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A mentoria e o merthiolate que não arde… — by Rita Michel

20 de abril de 2017 0

pca1

Construímos um mundo caracterizado pelos opostos — do merthiolate que ardia ao merthiolate que não arde. Sou de uma geração que tratava dor de cabeça com rodelas de batata na testa, virose com essência de olina e chá de marcela e outros males com benzedura. Não bastava ter sofrido um tombo, ainda tínhamos que enfrentar coisas como mercúrio e, pior, merthiolate que ardia de verdade. Evoluímos no tratamento de várias doenças — antes letais — e descobrimos formas de minimizar dores inevitáveis. O revês disso é que nos tornamos menos tolerantes e tratamos de nos “anestesiar” de todas as demais dores e sofrimentos da alma.

Não vou fazer a apologia de que a vida precisa ser um calvário e que somente a dor ensina a gemer. Me sinto provocada pelos efeitos psicológicos oriundos do uso indiscriminado de uma lógica binária, que enxerga somente os extremos do certo ou errado, verdadeiro ou falso, da dor ou da ausência de dor. Trazendo para a seara do aprendizado e do conhecimento, que é a área em que atuo, não me surpreende ver tantos profissionais perdidos, sem saber o que fazer com o patrimônio intelectual que para alguns significou anos de conquista e para outros, mais jovens, caiu no colo, beneficiados pela tecnologia.

Talvez o contraponto que criamos para fazer jus a lógica binária — o chamado conflito de gerações — nos dê pistas sobre a teimosia em empurrar um modelo que já não responde as necessidades do mundo complexo em que vivemos. Um dos meus hobbies é ler e estudar psicanálise. Particularmente, o tema da transmissão psíquica de uma geração para a outra (transgeracionalidade). Ou seja, o repasse de histórias, pensamentos, conhecimentos e afetos que ocorre de uma geração para a outra. Sabemos, empiricamente, que a construção de soluções mais efetivas ocorre quando nos propomos a flexibilizar posicionamentos individuais. Agindo assim, é possível criar uma terceira ou quarta possibilidade de solução em que todos, provavelmente, serão beneficiados.

Um problema não pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou, dizia Einstein. Estamos comprando TV com quatro dimensões, mas insistimos em lidar com a realidade em duas dimensões: a minha ou a do outro, a pergunta e a resposta, com dor ou sem dor. Li que nos últimos dois anos em Harvard foram desenvolvidos estudos que trouxeram à tona um fato que não deveria nos causar surpresa. Características que até hoje foram consideradas unicamente pertencentes a geração milênio não são verdadeiras. O que os estudiosos descobriram é que a dimensão que incluía as diferenças em relação as gerações anteriores simplesmente não foi considerada. Tendências conservadoras e a busca por uma carreira tradicional, assim como a ousadia e o desejo de unir trabalho e vida, sempre estiveram presentes em todas as gerações. Não é possível tirar conclusões a cerca de uma geração sem olhar para as que a antecederam.

A mudança na posição de um objeto causado pela mudança na posição do observador ou por observadores em locais distintos chama-se efeito Parallax (paralaxe em português). Este é um fenômeno da física que permite o desenvolvimento de novas perspectivas considerando as diferentes dimensões da realidade. O exercício em si parece simples, mas pode arder de verdade. Requer abrir mão de um pensamento unilateral, considerar outras dimensões além daquilo que estamos percebendo e desafiar as verdades absolutas. Na minha empresa, a Parallax, somos diariamente provocados e desafiados no apoio à profissionais que buscam ampliar o olhar sobre suas carreiras visando o endereçamento de seu patrimônio intelectual, ao mesmo tempo em que buscam se manter abertos a novos aprendizados.

O processo que desenvolvemos para apoiar executivos e organizações nesta jornada chama-se Mentoria Parallax. A gestão do conhecimento não é um tema novo, assim como o termo Mentoria. Nosso foco é formar e capacitar profissionais que possuem expertise teórica e prática em determinadas áreas do conhecimento visando rentabilizar este patrimônio de forma estruturada e com método. O desafio inicial com o qual estes profissionais se deparam é justamente desenvolver uma visão paralaxe em relação ao seu conhecimento. Ou seja, não focar apenas na dimensão do contexto em que este conhecimento foi adquirido. Para isso é preciso considerar outras dimensões que envolvem, no mínimo, aspectos de mundo atual, da realidade de vida e trabalho do outro e o fato de que aprendemos de formas diversas.

A mentoria remonta à Odisséia de Homero, onde um imperador busca na academia a figura de um “Menthor” para acompanhar e orientar seu filho, tanto do ponto de vista de conhecimento quanto de valores, durante o tempo em que estaria envolvido com a guerra. Tomamos essa analogia para exemplificar um outro desafio dos profissionais (mentores), que é justamente definir os contornos de sua área de expertise para que o conhecimento a ser compartilhado, visando acelerar o desenvolvimento de seus mentorados, possa ser mais facilmente identificado e disponibilizado para o mercado.

A jornada que empreendemos tanto na Formação de Mentores Parallax quanto na implantação de Programas de Mentoria Interna em organizações tem nos desafiado e a nossos clientes no aprendizado de lidar com as várias dimensões do indivíduo e do aprendizado. Expandir a visão e nos tornarmos observadores diferentes de cenários já vividos e atuais favorece a criação de novas sinapses cerebrais e neste caminho os tombos são tratados com compaixão — um merthiolate que não arde, mas faz crescer.

Rita Michel — Idealizadora da Parallax — Move to Change

Informações: www.parallaxinstitute.com ou pelo e-mail: hello@parallaxinstitute.com

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