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Posts de dezembro 2008

A incrível Hungria de 1954

31 de dezembro de 2008 9

De cima, o diagrama tático mostra o desenho de dois W`s. Sem a bola, o W defensivo se desfaz, dando origem a uma linha de quatro jogadores; e na frente, o W se mantém com o recuo do centroavante, para servir de isca ao Stopper, abrindo espaço para os quase-ponteiros.

Hoje assisti à reprise de um dos episódios do documentário "Comunismo e Futebol", transmitido pelo canal Sportv. Um trabalho primoroso, de altíssima qualidade. Fiquei extasiado em frente à TV. E mergulhei em pesquisas sobre a seleção húngara que assombrou o mundo no início da década de 50 - vencendo a Olimpíada de 52, chegando ao vice-campeonato na Copa do Mundo de 54, e perdendo apenas uma partida em seis anos (logo a decisão do mundial da Suíça, contra a Alemanha, por 3 a 2 - tendo um gol legal de Puskas anulado injustamente faltando dois minutos para o encerramento do jogo).

Aquela Hungria do técnico Gusztav Sebes revolucionou o futebol, introduzindo um conceito hoje primordial - preparação física - mas principalmente alterando o paradigma tático da época. Como vocês podem conferir no Resumão de Táticas aqui do Preleção, o primeiro sistema organizado reconhecido no mundo foi o W.M do Arsenal de 1930. Era chamado de W.M porque a disposição dos jogadores no campo (três zagueiros, dois volantes, dois meias e três atacantes) lembrava o desenho destas letras. O Arsenal patrolou adversários e fez com que todos os times e seleções do mundo copiassem o W.M.

Com a Hungria, Sebes conseguiu destravar o segredo do W.M. Afinal, como são duas letras invertidas, os confrontos de times com o mesmo sistema provocavam um espelho completo. Três atacantes x três zagueiros; dois meias x dois volantes. Um verdadeiro encaixe. Mas a seleção que contava com jogadores cerebrais e habilidosos, liderados por Puskas, trouxe uma inovação que repercutiria até no Brasil.

A Hungria jogava no W.W. Simples. Sebes teve a idéia de recuar seu centroavante, Hidegkuti, porque ele não tinha porte físico para trombar com o Stopper ("parador" - posição que daria origem ao nome "zagueiro central" ainda em uso). Com este movimento, o Stopper não sabia se o acompanhava, desguarnecendo a área, ou se ficava parado, permitindo que ele dominasse a bola com liberdade. Nos lados, Puskas e Kocsis eram quase ponteiros, mas também com responsabilidade de conclusão dentro da área.

Sem a bola, a Hungria introduziu ainda o recuo de um dos volantes para a defesa, formando uma linha de quatro zagueiros (movimento que originou a denominação "quarto zagueiro", utilizada até hoje). Segundo os especialistas das bibliografias disponíveis na Internet que eu consultei, foi este W.W com variação para defesa em linha de quatro que originou o 4-2-4 da Seleção Brasileira campeã mundial quatro anos depois, em 1958, com Pelé.

Sebes também mantinha seus jogadores - graças ao conceito de aquecimento e preparação física - em constante movimentação, trocando de posições. Idéia que é considerada também o embrião do Carrossel Holandês de Rinus Michels de duas décadas depois. Ou seja: a Hungria inspirou ao mesmo tempo o Brasil e a Holanda, uma verdadeira revolução. Uma esquadra quase mítica aquela de Puskas!

Pena que a ditadura comunista da Hungria castigou a seleção pela derrota na final da Copa da Suíça, e aquela tradição do futebol se desfez em represália ao regime totalitário que tentava utilizar o futebol como propaganda política. Outra lástima é a semifinal: após passar pelo Brasil em uma verdadeira guerra - o jogo ficou marcado como "Batalha de Berna", a Hungria enfrentou o Uruguai nas semifinais, e precisou disputar uma prorrogação. Chegou aos pedaços na decisão, desgastada, perdendo de virada para a Alemanha - isso que teve um gol surrupiado no fim.

Mesmo sem o título Mundial, ela entrou para  história do futebol. A Hungria, com seu W.W à la 4-2-4, foi a primeira seleção nacional emblemática. Recomendo a quem ainda não assistiu ficar ligado nesta série "Comunismo e Futebol" da Sportv. Uma verdadeira aula de história. E de futebol.

Postado por Eduardo Cecconi

Beckham pode ser volante no Milan

30 de dezembro de 2008 8

Com Beckham, dá para imaginar o Milan no 4-5-1, com aproximação entre meias e intensa participação do inglês nas jogadas pela direita, ou nas diagonais para Ronaldinho Gaúcho

Hoje o site do Milan publica uma entrevista com o treinador Carlo Ancelotti, projetando a participação de Beckham durante temporada de amistosos e treinos em Dubai. E o técnico do Milan admite a possibilidade de escalar no meio-campo titular um trio formado por Beckham, Pirlo e Seedorf.

– Esta é uma solução possível, com certeza será testada – confirma Ancelotti.

Eu sou um admirador do futebol de Beckham. Ele reúne algumas características que o tornam um jogador multiuso no meio-campo: obediência tática, noção de posicionamento, capacidade de adaptação a diversas funções e movimentação inteligente. Por isso não haveria problema em definir sua presença no meio-campo do Milan, como um segundo volante, um meio-campista armador, ao lado de Seedorf e à frente de Pirlo.

No Manchester United, Beckham jogava como winger. Ele atuava na asa direita da segunda linha do FourFourTwo de Sir Alex Ferguson, a exemplo do posicionamento de Cristiano Ronaldo hoje - guardadas, é evidente, as diferentes características entre ambos. Na seleção da Inglaterra, o camisa 7 também atuava como winger pelo lado direito.

Mas no Real Madrid, Beckham se deparou com uma cultura tática diferente. Além de outro desenho - saem os wingers, entram os meias protegidos por volantes. Além disso, o português Figo já estava consagrado no lado direito da armação. Sem problemas para ele: Beckham jogou no Real como um segundo volante pela direita, ao lado de Guti, tendo na articulação Figo e Zidane. Ou seja, diminuiu seu espaço de ação, e aumentaram as atribuições defensivas.

Hoje o Milan conta com um farto elenco de volantes. Pirlo, Ambrosini, Flamini, Gattuso e Emerson disputam três posições - Ancelotti joga com três volantes. Mas é nesta briga que eu vejo Beckham. E, principalmente, pela declaração em entrevista ao site do Milan, o próprio treinador também o observa por ali.

Ancelotti nem precisaria abdicar de seu defensivismo natural. Basta manter sua linha defensiva de quatro jogadores ultraposicionados - Favalli ou Zambrotta pela direita, Jankulovski na esquerda, Maldini e Kaladze ou Nesta no meio (sempre tem alguém machucado no Milan...). Pirlo faria a primeira função, com Beckham pela direita e Seedorf na esquerda aliando articulação e marcação. Mais à frente Kaká centralizado, com espaço para as arrancadas, Ronaldinho Gaúcho pela esquerda e Pato (ou Inzaghi, ou Schevchenko) na área. O diagrama do sistema tático apresenta um 4-5-1 parecido com o do Inter de Tite, tendo apenas um volante de ofício, dois meio-campistas defendendo e atacante, um articulador, um ponta-de-lança e um atacante - mas todos chegando na frente para atacar.

Esse desenho possibilita várias combinações para Beckham. A mais óbvia é a triangulação com Kaká e Pato pelo lado do campo, de onde ele pode fazer seus cruzamentos fechados e perigosos. Outra, que eu não detalhei no diagrama tático do post, ocorre-me agora lembrando de uma diagonal muito comum no Real Madrid: a virada de jogo da intermediária direita para a entrada da área pela esquerda.

Beckham fazia isso demais no Real Madrid, lançando Roberto Carlos. No Milan, essa diagonal longa, de 30 metros (ou mais) pode encontrar pela esquerda o Ronaldinho Gaúcho, com Kaká e Pato entrando na área, e Seedorf na segunda bola.

Pena que Beckham vai embora em março. Gostaria de vê-lo mais tempo no Milan, com esta companhia qualificada, para que o rossonero pudesse aos poucos se libertar da obsessão por volantes que defendem demais mas pouco participam do jogo.

Postado por Eduardo Cecconi

No tempo dos trios-nacionais na Itália

29 de dezembro de 2008 8

Pessoal, não se prendam demais à disposição tática (os dois times apresentavam muitas variações para o 3-5-2, com líberos - Ferri de um lado, Baresi de outro. Utilizei o diagrama apenas para mostrar as escalações!!!

Hoje o Professional Football Players Observatory, em parceria com o CIES (Centre Internacional D´Étude du Sport), publicou o resultado de uma pesquisa que apenas determina matematicamente o que é notório: os maiores clubes europeus tornaram-se legiões estrangeiras. O Arsenal é o campeão, com 91,7% de estrangeiros no elenco; a Inter de Milão vem atrás, com 85,2%, empatada com o Liverpool. E tenho certeza que, se fossem levados em consideração apenas os times-base, a relação de times com percentuais até maiores que estes seria quase consensual.

É um dilema. Os campeonatos nacionais ficam mais concorridos, mais ricos, mais badalados. Os times ricos reúnem apenas estrelas, e os países de maior destaque concentram os melhores jogadores do mundo. A contrapartida está no envelhecimento das seleções européias - quanto maior o volume de estrangeiros nos times titulares dos clubes, menor a renovação: os mesmos craques que trazem riqueza aos campeonatos barram o surgimento dos jovens.

Mas minha proposta de hoje não é entrar neste debate. A pesquisa me trouxe a nostalgia dos grandes times anteriores à Lei Bosman, de 1995, que adequou o futebol do Velho Continente às normas da União Européia, equiparando os jogadores aos trabalhadores comunitários comuns. A Lei Bosman derrubou a barreira de três estrangeiros por time. Sendo europeu - mesmo que naturalizado às pressas - ou melhor, tendo o passaporte da Comunidade Européia, está liberado para jogar.

Lembrei com isso dos grandes times italianos da transição entre as décadas de 80 e 90. Cada um parecia ter uma convicção cultural no departamento de futebol, apostando em jogadores de mesma origem - o Napoli com os sul-americanos, o Milan com os holandeses, a Inter com os alemães. E todos estes grandes times tinham grandes italianos. Havia maior equilíbrio, e a disputa entre ricos e pobres parecia até um pouco mais justa.

Separei dois times para recordarmos, e analisarmos superficialmente - já que não retenho na memória a organização tática de equipes que atuaram há duas décadas. A idéia é confrontar as escalações e as qualidades dos rivais Milan (o time dos holandeses) e Inter de Milão (a squadra dos alemães).

Minha preferida era a Inter de Milão - meu time de botão à época. O time foi campeão na temporada 88/89 com a dupla Mathaus/Brehme. Klinsmann chegou na temporada seguinte, acumulando um terceiro lugar e um vice-campeonato. Antes do "cataklinsmann", o italiano Serena se consagrou como artilheiro do título. A Inter de Milão era uma equipe fascinante, muito compacta na defesa - tendo italianos combativos como Berti, Bergomi e Ferri.

Mas o Milan também era um equipe de empolgar. Tinha do meio para frente o trio holandês com Rijkaard, Gullit e Van Basten. Era um time teoricamente mais ofensivo, e de futebol mais elaborado. Conquistou o scudetto na temporada 87/88. Sempre com gols bonitos, grandes jogadas, tabelas rápidas e muita vontade de vencer.

Eu tenho saudades destes tempos. Hoje também é maravilhoso ver Liverpool, Manchester United, Milan, Inter, Arsenal, Real Madrid, Barcelona e muitos outros grandes desfilarem os maiores jogadores do mundo, de qualquer nacionalidade. Mas a época das limitações para estrangeiros também tinha seu glamour, em um período de afirmação do 3-5-2 com líbero na Itália, e de criações dos grandes trios nacionais.

Postado por Eduardo Cecconi

Liverpool, o time dos grandes meio-campistas

28 de dezembro de 2008 10

Gerrard, mais adiantado, marcou dois gols/Site do Liverpool

Se há um clube cuja cultura tática está arraigada em sua história, o Liverpool é o exemplo perfeito. Assim como o Manchester United, o FourFourTwo parece uma obrigatoriedade, como se estivesse descrito como único sistema tático aceito pelo estatuto do clube.

A obediência é tão explícita que até mesmo um treinador estrangeiro se adaptou ao 4-4-2 britânico do Liverpool. O espanhol Rafa Benítez, desde sua chegada, tem repetido com fidelidade e respeito à tradição dos Reds a sistematização tática das duas linhas de quatro jogadores - com dois atacantes, e a marcação por zona e pressão na saída de bola do adversário a partir da intermediária de ataque.

Mas hoje o líder do Campeonato Inglês simplesmente patrolou o forte Newcastle, vencendo por 5 a 1, com um sistema diferente. Nada revolucionário, que agredisse a cultura tática do Liverpool. Mas Benítez soube adaptar as duas linhas de maneira inteligente, com uma variação que se mostrou bastante efetiva.

Sem os atacantes Fernando Torres e Robbie Keane, o Liverpool jogou em uma espécie de 4-5-1. Benítez escalou os Reds com as duas linhas, mas retirou o cerebral Gerrard do meio-campo, deixando o capitão da equipe entre a segunda linha e o atacante Kuyt. Gerrard contou na ligação, como um ponta de lança, com o apoio do winger Babel. E no lugar dele, jogou o ex-gremista Lucas - tendo boa atuação.

Gerrard fez dois gols nesta função. Com Lucas e Babel, atuaram ainda Mascherano e Benayoun na linha de meio campo. Atrás, formaram a defesa Insua, Hyppia, Carragher e Agger, com Reina no gol. Xabi Alonso entrou no segundo tempo, e fez o dele de pênalti.

Esta escalação, e a variação tática de Benítez, evidenciam uma realidade incontestável no Liverpool: que times hoje no Mundo podem se regozijar com um grupo tão farto de bons meio-campistas? Talvez Chelsea, Manchester United, Inter de Milão...e a concorrência já começa a rarear. O elenco é tão qualificado neste setor que o Liverpool se deu ao luxo de ceder o excelente Sissoko para a Juventus.

É fato que o Liverpool contratou somente meio-campistas adequados a este seu histórico e cultural FourFourTwo. Não tem nenhum que seja apenas cerebral, que jogue somente com a bola; e também não há um gladiador obtuso que seja primoroso na marcação, sem acertar um passe. Gerrard, Alonso, Lucas, Mascherano, Babel, Benayoun e outros menos utilizados são jogadores que aliam características defensivas e ofensivas; meias capazes de exercer pressão nos adversários que ingressam em suas zonas de ação, mas inteligentes e habilidosos para passar da linha da bola na hora de atacar. E ainda versáteis para ser escalados em qualquer uma das quatro posições desta linha.

Dessa forma metódica e organizada, extremamente britânico mesmo que seu técnico seja espanhol, o Liverpool encerra o ano como líder do campeonato nacional mais qualificado e concorrido do momento.

Postado por Eduardo Cecconi

Felipão se rende a Drogba e ao 4-4-2

26 de dezembro de 2008 3

Drogba foi titular no 4-4-2, e marcou o primeiro gol do Chelsea na vitória/Site do Chelsea (arquivo)

Até certo ponto pressionado por setores da torcida do Chelsea, o técnico Felipão hoje retornou ao 4-4-2 convencional. E voltou a vencer, com participação do atacante Drogba, que vinha ficando na reserva - para desespero destes mesmos torcedores.

Quando chegou ao Chelsea, Felipão encontrou Drogba lesionado, e prestes a ser negociado. O jogador permaneceu no clube, mas recuperando-se do problema, foi deixado no banco de suplentes. Sem ele, o Chelsea do treinador brasileiro jogava no 4-5-1.

Assisti a alguns jogos do Chelsea neste sistema, e não encontrei muitas virtudes. Talvez Felipão tenha se obrigado a encontrar espaço para os muitos meias e volantes de qualidade no elenco, tornando-se refém da aglomeração no setor. E em um espaço frequentado por Lampard, Mikel, Ballack, Deco e Joe Cole - às vezes Kalou no lugar de um deles - o time afunilava demais as jogadas, concentrando-se em trocas de passes inócuas no meio-campo, sem chegar ao isolado Anelka.

Nesta profusão de meias e volantes, os gols do Chelsea acabavam saindo invariavelmente de jogadas ensaiadas na bola parada - principalmente escanteios e cobranças de faltas laterais. Não havia muita profundidade pelos lados, infiltrações e proximidade entre meio e ataque.

Mas hoje, frente ao West Bromwich, Felipão percebeu que Drogba estava pronto para jogar. Tirou Deco, e colocou o atacante ao lado de Anelka. E neste 4-4-2, o Chelsea ganhou por 2 a 0. Gols de Drogba e Lampard.

Acredito que Felipão tenha acertado na escolha, e não precise mais alterar o sistema tático. Dentro deste 4-4-2, com fartura de jogadores para o meio-campo, ele pode variar a estratégia modificando o desenho e a movimentação do setor - mas sempre mantendo a dupla de atacantes. Nas comparações com a geometria, que o estudo das táticas permite, dá para fazer linha, quadrado, losango...priorizar os lados, centralizar a armação...o grupo do Chelsea proporciona inúmeras alternativas de estratégias para o meio-campo.

Hoje, por exemplo, ficaram no banco Deco e Kalou. Jogaram no meio-campo Mikel, Lampard, Ballack e Joe Cole. É sem dúvida uma equipe mais equilibrada do que a anterior. Torço para que dê certo, e principalmente, para que o desempenho dentro de um novo sistema tático se consolide com boas atuações.

Postado por Eduardo Cecconi

Reforços não podem alterar a estrutura do Inter

24 de dezembro de 2008 9

Com negociações emperradas, não é certo que a diretoria do Inter consiga manter o trio Nilmar-Alex-D`Alessandro, nem quais reforços serão confirmados. Mas neste momento de especulações e transferências, o mais importante é a manutenção da estrutura tática do Inter.

Tite acertou a mão no colorado com o 4-5-1. Na zaga, quatro defensores em linha; no meio-campo, um volante centralizado (Edinho), dois meio-campistas de marcação e armação - um de cada lado (Magrão e Guiñazu), um articulador centralizado (D`Alessandro) e um meia-atacante se movimentando da direita para o centro (Alex); e no ataque, Nilmar.

Abrir mão de mais de um jogador entre os titulares - principalmente do meio para frente - pode desarticular o sistema tático elaborado pelo treinador. E inserir no grupo reforços que não tenham características apropriadas à mecânica de jogo do colorado também não seria uma política 100% adequada.

Fala-se em centroavantes de referência: Noir, um argentino reserva no Boca; e Alecsandro, um brasileiro finalizador de bom futebol que está no Oriente Médio. Ambos são camisa 9. Se um - ou os dois - forem contratados, quem sairia do time? Alex, em uma eventual negociação com o Exterior? Ou Edinho, ainda contestado por setores da torcida? Ou então - o mais conveniente - eles seriam apenas alternativas de grupo para uma alteração de esquema durante jogos que peçam uma jogada aérea.

Se isto se confirmar, o Inter perderia seu diferencial na Sul-Americana: a estratégia de aproximação e diagonais do trio Alex-Nilmar-D`Alessandro. Com um camisa 9 de referência, Nilmar precisaria sair mais da área - onde ele se saiu bem com infiltrações em velocidade, cavando pênaltis e marcando gols. Reitero: é uma opção mais indicada para determinadas partidas, e não a preferência depois de um 4-5-1 campeão se utilizando da bola no chão, das triangulações e da velocidade.

Com um centroavante fixo, Tite teria ainda que desfazer a linha defensiva para escalar laterais apoiadores, retomando as jogadas de linha de fundo tão escassas no colorado de hoje, que privilegia as triangulações pelo meio. O que obriga a diretoria a recorrer ao mercado, já que não há no grupo nenhum lateral apoiador afirmado e incontestável.

É sempre bom contar com variações táticas. Tite, dentro deste 4-5-1, apresentou mudanças conforme a estratégia de cada jogo. Mas um rompimento mais incisivo na filosofia de jogo obrigaria o Inter a utilizar o Gauchão - e até a parte inicial da Copa do Brasil - como território de ajuste para um novo sistema tático. Gostei muito do trabalho do Tite no segundo semestre, e como diz o velho clichê do futebolês: em time que está ganhando, não se mexe. Contratações pontuais, que acrescentem alternativas táticas sem desfazer o trabalho de 2008 são um bom caminho para a próxima temporada.

Postado por Eduardo Cecconi

A ajuda do San Lorenzo ao Boca Juniors

23 de dezembro de 2008 4

No confronto com o Boca, o meio-campo do San Lorenzo foi modificado, e não conseguiu nem jogar, nem segurar a dupla Riquelme-Dátolo

O triangular decisivo do Torneio Apertura do Campeonato Argentino nos permite debater algo bastante oportuno: os treinadores que sistematizam suas equipes de acordo com os adversários. São profissionais que, rotineiramente ou em circunstâncias de exceção, abdicam de ressaltar as virtudes do próprio time pensando apenas em conter o rival.

Isso aconteceu com o San Lorenzo contra o Boca Juniors. Não sei se o técnico Russo costuma fazer isso, mas nesta partida ele modificou completamente a estratégia. Russo vinha distribuindo o San Lorenzo em um 4-4-2 britânico. Na segunda linha de quatro jogadores, o winger esquerdo era o camisa 10 e craque do time, Barrientos, responsável por diagonais e aproximações com os atacantes. Ledesma, outro destaque, atuava como um meio-campista organizador. Uma estratégia simples e bem sucedida, que levou a equipe ao quase-título.

Mas contra o Boca, Russo mudou tudo. Desfez as duas linhas de quatro e inverteu Barrientos. O treinador passou o camisa 10 para o lado direito, e transformou o articulador da equipe em um mero marcador do lateral Morel Rodriguez. Barrientos, disciplinado, cumpriu a determinação. Mas não tocou na bola o jogo inteiro. Apenas acompanhou o lateral do Boca. Da mesma forma, ainda na direita, Ledesma foi um pouco recuado, transformando-se em um volante mais típico, e perdendo a característica de organizador.

Sem se preocupar com Barrientos e Ledesma, enroscados na marcação pelo setor, Dátolo pôde abrir confronto direto com o lateral González. E o camisa 23 do Boca soube aproveitar o espaço e a tranqüilidade, dominando o meio-campo e atraindo Riquelme para as tabelas pela esquerda ofensiva. O Boca dominou o jogo, criou as melhores chances, venceu por 3 a 1, e merecia até mesmo ter marcado mais gols.

Talvez - é só uma suposição, não acompanhei a imprensa argentina na semana passada - Russo tenha desarticulado o próprio time pensando em conter Riquelme. Ledesma recuado, Barrientos segurando Morel para liberar os volantes...tudo indica uma preocupação demasiada em segurar o Boca. Mas, para impedir o adversário de jogar, o San Lorenzo abdicou da posse de bola. E perdeu. Do contrário, o Boca Juniors foi exatamente o mesmo - 4-4-2 com meio-campo em losango, Battaglia centralizado, Vargas na direita (mais recuado), Dátolo na esquerda (mais adiantado) e Riquelme ligando o setor com o ataque, na intermediária ofensiva.

Aqui no Brasil existem treinadores que modificam com freqüência as escalações e não definem um sistema tático padrão - uma base para sustentar pequenas variações - preferindo escalar o time e montar a estratégia conforme a maneira do adversário atuar. Isso compromete o entrosamento e a mecânica de jogo.

O San Lorenzo foi vitimado pelo próprio treinador, e hoje assiste sem nenhuma chance a Boca Juniors e Tigre decidirem o Apertura. Uma pena, porque até então o San Lorenzo vinha repetindo boas atuações, com uma bela estrutura tática, e o diferencial de Barrientos.

Postado por Eduardo Cecconi

Uma safra razoável no sub-20 da dupla Gre-Nal

22 de dezembro de 2008 32

Montagem com fotos Divulgação e Marcos Nagelstein

Gremio e Inter nos deixaram mal-acostumados. Em poucos anos, já foram revelados nos estádios Olímpico e Beira-Rio craques como Ronaldinho Gaúcho, Anderson, Lucas, Carlos Eduardo, Alexandre Pato, Nilmar, Rafael Sóbis, e muitos outros jovens que ainda buscam espaço - como Douglas Costa e Wálter, por exemplo.

Talvez por isto a dupla Gre-Nal não tenha me empolgado neste Brasileirão sub-20. E não estou falando sobre resultados e desempenho, que foram ótimos - afinal, o Grêmio foi campeão e o Inter chegou em 3º - mas sim sobre novos talentos, revelações, jogadores aptos a integrar com sucesso o grupo principal em 2009.

No campeão Grêmio, a análise pode ter sido prejudicada pela postura da equipe. Dentro de um 4-4-2 convencional, a estratégia de Julinho Camargo foi extremamente cautelosa, defensiva e ortodoxa. O time apresentou raras variações táticas, pouco se arriscou e não foi brilhante. O dilema é: o sistema se apresentou desta forma pela carência de virtuosos, ou foi a estratégia que bloqueou o surgimento de mais qualidade?

Independentemente da resposta, eu reconheci como pronto para integrar o grupo principal apenas um jogador do Grêmio: o volante Bruno Renan. O camisa 8 tricolor é um segundo volante de muita qualidade, bom passe, posicionamento preciso, coragem para jogar e se aproximar dos atacantes, e marcação determinada. É um bom jogador para disputar posição na vaga de Rafael Carioca, e ser testado neste Gauchão. Outros dois atletas foram muito badalados - Mithyuê e Paulinho. O meia-atacante foi eleito o melhor do Brasileirão sub-20, mas oscila demais. É decisivo - assim foi contra Inter e Sport - com gols e assistências em rompantes. Isso é excelente. Porém, durante a maior parte do jogo, ainda se equivoca em lances fáceis (domínio, passe e condução).

Mithyuê precisa de tempo para se aprimorar, e chegar aos profissionais sem ser "queimado"Já o capitão Paulinho é um volante muito afobado, que comete faltas em excesso sem a bola - às vezes com virilidade demais - e se atrapalha com a bola, errando passes e cedendo contra-ataques. Também não o considero preparado para jogar nos profissionais. De resto, o goleiro Fernando foi mal, os laterais se mostraram burocráticos e a dupla de zaga ainda não é de confiança plena, embora tenha sido segura com Wágner e Jean.

Os atacantes foram a maior decepção, para mim: Rafael Martins não emplacou e Rafael Paraíba se assemelha a Marcel. Gostei do reserva Wesley, que tem mais movimentação, mais qualidade no drible, e finaliza melhor - foi o artilheiro da equipe mesmo no banco. Mas Roberson, que jogou a Lupi Martins, para mim é o melhor entre todos.

No Inter, mais valores surgiram do meio para a frente, sem provocar entretanto nenhuma comoção. O principal foi o atacante Marquinhos, veloz e oportunista. Artilheiro da competição, Marquinhos pode começar a reivindicar as mesmas oportunidades que Wálter e Guto receberam. O Gauchão é uma competição oportuna para isto.

Éber não foi tão badalado, mas também me agradou. Não consegui definir exatamente se ele é um segundo atacante ou um meia ofensivo - ou alguma outra alternativa que me fugiu à percepção. Mas ele aparece na área com freqüência, conclui bem e participa da articulação ofensiva. Outro atleta com alguma condição de começar a ser testado.

O volante Paulinho, que já está integrado ao grupo principal, tem boa capacidade técnica e vigor na marcação. Não me impressionei a ponto de pensar que ele vai ultrapassar Sandro na hierarquia. Acredito que o volante revelado neste ano seja o substituto de Edinho - caso o capitão da Sul-Americana deixe o clube - e Paulinho aguarde, e enquanto isso, aprimore-se.

Do lateral-direito Daniel, outro atleta esperado no grupo principal, não sei o que falar. Vi um bom jogo contra o Flamengo, e partidas apenas comuns contra Grêmio e Náutico. Não sei em qual atuação de Daniel eu confio - na primeira, ou nas duas últimas. Precisa apoiar mais, como fez contra o Flamengo.

Dediquei quatro parágrafos para cada equipe. Agora, deixo o espaço dos comentários para que os leitores do blog tragam também suas observações sobre os jogadores da dupla Gre-Nal na sub-20. Sintam-se à vontade para trazer pontos de vista diferentes, destacar atletas que ignorei ou análises que faltaram...

Postado por Eduardo Cecconi

Deu Rooney no confronto espelhado

21 de dezembro de 2008 2

Variação tática de Alex Fergusson deu certo na vitória sobre a LDU

A LDU já havia derrotado o Pachuca se utilizando do mais legítimo 4-4-2 britânico. E no Manchester United, com sir Alex Fergusson, o Four-Four-Two é lei irrecorrível. E assim, a decisão do Mundial de Clubes da Fifa proporcionou um duelo espelhado em Yokohama na manhã de hoje.

Com dois sistemas táticos idênticos, coube às estratégias distintas dos treinadores a função de diferenciar cada equipe. E também à capacidade técnica e ao talento dos jogadores, quando se exigiu improviso ou vitória pessoal.

A LDU entrou determinada a especular contra-ataques com o talentoso Manso. As duas linhas de quatro jogaram próximas uma da outra, e da intermediária defensiva para trás, formando um bloqueio. De contrapartida, retomada a bola a equipe precisava sair do próprio campo, o que invariavelmente enfraquecia seus contra-ataques pela grande distância entre seus jogadores e a área inglesa.

Sem penetração nem infiltração, e com muito campo para percorrer, a LDU criou apenas duas chances - no segundo tempo - ambas em chutes de fora da área do camisa 21 Manso, eleito o terceiro melhor atleta do Mundial. Sobraram disciplina tática e empenho, mas faltaram ousadia e ambição.

Acostumado a enfrentar adversários utilizando o Four-Four-Two de maneira defensiva na Inglaterra, o Manchester United explorou as virtudes de dois entre seus melhores jogadores: Anderson e Rooney. Sem ser volante - ou seja, sem meias centralizados bloqueando sua passagem - o ex-gremista pôde centralizar a distribuição das jogadas, principalmente com os lançamentos longos e precisos. Passes direcionados aos atacantes Rooney e Tevez.

Rooney é um especialista em combates contra defesas em linha. Ele sabe se posicionar entre os dois zagueiros, sem entrar em impedimento, recebendo em condições de apenas dominar e bater, ou até chutar de primeira. Já havia sido assim contra o Gamba Osaka, contra quem marcou dois gols, e novamente hoje frente à LDU.

No primeiro tempo, Rooney desperdiçou duas chances claras em lançamentos de Anderson. Tendo um adversário muito recuado, os zagueiros Ferdinand e Vidic, e o meio-campista Carrick também se utilizaram dos lançamentos longos para dupla Rooney-Tevez. Mas a parceria de ataque, que estava muito bem na partida, foi desfeita pela expulsão de Vidic aos 4min do 2º tempo. Fergusson retirou Tevez para a entrada do zagueiro Evans.

Neste momento, o técnico do Manchester apresentou uma variação tática interessante. Ele inverteu os posicionamentos de Cristiano Ronaldo e Rooney. O atacante inglês passou para a asa-esquerda da linha de meio-campo, e o winger português foi centralizado no ataque. Com a posse de bola, Rooney pela esquerda e Park pela direita faziam a diagonal de aproximação com C.Ronaldo, mantendo um trio ofensivo de muita movimentação. Sem a bola, Rooney e Park retornavam à linha de quatro. Houve ainda inversões - entre Rooney e C.Ronaldo, trocando de função; e entre os meio-campistas Anderson e Carrick, trocando de lado.

Em uma destas jogadas, C.Ronaldo atuou como verdadeiro pivô, recebendo a bola na frente da área e escorando para Rooney marcar. Deu certo. Na hora da alteração, no sofá da sala cheguei a criticar Fergusson - acreditei que seria melhor a saída de Park para a entrada de Evans, recuando Rooney para a asa-direita sem perder Tevez.

Mas esta alternativa ofensiva, que eu ainda não havia tido a oportunidade de conferir no Manchester United, foi decisiva para a justa vitória de 1 a 0 dos novos campeões mundiais. Fergusson acertou, e comemora o título com mérito.

Postado por Eduardo Cecconi

"Não sabe marcar" é um conceito antigo

20 de dezembro de 2008 12

Em 2005, Mano Menezes pouco utilizou o meia Anderson no Grêmio alegando que o garoto não poderia cumprir funções defensivas. O então projeto de craque do tricolor ficou no banco, para que Marcel fosse utilizado.

Hoje, Anderson atua como meio-campista centralizado em uma linha de quatro jogadores do Manchester United, com muito mais atribuições defensivas do que teria há três anos no Grêmio. Apesar de não ser um volante, na Seleção Brasileira tem sido escalado nesta função, e conta com a opinião de muitos torcedores e cronistas para ser titular.

Quando chegou ao Inter, D`Alessandro também teve sua capacidade de marcação desacreditada. Comentava-se que o astro argentino se dedicaria apenas a jogar com a posse de bola, sobrecarregando os companheiros de meio-campo.

Na decisão da Copa Sul-Americana, em La Plata, devido à expulsão de Guiñazu, Tite posicionou D`Alessandro como winger pela direita em uma segunda linha de quatro jogadores, marcando o lateral-esquerdo do Estudiantes. E D`Alessandro foi efetivo na contenção do setor, sendo visto inúmeras vezes dentro da área do Inter, bloqueando os cruzamentos.

Utilizo Anderson e D`Alessandro como exemplos do envelhecimento de um conceito clichê do futebolês arcaico: bons jogadores não sabem marcar; meias não sabem marcar; atacantes não sabem marcar. Isto não existe mais. O futebol comprova nas melhores equipes e seleções do mundo que não existe mais espaço para o "não sabe marcar".

Também em uma linha de quatro, Cristiano Ronaldo acompanha laterais e dá carrinho na linha de fundo defensiva pelo Manchester; Kaká fecha o meio-campo do Milan e acompanha volantes; Messi, Tevez e Agüero são ferrenhos combatentes argentinos nos clubes e na seleção; Van Persie, quase um ponteiro holandês, sabe recuar para jogar como um meia defensivo; o considerado "faceiro" Hugo trabalha como guardião de Jorge Wágner, cobrindo a ala-esquerda do São Paulo; Léo Lima, visto como um virtuoso irresponsável, foi segundo volante no Palmeiras com sucesso. Sobram exemplos.

Não existe mais "não sabe marcar". Pode ser que um atleta de meio-campo ou ataque não tenha a precisão do combate físico no momento certo, mas noção de posicionamento ele tem. Faz parte da tática individual de cada atleta o casamento entre suas atribuições ofensivas e defensivas - alguns com maior grau da primeira, outros com maior da segunda, mas todos com participação em ambas.

Escrevo este post porque muitos leitores do blog Preleção utilizaram a frase "não sabe marcar" para descrever jogadores do Grêmio. Respeito as opiniões, mas tomo a liberdade de discordar abrindo hoje este debate. Todos sabem cumprir atribuições defensivas no futebol. Têm que saber. Os exemplos citados acima demonstram que esta não é uma hipótese, é uma tendência dominante.

Marcar não se resume a defender. Marcar abrange diversas outras funções táticas específicas para cada setor, que podem ser assimiladas por qualquer atleta, por mais ofensivo que ele seja. Reitero: um meia habilidoso pode não ter a precisão do carrinho ou do bote de um zagueiro, mas pode ter posicionamento adeqüado, ocupar espaços, marcar por zona, bloquear diagonais e assumir muitas outras pequenas responsabilidades defensivas. As estratégias das melhores equipes compensam as características de cada atleta organizando conjuntos compactos sem a bola, cooperativos na marcação com cobertura e sobra, e eficientes pelo posicionamento preciso - não pela quantidade de carrinhos e trombadas.

Assim que funcionam os sistemas táticos bem sucedidos do futebol deste século. Assim que treinadores vitoriosos sustentam suas conquistas.

Postado por Eduardo Cecconi