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Klinsmann não deixa o centroavante morrer

25 de fevereiro de 2009 5

O Bayern de Klinsmann atua com dois centroavantes fixos na área, sendo municiados por meias velocistas que jogam abertos pelos lados, e bastante adiantados.

Se no Brasil a corrente de defensivismo parece não ser apenas uma moda de estação, ou uma paixão de carnaval – e deve permanecer por mais tempo sobre o Rio Grande do Sul, principalmente – é bom ver que na Europa existem movimentos da resgate das figuras ofensivas. É como a Renascença em meio à Idade das Trevas.

Hoje, tivemos dois exemplos de sistemas táticos e estratégias ofensivos com sucesso na Liga dos Campeões. O Chelsea, de Guus Hiddinkanalisado na semana passada pelo blog Preleçãoe o Bayern de Munique do Jurgen Klinsmann. Jogando em casa, com três atacantes, o time inglês venceu a forte Juventus; e em Portugal, os alemães atropelaram o Sporting, goleando por 5 a 0.

Talvez por ter sido um dos maiores centroavantes da história recente do futebol, Jurgen Klinsmann valoriza demais esta função. A camisa 9. O Bayern atua com dois centroavantes centralizados na área. A convicção é tão grande que ele venceu a queda de braço com o velocista Podolski, negociado com o Colonia porque não tinha espaço dentro desta estratégia.

O Bayern joga em um 4-4-2 que se aproxima das duas linhas de quatro britânicas. Os laterais cumprem funções defensivas, apoiando pouco – Oddo, principalmente, pela direita; Lahm sobe mais, na esquerda. Os dois zagueiros são protegidos por volantes desalinhados: na direita, Van Bommel fica mais recuado, cumprindo a primeira função; e o brasileiro Zé Roberto é o segundo volante, mais adiantado, marcando no campo adversário e participando da articulação.

Mas a principal diferença deste 4-4-2 para o sistema britânico, além dos volantes desalinhados, é o posicionamento dos meias ofensivos. Mais do que wingers, Ribéry na esquerda e Schweinsteiger na direita atuam praticamente como atacantes. São ponteiros, extremamente abertos e adiantados, protegidos pelo comportamento defensivo dos laterais. E dali partem as principais jogadas.

Da esquerda, Ribéry comanda a equipe, com diagonais incisivas – assim ele marcou o primeiro gol – aproximando-se da dupla de ataque e de Zé Roberto pelo meio. Quando apoia, quem vai à linha de fundo é o lateral Lahm. E na direita, Schweinsteiger procura mais os cruzamentos para a área. A dupla de meias velocistas compensa a presença de dois centroavantes com pouca mobilidade.

Dessa forma, o Bayern é todo vocacionado a jogar em função dos centroavantes. Klose e Toni saem pouco da área – a não ser para tabelar no pivô. Eles não atrapalham um ao outro, não se sobrepõem nem ocupam os espaços alheios. A delimitação é bem clara: Klose fica do pênalti para a esquerda, e Toni do pênalti para a direita. Virem-se os zagueiros para obstruir dois jogadores de imposição física, impulsão, talento na bola aérea e capacidade de conclusão com os dois pés.

Toni marcou duas vezes (um de cabeça), Klose fez o dele (em assistência do italiano, de cabeça) e Ribéry fez outro, de pênalti cometido por Fabio Rochemback sobre o lateral Lahm. No total, o Bayern criou 17 oportunidades de gol, sendo que 8 chegaram à meta. Ou seja, um aproveitamento impressionante – 8 chutes, 5 gols. Não é coincidência alcançar este número e ter dois centroavantes em campo. É consequencia.

Outro aspecto interessante da partida é a posse de bola: o Bayern teve 52%. Não jogou, portanto, apenas se defendendo e especulando contra-ataques com os meias velocistas. O Bayern jogou, com Zé Roberto comandando a saída de bola, Ribéry centralizando as jogadas mais incisivas, e a dupla Klose-Toni sendo extremamente acionada, pelo chão ou pelo alto. O Bayern gosta de jogar, e gosta de jogar dentro da área adversária.

O Bayern de Klinsmann pode inspirar quem se obstina em convicções táticas rígidas. Dá para jogar com dois centroavantes, desde que a equipe consiga sincronizar na estratégia conceitos de defesa e ataque que sustentem esta maneira de jogar. Com uma linha defensiva de quatro jogadores, e meias ofensivos abertos, adiantados e velozes, o Bayern encontrou uma boa fórmula.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (5)

  • Fábio Mota diz: 26 de fevereiro de 2009

    Cecconi, tu não acha que essa estratégia teria menos chances de dar certo no futebol brasileiro pq aqui se marca muito mais faltas?? Principalmente faltas de ataque dentro da área.

    Resposta do Cecconi: olá Fábio, tudo bem? Depende do time e da circunstância. Ano passado, por exemplo, o Palmeiras jogou com Alex Mineiro e Kléber. São dois centroavantes com maior mobilidade, saem mais da área, mas ainda assim são ambos “camisa 9″. Kléber deve repetir a fórmula este ano no Cruzeiro, com o Wellington Paulista – foi assim durante 15min no jogo contra o Estudiantes. Abração!

  • david souza diz: 26 de fevereiro de 2009

    pra tua informação, o klinsmann nunca foi centroavante

    Resposta do Cecconi: obrigado David por me informar. Agora falta informar o Klinsmann também, porque parece que ele não sabia disso quando jogava de centroavante ;) Abraço!

  • sandro diz: 27 de fevereiro de 2009

    Obrigado,Cecconi,pelo elogio,mas,tem uma outra lição que nos dá esse esquema.Você mostrou que é possível jogar com dois centroavantes,mas,a lição esquecida,não por ti,mas pelo povo é a seguinte: É POSSÍVEL JOGAR COM PONTAS ABERTOS,SEM ENFRAQUECER A ARTICULAÇÃO (desculpe o tamanho da letra).Lógico que não são os pontas de 30 anos atrás,mas jogadores velozes,que joguem abertos,busquem a diagonal e a linha de fundo e também articulem para armar o jogo.Tapa na cara dos retranqueiros de plantão.

    Resposta do Cecconi: certamente, Sandro. É isso que fazem há décadas os tradicionais clubes ingleses, no 4-4-2 em duas linhas, tendo os wingers abertos pelos lados, mas também procurando diagonais, formando um 4-2-4 com a bola. Abração!

  • sandro diz: 27 de fevereiro de 2009

    Cecconi:eu não vi esse time jogar,mas,pelo teu desenho tático,isso parece quase um 4x2x4,com dois pontas e dois centroavantes.A diferença, parece ser a que os pontas, ou meias (chame como quiser,pois jogam bem abertos),não ficam fixos,lá nas pontas,mas flutuam pelo setor de armação e articulação e de lá partem.Isso não parece ser só uma alternativa para jogar com dois centroavantes,o que é possível,pois Klinsmann jogava com Voeller,lembra?Não parece um resgate dos velhos e abandonados pontas?

    Resposta do Cecconi: Grande Sandro! Exatamente. Tu faz a mesma leitura que eu. O Klinsmann está sim resgatando um movimento à moda dos velhos pontas, mesmo que estes fechem nas diagonais também, e não procurem apenas a linha de fundo. Mas é evidente que ambos – Ribery e Schweinsteiger – jogam em função dos dois centroavantes. E como não lembrar da dupla Klinsmann e Voeller – era meu ataque de botão, com Matheus, Hasler, Koller, Brehme…timaço da Alemanha de 90. Abração, valeu pela participação!

  • LUCIANO MOURA diz: 2 de março de 2009

    A cada semana leio todos os seus posts, pois acho que antes de vc opinar sobre qualquer esquema, vc o estuda muito para não entrar em contradições ou que as suas analises não se tornem conversas chatas de mais um brasileiro que se acha um técnico no meio de 170 milhões. Mas qto a analise sobre o Bayern, eu vejo um esquema arriscado adotado por Klinsmann. O esquema do Bayern é fraco DEFENSIVAMENTE pela esquerda , mas a competencia ofensiva do time(8 chutes , 5 gols)camuflou esse ponto fraco. Até!

    Resposta do Cecconi: é verdade Luciano, pode ser um time um pouco mais vulnerável. Acho que o Bayern, assim como os times de Guus Hiddink, tem como estratégia defensiva jogar. Ser marcado ao invés de marcar com tanta ênfase. Mesmo jogando fora de casa – a partida foi em Portugal – ele manteve este sistema, um indício de que não é uma paixão de carnaval. Mas tua observação é muito pertinente. Não será sempre que o Bayern vai alcançar tão alto índice de aproveitamento das oportunidades criadas. Abração!

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