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Faltou dizer.

01 de dezembro de 2014 3

Pior do que o arrependimento de ter dito, é o arrependimento de não ter dito.

Eu adorava o seu trabalho.
Ficava encantada com a facilidade com que você lidava com coisas chatas e burocráticas.
Gostava de ouvir você tentar me explicar pra que servia isso ou aquilo e fazia de conta que entendia tudo. Fazia perguntas, só pra ouvir você continuar explicando.

Durante o nosso namoro, não tive amigos. Era sempre eu e você. Sozinhos. Sem ninguém pra conversar. E sabe quantas vezes eu sofri com isso? Nenhuma.
Porque você era o meu amigo. A pessoa que me ajudou a andar dez casas pra frente nesse jogo complexo que é a vida.
Porque ainda que tivesse um humorista sentado na mesma mesa, era você quem me fazia rir. E hoje, do nosso namoro, o que mais faz falta é a sua amizade.
Sinto falta de rir com você em uma mesa de bar, bebendo chopp. Eu nem gostava de chopp, mas você era tão engraçado e a gente se divertia tanto juntos, que eu bebia mais de um, sem perceber.

Sempre discuti por gostar muito de você.
Eu queria que nosso namoro fosse um exemplo para o filho bonito, de bochecha saudável que você queria ter. Por isso brigava quando você esquecia de me dar as mãos. Quando, por cansaço, esquecia de me dar atenção. Quando no dia dos namorados não me deu flores, nem cartão. Eu só queria que o nosso namoro fosse diferente de todos os outros que acabam por distração, por falta de olhar nos olhos, por falta de abraço, por rotina, por um deles se sentir sozinho, mesmo acompanhado.

Eu adorava a sua família.
Sentia o tempo todo que estava no lugar certo, quando estava cercada por eles. Eu matei a saudade de ter primos, matei a saudade de vó, matei a saudade de rosquinhas no café de domingo. Vi seu tio dando um beijo na testa de uma das filhas. Meus olhos encheram de lágrimas e tive a certeza de que era ali que eu queria estar.

Chorei muito quando você foi embora.
Duas semanas depois do fim do nosso namoro, segurei uma foto sua e sem perceber, abracei, pedindo que Deus iluminasse e cuidasse de você, assim como você fez comigo. Eu nunca tinha sentido nada tão verdadeiro por um namorado. Queria, de verdade, que você fosse feliz, mesmo que, por consequência de tudo, fosse com outra pessoa.
E isso é libertador.

Passei uma semana sem dormir quando você foi embora.
Só deitava de luz acesa e televisão ligada.
Me senti como se tivessem me tirado a capa protetora, como se tivesse perdido a força, a coragem e tudo me dava medo. Chorava com baratas, com chuva forte, com alguém me xingando no trânsito. Me senti a pessoa mais indefesa do mundo.
Você era o meu Chapolin Colorado, que se foi.

Eu adorava suas roupas. E todo seu desprendimento por luxos e marcas.
Essa era uma das coisas que mais me encantavam em você. O fato de se bastar e se gostar sem precisar estar vestindo a coleção verão 2014 ou camisetas Lacoste só pra pertencer.
Você nunca quis pertencer a nada. Você era prático. Esperto. E eu me sentia esperta por ter escolhido você.
Morro de saudade da preguiça que nós tínhamos de comprar roupas, óculos, sapatos ou qualquer coisa que fosse muito cara. Nunca precisamos disso e quase sempre, antes de dormir, mesmo depois de uma briga, cansada, ou mesmo sem motivo algum, eu mentalizava Deus e dizia: obrigada por me ouvir.

Eu ouvi Legião Urbana só pra sofrer com trilha sonora.
Me senti como a moça que se jogou da janela do 5 andar, na música.
Uma suicida. Eu não terminei um namoro. Eu me suicidei.
É claro que alguém correu pra me salvar, é claro que a dor cicatrizou, mas que doeu, doeu.

Esse não é apenas mais um texto. Esse texto é o abraço que eu não dei, porque você foi embora enquanto eu dormia e nunca mais pude fazer isso. Esse texto é o “muito obrigada” que eu não disse aos seus pais, por me aceitarem. É o pedido de desculpa que não tive oportunidade de pedir. É o abraço apertado que não dei na sua vó, pra matar a saudade de vó, que nunca mais vou ter. Esse texto é o “você é o pai que eu queria ter” que eu não disse ao seu pai, por medo dele me achar muito sofrida e dramática. Esse texto é a saudade do nosso apartamento, que muito provavelmente, daqui um tempo, será habitado por alguém que não esperou por ele tanto quando esperei.
Esse texto é pra você, que convive com alguém maravilhoso e tem essa pessoa ao lado, hoje.
Largue a louça do jantar, o computador e o iphone 6, e diga o quanto você é feliz por ela estar ali.

Esse texto é uma despedida pra eu poder, agora, seguir em paz.

inspirado no texto “O que dizer a um ex-amor?”, de Ricardo Coiro.

Difícil.

21 de fevereiro de 2014 2

Não consigo escrever se estou com sono. Durmo meia hora só pra relaxar minhas vistas de quem precisa urgentemente usar óculos, mas nunca lembra de marcar médico. Acordo com fome. Como o que tem no armário: bolachas doces e suco de saquinho sabor goiaba, desses que se compra pra saber se é bom e ninguém tem coragem de experimentar.
Pronto, já estou suficientemente indisposta porque sei que não deveria ter comido nada disso, mas não tenho paciência pra preparar algo saudável como tapioca, de preferência sem glúten e sem lactose mais suco verde.
Apenas queria ser magra e corada sem fazer esforço, sem suar, sem precisar comer o queijo certo, o arroz certo, o iogurte certo.
Meu paladar tem doze anos e não consigo imaginar felicidade sem poder comer o pão doce com creme da padaria da esquina.
Enquanto como, meu subconsciente diz com sorriso largo: quando você fizer trinta anos, está perdida.
Já tenho trinta e morro de medo de me tornar uma gordinha simpática, de óculos, mas nesse momento só consigo pensar no x-salada que sobrou de ontem à noite.
Vejo a notícia da Fernanda Lima pra nova campanha da Arezzo e começo a tremer. Li que ela vai fotografar quase nua, apenas de sapatos, logo agora que comi um cachorro quente prensado que estava uma delícia. Agora sempre que penso em comer alguma coisa, imagino a Fernanda Lima só de sapatos e faço uma sopinha de caneca, que dizem matar a vontade de comer salgado [mas é mentira] e vou dormir com fome. É muito difícil.
Uma alternativa pra quem não abre mão de comer dogs prensados, doces e Elma chips, é fazer academia, mas se não é fácil decorar os benefícios e as calorias de cada alimento pra poder comer direito, também não deve ser fácil decorar a função de cada equipamento. Vou esquecer meu treino diariamente. Começo a tremer.
É difícil fazer dieta já que comer é uma das melhores coisas da vida, principalmente depois dos trinta, fase em que a gente começa a não ver mais graça em parecer gostosa e começa a querer parecer bonita e inteligente. Com trinta anos queremos programas gastronômicos, não academia.
Como quando estou feliz, como quando estou triste e como se não estou nem feliz, nem triste, porque o tédio me deixa ansiosa e a ansiedade me dá fome.
Queria ter as pernas da Cláudia Leite e a barriga das meninas que fazem fotos nos espelhos das academias, mas se pra isso eu tiver que viver com olhar triste, magro e tenso de quem passou a noite morrendo de medo dos brigadeiros da festa, prefiro deixar tudo como está. Até porque, como disse Xico Sá: homem que é homem não quer saber, nem procura saber a diferença entre estria e a celulite de uma mulher.

Ainda acredito que o segredo da felicidade seja: comer bem, ter boa conversa, sorrir tranquilo e tocar a vida.

Os novos pais e os novos filhos.

12 de fevereiro de 2014 0

Segunda-feira foi dia de acompanhar os pequenos até a escola. As aulas começaram.
Cadernos novos, mochilas novas, amigos novos, colégio novo, preocupações novas.
A minha filha mudou de colégio esse ano. Sempre estudou em escola pequena. Foi para a 5 série. Praticamente um bebê.
Na escola, os grupinhos fechados das antigas alunas prendiam os olhares assustados das novas. No caso, a minha filha.
As meninas do quinto ano são todas mocinhas. Shortinhos justos, cabelos cuidadosamente alisados.
Eu perguntei duas vezes pra ter certeza: esse é mesmo o quinto ano? Parecia o sétimo.
A minha filha, de short largo e tiara de laço no cabelo, media as meninas o quanto podia. Aquele jeito de vestir era totalmente novo pra ela, e pra mim. As colegas de turma olhavam pra minha filha e diziam: mas que fofinha.
O quinto ano de hoje, não é como o quinto ano de antigamente.
Fui embora deixando minha filha com pseudo adultas que riam fininho, faziam gestos e falavam no ouvido.
A escola faz o que pode, mas acredito que os “novos pais” não estão dispostos a contribuir em nada, além da mensalidade. Estão ocupados, malhando o corpo e postando nas mídias. Estão em intermináveis reuniões. Estão viajando.
Os exemplos, nossos avós, estão indo embora e as famílias estão governadas por pais que não levantam a voz com medo do que os vizinhos vão pensar e que não aprovam palmadas com medo de traumatizar. Resultado disso, uma geração de novos filhos, completamente diferentes do que eu fui, do que você foi. Uma criançada que acha que pode tudo. Arrobas programadas pra dizer: fala sério, tô de boa, ai que mico.
Mudamos a forma de educar, mas queremos que nossos filhos se comportem como nos comportávamos em 1983, época em que os pais eram tratados como senhor e senhora.
Me incluo nesse grupo de novos pais e sei como é difícil ir contra tudo de errado que o mundo tem pra oferecer aos nossos filhos. É remar contra a maré. Muitas mães remam sozinhas. É um peso enorme. Um cansaço mental diário. Informações e situações afastam nossos filhos da forma com que fomos criados e educados. Mas não se pode largar de mão.
Minha filha passou os dois últimos anos pedindo pra usar sutiã com mini bojo e sandália de saltinho, e todos, todos os dias, era uma briga na hora de ir pra escola. Mas nunca abri mão. Criança não usa sutiã de bojo, nem sandália de salto.
Ás vezes tem alguma coisa pra resolver ou algum trabalho pra terminar e dá vontade de não se preocupar com isso. Vontade de não ter que discutir sobre bojos, sobre saltos e sobre qualquer outra loucura dessa idade. Mas é ai que os pais se perdem. É preciso perder tempo.
A Bellinha vai crescer três anos em 2014, porque vai conviver com meninas de dez anos que se comportam como meninas de quinze. E eu vou ter mais trabalho.
Mas fiquei feliz quando em casa ela pegou um papel e fez uma cartinha para o professor novo de matemática.
Fez o desenho de um mar, porque o nome dele termina com “mar”. Botou em um envelope e fechou com um adesivo de bonequinha, exatamente como ela sempre fez.
Nem tudo está perdido. Ainda.

Doze anos

24 de maio de 2013 6

O pior período da adolescência é quando você tem trinta e poucos anos e acaba de terminar o casamento.
Estou com doze anos, vou fazer treze mês que vem.
Minha festa vai estar cheia de gente descolada me chamando de miga, miguxa, amigãã.
Nessa fase difícil, brota gente por toda parte e todo mundo “te quer muito bem”. Você sabe que é de mentira, mas você também está interpretando.
Estou mascando chiclete, estou dando nó na blusa, estou ouvindo a trilha de Crepúsculo em volume máximo. Estou adolescente. Estou com acne.
A gente vive a bolha do casamento por anos. Passa uma vida fazendo apenas programas gastronômicos, visitando tias e fazendo social em formaturas. Depois quando a relação acaba, queremos ganhar o mundo em um fim de semana.
Gosto de vodka agora. Fumo cigarro mentolado. Gravei cd cheio de lançamentinhos e a primeira coisa que faço quando entro no carro é ligar o som.
As músicas são novas, não conheço. Finjo saber as letras, gesticulo pra pertencer.
São oito horas da noite. Estou terminando de fazer maquiagem. Estou quase pronta pra festa mais esperada do ano. Vai tocar um DJ de fora e se tem DJ de fora todo mundo diz que bomba.
No fundo eu só queria vestir meu chinelo e ir até o mercado comprar uma massa pra fazer em casa, assistindo televisão.
Lembro do ex. Elaboro mentalmente uma lista de coisas erradas que ele fez. Retoco o batom. Pego a chave do carro. A festa vai bombar. Ainda estou na garagem e já estou morrendo de saudade de casa. Que noite linda. Que preguiça ser solteira.
Pego o convite vip. Sou vip, dizem. Não sei bem o que isso significa, mas parece bom.
No camarote, todo mundo na maior produção. Passaram a vida preparando o look da noite. As mulheres, de vestidos justos e sapatos muito altos, algumas conseguem equilíbrio, outras se encostam em meninos de tênis e blazer e não relaxam nem por um minuto na tensão de que algum fotógrafo dê um clik sem que dê tempo de arrumar a franja. Ninguém se move muito pra não borrar o batom ou tirar um fio de cabelo do lugar.
Homens vestidos com calças justas e camisas gola V, bebendo sempre pra manter as mãos ocupadas, apenas. Sem bebida a maioria não consegue nem dizer o próprio nome.
Quero minha cama, mas vou ao bar buscar uma bebida. Bebo em golinhos minúsculos com medo de que acabe e eu também não tenha o que fazer com as mãos. Segurar um copo e teclar no celular são as melhores saídas pra quem não sabe bem o que está fazendo ali, em meio aquele monte de arrobas alucinadas em mostrar ao povo que está em casa como a festa está fervendo.
Mas será que não tem volta mesmo?
Se eu perdoar meu ex, talvez eu possa sair daqui agora e ir pra casa, tirar a make, pedir uma pizza e ver um filme. Se eu perdoar, estou livre de ter que conversar com alguns garotos porque dizem que se eu não fizer isso, nunca vou me apaixonar de novo.
Um moço meio obvio se aproxima e pergunta meu nome. Bonito o moço. Claro que o casamento não tem volta. Não agora.
Depois de alguns minutos de tédio mortal, ele diz: irado o som, né? Fazia tempo que eu não colava aqui. Acho que é meu destino te conhecer.
Lembrei do meu filho dormindo em casa. Vivo pedindo pra ele não dizer “irado”. Será que ele está coberto? Será que está sentindo minha falta? Vou pra casa. Cansei de ter doze anos.
Quero fugir dessa prisão que é a liberdade quando o que a gente só quer mesmo é se prender.

Perdi.

20 de abril de 2013 4

Já perdi um cliente por demorar pra entregar as imagens. Um não, oito, ou dez.
Sou muito detalhistas e cada cliente é único, assim como cada imagem. Ou seja, edito uma por uma. Faço preto e branco, deixo a imagem saturada ou não. Em um evento faço no mínimo 300 imagens.
Ainda não consegui me habituar ao estilo “fotografo, logo entrego o trabalho”. Não sei se quero me habituar. Fotografar é como pintar um quadro onde você brinca com as cores. É uma obra.
Quando falo em edição, não estou falando em deixar as pessoas robotizadas, sem expressões, sem rugas, sem vida. No máximo tiro uma espinha ou uma mancha que está ali de passagem.
Já perdi cliente por não ter tirado as rugas da vó. A vó era a aniversariante e apareceu em 70% das imagens. A neta me pediu pra tirar as rugas e expressões. De jeito nenhum. Vó é vó. Precisa ter ruguinhas. É bonito, é de vó.
A rapidez com que as imagens ganham um mundo me deixa zonza. Quando baixo as fotos do evento as imagens iphonicas e smartphonicas já ganharam o mundo todo e minhas imagens são imagens antigas, ainda que eu tenha saído do evento meia hora atrás.
Já saí gorda em sites de fotografia. Já sai de olhos fechados. Já sai até de cabeça pra baixo. Esqueceram de girar a imagem. Sinto medo de aparecer no facebook mastigando uma coxinha.
Fotógrafos por dinheiro. Esses estão dominando o mundo, trocando de carro, comprando imóveis, ficando mais ricos que os ricos, tudo às custas dos imediatistas que querem tudo pra ontem.
Fotógrafos que comem e bebem no evento. Fotógrafos que usam a câmera como desculpa pra entrar sem pagar nas festas da cidade. Chegam em casa, baixam os cartões e jogam a imagem na internet. Esses estão ricos. De dinheiro. Porque existe o tipo de cliente que se sente privilegiado em ter suas fotos pipocando na porta no dia seguinte, na primeira hora do dia.
Fotógrafas que trabalham de salto.
Lembro que da primeira vez que minha irmã me deu um equipamento pra fotografar, eu estava de salto alto, fino, lindo. Ela olhou pro meu pé, riu e disse: tu vai fotografar assim? Ahã, por quê? Por nada.
Foi o primeiro e último dia que usei um salto pra fotografar. É difícil manter o equilíbrio. Naquele dia eu queria clicar muitas fotos e ir embora.
Pés no chão. Quanto mais velho e pior o calçado for, melhor a fotógrafa.
Já perdi cliente porque a foto não emplacou na coluna social. Uma vez um amigo disse: demita seu cliente se for preciso. Esse eu demiti.
Já perdi cliente por gostar de fotografia, porque dominou o mercado o fotógrafo que entregou as fotos primeiro.

Sobre família e o preço dos ovos.

31 de março de 2013 1

Que você tenha sempre muitas pessoas pra presentear na Páscoa, ainda que o real significado da data não seja presentes.
Que você tenha pra quem comprar ovos e fazer surpresas, ainda que o preço dos chocolates tenham subido horrores.
Prejuízo é ter uma mesa cheia de cadeiras vazias.

Daqui pra lá.

29 de março de 2013 0

Você, fotógrafo, está concentrado pra fazer a 348 foto mais linda da sua vida.
Está imóvel. Prendendo a respiração pra não desfocar. Dois passos pra esquerda, um pra trás. Uma viradinha bem de leve pra luz colorida do fundo entrar junto na foto. Diminui um pouco a velocidade. Ajeita o iso. Agora é só esperar o foco virar e dar um sorriso pra imagem ganhar o mundo.
De algum lugar surge uma moça de óculos, pouco brilho, formada em farmácia, talvez, dá uma empurradinha no seu ombro e diz cheia de razão: faz daqui pra lá que fica melhor!

Fé.

27 de fevereiro de 2013 0

Hoje passei em frente à igreja do bairro onde moro e me deu vontade de entrar. Parei o carro em cima de uma calçada que não podia estacionar e sai sem olhar pra trás.
Estava cheia de coisas pra fazer em casa, mas adorando estar ali. A igreja estava vazia. Uma espécie de hora marcada com Deus.
Frequentei essa mesma igreja desde pequena. Fiz crisma, comunhão e a igreja também me serviu como fuga pra sair de casa nas festinhas e bingos que acontecia ali. As festas da igreja eram as únicas que eu podia frequentar. Mas naquela quarta-feira aquilo tudo me parecia novo. Senti como se estivesse entrando ali pela primeira vez. Acho que essa foi a primeira vez que entrei naquela igreja de verdade. Por vontade, por fé, por acreditar que algo pudesse me deixar em paz.
Fiquei sentada por meia hora olhando o altar. É incrível como a paz de uma igreja faz a gente se encontrar. Eu pedi pra ter mais serenidade, tranquilidade e calma. Eu tinha muitas outras coisas pra pedir, mas como era a primeira vez retornando a casa de Deus, resolvi ir por partes e montei rapidinho uma lista de prioridades. Serenidade, tranquilidade e calma é o que preciso com mais urgência.
Eu pedi também menos criatividade para criar problemas, menos imaginação para inventar coisas bobas e mais inteligência no caso de eu não conseguir os dois itens acima.
Não sei se o fato de eu ter rezado mudou alguma coisa de fato, mas psicologicamente me obrigo a ser mais normal agora. Estou me sentindo menos criativa mesmo, menos imaginativa e mais serena.
Lembrei de todas as minhas loucuras, da briga com o namorado na noite anterior, no meu egoísmo, na minha falta de humor e fiquei com vergonha de continuar olhando pra imagem de Deus no altar. A imagem parecia sentir vergonha e pena de mim e acho que se Deus pudesse falar comigo ele diria com certeza “você não leu a bíblia, não leu meus ensinamentos, dá o fora daqui”, e diria “vacilona” bem baixinho.
Nunca concordei que pra estar em contato com Deus fosse preciso ir a uma igreja, mas todo mundo precisa de um refúgio, de um calmante, de uma pausa e de silêncio pra botar as ideias em ordem.
A igreja vai ser minha academia agora. É lá que eu pretendo exercitar a mente e ficar lindona.

Deletei.

13 de fevereiro de 2013 3

Semana passada deletei meu perfil no Facebook e acabo de criar um novo.
Era tanta gente desconhecida que adicionei com a intenção de divulgar meus textos e meu trabalho com a fotografia, mas que depois me arrependi. Minha página se tornou um misto de publicações sem sentido, que no fim, quase não conseguia achar postagens de pessoas realmente interessantes, com assuntos realmente interessantes.
Me livrei de atualizações com fotos e textos de gente querendo salvar o planeta, os cachorrinhos e as crianças.
Conheço meia dúzia de pessoas que realmente fazem diferença nesse mundo. Gente que dedica horas semanais com trabalhos voluntários no Hospital Infantil ou no Lar Recanto do Carinho, em Florianópolis. Fiquei sabendo disso por acaso, em conversa informal, não por posts no Facebook. Essas pessoas não dizem que quem planta colhe, que só o amor salva, que amizade é tudo e que o importante é fazer o bem. Elas fazem o bem e a gente nem fica sabendo.
Quem quer ajudar, ajuda sem precisar de plateia assistindo.
Pessoas que postam positividades, imagens feias de cachorros machucados e crianças idem, não fazem nada, além de movimento. Um barulho que incomoda, mas não acorda ninguém.
Deletei essas pessoas porque estava começando a ver apenas o lado ruim das coisas. Simulações de felicidades, sorrisos sem covinhas, indiretas, piadinhas sexuais, bobagens em geral.
Facebook é pra somar, agregar, informar, compartilhar coisas bacanas, nem que seja uma boa receita de bolo [estou precisando de uma], mas tem que somar, não entristecer.
Deletei essas pessoas porque ao abrir minha página todos os dias, lembrava de como o ser humano é hipócrita. Deletei pra não perder ainda mais a fé nas pessoas. Deletei porque meus ombros estavam ficando cada dia mais caídos.
Facebook está cheio de heróis, assim como o inferno está cheio de boas intenções.

Quero ir pra casa.

23 de janeiro de 2013 2

O celular tocou duas vezes enquanto estava no banho. Era uma ligação e uma mensagem. Não era mensagem, nem ligação. Estou com frio. Estou ouvindo bips que sempre parecem os meus, mas nunca são. Meu celular não toca, nem por engano.
Eu tenho vinte e poucos anos e estou aprendendo a andar de novo.
Hoje foi a primeira vez que entrei sozinha no shopping sem você. Estava de pé, mas me arrastando mentalmente.
Entro em um restaurante que nunca jantamos pra me sentir outra pessoa. Peço gorduras. De nada adianta ter saúde agora. Lavo as mãos. Eu errei e preciso me limpar. Não existe produto no mundo que lave a alma.
Meus ombros estão caídos como uma adolescente que veste preto e tem rosto branco e só estou ali porque sei que devo dar a volta por cima, me dizem. Quero engatinhar, quero ir pra casa e me encolher como um feto.
Não me informem sobre liquidações imperdíveis, nem sobre capinhas legais de iPhone. Não quero ver filmes bons, nem comprar camarotes. Não me liguem. Não posso atender agora.
Não quero saber sobre shows internacionais e oportunidades. Quero ir pra casa. Qualquer lugar desse mundo me parece muito longe de você agora.
Me vejo em uma roda de amigos depois de ter feito um esforço grande pra ninguém me notar. Eles acham graça de coisas que eu não consigo achar nem com muito empenho. Escuto histórias sobre pessoas que não conheço bem e concordo duas ou três vezes com coisas bobas só pra não parecer louca.
Estou cansada desse mundo de gente que ri sem motivo, se veste engraçado e bebe coisas caras só pra pertencer. Eu quero saber onde você está.
Quero saber se você tomou o remédio na hora certa, se está estudando pra concurso, se cortou o cabelo do mesmo jeito ou se está feliz, mas estou no meio de um grupo de pessoas bem vestidas que disputam pra saber quem foi mais curtido por um famoso no instagram. Quero ir pra casa. Risadas alheias me deixam tensa quando estamos separados.
Não quero ouvir alguém pedir pra eu parar de chorar dizendo que o fim é sempre um começo. Quero ir pra casa usar roupas feias e prender o cabelo com grampos.
Eu deveria ler um livro, ver uma peça em cartaz, comer sushi ou fazer um desses programas que se faz quando fica solteira sem querer, mas quer mostrar ao mundo que é por escolha e está se curtindo, se amando, se conhecendo. Mas não quero me distrair. Quero focar na minha dor. Mereço sentir cada minuto a sua ausência. Você disse tantas vezes pra eu não te mandar embora e eu mandei. E você foi, porque você se ama tanto quanto eu te amo e eu passei a te admirar muito mais depois disso.
Eu não estava preparada pra ter você, assim como uma criança de dois anos não tem idade pra ganhar um brinquedo caro. Você é caro e eu quebrei o nosso namoro. Ganhei antes do tempo e não soube usar.