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A versão 3-4-3 de Maradona na Argentina

29 de março de 2009 8

No 3-4-3, a Argentina de Maradona atuou sem laterais ou alas. Na defesa, zagueiros versatéis combinaram a marcação em cobertura. E na frente, ele planejou atacantes com pés invertidos

Acompanhei os dois amistosos de estreia do técnico Maradona na Argentina, e em ambos (vitórias de 1 a 0 sobre a Escócia, e 2 a 0 sobre a França) o treinador se utilizou de um sistema tático pouco usual no país vizinho: o 4-4-2 britânico. Maradona distribuiu a equipe em duas linhas de quatro, tendo na primeira Zanetti, Demichelis, Heinze e Papa; e na segunda, Maxi, Mascherano, Gago e Gutierrez (sempre em ordem, da direita para  esquerda). Ele mudou apenas a frente, no primeiro jogo com Lavezzi e Agüero (se bem me lembro), e no segundo com Messi e Agüero.

Mas ontem, no 4 a 0 contra a Venezuela, Maradona adotou um sistema tático ainda mais raro: a Argentina jogou no 3-4-3. Segundo o treinador explicou a estratégia se baseou na presença de apenas um atacante na Venezuela. Pareceria um contra-senso – três zagueiros para um atacante adversário – mas a escalação, e principalmente a movimentação defensiva, justificaram a escolha.

Maradona formou a zaga com três jogadores versáteis. Angeleri, lateral-direito do Estudiantes, foi o homem da sobra; Zanetti, que atua como meio-campista em uma terceira linha da Inter de Milão, e havia jogado com Maradona na seleção pela lateral, foi o zagueiro da direita; e na esquerda, Maradona escalou Heinze, o “mais zagueiro” entre eles, mas que já atuou como lateral-base no Manchester United e no Real Madrid – onde ele vem jogando em um 3-4-3 semelhante.

A estratégia defensiva foi esta: com apenas um atacante, e uma linha de três meias, a Venezuela não encaixaria – na teoria – contra-ataques simultaneamente pelos dois lados. Desta forma, um dos zagueiros fechava, e outro saía, conforme o adversário. Se a Venezuela atacasse pela esquerda da Argentina, Heinze abria para cobrir a linha de meio-campo, como um lateral; Angeleri pegava o atacante; e Zanetti fechava para formar o segundo zagueiro. O mesmo movimento acontecia no lado contrário (Zanetti abre, Angeleri pega o atacante, Heinze fecha).

O problema, entretanto, foi a articulação. Como é de praxe em qualquer sistema com linha de meio-campo, não há um organizador. Maradona posicionou dois meias-extremos (wingers de qualidade) – Maxi na direita, Gutierrez na esquerda – e centralizou dois volantes combativos, mas pouco criativos – Mascherano e Gago. Com isso, abriu-se um latifúndio entre a linha de meio-campo e os três atacantes. Não havia aproximação pelo meio.

Com duas linhas de quatro – a exemplo dos times ingleses, e da própria Argentina dos primeiros dois amistosos – a articulação se dá pela troca constante de passes. O time “trabalha a bola”, até encaixar um passe diagonal. Os wingers apoiam simultaneamente, e contam com o suporte dos laterais-base (Evra sobe muito no Manchester, Fábio Aurélio também se arrisca no Liverpool). Ontem a Argentina trabalhou a bola. Mas, sem laterais, Maradona sobrecarregou uma linha de meio-campo sem um articulador, tornando às vezes a equipe pouco objetiva, e afastada dos atacantes.

Na frente, também a exemplo do Real Madrid – acredito que tenha sido uma referência para Maradona – ele utilizou atacantes com pés invertidos: Messi na direita, Agüero na esquerda, e Tevez centralizado. O trio se movimentou constantemente, trocando posições e invertendo funções. Mas a predileção era pela formação original. Com pés invertidos, Messi e Agüero deveriam se infiltrar nas diagonais, abrindo espaços para as subidas lateralizadas de Maxi e Gutierrez (de preferência ao mesmo tempo), atacando assim com cinco jogadores, com diversas opções de jogadas (ambos os lados, e meio). Não funcionou exatamente assim, entretanto.

Não houve apoio simultâneo pelos lados. E a bola trablhada se transformou em troca de passes sem objetividade. A Argentina contou com o brilho pessoal de Messi, e com o esforço natural de Tevez, para marcar os primeiros dois gols. Apenas no terceiro surgiu uma variação tática – Messi, Maxi e Agüero trocaram de posições, Maxi infiltrou na diagonal, Agüero abriu na direita e cruzou para o Maxi marcar. Messi, em uma diagonal de pé invertido, Agüero (da mesma forma) e Tevez (em jogada pessoal de Messi) fecharam o placar.

Fiquei com a impressão de que Maradona fez a escolha tática correta, mas com a estratégia menos adequada. O divórcio entre meio e ataque levou Messi a ser o articulador. Quem sabe este sistema tivesse obtido mais facilidade se Verón começasse a partida no lugar de Gago. Nem vou citar Riquelme, que abandonou a seleção – outra alternativa plausível. Quem sabe até Dátolo, passando Mascherano para o lado direito. Haviam opções.

Outra conclusão ainda incipiente que formulei: este 3-4-3 não será adotado contra equipes que tenham apoio simultâneo pelos lados. O Brasil, por exemplo. Maxi e Gutierrez não foram alas, mas sim wingers típicos. Zanetti e Heinze foram zagueiros lateralizados. O time não contou com um lateral, ou ala, na cobertura da linha de meio-campo. Talvez jogar contra um adversário que abra a articulação (Robinho e Elano, com Kaká e Luís Fabiano pelo meio, por exemplo) elimine a sobra e force as jogadas às costas da linha de meio-campo, retirando os zagueiros da área. Mas, isso tudo na teoria. Acredito que contra o Brasil Maradona retorne ao 4-4-2 britânico ou apresente ainda uma terceira opção tática, mas com lados mais protegidos.

Em todo caso, é bom ver Maradona apresentando sistemas táticos bem definidos, com variações, estratégias diferenciadas e alternativas de jogo-a-jogo. Para quem duvidava de sua capacidade, Maradona tem se mostrado um treinador, não apenas um ídolo, ou um motivador. Ou um laranja de Billardo. Maradona – nem seria preciso dizer isso – conhece.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (8)

  • Carlos Pizzatto – Blog do Carlão diz: 29 de março de 2009

    Não vi toda a partida. Mas entendo que neste esquema falta um homem criativo para aparecer pela faixa central do campo ofensivo. Messi pode fazer também este papel, que até outro dia era desempenhado por Riquelme, e que eventualmente ele faz no Barcelona ( http://carlospizzatto.blogspot.com/2009/03/messi-muito-mais-que-um-ponta.html ).

    Abraços.

  • isaias diz: 29 de março de 2009

    Até o maradona sabe alguma coisa de esquema tatico.. e o gremio com aquele jumento do celso roth ainda acredita que o time vai conseguir algum titulo este ano…

    DEUS ME AJUDE… O Roth é tão burro que até o maradona cherado sabe mais que ele…

  • Paulo Mendes diz: 30 de março de 2009

    Caro Eduardo Cecconi, na verdade o esquema não importa muito, mas sim quem joga e a qualidade técnica, dedicação e doação ao time de quem veste a camisa. O resto é papo furado de treinador e comentarista esportivo!

  • Torquato diz: 29 de março de 2009

    É forçoso reconhecer: Maradona sabe tudo. Não gostei do primeiro tempo da Argentina. O velho toque de bola típico dos “hermanos” mas sem objetividade. No entanto, no 2do tempo, com um par de finos retoques táticos, Maradona asfixiou a Venezuela. Todavia, os 3 avantes são de baixa estatura. Só tem a opção aérea na bola parada, com a subida de um zagueiro. Embora sem Riquelme, com Tévez e Messi, Argentina tem café no bule. E o carisma de Maradona continua a empolgar torcedores pelo mundo afora.

  • João Henrique diz: 29 de março de 2009

    Tudo bem Eduardo? Só discordo de você no ponto que você diz que Maxi e Gutierrez são wingers, acredito que eles são na verdade alas, visto que possuem também função defensiva. O meio realmente não é criativo, essa função passa a ser de Messi, mas os alas são rápidos e os meias defensivos tem bom passe o que ameniza esse problema. Abs

  • Alysson Gomes diz: 30 de março de 2009

    O Maradona devia ensinar o Dunga a ter ousadia, ir pra cima. O jogo era contra a Venezuela em casa, vai pra cima, joga sem zagueiro de ofício, três atacantes, e dá uma goleada. Óbvio que ele não usará esse esquema contra times mais qualificados, mas era a Venezuela. E um time que tem Lionel Messi a jogada mais fácil é jogar a bola para ele e deixar que ele resolva, porque ele vai resolver, não vai amarelar (que nem R. Gaúcho). E eles tinham no banco Milito, Di Maria, Lavezzi, Veron…

  • Paulo R. diz: 29 de março de 2009

    Sensacional muito boa essa analise !

  • Preleção » Blog Archive » Seleções da Copa 2010: análise tática da Argentina diz: 7 de maio de 2010

    [...] abre os trabalhos do Grupo B com a Argentina. Equipe que, com Maradona, iniciou no 4-4-2, passou pelo 3-4-3 – melancolicamente – e retornou ao 4-4-2 em duas linhas de quatro jogadores, sistema bastante comum [...]

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