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O Santos de Mancini marca com a bola

19 de abril de 2009 11

No diagrama tático do Santos, as flechas pretas representam o movimento de marcação sem a bola dos jogadores Santistas, enquanto as fechas claras demonstram a movimentação com a bola.

Começo este debate propondo uma pergunta aos amigos: qual o melhor sistema de marcação? Por zona, individual, meia pressão, pressão, pressão alta ou misto? Se me permitem, eu arrisco a resposta. Nenhum destes. O melhor sistema de marcação é manter a posse de bola. É assim que joga o Santos de Vágner Mancini.

O Santos é um dos poucos – talvez o único – grande clube brasileiro atuando no 4-3-3 hoje. E ao contrário do que os comentaristas pobres de recursos dizem, não é faceiro, nem irresponsável. Assisti ontem na vitória de 2 a 1 sobre o Palmeiras fora de casa a um Santos organizado, disciplinado, forte na defesa e absolutamente imprevisível no ataque.

Vágner Mancini conta com dois atacantes de muita movimentação, velocidade e habilidade – Neymar e Madson – que jogam abertos pelos lados, e trocam constantemente de posição. Com isso, ora o destro Neymar busca a linha de fundo na direita, ou a diagonal na esquerda, ora o canhoto Madson faz o mesmo – linha de fundo na esquerda, diagonal na direita.

Ambos são abastecidos pelo talentoso meia Paulo Henrique, que joga centralizado uma linha atrás da dupla de atacantes, aproximando-se daquele que estiver com a bola para tabelas curtas e passes de primeira. O ataque é completado pelo centroavante Kléber Pereira, que participa das jogadas recuando para fazer o pivô, tabelar e girar. Eles – Neymar, Madson, P.Henrique e Kléber – formam na verdade um quarteto ofensivo.

Os laterais também apoiam. Luizinho sobe na direita, e Triguinho faz o mesmo na esquerda. Assim, o Santos sempre se apresenta com três jogadores em cada lado: Madson ou Neymar, Paulo Henrique e o lateral do setor. O primeiro volante cobre a direita, o segundo volante cobre a esquerda – e ambos se adiantam para pegar a segunda bola. Kléber Pereira e o outro atacante entram na área. O lateral do lado inverso fecha para compôr o meio-campo.

É desta forma que o Santos marca o adversário: jogando. Como eu repito insistentemente, time que tem a posse de bola sofre gol apenas se chutar contra o próprio goleiro. Com movimentação intensa, aproximações e diversas alternativas – três atacantes, um meia, dois volantes e dois laterais – o Santos varia as jogadas, troca passes e sempre conta com alguma opção diferente, enlouquecendo a marcação adversária.

Antes que algum comentarista que acha o 4-3-3 “faceiro” tenha um enfarto, sem a bola o Santos marca sim. E marca muito. A exemplo do Chelsea, que encaixa seus atacantes no lateral adversário, os atacantes do Santos voltam até onde for preciso para auxiliar no combate. Afinal, jogador de futebol que “não marca”, como dizem por aí, precisa trocar de profissão. Madson e Neymar bloqueiam os lados, liberando os laterais para a cobertura. Os volantes recebem o apoio do meia à frente da área, guarnecidos pelos zagueiros. E até mesmo Kléber Pereira retorna. Todos prontos para disparar no contra-ataque.

Mas um dos principais legados para reflexão deste 4-3-3 do Santos é o sistema de marcação – agora me refiro à escolha sem a bola, não à valorização da posse. O Santos marca por setor. Não há combate individual. Assim o time não se abre. Vejamos: Neymar e Madson fecham os lados, alinhados com Paulo Henrique. Os volantes cobrem os laterais, quando há apoio, ou fecham a frente da área. Os laterais fecham o meio quando o lado atacado é o inverso. Saiu do meu setor? Agora é com o companheiro. Comparemos com o 3-5-2, pegando o exemplo do Grêmio de Celso Roth, que está fresco na nossa memória.

No 3-5-2, a marcação escolhida no Brasil é a individual, ou por função. Ala pega ala (ou o lateral), meias pegam volantes, volantes pegam meias, e zagueiros pegam atacantes. E dessa forma, o que acontece? O time fica refém do rival, e acaba facilmente se abrindo. Exemplos: no último Gre-Nal, Tcheco marcou Magrão, e Adilson pegou Guiñazu. Réver ficou em Andrezinho, Léo em Taison e Thiego em Nilmar. Souza encaixou em Kléber e Fábio Santos em Bolívar. A sobra não pega ninguém, só faz cobertura.

Resultado: quando Magrão e Guiñazu passavam pelos lados, levavam junto Tcheco e Adilson, abrindo a frente da área gremista e aumentando o campo entre meias e atacantes do adversário, o que dificultou a retomada em velocidade e matou os contra-ataques. Sem o apoio dos laterais colorados, Souza e Fábio Santos precisaram fazer o encaixe lá em cima, abrindo uma avenida às costas, de onde Taison partia com muito campo para cima de Léo – sem cobertura, pois Réver cuidava de Andrezinho. O Grêmio armou uma armadilha para ele mesmo, prendendo seus jogadores e abrindo espaços para o Inter jogar.

No 4-3-3, o Santos marca jogando, trocando passes, alternando jogadas e atacando; e também marca sem a bola, compactando a equipe e combatendo o adversário por setor. É claro que Vágner Mancini conta com um grupo apropriado para isto – é preciso jogadores com velocidade e comprometimento, como fazem Madson e Neymar. Mas esta é sua maior virtude: aplicar na equipe um sistema tático e uma estratégia adequados às características do elenco.

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (11)

  • Paulo Borges diz: 20 de abril de 2009

    Olá Eduardo Cecconi, como vai? É muito bom ver no cenário do futebol brasileiro sistemas táticos ofensivos dando certo, pois seria um incentivo a mais aos times daqui seguirem o mesmo! O Corinthians está jogando de um modo muito parecido, com Jorge Henrique pela direita, Dentinho pela esquerda e Ronaldo centralizado. Os dois segundos atacantes voltam pegando os laterais adversários ou ajudando fechar o meio. Douglas era o único armador, vinha pelo meio cadenciando o jogo! vale uma analise! Abraç

  • Leonardo M. diz: 20 de abril de 2009

    Cecconi discordo de ti sobre o santos. Se os “atacantes” voltam pra marca, ajudam na armação das jogadas como principalmente o madson faz, isso é um 4-5-1, com variação pra o 4-3-3. Simplismente porque os atacantes estao muito pouco na última linha de frente e muito mais na linha mais atrás, a linha do meio campo.

    Resposta do Cecconi: olá Leonardo. Discordo, mas respeito essa análise. Vou escrever sobre isso agora para desenvolver meu raciocínio. Abração!

  • Leandro diz: 20 de abril de 2009

    Bom Eduardo gosto muito dos teus comentários, mas divirjo de ti quando dizes que time que mantem a posse de bola só leva gol se chutar contra o próprio goleiro. É claro que essa afirmação está certa de início, mas também é verdade que quanto mais tempo um time passa com a bola mais chance ele tem de perder essa bola, e – como esse time está distribuido em campo de forma a manter a posse de bola – basta que a bola seja perdida para que seja um salve-se quem puder no sistema defensivo. Abraços.

  • Eduardo João diz: 20 de abril de 2009

    Eduardo, o Mancini faz um excelente trabalho, mas o time é muito fraco individualmente. Ganhou duas partidas do Palmeiras, mas convenhamos o Palmeiras não esta la essas coisas, o Luxa deixou de ser treinador faz tempo.

  • Marcelo Padilha diz: 19 de abril de 2009

    Eduardo me responda:Mancini e Menezes adotaram o mesmo esquema ?, um 4-3-3 com a posse da bola e um 4-2-3-1 sem ela, semelhante ao de Wenger no Arsenal porém sem os wingers?

    Resposta do Cecconi: olá Marcelo, tudo bem? Não pude ver o jogo do Corinthians hoje, portanto vou falar só do Santos. Para mim é um 4-3-3 convencional. É da função dos atacantes pelos lados (antigos pontas) retornar para marcar. Em Tóquio, o Renato e o Caio marcavam os laterais do Hamburgo. No Chelsea o Anelka e o Malouda voltam com os laterais adversários. Por isso para mim não é uma variação tática, porque é da função de “ponta” marcar o lateral.

    Mas cabe sim o exemplo com o Arsenal quando o Wenger abre o Arshavin e o Walcott pelos lados, com Adebayor centralizado na área e Van Persie de “enganxe”…este sim é um 4-5-1 com variação para 4-3-3, embora eu tbm ache que o movimento destes meias-extremos no ataque seja natural…

    Enfim…são diferenças tênues de conceitos. Certamente há pessoas que pensam diferente de mim nesta avaliação.

    Grande abraço!

  • Iuri diz: 19 de abril de 2009

    Muito boa análise! O Santos jogou muito nessa semifinal, e realmente, é um time ofensivo sem ser “faceiro”. Mas gostaria de te perguntar uma coisa: tu não acha que o Grêmio tem atacantes no elenco que poderiam realizar a função ofensiva-defensiva de um 4-3-3? me arrisco a dizer que o elenco se adaptaria muito bem ao sistema, que diferente do que pensam, tem tudo a ver com o a tradição do Grêmio.

    Resposta do Cecconi: Oi Iuri. Cogitei isso, mas não vejo no Grêmio atacantes com as características de velocidade e empenho para marcar e atacar. Vejo isso no Inter, que poderia fazer com Taison e Nilmar pelos lados, Alecsandro no meio, D`Alessandro centralizado na articulação, e dois volantes – que poderiam ser Sandro/Magrão e Guiñazu. Abraço.

  • João Manoel diz: 19 de abril de 2009

    Vais apanhar dos teus colegas que falam que Mancini não sabe nada e joga faceiro. Pelaipe e Odone é que sabem tudo de bola escudados por Cacalo para contratar Roth.

  • antonio diz: 19 de abril de 2009

    perfeita a análise do santos. E o corinthians semana passada jogou de um jeito bem parecido, e hoje de novo. Semana passada o mano encaixou os tres atacantes nos tres zagueiros do corinthians e no primeiro tempo os tres zagueiros ja tinham tomando amarelo (inclusive esperei a analise daquele jogo, que teve um duelo tatico muito bom).
    Se der poderia fazer a analise do jogo de hoje do corinthians, que foi bom de novo.
    Abraço

  • Guilherme Barcellos diz: 20 de abril de 2009

    Concordo com quase todos os pontos, exceto o de que os “second top`s” marcam. Na verdade, eles apenas cercam o adversário, como acontece com boa parte dos dois meias do 4-4-2, fazendo a clássica “incomodação” na saída de bola. Mas marcar mesmo, não marcam.

  • Fernando N diz: 22 de abril de 2009

    “Mas esta é sua maior virtude: aplicar na equipe um sistema tático e uma estratégia adequados às características do elenco.”

    Disse tudo, depende do elenco. Time ruim tem que fazer retranca mesmo. Como o Caxias venceria o inter por exemplo com um 4-3-3? Acretido que o melhor esquema para time pequeno é o 3-6-1.

  • Yuri diz: 20 de abril de 2009

    o santos tem uma deficiencia cronica: o contra-ataque sempre è mortal, SEMPRE pegam o time sem a formaçâo defensiva necessaria, sem os volantes no lugar, e sempre em vantagem pros zagueiros, é o que eu noto vendo os jogos do santos (o meu time) e o que me deixa irritado. este jogo tb o palmeiras tava desfalcado (edmilson, cleiton x..)

    mas vc acertou em cheio na comparação tatica com o chelsea, o mancini ja disse que procura dar uma `cara inglesa` pro santos, este 4-3-3 muito popular hoje la

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