e o desenvolvimento tecnológico. Entre elas, aptidão desenvolvida para aprendizagem independente, espírito empreendedor e capacidade de iniciativa, aprender a trabalhar em equipe e com visão solidária, não ter medo de novas tecnologias e gosto por enfrentar desafios e imprevistos, saber falar e ouvir sem preconceitos e com espírito de tolerância desenvolvida e, por fim, mas não menos importante, extrema paixão pela cultura, especialmente pelas artes, e pelos esportes. Enfim, atributos essenciais que normalmente são subestimados, quando não reprimidos, pelas escolas.

A escola tradicional tem arraigados defensores que parecem não perceber que como está, não está funcionando. Faz parte da procura por soluções despertar novas idéias, incomodar a preguiça alheia, inovar e não ter receio de compartilhar novas estratégias.

Mas, cá entre nós, não há batalha mais gloriosa do que lutarmos por nossos ideais no mundo da educação. Com muita tolerância, muita complacência e todo amor que merecem nossos estudantes.

Por Ronaldo Mota, ex-secretário nacional de Educação à Distância do Ministério da Educação (MEC) e atual ocupante da cátedra Anísio Teixeira, no Instituto de Educação da Universidade de Londres

Como tornar a escola mais atrativa para os alunos do século XXI?

05 de outubro de 2012 Comentários desativados

Perguntas:

Aprender é fantástico, mas estudar na escola é muito chato, porque a escola está muito distante da realidade do aluno. Por que a gente aprende o que é gostoso fora da escola – esportes, música, línguas, arte, dança, informática, direção – e é obrigado a assistir aulas no colégio e mesmo na faculdade sobre assuntos sem nenhum interesse e proveito?

De Sérgio Furtado

Por que hoje nas escolas, a preocupação maior é com as horas em sala de aula do que com a qualidade dessas aulas? Adianta o aluno permanecer na escola por mais tempo, sendo que esse tempo é desperdiçado? Sou professora, mas a minha grande preocupação é: a maioria dos concursos prezam mais por assuntos que não condizem com a realidade em sala de aula, por quê?

De Roberta, 46 anos, professora de Brasília (DF)

Sabemos que o ensino reprodutivo não interessa mais e não prepara o aluno pra vida. Eu, particularmente acho que trabalhos escolares voltados para o concreto, para a prática são muito mais interessantes e produtivos. Então, como pode ter direções e coordenações pedagógicas que ainda aprovam e pedem provas como instrumentos de avaliação?

De Ivanete Pavan, 45 anos, professora de Caxias do Sul (RS)

O sistema educacional vigente valoriza muito mais o conhecimento cognitivo, pautado por uma política de verificação quantitativa – em que o acerto é premiado e o erro é duramente criticado -, do que a sabedoria integral do ser, através de um trabalho alinhado com todas as esferas de conhecimento: naturais, humanas, sociais, de expressão, espirituais e racionais.

Portanto, eu pergunto: por que não debater e incentivar um dos movimentos de mudança na educação, baseado na renovação estrutural do ensino? No século XVIII, conforme descreveu Michel Foucault no primeiro capítulo de sua brilhante obra “Vigiar e Punir”, os alunos dos internatos franceses assistiam às aulas da mesma forma, apenas com diferenças na metodologia de ensino, que os alunos do vigente ano de 2012. Sentados em filas, em espaços delimitados, com as disciplinas sendo divididas por faixas igualitárias de horário, e com ênfase apenas na matemática e no idioma oficial do país.

De Rafael Gomes Corrêa, 31 anos, professor de Educação Física de Porto Alegre (RS)

Agora no Jornal do Almoço falava-se em reformulação de currículos, em especial para o Ensino Médio. Essa reformulação deveria priorizar conteúdos significativos, bem como habilidades e competências para a vida. Hoje nos deparamos com uma educação conteudista que precisa “treinar” alunos para dar respostas sobre conteúdos que não são significativos e aplicáveis na vida cotidiana.

Não estamos nos preocupando demasiadamente com os rankings (de notas, de escolas, de alunos…) ao invés de nos preocuparmos com a qualidade dos conhecimentos trabalhados em nossas instituições de ensino? Estamos treinando ou ensinando nossos alunos?

Podemos educar sentados embaixo de uma árvore analisando o que nos cerca, só precisamos ter bem claro qual o real objetivo/metas que queremos da Educação, e isso infelizmente não somos nós educadores que decidimos, pois a educação seria muito mais significativa e interessante!

De Karina Dohms

Resposta:

Há o sentimento comum entre alunos e professores – mas em toda sociedade – de que os conteúdos aprendidos no dia a dia da escola não são significativos. Diante do século XXI, caracterizado por constantes revoluções tecnológicas, mudanças de hábitos e acesso ilimitado à informação, faz-se necessário renovar o ensino.

Não bastará, porém, apenas promover mudanças pontuais, mas sim mudar suas bases. Precisamos resgatar o sentimento de que cada dia de aula de fato contribui para a formação do aluno, de que o objetivo do ensino é, realmente, formar para a vida.

O fato é que, apesar de todos quererem e esperarem um revolução na educação (isso não é exclusividade do Brasil), as mudanças ocorridas nos últimos anos são tão recentes e vastas que estamos ainda à procura de uma solução.

Durante todo o tempo em que a humanidade teve um modo de vida minimantente estável e o conhecimento se restringia a certas instituições, foi suficiente uma concepção de ensino que visava:

a) passar os conteúdos relevantes;

b) um método de ensino expositivo;

c) uma a avaliação que meramente constata se o conhecimento foi “absorvido” pelos alunos. O objetivo do ensino era ensinar de forma competente uma lista de conteúdos.

Hoje, em um mundo dinâmico é preciso uma concepção de ensino que:

a) desenvolva habilidades;

b) tenha um método de ensino que estimule a prática;

c) uma avaliação que observe o trabalho ao aprender. O objetivo deve ser desenvolver a autonomia dos alunos em diversas áreas, principalmente no aprendizado.

Como promover essa mudança? Várias experiências estão sendo feitas. Parece não bastar somente adicionar mais conteúdos no currículo, que já está inchado. Da mesma maneira, apenas aumentar a carga horária nas escolas parece não ser suficiente: se os alunos já estão desmotivados, a tendência é, após certo ponto, as horas adicionais levarem a queda de rendimento. O uso de tecnologias tem se mostrado mais arriscado do que o imaginado, pois elas precisam ser bem utilizadas. Estimular a melhora em rankings de ensino podem ser motivadoras, mas de nada adiantarão se os alunos, no cotidiano escolar, não notarem que aprendem algo relevante para suas vidas!

Por Fábio Ribeiro Mendes, graduado em Direito e em Fisolofia. Possui experiência na área de métodos de ensino. Vencedor do Prêmio Educação RS (Sinpro/RS) em 2010.

Para saber mais: A Nova Sala de Aula, de Fábio Ribeiro Mendes (Autonomia Editora, 224 páginas). Uma amostra do livro pode ser acessada em http://www.autonomiaedu.com.br/publicacao/a-nova-sala-de-aula/

Como os professores poderiam ensinar Matemática de um modo atual?

03 de outubro de 2012 Comentários desativados

Pergunta:

Sou professora de Matemática e atualmente estou na supervisão de uma escola municipal de Eldorado do Sul (RS). Muitos professores de  Matemática do Ensino Fundamental continuam desenvolvendo os mesmos conteúdos, com a mesma metodologia do passado, desconsiderando os PCNs. Minha pergunta: o que poderia ser feito para alterar essa realidade? A Secretaria de Educação não poderia intervir nesse processo? Caso afirmativo por que não o fazem?

De Heloísa Sachs, 56 anos, professora de Biologia, Ciências e Matemática de Eldorado do Sul (RS)


Resposta:

Uma editora publicou, no início deste ano, meu livro intitulado Epistemologia do professor de Matemática. A constatação que faço nessa pesquisa coincide com o que percebe a professora Heloísa. O ensino da Matemática continua desencontrado, em larga escala muito mal feito. As belas orientações dos Parâmetros Curriculares Nacionais são ignoradas.

A criança começa a perceber o mundo como composto de objetos sugáveis, agarráveis, olháveis; depois, encaixáveis, seriáveis, etc. Por volta dos dois anos, ao entrar no mundo simbólico, em especial, na linguagem, traduz simbolicamente seu mundo de objetos e inicia um trajeto, que durará toda a vida, de compreensão da cultura humana – cultura popular, erudita, científica…

Só depois dos cinco anos de idade, para a maioria das crianças muito mais tarde, ela constrói a noção de número. É então que começa a quantificar o mundo; até então, ela operava só qualitativamente (mesmo as quantidades ela designava qualitativamente: um pouco, muito, um montão). Para ela, ainda não faz sentido dizer cinco laranjas, 11 colegas, 14 vacas, 38 automóveis. Ela levará anos para construir competências para operar com números; muito mais tempo, com operações algébricas. A maioria das crianças/adolescentes só conseguirá operar formalmente – com números ou com simbologia algébrica -, depois dos 15 anos de idade.

A escola e os professores não sabem disso e insistem em ensinar Matemática como se a criança já possuísse, tivesse construído uma capacidade operatório-formal, que a maioria dos adultos têm fracamente desenvolvida. Resultado: a criança não aprende. O que faz então o professor: manda repetir operações (soma, subtração, multiplicação, divisão, regra de três, etc) até memorizar. Quando o professor muda os dados do cálculo, o aluno mostra que não aprendeu. O professor despreparado continua se iludindo pela metodologia: “Repete, repete que um dia tu aprende”, como disse uma professora do ensino fundamental.

O professor precisa saber trabalhar organizando ações com as quais a criança, depois adolescente, vai operar com objetos, quantificando-os de múltiplas formas e operando com essas quantificações. As generalizações quantitativas, aparentemente simples, são, na realidade, complexas. Para uma criança é um enigma que um elefante é UM tal como uma formiga é UMA. Matematicamente, UM=UM(A). A rigor, isso só fará sentido quando ela atingir as operações formais – em média, onze a doze anos em diante.

O grande problema do qual fala a professora Heloísa é que os professores não estão preparados para compreender isso. Para ser um bom professor não basta saber o conteúdo que vai ensinar, é preciso saber como o destinatário do meu ensino (a criança ou o adolescente) aprende. Acontece que grande número de professores das primeiras séries do ensino fundamental não sabem a matemática que ensinam. Não são poucas as professoras que se formaram em Magistério ou Pedagogia porque não queriam um curso com Matemática. Muitas delas não gostam de ensinar Matemática. Como a criança é inteligente, percebe rapidamente esse mal estar da professora e pode acabar percebendo a Matemática como algo desagradável.

O que uma Secretaria de Educação poderia fazer? Promover cursos e oficinas para as professoras, sobretudo das séries iniciais. Conta-se que em Singapura e na Coréia do Sul contratam-se professores doutores em Matemática para ensinar essa ciência às crianças das primeiras séries. Por quê? Porque eles passarão a elas a paixão, o entusiasmo, o amor por esse conhecimento. As crianças entrarão no mundo da matemática como se entra num mundo fascinante, bonito, desafiador no melhor sentido. Isso seria um bom começo, mas enquanto isso não acontece, temos que prover instâncias de formação docente – conhecimento do conteúdo matemático e conhecimento de como aprende o destinatário do nosso ensino. Acredito que não há outro caminho para que o aluno consiga construir para si esse maravilhoso conhecimento – a Matemática – que tanto poderá contribuir para que ele viva com intensidade sua cidadania.

Por Fernando Becker, professor de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação (Faced) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor do livro Epistemologia do professor de Matemática


Livro: Epistemologia do professor de Matemática

Autor: Fernando Becker

Editora: Vozes

Número de páginas: 496

Valor: R$ 98,00

O caso Isadora Faber (da fanpage Diário de Classe)

31 de agosto de 2012 Comentários desativados

Isadora Faber é uma adolescente de 13 anos que criou uma fanpage no Facebook chamada Diário de Classe para relatar as dificuldades e a precariedade da escola em que estuda. Acesse a página:  http://tinyurl.com/8sqkmv2

Pergunta:

Por que as denúncias da Isadora Faber, que não são novidade para ninguém que acompanha algum noticiário, não são levadas a sério e não são contabilizadas como responsáveis pela baixa qualidade da educação pública? Em tempo: Isadora Faber, de 13 anos, está dando um banho de cidadania falando de sua escola no Facebook.

de Rute Albuquerque

Resposta:

Acredito que as denúncias feitas pela Isadora, de alguma forma, são de conhecimento de todas as pessoas que se utilizam do Ensino Público: pais, professores, equipe diretiva e toda a comunidade escolar. O diferencial é que a aluna se utilizou de uma rede social bastante acessada e a repercussão foi imediata. Também precisamos lembrar que as crianças e os adolescente passam uma grande parte de seu tempo na escola e ninguém gosta que um lugar onde se passa tanto tempo esteja em estado estrutural tão crítico, não é?

Com certeza, a estrutura física adequada e uma proposta metodológica que privilegie os processos e que envolvam o conhecimento são fundamentais para a qualidade de  ensino, e isso, infelizmente, em se tratando do Ensino Público em nosso país, precisa avançar o mais rápido possível. Nesse sentido, a sociedade precisa se mobilizar e exigir de nossos dirigentes verbas, condições e políticas de formação para colocar o ensino de nosso país verdadeiramente como prioridade.

pela Profª Me Cristiane R. Vieira, Coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Prática Docente no Contexto Universitário do Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes (ICHLA) da Feevale.