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Diferenças entre tática individual e variação

20 de abril de 2009 15

Falar sobre o 4-3-3 do Chelsea e do Santos suscitou um grande debate via Twitter, com diversos amigos – principalmente o Carlos Pizzatto, do Blog do Carlão. E como o assunto é interessante, resolvi dissecar a minha linha de raciocínio em um post, sempre respeitando quem pensa de maneira diferente, e sem me colocar como o proprietário de uma verdade que não existe. Afinal, neste tipo de análise a semelhança ou a diferença entre percepções é extremamente tênue.

No futebol, pela teoria, existem três tipos de táticas. A tática coletiva – ou sistema tático – que representamos pelos numerozinhos (4-4-2, 4-3-3, etc…); a tática de grupo, que envolve jogadores aproximados em setores (defesa, meio-campo, ataque, triangulações por setor, cobertura em sistemas de marcação, etc…) e a tática individual – a função que cada jogador cumpre dentro das táticas de grupo e da tática coletiva.

Na tática individual, é preciso levar em consideração o que é atribuição desta função específica com a bola e sem a bola. Para mim, uma equipe só apresenta variação tática quando um mesmo jogador cumpre duas funções (táticas individuais) diferentes. Do contrário, não há variação de sistema se um jogador desenvolve vários movimentos – mesmo que complexos – que fazem parte de uma única tática individual.

Exemplo: em dezembro, a TVCOM reprisou a íntegra do jogo Grêmio x Hamburgo, comemorando os 25 anos da final do Mundial. Eu parei para assistir. O Tricolor de Valdir Espinosa jogava no 4-3-3, com Renato na direita, Caju (depois Caio) na esquerda e Tarciso centralizado. Com a bola, Renato abria para receber ao lado da área; e sem a bola, ele acompanhava o lateral do Hamburgo. E não foram poucas as vezes que Portaluppi foi visto na bandeirinha de escanteio defensiva dando carrinho para bloquear o jogador alemão.

Isto significa que o Grêmio variou taticamente do 4-3-3 para o 4-4-2, ou para o 4-5-1, só porque os pontas marcavam os laterais do Hamburgo? Não. Marcar é uma das atribuições da tática individual do ponta. Foi 4-3-3 do início ao fim. Estar no campo de defesa auxiliando Paulo Roberto não fazia de Renato um meio-campista, ala, ou volante. Ele seguia um ponta-direita. Cumprindo uma de suas atribuições: marcar sem a bola, jogar com ela.

Hoje, diversas equipes jogam no 4-3-3. Na Europa, claramente o Chelsea e o Barcelona. No time inglês, com Malouda e Anelka (ou Kalou) pelos lados; e no Catalão, com Henry e Messi. Não raro vemos Anelka cobrindo Ivanovic, e Malouda auxiliando Ashley Cole. Fazem o mesmo no Barça o Messi em socorro a Daniel Alves, e Henry com Abidal.

No sistema tático 4-3-3, mesmo que os atacantes pelos lados não sejam “pontas”, mas sim os chamados “second top`s” (algo como “segundo atacante”, o jogador de movimentação) faz parte da sua tática individual, dentro das táticas de grupo e coletiva, marcar o lateral adversário. Geralmente, a marcação escolhida é mista: por zona na defesa e no meio-campo, centroavante em meia-pressão ou pressão na saída de bola, e por função pelos lados – atacantes pegam laterais, individualmente. Não há variação para o 4-5-1, portanto. É um movimento natural.

Vejo semelhanças no caso do Santos, que analisei ontem. Neymar e Madson são atacantes pelos lados. Jogam à frente do articulador Paulo Henrique, abertos e verticais – estão a poucos passos da área, e todas as jogadas que promovem não são de organização, mas sim de preparação para a finalização. Eles não pensam o jogo, mas sim encaminham a conclusão de jogadas. Mas sem a bola, combatem os laterais – principalmente em pressão, ou pressão alta, na saída de bola. Não vejo variação tática, portanto. Para mim, é 4-3-3.

Outro ponto importante para mim neste debate: sou muito resistente – e só uso a pedido de alguns leitores – a descrições táticas com quatro números. Afinal, o campo só tem três setores: defesa, meio e ataque. Para mim, dizer que o Arsenal joga no 4-2-3-1 confunde – e quando faço isso, é para evitar polêmicas e agradar ao paladar da maioria. Prefiro dizer que o Arsenal joga no 4-5-1, com dois volantes e três meias.

E por aí vai: não gostaria de dizer que o Brasil tetracampeão jogou no 4-2-2-2, mas sim no 4-4-2 com meio-campo em quadrado; Senão, nos veríamos obrigados a dizer que o Inter do Tite joga no 4-1-2-1-2. Horrível, né? Para mim, é o velho e bom 4-4-2 com meio-campo em losango. Acho melhor descrever um sistema tático pelos três setores, e desdobrar a análise textualmente com o desenho do meio-campo.

Muita numeração para caracterizar o sistema tático complica demais, e é um modernismo que acredito desnecessário. Além de prejudicar a análise do todo, pois acabamos percebendo variações demais quando na verdade os jogadores não deixaram de cumprir suas atribuições naturais, nem saíram de seus setores de origem. Não sei quem inventou isso, mas não concordo. Respeito quem pensa diferente. O debate está aberto…

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (15)

  • Helio Damiani diz: 20 de abril de 2009

    Analisando tudo o que falaste me lembrou uma aula do segundo semestre da faculdade de Administração: Introdução ao Planejamento (plano estruturado para chegar a um determinado objetivo):
    -Planejamento Estratégico:plano de toda a empresa(neste caso o time como um todo);Planejamento Tático ou Setorial:plano de um setor para auxiliar no alcance do objetivo estratégico em conjunto com outros;Planejamento Operacional:plano de atuação
    Individual dentro do setor para alcançar o planejamento tático.

  • Luiz Carlos Knopp diz: 20 de abril de 2009

    Parabéns Cecconi, brilhante comentário!

  • Osório diz: 21 de abril de 2009

    Obrigado pela explicação, pois não sou burro e nunca entendi exatamente as duas situações que você esclareceu. Se um atacante acompanha a subida de um lateral, não vejo motivo para descrever que a equipe muda de 4-3-3 para 4-4-2, pois é só o cumprimewnto de uma função. Senão teríamos que dizer, por exemplo: o gol da equipe x aconteceu porque o lateral teve espaço, pois o time não mudou do 4-3-3 para o 4-4-2 quando deveria. Absurdo, não? O correto é o fulano não acompanhou o lateral. Só isso.

  • Osório diz: 21 de abril de 2009

    Continuação… Quanto ao segundo caso, sem maiores comentários, pois querer dividir o campo em pequenos espaços para definir táticas individuais é simplesmente complicar.

  • João Henrique diz: 20 de abril de 2009

    Excelente tema para debater Cecconi – inclusive gostaria de ver mais temas como esse se possivel. Esse debate depende realmente do conceito de cada um acerca do tema proposto. Considero que uma tática individual gera sim uma variação tática, mesmo que os atacantes só recuem para marcar os laterais e isso seja uma tática deles, acaba ocasionando uma variação de posicionamento e sendo assim uma variação tática.

  • Michel Costa diz: 20 de abril de 2009

    Belo texto, Eduardo. No entanto, discordo qdo diz que não é interessante descrever um sistema tático com 4 números. No caso de alguns times, acho fundamental fazê-lo. Dizer que um time jogou num 4-2-3-1 é explicar para quem não viu ou para quem não entende do assunto que uma equipe atuou com 4 na defesa, 2 volantes, 3 meias e 1 atacante mais enfiado. Nesse caso, os 4 números servem para ajudar a enxergar como uma equipe se dispõe em campo. Portanto, penso que se trata de algo válido. Abs.

  • Prancheta do Técnico diz: 21 de abril de 2009

    Olá Eduardo . Parabéns pelo blog. Discordo de você quanto as diferenças por exemplo de um 4-4-2 para um 4-2-1-1-2 do atual Palmeiras de Luxemburgo. Claro que tudo é muito dinâmico , mas de acordo com o planejamento do treinador o 4-4-2 varia de um quadrado, para um losango, ou com 2 meias abertos, ou ainda no 4-1-3-2. Enfim, creio que esta nomenclatura, para análises é relevante sim.

    http://www.pranchetadotecnico.blogspot.

  • Pedro Souto diz: 20 de abril de 2009

    Chelsea, com Felipão: Mikel como volante defensivo; Ballack como meia pela direita, Lampard, como meia central, e Deco pela esquerda;
    E alguns outros modos…
    Por isso, no momento em que não se pode fazer o desenho tático, é usada essa série de números.
    Um abração!

  • Pedro Souto diz: 20 de abril de 2009

    Cecconi, imagino que esse monte de números sirva para imaginarmos o desenho tático.
    O meio campo do 4-4-2 tem inúmeras variações:
    Internacional, como já citastes: Sandro, pelo centro, mais defensivo; Magrão, volante pela direita; Guiñazu, volante pela esquerda; D`Alessandro, meia ofensivo.
    Manchester United: uma linha com Cristiano Ronaldo, pela direita; Carrick e Scholes, pelo centro; Giggs pela esquerda.
    —> Continua —>

  • Lucas Ritzel diz: 20 de abril de 2009

    Eduardo, isso vem de encontro com o meu pensamento, não de que se deve jogar com esse ou aquele esquema, mas sim que qualquer jogador dentro do campo tem funções de marcação sim.Por exemplo, na quarta-feira, Maxi López exerceu essa função de marcação dos zagueiros com muita qualidade, não deixando a defesa da Universidad de Chile sair com tanta facilidade.Além de ter essa caracteristica, ele tem o tamanho apropriado para esse combate.Algo que o Alex Mineiro parece não fazer com tanta forç

  • Cauê Biedacha diz: 21 de abril de 2009

    Concordo 100%……esse blog está muito bom, parabéns Eduardo.
    Gostaria de uma análise sobre o time do Arsenal, que empatou 4 a 4 com o Liverpool, com o trio Arshavin, Fabregas e Nasri.
    Abraço.

  • João Henrique diz: 20 de abril de 2009

    Em relação a “decomposição” tática realmente fica um estranho colocar por exemplo vários números, apesar que eu prefiro, para não ter problemas usa os dois modos 4-4-2 ou 4-2-2-2. Vou citar um exemplo o Manchester usou um 4-4-1-1 no segundo jogo contra o Porto, poderiamos interpretar então que a equipe jogou no 4-5-1 ou 4-4-2, – vai depender de quem vai análisar – usando o termo 4-4-1-1 evitamos esse problema. Abs

  • Marcos diz: 20 de abril de 2009

    Eduardo,

    gosto muito do teu blog e das tuas analises. Parabens pelo excelente trabalho!

    Quanto as variacoes que citaste, bem interessante. Ontem eu estava assistindo ao jogo Inter e Caxias e me lembrava do teu post, onde Argel organiza seu time num “agressivo” 4-3-3 e Tite, num “defensivo” 4-4-2. E` claro, temos ai` uma GRANDE varavel que e` a qualidade dos jogadores. O teu atual post explica outras variaveis do que assistimos ontem: a tatica de grupo e a individual.

    Parabens novamente!

  • Leonardo M. diz: 20 de abril de 2009

    Cecconi muito boa tua explicação. Serviu esclarece melhor a diferença dos nossos pontos de vista. Eu vi o Neymar e principalmente Madson armarem o Santos, potanto mundando de tática individual. Assim na minha opniaõ tb fazia o Ronaldinho no barça mesmo ecostado na linha lateral, ele armava muito o joga fazendo lançamentos e tal. Acho que a sua explicação cabe melhor pro Corintias, onde os atacantes realmente so ajudam na marcação não armam a equipe como eu acho que ocorre no santos.

  • Alexandre Ph diz: 20 de abril de 2009

    Pra quem está se habituando a essas análises sugiro usar as duas opções

    4-4-2 e o 4-1-2-1-2 que é muito mais explicativo se tu não explicar depois que é um losango, por exemplo.

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