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Entrevista exclusiva: "Se a repetição é a mãe da técnica, a repetição inteligente é a mãe da tática", diz Júlio Garganta, mentor de José Mourinho

17 de agosto de 2013 1

O projeto Lapidar, do Grêmio, era uma necessidade antes mesmo de ser implantado. Os integrantes do Departamento de Formação admitem isso. A ideia é que, com ele, um legado fique para os próximos anos e seja aproveitado pelos novos garotos.

O modelo é baseado em experiências europeias, em especial nos conceitos defendidos pelo professor da Universidade do Porto Júlio Garganta. Ele trabalhou no clube da cidade e foi mentor, entre outros, de José Mourinho. Confira em entrevista exclusiva um pouco mais do pensamento de Garganta que o Tricolor pretende implantar na base:

Zero Hora – É possível fazer correções técnicas em um atleta? Até que idade essas informações são assimiladas?

Júlio Manuel Garganta - Teoricamente sabe-se que entre os oito e 12 anos de idade os seres humanos estão mais predispostos para aprender, em várias atividades. Isso tem a ver com a plasticidade do sistema nervoso e do organismo em geral, para se moldar e adaptar em função dos estímulos a que vai sendo exposto. Embora a relação do praticante de futebol com o ensino, o treino e a competição comece a ser construída cada vez mais cedo, dadas as crescentes exigências da especialização, não se pode dizer que haja uma idade limite para correções ou ajustamentos do ponto de vista “técnico”.

Zero Hora - No caso de um atleta se desenvolver mais rápido que outros, é possível pular etapas?

Garganta - As “idades” não têm idêntica correspondência nas diferentes latitudes geográficas do planeta, nem sequer em crianças e jovens que vivem na mesma região. Por isso cada vez se torna mais confiável que nos guiemos pela idade biológica e não tanto pela idade cronológica. Ou seja, mais do que considerar a data de nascimento, convém estar atento ao nível de evolução e maturação dos praticantes para melhor se perceber o significado e o impacto das aprendizagens. A pertinência e a oportunidade das correções dependem do nível e das necessidades de quem aprende e da competência e sentido de oportunidade de quem ensina. Se estivermos atentos, perceberemos os sinais que os praticantes vão dando quanto a ser, ou não, oportuno introduzir noções táticas ou proceder a correções técnicas. Julgo já ter percebido, há bastante tempo, que a prescrição de princípios e de situações de aprendizagem para todos, de modo abstrato, pode ter pouco ou nenhum sentido para quem está ciente da intimidade do jogo e dos nexos que o tecem. Sobretudo quando nos deparamos com grupos de crianças e jovens de carne, osso e muitos sonhos, com características únicas e diferentes sensibilidades e ritmos de aprendizagem.

Zero Hora – A partir de quando um jogador começa a assimilar informações táticas?

Garganta - Apesar de no contexto do futebol ser corrente a ideia de que é na faixa dos 12 aos 14 anos que se processa o início da especialização tática, o que disse quanto às “idades” continua fazendo sentido. Logo que alguém começa a jogar futebol, em idades baixas, e mesmo no futebol de rua, está automaticamente lidando com estímulos de natureza tática, tais como organização da ação (relação entre companheiros e adversários), análise de trajetórias, percepção das linhas-de-força do jogo, gestão do espaço e do tempo para jogar, etc. Por isso, do meu ponto de vista, as habilidades técnicas, em um jogo como o futebol, deverão ser equacionadas em interação com as exigências táticas, ainda que se deva processar isso segundo diferentes níveis de complexidade e exigência.

Zero Hora – E em relação ao esquema de jogo, é possível ensinar a um garoto para que se profissionalize sabendo todos os sistemas? Como adequá-lo ao jogo coletivo e limitar os ímpetos individuais?

Garganta - Não raramente se confunde tática com esquemas e sistemas táticos (4-3-3, 4-4-2, etc.), mas isso não me parece certo. A tática é tudo que se relaciona com a gestão da ação em função de intenções. Tem a ver com o modo como pomos em prática as ideias para jogar. Digo frequentemente que o bom futebol se joga com boas ideias! Vejamos: a intenção de passar, de conduzir, de driblar, de arrematar a bola vai para além da técnica de execução. Ou melhor, a condiciona, implicando que o executante equacione vários estímulos, tais como o momento, a oportunidade, as possibilidades de êxito ou fracasso, a posição dos colegas, dos adversários, das balizas, etc. Tudo isto tem a ver com referências táticas. O jogo de futebol é, por natureza, um jogo tático! Claro que as limitações no domínio das habilidades técnicas acarretam sempre dificuldades na leitura e compreensão tática do jogo e por isso é importante desenvolver essas habilidades desde cedo. Por outro lado, podemos ter jogadores virtuosos do ponto de vista técnico que são limitados taticamente. Ou seja, não sabem como colocar a técnica a serviço das ideias de jogo. Jogam virados para eles próprios e não conseguem encontrar soluções para o jogo que não sejam individuais. Costumo dizer que se a repetição é a mãe da técnica, a repetição inteligente, contextualizada, é a mãe da tática.

Comentários (1)

  • Heloísa Pires diz: 17 de agosto de 2013

    ESSE TAL DE GARGANTA DEVE TER APRENDIDO COM O ORTIZ, DO INTERNACIONAL, DO PROJETO “APRIMORAR”, NÃO?!…E O GRÊMIO VAI TÃO LONGE PARA APRENDER!…

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