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A incrível Hungria de 1954

31 de dezembro de 2008 9

De cima, o diagrama tático mostra o desenho de dois W`s. Sem a bola, o W defensivo se desfaz, dando origem a uma linha de quatro jogadores; e na frente, o W se mantém com o recuo do centroavante, para servir de isca ao Stopper, abrindo espaço para os quase-ponteiros.

Hoje assisti à reprise de um dos episódios do documentário “Comunismo e Futebol”, transmitido pelo canal Sportv. Um trabalho primoroso, de altíssima qualidade. Fiquei extasiado em frente à TV. E mergulhei em pesquisas sobre a seleção húngara que assombrou o mundo no início da década de 50 – vencendo a Olimpíada de 52, chegando ao vice-campeonato na Copa do Mundo de 54, e perdendo apenas uma partida em seis anos (logo a decisão do mundial da Suíça, contra a Alemanha, por 3 a 2 – tendo um gol legal de Puskas anulado injustamente faltando dois minutos para o encerramento do jogo).

Aquela Hungria do técnico Gusztav Sebes revolucionou o futebol, introduzindo um conceito hoje primordial – preparação física – mas principalmente alterando o paradigma tático da época. Como vocês podem conferir no Resumão de Táticas aqui do Preleção, o primeiro sistema organizado reconhecido no mundo foi o W.M do Arsenal de 1930. Era chamado de W.M porque a disposição dos jogadores no campo (três zagueiros, dois volantes, dois meias e três atacantes) lembrava o desenho destas letras. O Arsenal patrolou adversários e fez com que todos os times e seleções do mundo copiassem o W.M.

Com a Hungria, Sebes conseguiu destravar o segredo do W.M. Afinal, como são duas letras invertidas, os confrontos de times com o mesmo sistema provocavam um espelho completo. Três atacantes x três zagueiros; dois meias x dois volantes. Um verdadeiro encaixe. Mas a seleção que contava com jogadores cerebrais e habilidosos, liderados por Puskas, trouxe uma inovação que repercutiria até no Brasil.

A Hungria jogava no W.W. Simples. Sebes teve a idéia de recuar seu centroavante, Hidegkuti, porque ele não tinha porte físico para trombar com o Stopper (“parador” – posição que daria origem ao nome “zagueiro central” ainda em uso). Com este movimento, o Stopper não sabia se o acompanhava, desguarnecendo a área, ou se ficava parado, permitindo que ele dominasse a bola com liberdade. Nos lados, Puskas e Kocsis eram quase ponteiros, mas também com responsabilidade de conclusão dentro da área.

Sem a bola, a Hungria introduziu ainda o recuo de um dos volantes para a defesa, formando uma linha de quatro zagueiros (movimento que originou a denominação “quarto zagueiro”, utilizada até hoje). Segundo os especialistas das bibliografias disponíveis na Internet que eu consultei, foi este W.W com variação para defesa em linha de quatro que originou o 4-2-4 da Seleção Brasileira campeã mundial quatro anos depois, em 1958, com Pelé.

Sebes também mantinha seus jogadores – graças ao conceito de aquecimento e preparação física – em constante movimentação, trocando de posições. Idéia que é considerada também o embrião do Carrossel Holandês de Rinus Michels de duas décadas depois. Ou seja: a Hungria inspirou ao mesmo tempo o Brasil e a Holanda, uma verdadeira revolução. Uma esquadra quase mítica aquela de Puskas!

Pena que a ditadura comunista da Hungria castigou a seleção pela derrota na final da Copa da Suíça, e aquela tradição do futebol se desfez em represália ao regime totalitário que tentava utilizar o futebol como propaganda política. Outra lástima é a semifinal: após passar pelo Brasil em uma verdadeira guerra – o jogo ficou marcado como “Batalha de Berna”, a Hungria enfrentou o Uruguai nas semifinais, e precisou disputar uma prorrogação. Chegou aos pedaços na decisão, desgastada, perdendo de virada para a Alemanha – isso que teve um gol surrupiado no fim.

Mesmo sem o título Mundial, ela entrou para  história do futebol. A Hungria, com seu W.W à la 4-2-4, foi a primeira seleção nacional emblemática. Recomendo a quem ainda não assistiu ficar ligado nesta série “Comunismo e Futebol” da Sportv. Uma verdadeira aula de história. E de futebol.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (9)

  • José diz: 31 de dezembro de 2008

    A Hungria chegou à final fisicamente aos pedaços; e o Brasl teve muito a ver com isso. O Brasil e a arbitragem, que favoreceu desavergonhadamente a alemanha. A jutiça seria: Hungria e Brasil campeã e vice. Alemanha em quarto lugar.

  • DANIEL SANTOS diz: 2 de janeiro de 2009

    SÓ TENHO UMA COISA A DIZER: OBRIGADO PELO BLOG. ALÉM DE DISCUSSÕES ATUAIS, TEMOS ANALISE DA HISTORIA DO FUTEBOL, COMO ESSE ARTIGO SOBRE A SELEÇÃO HÚNGARA, EM QUE VÁRIO MOMENTOS OUVIMOS DE TREINADORES “HOJE O TIME TAL JOGOU COMO A SELEÇÃO HÚNGARA”, MAS QUE AO LEIGO PARECIA MAIS UMA LENDA DO QUE UMA HISTORIA VERDADEIRA. MEUS PARABENS PELA ANALISE E PELO BLOG

  • Douglas diz: 5 de janeiro de 2009

    Olá Eduardo, teu blog és muito bom,o aconpanho sempre, más me permita fazer uma correção, foi a Hungria que perdeu para o Uruguai ,e não a Suiça.É eu sei as vezes agente se confunde.Hehehehe. Parabéns cara ,para mim teu blog é o melhor, porquê não tem palpites furados, como muitos por aí.. Abraço

    Resposta do Cecconi: é verdade Douglas. Ato falho. Já corrigi, graças a tua dica. Valeu pela ajuda! Abração.

  • Roberticus diz: 14 de setembro de 2009

    Prazo Cecconi,
    Parebens pelo blog!Vou segui-lo com assiduide.

    Ja vejo que você tambem lei os artigos do Jon Wilson no Guardian..acaso vc também leiu o livro dele “Inverting the Pyramid”? (caso nao, eu recomendo..)

    Enquanto ao legado húngaro e sua influência sobre o 4-2-4, eu diria que foi no Brasil onde se aperfeiçoou o 4-2-4 de forma consciente, por enquanto aquele 3-2-3-2 assimétrico de acordo com o caderno pessoal de Sebes, foi mais bem um primeiro passo no caminho para li

  • Roberticus diz: 14 de setembro de 2009

    a continuação..
    Você não acha propício que o 4-2-4 surgisse num Brasil em que as principais equipes ja levaram duas decadas jogando o esquema `diagonal`, sistema igual e à vez distinto à tendência magyar de procurar desequilíbrio intencionado, para quebrar assim a rigidez das linhas? Me parece que a influência dos técnicos hungaros exiliados no Brasil sobre uma base já existente (o 2-3-2-3/ 3-3-4 em diagonal)foi como o destino.

  • Ricardo KHICHFY diz: 14 de abril de 2009

    Nunca houve e nem mais haverá uma seleção igual a da Hungria de 1953/54.
    Eles Chegaram a perfeição no futebol.
    Visitaram o Brasil em 1955 e surraram o Flamengo, o Botafogo de Garrincha e ainda o combinado deles.
    Jogavam parecia com totó. A bola não saia do chão com passes precisos e elegantes, apareciam sempre livres na área para fazer gols de estilo. No jogo com o Flamengo ficou literalmente 15 minutos sem pegar na bola. Só pegavam para dar a saída depois dos gols.
    Nem Holanda, nem Brasil.

  • Bruno Matos diz: 16 de julho de 2009

    Excelente tópico. Os jogadores do Leste Europeu, na habilidade, são os melhores do mundo. Faltou alguma coisa para a região ter uma ou mais seleções campeãs da Copa do Mundo. Sérvia, Croácia, Hungria, República Tcheca, Rússia, Bulgária, Romênia…

  • Marco Aurélio diz: 17 de outubro de 2009

    O Brasil de 1958 não jogava no 2-3-5?
    Se não me engano, a França também jogava assim: Iniesc, Pientoni, Fontaine, Copá e Vincin.

    Os nomes dos franceses provavelmente estão escritos de forma errada, mas era assim que meu finado pai, que falava francês, os pronunciava.

  • Claudio Sacramento diz: 26 de maio de 2010

    Eu sempre tinha lido que Hidegkuti era um meia de ligação que alimentava Puskas e Kocsis. E é verdade. Porém não sabia que ele era inicialmente um centroavante e foi recuado para a meia ofensiva. Mas não estou surpreso com a versatilidade dos jogadores húngaros daquela seleção. Do meio para frente todos tinham qualidade no passe e eram grandes finalizadores. Só uma dúvida: Bozsik não era volante? Está como zagueiro no diagrama.

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