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São Paulo e o ocaso do 3-5-2 brasileiro

20 de junho de 2009 12

No diagrama tático do jogo contra o Cruzeiro, a simulação da jogada principal do São Paulo: a sincronia de movimentos entre Washington e Borges, na ligação direta que aciona a dupla de ataque. Washington disputa no alto, e Borges fica com a sobra.

Após três temporadas e meia, ruiu a fortaleza que sustentava o 3-5-2 à brasileira. O São Paulo deixou a Libertadores; ontem Muricy Ramalho saiu do clube. E assim, com a derrocada do refúgio derradeiro de apoio aos três zagueiros, alas abertos e ligação direta, assistimos ao ocaso deste sistema tático. Os alicerces já haviam trincado quando o mesmo 3-5-2, siamês, deixou de existir no Grêmio. Acabou-se no Sport Recife. No Palmeiras, o fim dele também se aproxima – os resultados devem pressionar uma troca.

Assisti ao jogo de quinta entre São Paulo e Cruzeiro. O São Paulo foi o mesmo time de sempre, repetindo o sistema tático e a estratégia das últimas três temporadas. A derrota, e mais uma eliminação para brasileiros na Libertadores, não foi exclusivamente provocada pelo esgotamento do sistema tático. Contribuiu – e muito – a crise técnica de jogadores importantes, como Jorge Wágner, Hernanes, Washington…a ausência de Miranda, e a lesão de Rogério Ceni. É uma combinação destes dois fatores.

O time se desconfigurou, e sem a base de jogadores, as deficiências do 3-5-2 à brasileira são-paulino emergiram. Antes, os problemas deste sistema tático eram mascarados pelas precisas cobranças de faltas e escanteios do Jorge Wágner, pelas cabeçadas certeiras de Miranda e Aloísio, pelo oportunismo do Borges, ou pela qualidade de Hernanes nos chutes de média distância. Apagadas as estrelas, apareceram os defeitos táticos.

O São Paulo joga (ou jogava) apostando tudo na bola pelo alto. Com jogo em andamento, a estratégia principal de articulação baseava-se em um movimento sincronizado dos atacantes: Washington (antes Aloísio) recua para a intermediária, puxando a marcação; e Borges avança na diagonal às costas deste zagueiro.

E de longe, os próprios zagueiros do São Paulo se incumbiam de lançar Washington. A intenção não era fazer o centroavante dominar, mas apenas disputar a bola, para que ela sobrasse limpa nos pés de Borges. No Grêmio, a mesma estratégia foi utilizada ano passado: Pereira lança de longe, Marcel disputa no alto, Perea pega a segunda bola. Sem meio-campo nem posse de bola, Pereira era o camisa 10. O armador do time.

Reparem nos gols mais recentes do São Paulo. Contra o Santo André, por exemplo. Ou contra o Defensor. Independiente Medellin. Time encaixotado, poucas alternativas, sem controle da partida ou posse de bola. Sem variações, sem infiltrações, sem bola no chão. O que fazer? Bola longa no Washington, trombada, rebote de Borges: gol. Quase um movimento de quarter-back para wide receiver.

A segunda estratégia era jogar pelos lados com os alas abertos, para buscar cruzamentos que originassem ou jogadas aéreas, ou escanteios para as jogadas aéreas; ou então conquistar faltas laterais, com o mesmo propósito.

Sem a bola, o São Paulo sempre apostou na marcação por função, e no bloqueio da área, com força física e muita consistência. O sucesso do São Paulo em três temporadas de grandes títulos fiou-se na solidez defensiva, na competitividade, na disciplina tática, no talento de grupos qualificados, e na eficiência ofensiva, aproveitando as poucas chances criadas. Defesas menos vazadas, ataques suficientemente positivos.

Mas esta estratégia se esgotou. A bola lançada para Washington não respingava mais nos pés de Borges; a jogada pelos lados foi bloqueada; as faltas laterais e escanteios e cruzamentos passaram a ser bem marcados, ou evitados na origem. Aliada à previsibilidade do sistema tático, houve a citada crise técnica dos jogadores que antes decidiam, e se sobrepunham às decisões táticas.

O São Paulo do Muricy lançou moda, e será durante muito tempo uma referência tática histórica no futebol brasileiro: o 3-5-2 competitivo e eficiente. Vencedor. Fez escola, encontrou seguidores, e é reproduzido fielmente em todo o país, por clubes pequenos ou grandes. Mas o ciclo acabou. Qual será o próximo 3-5-2 sem meio-campo que vai ruir?

Postado por Eduardo Cecconi

Comentários (12)

  • Blog do Carlão – Futebol é nossa área diz: 20 de junho de 2009

    Não bastasse insistir no chuveirinho, o São Paulo não fazia um cruzamento sequer da linha de fundo, só da intermediária. Aí fica fácil para os zagueiros adversários.

    Eduardo, fiz três pranchetas com possíveis alternativas táticas para o São Paulo, todas com dois zagueiros. Dê uma olha quando puder: http://carlospizzatto.blogspot.com/2009/06/possiveis-opcoes-taticas-para-o-sao.html . E claro, deixe sua opinião, se quiser.

    Abraços.

  • Leonardo diz: 22 de junho de 2009

    Realmente o esquema 3-5-2, do modo como vem sendo implantado no Brasil, vem enfrentando dificuldades. No entanto, acredito muito mais no seu ocaso pois vem sendo aplicado em grupos que não possuem jogadores adequados para executá-lo. O Grêmio, por exemplo, não possuem jogadores competentes o suficente para exercerem o papel de alas, importantissimo para o sucesso desse esquema. Não podemos esquecer da Selação brasileira de 2002, do gremio de 2001, bom times, jogando no 3-5-2.

  • Fabio Henrique diz: 22 de junho de 2009

    Marcos Borges citou o Flamengo, e quero tb dar meu pitaco sobre os cariocas; Cuca pode (e deve) armar o time com Léo Moura e Juan como wingers, Ibson e Kleberson no meio e Adriano no ataque, duplando com outro atacante. Parece-me que seria uma alternativa boa desde que todos os titulares joguem, qual a sua opinião, Cecconi?

    Resposta do Cecconi: não é de se descartar, Fábio. Léo e Juan poderiam executar esta função, apesar de aqui no Brasil o 4-4-2 britânico não ser um sistema de profundo conhecimento dos atletas. Mas é uma boa sugestão. Abraço!

  • Ronei diz: 22 de junho de 2009

    Eduardo, faz uma análise do Atlético MG do Celso Roth… Ainda não vi nenhuma partida deles, mas o começo promete (em se tratando de Roth, acho que isso apavora mais do que estimula, hehe).
    Qto ao 3-5-2, nas duas últimas temporadas vi vários jogos do SP e concordo plenamente: os caras seguravam o jogo e, zás, numa escapada faziam o gol da vitória. Mas isso só mostra que futebol, hoje, é resultado. Abraço.

  • Leonardo M. diz: 20 de junho de 2009

    Cecconi, tu não acha que 352 “à brasileira” parece mais com o velho Catenaccio italiano pelo menos na linha defensiva?

  • Renato Lauris diz: 21 de junho de 2009

    Parabéns, Eduardo Cecconi! Teu blog está cada dia melhor!Sempre com análises lúcidas e bem fundamentadas do futebol. Gostaria de te perguntar que com a falência do 3-5-2 à brasileira, quais esquemas táticos poderiam aparecer como alternativa, além do tradicional 4-4-2? Um abraço!

    Resposta do Cecconi: olá Renato. A alternativa é todo aquele sistema que estiver de acordo com a característica do grupo de jogadores. No Palmeiras o Luxemburgo força o 3-5-2, ou 3-6-1, mas não tem nenhum ala. E pior, conta com dois meias de características complementares – Cleiton Xavier é organizador, Diego Souza é apoiador. Serviria um 4-4-2 em quadrado. Já o Inter se encontrou no 4-4-2 em losango. A Seleção vai muito bem no 4-5-1 com três meias (também chamdo de 4-2-3-1). São exemplos que demonstram a seguinte tese: o sitema não pode se impôr ao grupo. E ultimamente o 3-5-2 vinha sendo forçadamente adotado. Deu no que deu. Abraços!

  • Samuel Ritter diz: 22 de junho de 2009

    Cecconi, considero vc um dos maiores conhecedores do futebol, mas acho que vc está sendo muito duro com o esquema tático são paulino. A maior perda que o São Paulo teve esse ano foi seu capitão, Rogério Ceni. Foi então que o time ruiu, acabou a união do grupo dentro de campo, a liderança importante, a reposição de bola precisa e as cobranças de falta matadoras. Qual a importância de um goleiro no esquema tático? Ceni fazia a diferença no 3-5-2 de Muricy, sem ele o esquema ruiu.

  • Alberto diz: 21 de junho de 2009

    Esse esquema do São Paulo era/é totalmente engessado, lembra muito aquelas seleções européias tipo Irlanda, Noruega e outras que pressionadas e diante de inovações de marcação dos adversários não sabem o que fazer, foi esse o caso do São Paulo, um time sem criatividade totalmente preso a um esquema ja manjado por todos. Abraço.

  • Marco Borges diz: 20 de junho de 2009

    é o fim do 3-5-2

  • Marco Borges diz: 20 de junho de 2009

    o 3-5-2 do mengão se vai logo logo

  • Daniel Machado diz: 20 de junho de 2009

    Eduardo,

    Sei que o sistema de jogo (não o esquema) não é o mais vistoso, não é bonito e lembra muito os times da Seleção da Alemanha mais antigos, como o de 90.

    Porém, é inegável dizer que ele deu certo. Ele foi perfeito em muitos momentos. O técnico também tem mérito nisso, pois não pode ser só a sorte o fator decisivo para tantas conquistas. Essas faltas laterais e escanteios são sucessivamente bem treinadas.

    Um abraço, prabéns pela avaliação.

  • Beto diz: 20 de junho de 2009

    Embora concorde que o 352 seja ultrapassado, discordo das razoes. O 352 do Gremio era sim na verdade um 532 pois laterais (ofensivos ou nao) eram utilizados nos lados. Ja o Sao Paulo, usava Jorge Wagner na esquerda que eh um meio campista. A Razao que o 352 eh ultrapassado porque eh presa facil a times que jogam com homes abertos (442 ingles ou 433) que jogam nas costas dos laterais/alas. Eles ou empurram os alas pra tras ou puxam cobertura de outros lugares inclusive meio.

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